“Don’t think about making art, just get it done. Let everyone else decide if it’s good or bad, whether they love it or hate it. While they are deciding, make even more art.” Andy Warhol
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
“O Rei Pálido”
de David Foster Wallace
David Foster Wallace foi um escritor diferente, um acutilante pensador que extrapolava fronteiras morais e filosóficas com um encanto próprio e uma extrema capacidade de encontrar sentido (ou sentidos) onde, por vezes, a emoção ou a lógica se revelava ausente – ou tomada pelo poderoso fantasma do aborrecimento.
Estudante de Filosofia e Inglês, Foster Wallace – paralelamente a toda a sua vida – nunca escondeu a sua paixão pelo ténis, modalidade que lhe conferia uma espécie de equilíbrio para a existência, bem como para a sua expressividade literária.
Não sendo um escritor muito prolífero, deixou para a posteridade algumas das mais pertinentes obras que o último século teve a oportunidade de ler, entre elas o delirante, inovador e colossal exercício “narrativo” apelidado de “A Piada Infinita”. A par disso, ousou pensar a própria sociedade através de artigos jornalísticos, pensamentos e ensaios como “E Unibus Pluram: a Televisão e a Ficção Americana”, “Uma Coisa supostamente Divertida Que nunca mais Vou Fazer” e “Pensem na Lagosta”.
Apesar de um assinalável reconhecimento de público e crítica, David Foster Wallace nunca conseguiu ultrapassar o eterno estado depressivo que o assolava e desistiu da vida aos 46 anos.
Ciente que a genialidade de Foster Wallace não terminou com o último suspiro do autor e pensador, o seu editor norte-americano decidiu publicar o puzzle reflexivo deixado pelo homem natural de Ithaca, Nova Iorque, nascendo assim o projeto póstumo apelidado de “O Rei Pálido” (Quetzal, 2014), um romance que resulta de uma teimosa certeza de que algumas vozes não devem ser esquecidas. Este livro prova que é impossível separar a obra do seu autor e, no fundo, objectos literários assim não precisam de votos de simpatia, pois os seus méritos inatos são uma indiscutível mais-valia.
Mais do que o conceito de “obra-prima”, “O Rei Pálido” assume-se como uma espécie de reflexão interior que encontra eco em alguns manuscritos incompletos de Foster Wallace, ou em capítulos avulso de uma sentida noção de complementaridade patrocinada por uma lógica interna que cimenta a conectividade entre letras, palavras, frases e ideias.
A linguagem de David Foster Wallace em “O Rei Pálido” é metafísica. Definições de felicidade, conformidade e gratidão são facilmente confundidas (ainda que não gratuitamente) com a máquina aniquiladora do aborrecimento e dos seus efeitos sobre a alma.
As páginas fluem de forma sublime onde uma análise abstrata captura a atenção do leitor, qual hipnose. Alguns “personagens” crescem sob uma onda de pânico cujo diálogo interior ganha contornos alucinatórios enquanto tentam, desesperadamente, acelerar a velocidade dos minutos. Em outros momentos, simples paragens no intenso tráfego podem ser sinónimo de monólogos que refletem a pertinência do sistema de impostos ou a filosofia de vida norte-americana, que parece fruto de um megalómano jogo de sociedade onde a ansiedade extrema é um “prémio” mais que garantido.
Com uma magistral e moderna arte de escrever, Foster Wallace alia sentimentos como o tédio, a esperança e o desespero em um todo paradoxal e poderoso que encontra paralelismo numa realidade desconfortável mas mágica pois, a medo, o autor de “A Piada Infinita” parece confessar ter descoberto – ou andar lá muito perto – uma alegria frenética, embora desgastante, face à observação (claustrofóbica e) rigorosa da vida.
Depois de ler algo como “O Rei Pálido” é aconselhável ao leitor um período sabático, um hiato que vai permitir um saudável regresso à leitura de romances normais, com enredos e personagens principais reconhecíveis. Este livro de Foster Wallace é tão fascinante e único que está para além da noção de comparável, pois habita na sua própria estratosfera e é, sem dúvida, uma excelente forma de match point literário.
In deusmelivro
Little Big Planet 3 - PS4
Um mais três igual a (PS)4
Cinco anos depois dos profissionais da Media Molecule fazerem nascer a saga Little Big Planet (LBP), eis que as aventuras de Sackboy chegam à PlayStation 4 pela mão dos estúdios Sumo Digital. Esta mudança criativa deu origem ao episódio mais ambicioso da série em vez de uma atitude (talvez esperada por muitos) mais conservadora, e hoje LBP3 revela não uma, nem duas, mas mais três razões (e meia) para se tornar em uma referência no mundo das consolas.
Isto porque, LTB tem novos personagens pois Sackboy tem novos amigos. Se Oddsock é um rápido canino capaz de escalar paredes, Swoop é uma ave especial que voa livremente pelo gameplay e consegue apanhar pequenos objetos assim como resgatar os seus companheiros de aventura quando estes se encontram em apuros. Já Toggle, é um amigo de peso que utiliza o seu robusto perfil para derrubar obstáculos ou plataformas. Para além disso, Toggle também pode reduzir o seu porte e transformar-se em um pequeno e rápido personagem que consegue passar pelo buraco da agulha ou caminhar à superfície da água. No seu todo, estas surpresas, a par de uma inovadora noção de profundidade graças ao novo motor gráfico, são sinónimo de uma miríade de interessantes atrativos para o onírico mundo de Sackboy…e companhia.
A revitalização de LTB também encontra eco nos novos atributos do personagem principal. Os técnicos da Sumo Digital optaram por dotar Sackboy com uma série de power-ups e habilidades. Para além de um assinalável e novo poder de escalada, Sackboy é dono de um “bolso” especial – à imagem da mochila do saudoso Sport Billy – onde estão ferramentas como o Pumpinator (que permite explodir partes do cenário) ou um chapéu-gancho que ultrapassa com distinção obstáculos complicados.
Para albergar todas estas novidades e fazer fluir a narrativa, o cenário de LBP mudou consideravelmente. Mais do que uma aventura linear repleta de obstáculos, a nova demanda de Sackboy tem por fim a salvação do planeta Bunkum e apresenta-se sob uma perspetiva pluridimensional que permite uma fluída interação entre desafios.
Cada um desses “mundos” vai permitir também a Oddsock, Toggle e Swoop completarem o puzzle que LTB3 se assume desde a primeira hora. Mais do que nunca, é necessário seguir as premissas: jogar, criar, partilhar e cooperar, e à medida que são desbloqueados novos poderes e capacidades a jogabilidade ganha novos rumos.
Mas nem tudo são “rosas”. Depois de ultrapassar os primeiros “níveis” da história, a narrativa parece perder gás e as ramificações laterais do fio condutor perdem-se na forma. Uma das questões mais desmotivantes de LBP3 acontece depois de se conseguir desbloquear uma qualquer habilidade de determinado personagem, pois quando pensamos que vamos dar continuidade a tal conquista eis que voltamos a assumir o controlo de Sackboy. No modo single player tal é ainda mais notório pois é muito difícil conseguir conciliar as potencialidades de todos os personagens ainda que optemos por uma filosofia cooperante.
Esse espírito distorce um pouco da filosofia inicial do jogo, para mais quando toda a ajuda é necessária no planeta Bunkum depois de uma tripla de malvados Titãs serem libertados e com a ajuda do cáustico Newton terem como fim destruir o paraíso criativo deste pequeno grande planeta.
Mas, acima de tudo, a narrativa de LBP3 é assumidamente mais do que uma banal súmula de tarefas e novos (e excitantes) recursos whizz-bang. Para além dos novos personagens e gadgets a eles associados, os criadores da Sumo Digital deram à luz um universo que se multiplica em 16 camadas de pura ação e deleite gráfico que confere uma nova geometria ao jogo e permite jogar níveis (assim como utilizar roupas e objetos conquistados) de episódios anteriores. Outra curiosidade: na versão PS4, as texturas exibem uma resolução 1080p (na versão PS3, a resolução fica-se pelos 720p…), graças ao novo motor gráfico da mais recente consola da Sony.
Em LBP3, existem também ferramentas que permitem criar mundos paralelos e novas e estimulantes aventuras com o auxílio dos sistemas Broadcast Microchip e Blaster Handle. Conscientes de tanta novidade, e que tal possa complicar a vida dos novos jogadores da saga de Sackboy, os senhores da Sumo Digital adicionaram mais de uma dezena de níveis dos chamados Popit Puzzles para ambientar os recém-chegados.
A juntar a tal existe um tutorial em versão streaming com vídeos que ensinam a utilização de cada ferramenta (este sistema também pode ser utilizado no universo Vita, no tablet ou telefone). Por defeito, o jogador está “limitado” a um conjunto de instrumentos que permitem a elaboração de níveis muito atrativos que podem posteriormente ser partilhados. Graças à compatibilidade e interatividade do universo LBP, essa partilha vai dar acesso a milhões de outros níveis que vai dar outra vida a Sackboy e ao seu DualShock 4.
Apesar de uma ou outra questão pontual, LBP3 é um jogo muito interessante e revela-se como uma aposta ganha da Sumo Digital. No entanto, fica um sabor agridoce ao manipular Sackboy e nova pandilha, pois dá a sensação que nem todas as potencialidades do jogo foram exploradas devidamente, nomeadamente na criação de níveis. Mas, e como o sonho comanda a vida, o novo arsenal de ferramentas assim como a narrativa mais dinâmica possibilita um futuro risonho a todos os que adoram este planeta em forma de puzzle.
In Rua de Baixo
Cinco anos depois dos profissionais da Media Molecule fazerem nascer a saga Little Big Planet (LBP), eis que as aventuras de Sackboy chegam à PlayStation 4 pela mão dos estúdios Sumo Digital. Esta mudança criativa deu origem ao episódio mais ambicioso da série em vez de uma atitude (talvez esperada por muitos) mais conservadora, e hoje LBP3 revela não uma, nem duas, mas mais três razões (e meia) para se tornar em uma referência no mundo das consolas.
Isto porque, LTB tem novos personagens pois Sackboy tem novos amigos. Se Oddsock é um rápido canino capaz de escalar paredes, Swoop é uma ave especial que voa livremente pelo gameplay e consegue apanhar pequenos objetos assim como resgatar os seus companheiros de aventura quando estes se encontram em apuros. Já Toggle, é um amigo de peso que utiliza o seu robusto perfil para derrubar obstáculos ou plataformas. Para além disso, Toggle também pode reduzir o seu porte e transformar-se em um pequeno e rápido personagem que consegue passar pelo buraco da agulha ou caminhar à superfície da água. No seu todo, estas surpresas, a par de uma inovadora noção de profundidade graças ao novo motor gráfico, são sinónimo de uma miríade de interessantes atrativos para o onírico mundo de Sackboy…e companhia.
A revitalização de LTB também encontra eco nos novos atributos do personagem principal. Os técnicos da Sumo Digital optaram por dotar Sackboy com uma série de power-ups e habilidades. Para além de um assinalável e novo poder de escalada, Sackboy é dono de um “bolso” especial – à imagem da mochila do saudoso Sport Billy – onde estão ferramentas como o Pumpinator (que permite explodir partes do cenário) ou um chapéu-gancho que ultrapassa com distinção obstáculos complicados.
Para albergar todas estas novidades e fazer fluir a narrativa, o cenário de LBP mudou consideravelmente. Mais do que uma aventura linear repleta de obstáculos, a nova demanda de Sackboy tem por fim a salvação do planeta Bunkum e apresenta-se sob uma perspetiva pluridimensional que permite uma fluída interação entre desafios.
Cada um desses “mundos” vai permitir também a Oddsock, Toggle e Swoop completarem o puzzle que LTB3 se assume desde a primeira hora. Mais do que nunca, é necessário seguir as premissas: jogar, criar, partilhar e cooperar, e à medida que são desbloqueados novos poderes e capacidades a jogabilidade ganha novos rumos.
Mas nem tudo são “rosas”. Depois de ultrapassar os primeiros “níveis” da história, a narrativa parece perder gás e as ramificações laterais do fio condutor perdem-se na forma. Uma das questões mais desmotivantes de LBP3 acontece depois de se conseguir desbloquear uma qualquer habilidade de determinado personagem, pois quando pensamos que vamos dar continuidade a tal conquista eis que voltamos a assumir o controlo de Sackboy. No modo single player tal é ainda mais notório pois é muito difícil conseguir conciliar as potencialidades de todos os personagens ainda que optemos por uma filosofia cooperante.
Esse espírito distorce um pouco da filosofia inicial do jogo, para mais quando toda a ajuda é necessária no planeta Bunkum depois de uma tripla de malvados Titãs serem libertados e com a ajuda do cáustico Newton terem como fim destruir o paraíso criativo deste pequeno grande planeta.
Mas, acima de tudo, a narrativa de LBP3 é assumidamente mais do que uma banal súmula de tarefas e novos (e excitantes) recursos whizz-bang. Para além dos novos personagens e gadgets a eles associados, os criadores da Sumo Digital deram à luz um universo que se multiplica em 16 camadas de pura ação e deleite gráfico que confere uma nova geometria ao jogo e permite jogar níveis (assim como utilizar roupas e objetos conquistados) de episódios anteriores. Outra curiosidade: na versão PS4, as texturas exibem uma resolução 1080p (na versão PS3, a resolução fica-se pelos 720p…), graças ao novo motor gráfico da mais recente consola da Sony.
Em LBP3, existem também ferramentas que permitem criar mundos paralelos e novas e estimulantes aventuras com o auxílio dos sistemas Broadcast Microchip e Blaster Handle. Conscientes de tanta novidade, e que tal possa complicar a vida dos novos jogadores da saga de Sackboy, os senhores da Sumo Digital adicionaram mais de uma dezena de níveis dos chamados Popit Puzzles para ambientar os recém-chegados.
A juntar a tal existe um tutorial em versão streaming com vídeos que ensinam a utilização de cada ferramenta (este sistema também pode ser utilizado no universo Vita, no tablet ou telefone). Por defeito, o jogador está “limitado” a um conjunto de instrumentos que permitem a elaboração de níveis muito atrativos que podem posteriormente ser partilhados. Graças à compatibilidade e interatividade do universo LBP, essa partilha vai dar acesso a milhões de outros níveis que vai dar outra vida a Sackboy e ao seu DualShock 4.
Apesar de uma ou outra questão pontual, LBP3 é um jogo muito interessante e revela-se como uma aposta ganha da Sumo Digital. No entanto, fica um sabor agridoce ao manipular Sackboy e nova pandilha, pois dá a sensação que nem todas as potencialidades do jogo foram exploradas devidamente, nomeadamente na criação de níveis. Mas, e como o sonho comanda a vida, o novo arsenal de ferramentas assim como a narrativa mais dinâmica possibilita um futuro risonho a todos os que adoram este planeta em forma de puzzle.
In Rua de Baixo
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Coldplay – “Ghost Stories Live 2014 (CD+DVD)”
Anjos caídos de paraquedas
Os britânicos Coldplay são uma das maiores bandas da atualidade. Este título pode parecer estranho para quem se lembra de ver Chris Martin e companhia na edição 2000 do festival Paredes de Coura, a distribuir panfletos sobre a própria banda, mas é a mais pura das verdades.
Muito poucos seriam os que acreditavam que o quarteto londrino - que em tempos foi “apenas” conhecido com o grupo de “Yellow” - viesse a escalar tão vertiginosamente a crispada montanha do pop/rock mundial, mas o certo é que, em 2015, a coroa que em tempos foi pertença dos U2 hoje assenta que nem uma luva a estes quatro rapazes que em 1996, nos tempos da universidade, decidiram formar uma banda.
Quase duas décadas, seis discos de originais, milhões de vendas e centenas de concertos depois, os Coldplay habituaram os seus fãs a momentos que misturam alguma simplicidade musical com uma elaborada performance, e tais predicados estão bem patentes em “Ghost Stories Live 2014”, uma experiência que tem como base “Ghost Stories”, editado em maio do ano passado, e que é uma passagem do alinhamento áudio para uma perspetiva ao vivo e sofisticadamente… “simples”.
Contrariando um lado mais empolado de discos anteriores, “Ghost Stories” (versões estúdio ou ao vivo) aponta baterias a “Parachutes”, o disco de estreia da banda idealizado sob uma filosofia (maravilhosamente) simplista, e revela um perfil repleto de composições que remetem para sentimentos como a perda, a esperança e o amor - no fundo, ingredientes principais para aquilo que se ousa chamar de existência.
No seu todo, “Ghost Stories Live 2014”, enquanto ideia e produto, assume-se como um lembrete para os predicados mais crus e “à pele” da banda londrina, estando o corpo principal deste trabalho ancorado nas oito canções originais do álbum homónimo, ainda que apresentadas sob diferentes ângulos e espetáculos, com destaque para as performances realizadas em salas como o Royal Albert Hall ou o Beacon Theater.
Para fugir ao epiteto de “mais do mesmo”, os Coldplay apresentam um alinhamento ao vivo sem qualquer recurso a sucessos passados, em que o propósito é mostrar, delicadamente, aquilo que é o seu presente musical.
Na versão DVD, a maioria das canções, com particular ênfase para os singles “Magic” e “A Sky Full of Stars”, são notoriamente bem recebidas por uma assistência que teve o privilégio de assistir pela primeira vez à apresentação ao vivo das composições de “Ghost Stories” por via de um espetáculo preparado nos estúdios Sony, em Los Angeles, cuja (fantástica) realização foi responsabilidade de Paul Dugdale.
No seu todo, esta edição contém, para além do DVD com o referido concerto e oito vídeos inatos à fase “Ghost Stories”, assim como duas peças inéditas com os lados B “All Your Friends” e “Ghost Story” e uma versão Extended Director’s Cut do vídeo “Magic” (com a especial colaboração de Peter Fonda), um CD gravado ao vivo que reúne músicas gravadas em concertos que a banda deu em Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos da América, entre abril e julho de 2014.
Classificação do Palco: 7/10
In Palco Principal
Os britânicos Coldplay são uma das maiores bandas da atualidade. Este título pode parecer estranho para quem se lembra de ver Chris Martin e companhia na edição 2000 do festival Paredes de Coura, a distribuir panfletos sobre a própria banda, mas é a mais pura das verdades.
Muito poucos seriam os que acreditavam que o quarteto londrino - que em tempos foi “apenas” conhecido com o grupo de “Yellow” - viesse a escalar tão vertiginosamente a crispada montanha do pop/rock mundial, mas o certo é que, em 2015, a coroa que em tempos foi pertença dos U2 hoje assenta que nem uma luva a estes quatro rapazes que em 1996, nos tempos da universidade, decidiram formar uma banda.
Quase duas décadas, seis discos de originais, milhões de vendas e centenas de concertos depois, os Coldplay habituaram os seus fãs a momentos que misturam alguma simplicidade musical com uma elaborada performance, e tais predicados estão bem patentes em “Ghost Stories Live 2014”, uma experiência que tem como base “Ghost Stories”, editado em maio do ano passado, e que é uma passagem do alinhamento áudio para uma perspetiva ao vivo e sofisticadamente… “simples”.
Contrariando um lado mais empolado de discos anteriores, “Ghost Stories” (versões estúdio ou ao vivo) aponta baterias a “Parachutes”, o disco de estreia da banda idealizado sob uma filosofia (maravilhosamente) simplista, e revela um perfil repleto de composições que remetem para sentimentos como a perda, a esperança e o amor - no fundo, ingredientes principais para aquilo que se ousa chamar de existência.
No seu todo, “Ghost Stories Live 2014”, enquanto ideia e produto, assume-se como um lembrete para os predicados mais crus e “à pele” da banda londrina, estando o corpo principal deste trabalho ancorado nas oito canções originais do álbum homónimo, ainda que apresentadas sob diferentes ângulos e espetáculos, com destaque para as performances realizadas em salas como o Royal Albert Hall ou o Beacon Theater.
Para fugir ao epiteto de “mais do mesmo”, os Coldplay apresentam um alinhamento ao vivo sem qualquer recurso a sucessos passados, em que o propósito é mostrar, delicadamente, aquilo que é o seu presente musical.
Na versão DVD, a maioria das canções, com particular ênfase para os singles “Magic” e “A Sky Full of Stars”, são notoriamente bem recebidas por uma assistência que teve o privilégio de assistir pela primeira vez à apresentação ao vivo das composições de “Ghost Stories” por via de um espetáculo preparado nos estúdios Sony, em Los Angeles, cuja (fantástica) realização foi responsabilidade de Paul Dugdale.
No seu todo, esta edição contém, para além do DVD com o referido concerto e oito vídeos inatos à fase “Ghost Stories”, assim como duas peças inéditas com os lados B “All Your Friends” e “Ghost Story” e uma versão Extended Director’s Cut do vídeo “Magic” (com a especial colaboração de Peter Fonda), um CD gravado ao vivo que reúne músicas gravadas em concertos que a banda deu em Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos da América, entre abril e julho de 2014.
Classificação do Palco: 7/10
In Palco Principal
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Silence 4
“SongBook Live 2014 (CD + DVD)”
A música é uma causa nobre
O panorama musical português viveu, a partir dos anos 1980, um considerável boom. As novidades chegavam de todos os quadrantes e universos rítmicos. Gradualmente, passou a falar-se do “rock e pop português”, conceitos extremamente abrangentes que reuniam em si, numa primeira vaga, nomes como Rui Veloso, Xutos & Pontapés, GNR, UHF, Táxi, Heróis do Mar, Mler If Dada, Ban, Rádio Macau, Mão Morta e outros. Estavam assim criadas as bases para o crescimento de um movimento musical português sustentado e sustentável, que viria a dar inúmeros frutos nas décadas seguintes, que viram nascer nomes como os Ornato Violeta, The Gift, Clã e Silence 4.
E é da génese do quarteto de Leiria que brotaram algumas das mais excitantes composições pop das últimas décadas. Composto por David Fonseca, Sofia Lisboa, Rui Costa e Tozé Pedrosa, os Silence 4 ganharam algum eco depois de enviarem uma maquete ao jornal "Blitz", atenção essa redobrada depois de vencerem o Festival Termómetro Unplugged. Ainda que as editoras recusassem, por sistema, as gravações do quarteto – muito por culpa da teimosia em cantar em inglês –, a versão de “A Little Respect”, dos Erasure, a propósito da participação na compilação “Sons de Todas as Cores", em 1998, ganharia um considerável airplay em algumas das estações de rádio mais importantes do país.
A partir daí foram criadas, a ferros, condições para a edição de um disco de originais e “Silence Becames It” dizimou as tabelas de vendas em Portugal, conseguindo a incrível proeza de atingir a marca da quíntupla platina. A digressão do disco levou a banda a fazer quase uma centena de concertos em apenas seis meses. O sucesso prolongou-se com “Only Pain is Real”, segundo álbum de originais, editado em 2000, e a crescente popularidade de David Fonseca e seus pares levou-os a esgotar o Coliseu de Lisboa duas noites consecutivas.
Depois disso, o silêncio, efetivamente, apossou-se da banda, que só daria notícias em 2004, aquando da edição de um duplo CD e DVD, que registavam as já referidas noites passadas no espaço sito na Rua das Portas de Santo Antão. Estranhamente, ou não, no pico da euforia que os rodeava, os Silence 4 resolveram interromper a atividade. Paralelamente, David Fonseca crescia a solo...
Mas esse hiato foi recentemente quebrado com a edição de “SongBook Live 2014”, uma edição CD e DVD que regista passagem do quarteto pela Meo Arena e que é sinónimo de mais de duas horas de um concerto que reuniu todos os êxitos da banda e contou com a participação especial de Sérgio Godinho, assim como de Paulo Pereira, como uma espécie de quinto elemento do grupo.
O concerto abre com a versão seminal de “A Little Respect” e, por entre aplausos, silêncios, fortes linhas de baixo e bateria, e muita, muita emoção, perfilam temas como “Old Letters”, “Borrow”, “Sexto Sentido”, “My Friends”, versão megafone, “Only Pain is Real”, “Breeders”, “To Give” ou “Eu Não Sei dizer”. “Angel Song”, uma das mais brilhantes canções escritas em Portugal, em dose dupla, regista um dos momentos mais emotivos da noite e simboliza a força de alguém que sempre acreditou na vida, tal como a versão intimista de “Invincible”, um original dos Muse, interpretado num palco colocado bem no meio da assistência - pois o momento era de partilha.
E foi graças a essa força, à vontade de Sofia Lisboa, que venceu com distinção a luta contra a leucemia, que esta reunião nasceu, sendo que as receitas angariadas nos concertos deste regresso foram diretas para os “cofres” da Liga Portuguesa Contra o Cancro.
Classificação do Palco: 8/10
In Palco Principal
O panorama musical português viveu, a partir dos anos 1980, um considerável boom. As novidades chegavam de todos os quadrantes e universos rítmicos. Gradualmente, passou a falar-se do “rock e pop português”, conceitos extremamente abrangentes que reuniam em si, numa primeira vaga, nomes como Rui Veloso, Xutos & Pontapés, GNR, UHF, Táxi, Heróis do Mar, Mler If Dada, Ban, Rádio Macau, Mão Morta e outros. Estavam assim criadas as bases para o crescimento de um movimento musical português sustentado e sustentável, que viria a dar inúmeros frutos nas décadas seguintes, que viram nascer nomes como os Ornato Violeta, The Gift, Clã e Silence 4.
E é da génese do quarteto de Leiria que brotaram algumas das mais excitantes composições pop das últimas décadas. Composto por David Fonseca, Sofia Lisboa, Rui Costa e Tozé Pedrosa, os Silence 4 ganharam algum eco depois de enviarem uma maquete ao jornal "Blitz", atenção essa redobrada depois de vencerem o Festival Termómetro Unplugged. Ainda que as editoras recusassem, por sistema, as gravações do quarteto – muito por culpa da teimosia em cantar em inglês –, a versão de “A Little Respect”, dos Erasure, a propósito da participação na compilação “Sons de Todas as Cores", em 1998, ganharia um considerável airplay em algumas das estações de rádio mais importantes do país.
A partir daí foram criadas, a ferros, condições para a edição de um disco de originais e “Silence Becames It” dizimou as tabelas de vendas em Portugal, conseguindo a incrível proeza de atingir a marca da quíntupla platina. A digressão do disco levou a banda a fazer quase uma centena de concertos em apenas seis meses. O sucesso prolongou-se com “Only Pain is Real”, segundo álbum de originais, editado em 2000, e a crescente popularidade de David Fonseca e seus pares levou-os a esgotar o Coliseu de Lisboa duas noites consecutivas.
Depois disso, o silêncio, efetivamente, apossou-se da banda, que só daria notícias em 2004, aquando da edição de um duplo CD e DVD, que registavam as já referidas noites passadas no espaço sito na Rua das Portas de Santo Antão. Estranhamente, ou não, no pico da euforia que os rodeava, os Silence 4 resolveram interromper a atividade. Paralelamente, David Fonseca crescia a solo...
Mas esse hiato foi recentemente quebrado com a edição de “SongBook Live 2014”, uma edição CD e DVD que regista passagem do quarteto pela Meo Arena e que é sinónimo de mais de duas horas de um concerto que reuniu todos os êxitos da banda e contou com a participação especial de Sérgio Godinho, assim como de Paulo Pereira, como uma espécie de quinto elemento do grupo.
O concerto abre com a versão seminal de “A Little Respect” e, por entre aplausos, silêncios, fortes linhas de baixo e bateria, e muita, muita emoção, perfilam temas como “Old Letters”, “Borrow”, “Sexto Sentido”, “My Friends”, versão megafone, “Only Pain is Real”, “Breeders”, “To Give” ou “Eu Não Sei dizer”. “Angel Song”, uma das mais brilhantes canções escritas em Portugal, em dose dupla, regista um dos momentos mais emotivos da noite e simboliza a força de alguém que sempre acreditou na vida, tal como a versão intimista de “Invincible”, um original dos Muse, interpretado num palco colocado bem no meio da assistência - pois o momento era de partilha.
E foi graças a essa força, à vontade de Sofia Lisboa, que venceu com distinção a luta contra a leucemia, que esta reunião nasceu, sendo que as receitas angariadas nos concertos deste regresso foram diretas para os “cofres” da Liga Portuguesa Contra o Cancro.
Classificação do Palco: 8/10
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
“Enciclopédia da Estória Universal
de Mar” de Afonso Cruz
A sabedoria é um peixe que cresce na alma
Escrever um livro é uma ação que nos últimos tempos traz inerente uma quase sensação “banal”. Quase todos os dias chegam às livrarias – físicas ou virtuais – novos autores ou editoras. Ainda que Portugal seja um país dado a mestres das escritas, a crescente oferta complicou – no bom sentido, esperemos – a triagem das obras. Romance, ensaio, poesia, ficção, testemunho, divulgação. As abordagens/temáticas sucedem-se. Resta ao leitor fazer a sua (difícil) escolha.
Mas, no seio de efervescente mercado editorial, há nomes e obras consensuais, transversais. Afonso Cruz é um deles. Mescla de escritor, poeta, ilustrador, cineasta, músico, produtor de cerveja e sonhador, o autor de livros como “A Boneca de Kokoschka”, “Jesus Cristo Bebia Cerveja” ou “Para Onde vão os Guarda-chuvas”, Cruz é uma das mais criativas vozes da literatura nacional.
Fazendo como poucos a ponte entre a realidade e o onírico, Afonso Cruz tem construído um universo literário único cuja transversalidade atinge o seu auge na excelente coleção “Enciclopédia da Estória Universal”, um conjunto de obras que (des)constroem a linguagem da simples forma de relatar um acontecimento, de fixar um pensamento, uma parábola, um conto, um aforismo, um sentimento.
E são mesmo sentimentos exacerbados que marcam a densidade criativa sublinhada nas páginas de “Enciclopédia da Estória Universal – Mar” (Alfaguara, 2014), o primeiro tomo da coleção dedicado a uma temática específica e que mantém a magia dos anteriores volumes.
Sempre com o mar no horizonte, Afonso Cruz fala-nos de Hemingway e Mody Dick, palavras que se transformam e transmutam, mães que diminuem, viagens sonhadoras patrocinadas por ingressos vindos de terras distantes que são escondidos em travesseiros, um pescador de bacalhau albino com constelações tatuadas nas costas, alguém que reclama “ser” o primeiro a chegar ao Evereste, naufrágios e náufragos, ilhas desertas, visões bipolares do céu e inferno, diálogos entre reis e mouros que falam da personificação de deus no pão, melodias cruzadas, entre muitas, muitas estórias.
Como notas de alguma diferenciação face aos outros livros desta coleção organizado por Téophile Morel, “Enciclopédia da Estória Universal – Mar” traz-nos três narrativas diferentes cuja amplitude ressalta e sua interligação as tornam em uma espécie de conto sobrenatural feito de coincidências ou acasos do destino.
No seu todo, esta obra, livre de espartilhos ou rótulos literários, faz sentir a maresia em cada página. Afonso Cruz confirma que «a proximidade do mar provoca profundas alterações na alma», ainda que o mesmo possa assumir-se como «um irracional ato divino».
In Rua de Baixo
Escrever um livro é uma ação que nos últimos tempos traz inerente uma quase sensação “banal”. Quase todos os dias chegam às livrarias – físicas ou virtuais – novos autores ou editoras. Ainda que Portugal seja um país dado a mestres das escritas, a crescente oferta complicou – no bom sentido, esperemos – a triagem das obras. Romance, ensaio, poesia, ficção, testemunho, divulgação. As abordagens/temáticas sucedem-se. Resta ao leitor fazer a sua (difícil) escolha.
Mas, no seio de efervescente mercado editorial, há nomes e obras consensuais, transversais. Afonso Cruz é um deles. Mescla de escritor, poeta, ilustrador, cineasta, músico, produtor de cerveja e sonhador, o autor de livros como “A Boneca de Kokoschka”, “Jesus Cristo Bebia Cerveja” ou “Para Onde vão os Guarda-chuvas”, Cruz é uma das mais criativas vozes da literatura nacional.
Fazendo como poucos a ponte entre a realidade e o onírico, Afonso Cruz tem construído um universo literário único cuja transversalidade atinge o seu auge na excelente coleção “Enciclopédia da Estória Universal”, um conjunto de obras que (des)constroem a linguagem da simples forma de relatar um acontecimento, de fixar um pensamento, uma parábola, um conto, um aforismo, um sentimento.
E são mesmo sentimentos exacerbados que marcam a densidade criativa sublinhada nas páginas de “Enciclopédia da Estória Universal – Mar” (Alfaguara, 2014), o primeiro tomo da coleção dedicado a uma temática específica e que mantém a magia dos anteriores volumes.
Sempre com o mar no horizonte, Afonso Cruz fala-nos de Hemingway e Mody Dick, palavras que se transformam e transmutam, mães que diminuem, viagens sonhadoras patrocinadas por ingressos vindos de terras distantes que são escondidos em travesseiros, um pescador de bacalhau albino com constelações tatuadas nas costas, alguém que reclama “ser” o primeiro a chegar ao Evereste, naufrágios e náufragos, ilhas desertas, visões bipolares do céu e inferno, diálogos entre reis e mouros que falam da personificação de deus no pão, melodias cruzadas, entre muitas, muitas estórias.
Como notas de alguma diferenciação face aos outros livros desta coleção organizado por Téophile Morel, “Enciclopédia da Estória Universal – Mar” traz-nos três narrativas diferentes cuja amplitude ressalta e sua interligação as tornam em uma espécie de conto sobrenatural feito de coincidências ou acasos do destino.
No seu todo, esta obra, livre de espartilhos ou rótulos literários, faz sentir a maresia em cada página. Afonso Cruz confirma que «a proximidade do mar provoca profundas alterações na alma», ainda que o mesmo possa assumir-se como «um irracional ato divino».
In Rua de Baixo
“A face oculta de Fidel Castro”
de Juan Reinaldo Sánchez (e Axel Glyden)
A incongruência de El Comandante
Quando a revista norte-americana “Forbes” inclui Fidel Castro na lista dos dez mais ricos reis, rainhas e ditadores em 2006, o, à época, líder maior de Cuba, reagiu intempestivamente declarando que auferia de um salário mensal a rondar os 900 pesos cubanos, isto é, pouco mais de trinta euros. Para além disso, gritou aos quatro ventos que vivia na mais humilde frugalidade, à imagem dos seus compatriotas e camaradas de luta.
Cerca de uma década depois, Juan Reinaldo Sánchez, antigo membro da guarda pretoriana de Castro, tarefa que desempenhou ao longo de 17 anos, veio desmentir o líder comunista e ao longo das mais de 240 páginas de “A face oculta de Fidel Castro” (Planeta, 2014) revela os segredos e a intimidade de um homem obcecado pelo luxo e despotismo.
Como guarda-costas de Fidel, Reinaldo Sánchez teve o privilégio de conhecer como poucos o Líder Máximo de um país que ao longo da sua existência se vê amarrado a uma filosofia comunista que impede o seu desenvolvimento social, económico e político.
Contrariando o espírito cubano, imposto pelo próprio Fidel, El Comandante viu a sua fortuna pessoal crescer – muito graças ao erário público -, e ao longo da vida mostrou vincada faceta autocrática e paranoica, revelando-se espião de vastos recursos, um difuso diplomata e cúmplice de traficantes.
Mas Sánchez vai mais longe e não tem medo de esmiuçar a vida capitalista de Fidel, o qual apelida de “senhor feudal” que governava a sua – sem aspas – ilha como se de um feudo se tratasse. Castro reuniu um espólio de duas dezenas de habitações de luxo, vários iates de luxo, entre um sem número de posses que a maioria dos cubanos nem sonhava que existissem. Para além disso, Fildel Castro controlava várias contas bancárias além-fronteiras e empresas associadas assim como uma ilha privada (Cayo Piedra, a sul da Baía dos Porco, que chegou a ser visitada por gente ilustre como o escritor Gabriel Garcia Marques, Ted Turner, o proprietário da CNN ou Barbara Walters, conhecida reportes do canal norte-americano ABC) que conta com um restaurante flutuante e um aquário de golfinhos, propriedade apenas disponível para a família e amigos mais próximos.
Com o precioso auxílio do jornalista francês Axel Glyden, Sánchez, delineou um dos mais pertinentes livros sobre o peculiar mundo associado a Cuba e “A vida oculta de Fidel Castro” foca-se essencialmente no combate à desmistificação da vida “austera” do seu omnipotente e omnipresença líder que, antes de ser abalado pela doença, se refugiava na clandestinidade devido às inúmeras tentativas de assassinato que alegava ter sido vítima ao longo da vida.
Através de uma narrativa escorreita e simples, este livro alicerça-se no conhecimento intimido que Sánchez acumulou ao longo da sua atividade enquanto guarda-costas de Castro e que lhe permitiu ter acesso a bizarras informações como o facto de Fidel se fazia acompanhar de pelo menos uma dezena de guarda-costas, dois deles com o mesmo tipo sanguíneo que o líder cubano pois El Comandante não acreditava nas vulgares transfusões de sangue, se tal fosse necessário. A lunática paranoia de Castro obrigava mesmo que todas as encomendas por si recebidas tinham de ser alvo de uma primeira verificação para despistar germes e efeitos radioativos.
Ainda que tal possa parecer fruto de um qualquer filme ficcionado, “A face oculta de Fidel Castro” disseca sobre a dinastia Castro, a face mais guerrilheira do Líder Cubano, a relação entre Havana, Moscovo, Angola e a ex-RDA assim como alguns casos polémicos como o que teve o General Ochoa, antigo herói da Revolução cubana, como principal protagonista.
Desiludido, Sánchez prometeu a si mesmo contar ao mundo a outra face de Fidel Castro depois de, conta o ex-guarda-costas na página 25: «compreender que Fidel utilizava as pessoas enquanto lhe eram úteis e que depois as desprezava sem o menor remorso». Para se afastar de tal tentou antecipar a reforma em dois anos mas como resposta recebeu uma estada numa prisão repleta de baratas durante anos até que, à décima tentativa, conseguiu fugir.
É o resultado dessa luta pela liberdade de vida e consciência que trata “A face oculta de Fidel Castro”, um livro que vem demonstrar que, muitas vezes, os homens escondem-se por trás de opacas cortinas onde a mentira é o pilar principal da sua edificação.
In Rua de Baixo
Quando a revista norte-americana “Forbes” inclui Fidel Castro na lista dos dez mais ricos reis, rainhas e ditadores em 2006, o, à época, líder maior de Cuba, reagiu intempestivamente declarando que auferia de um salário mensal a rondar os 900 pesos cubanos, isto é, pouco mais de trinta euros. Para além disso, gritou aos quatro ventos que vivia na mais humilde frugalidade, à imagem dos seus compatriotas e camaradas de luta.
Cerca de uma década depois, Juan Reinaldo Sánchez, antigo membro da guarda pretoriana de Castro, tarefa que desempenhou ao longo de 17 anos, veio desmentir o líder comunista e ao longo das mais de 240 páginas de “A face oculta de Fidel Castro” (Planeta, 2014) revela os segredos e a intimidade de um homem obcecado pelo luxo e despotismo.
Como guarda-costas de Fidel, Reinaldo Sánchez teve o privilégio de conhecer como poucos o Líder Máximo de um país que ao longo da sua existência se vê amarrado a uma filosofia comunista que impede o seu desenvolvimento social, económico e político.
Contrariando o espírito cubano, imposto pelo próprio Fidel, El Comandante viu a sua fortuna pessoal crescer – muito graças ao erário público -, e ao longo da vida mostrou vincada faceta autocrática e paranoica, revelando-se espião de vastos recursos, um difuso diplomata e cúmplice de traficantes.
Mas Sánchez vai mais longe e não tem medo de esmiuçar a vida capitalista de Fidel, o qual apelida de “senhor feudal” que governava a sua – sem aspas – ilha como se de um feudo se tratasse. Castro reuniu um espólio de duas dezenas de habitações de luxo, vários iates de luxo, entre um sem número de posses que a maioria dos cubanos nem sonhava que existissem. Para além disso, Fildel Castro controlava várias contas bancárias além-fronteiras e empresas associadas assim como uma ilha privada (Cayo Piedra, a sul da Baía dos Porco, que chegou a ser visitada por gente ilustre como o escritor Gabriel Garcia Marques, Ted Turner, o proprietário da CNN ou Barbara Walters, conhecida reportes do canal norte-americano ABC) que conta com um restaurante flutuante e um aquário de golfinhos, propriedade apenas disponível para a família e amigos mais próximos.
Com o precioso auxílio do jornalista francês Axel Glyden, Sánchez, delineou um dos mais pertinentes livros sobre o peculiar mundo associado a Cuba e “A vida oculta de Fidel Castro” foca-se essencialmente no combate à desmistificação da vida “austera” do seu omnipotente e omnipresença líder que, antes de ser abalado pela doença, se refugiava na clandestinidade devido às inúmeras tentativas de assassinato que alegava ter sido vítima ao longo da vida.
Através de uma narrativa escorreita e simples, este livro alicerça-se no conhecimento intimido que Sánchez acumulou ao longo da sua atividade enquanto guarda-costas de Castro e que lhe permitiu ter acesso a bizarras informações como o facto de Fidel se fazia acompanhar de pelo menos uma dezena de guarda-costas, dois deles com o mesmo tipo sanguíneo que o líder cubano pois El Comandante não acreditava nas vulgares transfusões de sangue, se tal fosse necessário. A lunática paranoia de Castro obrigava mesmo que todas as encomendas por si recebidas tinham de ser alvo de uma primeira verificação para despistar germes e efeitos radioativos.
Ainda que tal possa parecer fruto de um qualquer filme ficcionado, “A face oculta de Fidel Castro” disseca sobre a dinastia Castro, a face mais guerrilheira do Líder Cubano, a relação entre Havana, Moscovo, Angola e a ex-RDA assim como alguns casos polémicos como o que teve o General Ochoa, antigo herói da Revolução cubana, como principal protagonista.
Desiludido, Sánchez prometeu a si mesmo contar ao mundo a outra face de Fidel Castro depois de, conta o ex-guarda-costas na página 25: «compreender que Fidel utilizava as pessoas enquanto lhe eram úteis e que depois as desprezava sem o menor remorso». Para se afastar de tal tentou antecipar a reforma em dois anos mas como resposta recebeu uma estada numa prisão repleta de baratas durante anos até que, à décima tentativa, conseguiu fugir.
É o resultado dessa luta pela liberdade de vida e consciência que trata “A face oculta de Fidel Castro”, um livro que vem demonstrar que, muitas vezes, os homens escondem-se por trás de opacas cortinas onde a mentira é o pilar principal da sua edificação.
In Rua de Baixo
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
(Algumas) Escolhas literárias de 2014
“O Guardião das Causas Perdidas” | Jussi Adler-Olsen (Editorial Presença)
Aconselhado a todos os que gostam de um bom romance policial, “O Guardião das Causas Perdidas” vai, de certeza, figurar no mapa das obras favoritas dos fãs da ficção escandinava.
“A Mulher Louca” | Juan José Millás (Planeta Editora)
Sinónimo de um romance inteiro e imperdível, “A Mulher Louca” revela o melhor de Juan José Millás, um escritor que tem o condão de transformar a pura ficção em ficção pura.
“Agatha Christie – Os Crimes do Monograma” | Sophie Hannah (Asa)
“Os Crimes do Monograma”, escrito pela também britânica Sophie Hannah, traz de volta o universo ímpar de Christie e Poirot. Os fãs podem ficar descansados, pois a autora fez um maravilhoso trabalho enquanto herdeira do espólio da Rainha do Crime.
“Montedor” | J. Rentes de Carvalho (Quetzal Editores)
Com uma prosa directa, simples e repleta de uma portugalidade que se vive ainda fora dos grandes meios urbanos, “Montedor” é um livro fabuloso e a sua leitura é obrigatória.
“Como Sentimos” | Giovanni Frazzetto (Bertrand Editora)
Mais do que saber o que a neurociência pode ou não dizer sobre as nossas emoções, este livro faz-nos entender o cérebro como nunca o tínhamos visto e, acima de tudo, demonstra que a ciência é insuficiente para conseguir explicar a pertinência das emoções, pois o meio ambiente e a experiência pessoal são armas poderosas nesta luta entre razão e sentimentos.
“Biografia Involuntária dos Amantes” | João Tordo (Alfaguara)
Nas páginas deste brilhante romance não se procura a culpa, a acusação. O propósito reside na tentativa de compreensão, de encaixar as desconexas peças de um puzzle que teima em transformar os (simples) atos da vida em matéria de poema, pois para uns o amor pode ser a cura, enquanto outros o assumem como uma aguda forma de enfermidade.
“Um, Dó, Li, Tá” | M. J. Arlidge (Topseller)
Com capítulos curtos, dinâmicos e viciantes, “Um, dó, li, tá” leva o leitor a devorar num ápice as páginas deste thriller psicológico cujos contornos mórbidos arrepiam e entusiasmam pela sua brutalidade.
“Mar” | Afonso Cruz (Alfaguara)
No seu todo, esta obra, livre de espartilhos ou rótulos literários, faz sentir a maresia em cada página. Afonso Cruz confirma que «a proximidade do mar provoca profundas alterações na alma», ainda que o mesmo possa assumir-se como «um irracional ato divino».
“Canadá” | Richard Ford (Porto Editora)
Com “Canadá”, Richard Ford faz uma viagem ao abismo do ser humano, na tentativa de uma redenção examinativa de uma vida que foi arruinada pela irresponsabilidade alheia.
In deusmelivro
Aconselhado a todos os que gostam de um bom romance policial, “O Guardião das Causas Perdidas” vai, de certeza, figurar no mapa das obras favoritas dos fãs da ficção escandinava.
“A Mulher Louca” | Juan José Millás (Planeta Editora)
Sinónimo de um romance inteiro e imperdível, “A Mulher Louca” revela o melhor de Juan José Millás, um escritor que tem o condão de transformar a pura ficção em ficção pura.
“Agatha Christie – Os Crimes do Monograma” | Sophie Hannah (Asa)
“Os Crimes do Monograma”, escrito pela também britânica Sophie Hannah, traz de volta o universo ímpar de Christie e Poirot. Os fãs podem ficar descansados, pois a autora fez um maravilhoso trabalho enquanto herdeira do espólio da Rainha do Crime.
“Montedor” | J. Rentes de Carvalho (Quetzal Editores)
Com uma prosa directa, simples e repleta de uma portugalidade que se vive ainda fora dos grandes meios urbanos, “Montedor” é um livro fabuloso e a sua leitura é obrigatória.
“Como Sentimos” | Giovanni Frazzetto (Bertrand Editora)
Mais do que saber o que a neurociência pode ou não dizer sobre as nossas emoções, este livro faz-nos entender o cérebro como nunca o tínhamos visto e, acima de tudo, demonstra que a ciência é insuficiente para conseguir explicar a pertinência das emoções, pois o meio ambiente e a experiência pessoal são armas poderosas nesta luta entre razão e sentimentos.
“Biografia Involuntária dos Amantes” | João Tordo (Alfaguara)
Nas páginas deste brilhante romance não se procura a culpa, a acusação. O propósito reside na tentativa de compreensão, de encaixar as desconexas peças de um puzzle que teima em transformar os (simples) atos da vida em matéria de poema, pois para uns o amor pode ser a cura, enquanto outros o assumem como uma aguda forma de enfermidade.
“Um, Dó, Li, Tá” | M. J. Arlidge (Topseller)
Com capítulos curtos, dinâmicos e viciantes, “Um, dó, li, tá” leva o leitor a devorar num ápice as páginas deste thriller psicológico cujos contornos mórbidos arrepiam e entusiasmam pela sua brutalidade.
“Mar” | Afonso Cruz (Alfaguara)
No seu todo, esta obra, livre de espartilhos ou rótulos literários, faz sentir a maresia em cada página. Afonso Cruz confirma que «a proximidade do mar provoca profundas alterações na alma», ainda que o mesmo possa assumir-se como «um irracional ato divino».
“Canadá” | Richard Ford (Porto Editora)
Com “Canadá”, Richard Ford faz uma viagem ao abismo do ser humano, na tentativa de uma redenção examinativa de uma vida que foi arruinada pela irresponsabilidade alheia.
In deusmelivro
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