“Don’t think about making art, just get it done. Let everyone else decide if it’s good or bad, whether they love it or hate it. While they are deciding, make even more art.” Andy Warhol
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
“Do Holocausto à Salvação”
de Bernard Wasserstein
A irracionalidade de alguns actos (des)humanos continua a assombrar um dos mais negros períodos da história mundial. Por vezes, parece que a provação enfrentada pelo povo judeu durante o imperativo Nazi aconteceu numa galáxia distante. Como é possível conceber o extermínio de um povo e lidar com tal destino?
Por outro lado, a amplitude contrastante entre estar “marcado” para a exterminação e manter um perfil que era constantemente saudado entre as elites é um intenso mistério. Essa hesitação agoniante foi sentida por alguns que, inseridos em uma particular conjuntura se sentiram, enquanto judeus, uma minoria privilegiada que gozava do “luxo” do quase livre arbítrio, mas que usava esse poder para ajudar os seus semelhantes a fugir de uma realidade negra.
O grande objectivo era escapar à morte certa, julgamento esse decidido num tribunal unilateral e omnipotente. A fuga, entendida na forma de escape face à deportação para as fábricas de morte idealizadas pelo Terceiro Reich, colocou em cena indivíduos que ousaram desafiar o poder instituído numa Europa à mercê de um louco chamado Adolf Hitler.
É sobre uma dessas almas altruístas que recai “Do Holocausto à Salvação” (Vogais, 2014), uma obra da autoria de Bernard Wasserstein, historiador e professor de História Judaica Europeia Moderna na Universidade de Oxford, que também se dedica à História e Política de Israel. A par de nomes como Aristides de Sousa Mendes, Oskar Schindler ou Raoul Wallenberg, Gertrude van Tijn, uma judia alemã com nacionalidade holandesa e um dos principais membros do Conselho de Amesterdão, logrou lutar pela vida de milhares de pessoas cuja esperança fugia a cada segundo face à determinação das forças Nacional-Socialistas.
“Do Holocausto à Salvação” mostra o seu percurso diplomático no seio de uma das maiores convulsões mundiais, aproveitando Wasserstein para relembrar muito daquilo em que se centraram os debates judaicos realizados e propostos posteriormente por Hannah Arendt que enfatizava, pertinentemente, noções como a “cumplicidade” e a “culpabilidade”, esquecendo-se de entender a extraordinária coragem de activistas como van Tijn, que ousaram desafiar a autoridade Nazi assim como a – por vezes – amorfa intervenção dos Aliados, conceito entendido neste contexto como potencialmente amigáveis.
Ao longo das páginas deste muito interessante e acutilante livro, somos convidados a sentir os inacreditáveis algoritmos emocionais que pessoas como Gertrude van Tijn sentiam ao pensar os trabalhos diários de resgate e o constante recorrer à boa vontade alheia através de fundos e apoios supranacionais. A dilacerante dúvida entre quem escolher, o dilema da “opção” face à deportação mediante inevitáveis rivalidades e “traições”, assombrava a mente da holandesa.
Mas, sob outra perspectiva, “Do Holocausto à Salvação” evoca o poder da sustentação absolutamente vital da amizade, esse porto de abrigo que também salvou van Tijn da morte, principalmente quando a holandesa passou por períodos dramáticos em termos pessoais – nomeadamente nos anos 1930, quando se divorciou e viu alguns dos seus melhores amigos e vitais alicerces falecerem.
A tenacidade do espírito de van Tijn desafiou tudo e todos e, quando a Segunda Guerra Mundial atingiu o seu pico, Gertrude chegou a Portugal por forma a deixar para trás a sitiada Amesterdão. Na bagagem, mais que pertences, trazia uma missão especial: negociar o refúgio de milhares de judeus, de naturalidade alemã e holandesa, com a “estranha” permissão das autoridades nazis.
Desconfiadas, as autoridades portuguesas encaravam Gertrude van Tijn com um misto de respeito e confiança e foram muitas as teses criadas em volta da holandesa que, em tempos, optou pelo Sionismo. Teria sido ela um simples meio estratégico dos Nacional-Socialistas ou uma audaz heroína que pactuou com o inimigo para defender ao máximo o seu povo?
São alguns desses mistérios que “Do Holocausto à Salvação” pretende esclarecer, assumindo-se como um extraordinário documento que permite observar uma das mais obscuras fatias da cronologia mundial, ressalvando o papel que o território português – e principalmente a sua capital, descrita por alguns como “o ponto de estrangulamento da Europa” – desempenhou nesse período.
Dividido em doze capítulos, esta obra traça um magnífico perfil de uma mulher que teve de se reconstruir por forma a conseguir ajudar outros, que o “destino” declarou inferiores e indignos de uma existência normal. Wasserstein consegue transmitir ao leitor os dilemas de uma alma que lutava contra a própria consciência ao negociar com um dos mais pérfidos inimigos da humanidade.
In deusmelivro
terça-feira, 25 de novembro de 2014
“Longe de Veracruz”
de Enrique Vila-Matas
A melhor das viagens é feita através dos sentimentos
Uma das vozes mais proeminentes da literatura espanhola, o catalão Enrique Vila-Matas é dono de um universo que mescla ensaio, crónica jornalística e uma aproximação novelística assente em várias camadas surrealistas que, por vezes, surgem alicerçadas em fragmentos de algum ironia filtrados entre a realidade e uma particular ficção.
Desde que publicou o seu primeiro livro em 1977, “A Assassina Ilustrada”, Vila-Matas não mais parou de surpreender os amantes da literatura tendo sido através de “História Abreviada da Literatura” que, definitivamente, colocou o seu nome entre os mais reconhecidos autores contemporâneos.
A sua mais recente aventura em forma de livro é “Longe de Veracruz” (Assírio e Alvim, 2014), um relato deliciosamente “tóxico”, sinónimo de um constante estado de alerta intelectual dentro de uma galáxia onírica que desafia a fronteira entre a realidade e a aparente sensação ilusória.
No epicentro do romance está Enrique, o mais novo dos três irmãos Tenorio, narrador deste fascinante livro que aposta na literatura como seu último refúgio. Aos 27 anos, Enrique, enquanto um jovem maneta derrotado pela vida, quer afastar um sentimento de ócio aburguesado através do ato da escrita cujo tema versa sobre o ódio face a Sant Gervasi, um edifício de três andares herança do seu falecido pai, assim como à incapacidade de amar e ser amado.
Enrique pensa um romance que reúne laivos de uma figuração moderna da desgraça tendo como pano de fundo o distante porto de Veracruz, polo inspirador e trágico de uma dramática tradição de espelhar a existência através do conveniente, lógico e apaixonado dom de escrever ainda que sob o espetro de um omnipresente pânico.
É sob esse sentimento mutilado que pretende ocupar o lugar deixado vago pelo seu irmão Antonio, um escritor de viagens que nunca viajou, decidindo ele sim palmilhar mundo e viver uma vida tomada de empréstimo. Repentinamente, Enrique molda a sua vida ao romance e interioriza um misto de segmentação temporal conjugada entre fatias de presente e passado na tentativa de resgatar algo (ir)recuperável.
Esse romance é o reflexo de uma relação amor-ódio com a vida, os seus irmãos e a figura (ausente) do seu pai. Para além disso, Enrique verbaliza um misto de frustração e descrença que apenas encontra antídoto no amor pelas terras distantes que conhece enquanto viaja e mesmo o pavor ao continente africano não ofusca o prazer de conhecer mundo.
É assim que vai construindo uma obra de perfil improvisado, arrancado a ferros, de semblante diário romanceado cujo herói é uma improvável figura quebrada pela impotência de se sentir um ser humano e finito face ao normal curso dos dias, um após outro.
Pelo meio há espaço para canções que passam na rádio como metáforas da vida, anotações em um caderno cuja capa anuncia um trio de tucanos, reflexões face à presença de um obeso anjo que decora uma tapeçaria, uma cantora de bolero assassina, um dentista entregue ao álcool, um cabeleireiro fascista, roubos de objetos pessoais em noites de desvario e um enorme rol de situações rocambolescas.
Tal como em outras obras de Vila-Matas, “Longe de Veracruz” é um típico e admirável exemplo da sua genialidade enquanto escritor. A narrativa obriga o leitor a entrar na trama e assumir um papel expectante face ao que vai acontecer na página seguinte, sem pressas. As palavras fluem dolentemente e as ideias viajam, literalmente, até à nossa mente através de um processo íntimo de cumplicidade pois a escrita de Enrique, que não Tenorio, é uma eterna lufada de ar fresco.
In Rua de Baixo
Uma das vozes mais proeminentes da literatura espanhola, o catalão Enrique Vila-Matas é dono de um universo que mescla ensaio, crónica jornalística e uma aproximação novelística assente em várias camadas surrealistas que, por vezes, surgem alicerçadas em fragmentos de algum ironia filtrados entre a realidade e uma particular ficção.
Desde que publicou o seu primeiro livro em 1977, “A Assassina Ilustrada”, Vila-Matas não mais parou de surpreender os amantes da literatura tendo sido através de “História Abreviada da Literatura” que, definitivamente, colocou o seu nome entre os mais reconhecidos autores contemporâneos.
A sua mais recente aventura em forma de livro é “Longe de Veracruz” (Assírio e Alvim, 2014), um relato deliciosamente “tóxico”, sinónimo de um constante estado de alerta intelectual dentro de uma galáxia onírica que desafia a fronteira entre a realidade e a aparente sensação ilusória.
No epicentro do romance está Enrique, o mais novo dos três irmãos Tenorio, narrador deste fascinante livro que aposta na literatura como seu último refúgio. Aos 27 anos, Enrique, enquanto um jovem maneta derrotado pela vida, quer afastar um sentimento de ócio aburguesado através do ato da escrita cujo tema versa sobre o ódio face a Sant Gervasi, um edifício de três andares herança do seu falecido pai, assim como à incapacidade de amar e ser amado.
Enrique pensa um romance que reúne laivos de uma figuração moderna da desgraça tendo como pano de fundo o distante porto de Veracruz, polo inspirador e trágico de uma dramática tradição de espelhar a existência através do conveniente, lógico e apaixonado dom de escrever ainda que sob o espetro de um omnipresente pânico.
É sob esse sentimento mutilado que pretende ocupar o lugar deixado vago pelo seu irmão Antonio, um escritor de viagens que nunca viajou, decidindo ele sim palmilhar mundo e viver uma vida tomada de empréstimo. Repentinamente, Enrique molda a sua vida ao romance e interioriza um misto de segmentação temporal conjugada entre fatias de presente e passado na tentativa de resgatar algo (ir)recuperável.
Esse romance é o reflexo de uma relação amor-ódio com a vida, os seus irmãos e a figura (ausente) do seu pai. Para além disso, Enrique verbaliza um misto de frustração e descrença que apenas encontra antídoto no amor pelas terras distantes que conhece enquanto viaja e mesmo o pavor ao continente africano não ofusca o prazer de conhecer mundo.
É assim que vai construindo uma obra de perfil improvisado, arrancado a ferros, de semblante diário romanceado cujo herói é uma improvável figura quebrada pela impotência de se sentir um ser humano e finito face ao normal curso dos dias, um após outro.
Pelo meio há espaço para canções que passam na rádio como metáforas da vida, anotações em um caderno cuja capa anuncia um trio de tucanos, reflexões face à presença de um obeso anjo que decora uma tapeçaria, uma cantora de bolero assassina, um dentista entregue ao álcool, um cabeleireiro fascista, roubos de objetos pessoais em noites de desvario e um enorme rol de situações rocambolescas.
Tal como em outras obras de Vila-Matas, “Longe de Veracruz” é um típico e admirável exemplo da sua genialidade enquanto escritor. A narrativa obriga o leitor a entrar na trama e assumir um papel expectante face ao que vai acontecer na página seguinte, sem pressas. As palavras fluem dolentemente e as ideias viajam, literalmente, até à nossa mente através de um processo íntimo de cumplicidade pois a escrita de Enrique, que não Tenorio, é uma eterna lufada de ar fresco.
In Rua de Baixo
terça-feira, 18 de novembro de 2014
“Infiltrado”
de Jeff Abbott
Ao quarto tomo da saga de Sam Capra, um ex-espião da CIA, o norte-americano Jeff Abbott faz-nos chegar mais um excelente livro de acção que nos leva ao coração da quente Miami, cidade que serve de cenário para mais uma viagem ao meandro de um mundo que mistura legalidade com subterfúgios vários que se escondem por trás dos mais insuspeitos personagens.
Depois de “Adrenalina”, “O Último Minuto” e “Queda”, “Infiltrado” (Asa, 2014) tem a sua génese quando Steve Robles, um dos mais frequentes clientes de “Stormy’s” – bar propriedade de Capra que exibe posters dos Miami Dolphins misturados com fotos de gente como Hemingway – é assassinado. Tal acontece à porta do referido estabelecimento e apanha todos de surpresa.
Para além de lamentar a morte do seu amigo, Sam tem para com Steve uma divida de gratidão eterna e tudo fará para puder ajudar a resolver este crime. Se em tempos foi Robles que salvou Capra e a sua família em terras de África, hoje, em Miami, está na hora de retribuir favores.
Sam Capra está determinado em encontrar o assassino e fazer justiça, pelas suas próprias mãos e meios. Sem grandes suspeitas, Capra tem na mulher desconhecida que acompanhava Steve minutos antes da sua morte o ponto de partida para a sua investigação. Quem é ela? Que queria de Steve?
As perguntas são muitas e Sam quer encontrar respostas, a todo o custo. Para isso serve-se do seu antigo disfarce dos tempos de agente da CIA e faz renascer Sam Chevalier, personagem que vai infiltrar-se no seio dos Varela, uma das mais importantes e perigosas famílias de Miami.
As primeiras e espantosas revelações desta “missão” levam Sam a descobrir que a ligação entre Steve e Cordelia, o nome da misteriosa mulher que o acompanhou nas suas últimas horas de vida, teve o seu início quando a atraente mulher contratou Robles para um trabalho de segurança realizado em Porto Rico.
Sam evolve-se com Cordelia e consegue aceder ao coração da família Varela mas tal coloca o antigo agente da CIA em um perigoso jogo que pode significar a sua morte mediante o mais pequeno deslize. Quis o destino que, nos primeiros contatos com os Varela, Sam consiga salvar Rey Varela, o patriarca da família, tornando-se assim numa espécie de herói acidental, papel que não cai muito bem junto de Galo e Zhanna, os dois irmãos, ou meios-irmãos, de Cordelia.
Sempre no limite e com o amargo sabor a fel por perto, Sam Capra é completamente arrastado para um terrível drama familiar, cujo labirinto revela os fantasmas dos elementos da família Varela que são sinónimo de segredos assassinos.
Pai e filhos vivem sucessivas relações destroçadas e a autodestruição é um passo mais que esperado. Essa torrente de acontecimentos vai colocar em dúvida a operação levada a cabo por Sam que se depara com um segredo que pode significar a sua morte.
Com uma narrativa na linha de autores como James Patterson ou Janet Evanovich, Abbott cria uma trama muito ao estilo dos filmes de acção made in Hollywood, onde a dinâmica e a adrenalina dos acontecimentos leva o leitor a devorar as páginas de “Infiltrado” num ápice, livro cuja fórmula de sucesso está alicerçada numa portentosa amálgama entre momentos de puro dramatismo, suspense e uma carga fortemente emotiva.
Escrito e relatado na perspectiva de Sam Capra, o mais recente livro do autor que já venceu o International Thriller Writers Award e foi nomeado três vezes para o Edgar Award, é um elogio ao (bom) entretenimento e faz jus aos restantes episódios da saga Capra, desta vez através de uma viagem ao outro lado do poder onde as jogadas de bastidores, o contrabando, a tortura e os abusos de poder justificam todos os meios, nem que o acto assassino seja uma das armas utilizadas.
Mesmo para quem nunca leu nenhum dos outros livros que Jeff Abbott dedicou a Sam Capra, “Infiltrado” foi construído de forma a ser bem compreendido pelos leigos da saga, sendo frequentes as contextualizações sobre o passado do personagem principal, sem dúvida um dos mais interessantes nomes do universo dos thrillers e policiais contemporâneos.
In deusmelivro
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Ben Howard
"I Forget Where We Were"
Música para gente graúda
Em “End of the Affair”, oitava faixa de “I Forget Where We Were” e primeiro single do segundo longa-duração do britânico Ben Howard, a música atinge a sua plenitude. Howard, sob uma paleta sonora espartana, funde sons e silêncio com palavras que vão do sussurro ao grito. Ao longo de mais de sete minutos, a música invade-nos a mente de uma forma apaixonada, quente. Canta-se o amor, a perda, os novos começos, com guitarras, bateria e baixo a voarem livres.
Três anos depois de “Every Kingdom”, disco que teve honras de ser nomeado para o Mercury Prize, Ben Howard surge mais maduro. “I Forget Where We Were” é um excelente exemplo de uma sonoridade que mescla um folk de características mais indie com laivos de um pop doce, mas não em doses excessivas, que lembra, em parte, e por exemplo, alguns dos melhores momentos de Damien Rice.
A produção de “I Forget Where We Were” esteve a cargo de Chris Bond, baterista que acompanha regularmente Ben Howard, e o resultado final é um maravilhoso disco, composto por duas mãos cheias de canções que ousam ultrapassar, com frequência, os quatro minutos de duração, e que se afastam, e muito, da banalidade.
A coragem e confiança no seu trabalho levou mesmo Howard a destacar como primeira amostra do álbum o já referido “End of an Affair”, um tour de force encantador e intenso cujo clímax se assume como um espanta-espíritos face aos mais pessimistas que não acreditariam nas qualidades do jovem cantautor.
No seu todo, “I Forget Where We Were” é um disco de guitarras, mas ousa navegar por densos territórios repletos de uma profundidade rítmica assinalável, que explora uma dicotomia de opostos onde sons oníricos se fundem com camadas de uma pop que se transfigura entre momentos mais intimistas e outros mais aguerridos - algo que se declara como um corte face ao que Ben Howard fez em “Every Kingdom”.
Ouvir este disco é um exercício refrescante e arrebatador, e nas entrelinhas das palavras e sons que derivam das canções de Howard conseguimos sentir a magia assertiva de quem sabe que está a fazer um trabalho repleto de sentido. Tal pode ser comprovado nos primeiros acordes de “Small Things”, a faixa que inicia o álbum e cujo perfil nos remete para um math-rock açucarado, ou em momentos mais soltos como “Rivers in Your Mouth” ou “Time is Dancing”.
Já “In Dreams”, onde o folk se sente amiúde nas cordas das guitarras e nos lamentos que derivam do violoncelo, revela-se uma sentida canção que explora os sentimentos díspares entre reflexões mais depressivas, que vão desaguar num mar de confusões existenciais e em algum sentido de desajustada existência que, ainda assim, se dissipa em “She Treats Me Well”, um hino à “esperança”, onde o amanhã é encarado com tranquilidade e sob a forma de uma presença feminina.
Com uma clara veia experimentalista, Ben Howard não tem pejo em fazer canções como a lindíssima e melancólica “Evergreen” ou a despretensiosa “Conrad”, composição envolta numa simplicidade tal, que os seus acordes elétricos são como o resultado de um normal e regular batimento cardíaco, pois é o coração do ouvinte o maior destinatário das (grandes) canções de “I Forget Where We Were” - um exercício sonoro que é sinónimo de uma rara espécie de filigrana musical e um dos mais inesperados melhores discos de 2014.
Alinhamento:
1. Small Things
2. Rivers In Your Mouth
3. I Forget Where We Were
4. In Dreams
5. She Treats Me Well
6. Time Is Dancing
7. Evergreen
8. End Of The Affair
9. Conrad
10. All Is Now Harmed
Classificação do Palco: 9/10
In Palco Principal
Em “End of the Affair”, oitava faixa de “I Forget Where We Were” e primeiro single do segundo longa-duração do britânico Ben Howard, a música atinge a sua plenitude. Howard, sob uma paleta sonora espartana, funde sons e silêncio com palavras que vão do sussurro ao grito. Ao longo de mais de sete minutos, a música invade-nos a mente de uma forma apaixonada, quente. Canta-se o amor, a perda, os novos começos, com guitarras, bateria e baixo a voarem livres.
Três anos depois de “Every Kingdom”, disco que teve honras de ser nomeado para o Mercury Prize, Ben Howard surge mais maduro. “I Forget Where We Were” é um excelente exemplo de uma sonoridade que mescla um folk de características mais indie com laivos de um pop doce, mas não em doses excessivas, que lembra, em parte, e por exemplo, alguns dos melhores momentos de Damien Rice.
A produção de “I Forget Where We Were” esteve a cargo de Chris Bond, baterista que acompanha regularmente Ben Howard, e o resultado final é um maravilhoso disco, composto por duas mãos cheias de canções que ousam ultrapassar, com frequência, os quatro minutos de duração, e que se afastam, e muito, da banalidade.
A coragem e confiança no seu trabalho levou mesmo Howard a destacar como primeira amostra do álbum o já referido “End of an Affair”, um tour de force encantador e intenso cujo clímax se assume como um espanta-espíritos face aos mais pessimistas que não acreditariam nas qualidades do jovem cantautor.
No seu todo, “I Forget Where We Were” é um disco de guitarras, mas ousa navegar por densos territórios repletos de uma profundidade rítmica assinalável, que explora uma dicotomia de opostos onde sons oníricos se fundem com camadas de uma pop que se transfigura entre momentos mais intimistas e outros mais aguerridos - algo que se declara como um corte face ao que Ben Howard fez em “Every Kingdom”.
Ouvir este disco é um exercício refrescante e arrebatador, e nas entrelinhas das palavras e sons que derivam das canções de Howard conseguimos sentir a magia assertiva de quem sabe que está a fazer um trabalho repleto de sentido. Tal pode ser comprovado nos primeiros acordes de “Small Things”, a faixa que inicia o álbum e cujo perfil nos remete para um math-rock açucarado, ou em momentos mais soltos como “Rivers in Your Mouth” ou “Time is Dancing”.
Já “In Dreams”, onde o folk se sente amiúde nas cordas das guitarras e nos lamentos que derivam do violoncelo, revela-se uma sentida canção que explora os sentimentos díspares entre reflexões mais depressivas, que vão desaguar num mar de confusões existenciais e em algum sentido de desajustada existência que, ainda assim, se dissipa em “She Treats Me Well”, um hino à “esperança”, onde o amanhã é encarado com tranquilidade e sob a forma de uma presença feminina.
Com uma clara veia experimentalista, Ben Howard não tem pejo em fazer canções como a lindíssima e melancólica “Evergreen” ou a despretensiosa “Conrad”, composição envolta numa simplicidade tal, que os seus acordes elétricos são como o resultado de um normal e regular batimento cardíaco, pois é o coração do ouvinte o maior destinatário das (grandes) canções de “I Forget Where We Were” - um exercício sonoro que é sinónimo de uma rara espécie de filigrana musical e um dos mais inesperados melhores discos de 2014.
Alinhamento:
1. Small Things
2. Rivers In Your Mouth
3. I Forget Where We Were
4. In Dreams
5. She Treats Me Well
6. Time Is Dancing
7. Evergreen
8. End Of The Affair
9. Conrad
10. All Is Now Harmed
Classificação do Palco: 9/10
In Palco Principal
sábado, 15 de novembro de 2014
“Dois dias, Uma Noite”
de Jean-Pierre e Luc Dardenne
A Provação de Sandra
O sol, lá fora, ainda brilha. Sandra descansa, o telefone toca, insistentemente. Sandra, renitente, levanta-se e atende. Entretanto o forno dá sinal e a tarte está pronta. O dia corre normalmente até que se contrariam as lágrimas, em vão. A vida pode mudar a cada segundo, sem qualquer tipo de aviso. Resta lutar com as (poucas) forças que restam.
É desta forma crua que os veteranos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne filmaram a primeira cena de “Dois Dias, Uma Noite”, um fantástico e tocante drama que tem como figura principal (a belíssima) Marion Cotillard no papel de Sandra, uma mulher casada e com dois filhos que tenta salvar o seu emprego depois de os seus colegas terem optado por receber um bónus de mil euros em detrimento do lugar do seu posto de trabalho na Solwal, uma empresa de painéis solares.
O dilema fora colocado pelos responsáveis da empresa que depois do afastamento de Sandra devido a uma depressão de origem nervosa constataram que o volume de trabalho pode ser assegurando sem um dos colaboradores, ainda que com esforço acrescido de cada qual. Essa decisão coloca os colegas de Sandra no difícil lugar de “escolher” entre o bónus e Sandra, que finalmente se sente em condições psicológicas de regressar ao trabalho.
Esse forte revés é-lhe comunicado por Juliette (Catherine Salée) e resta a Sandra tentar durante o fim de semana convencer os colegas a mudarem de opinião, depois de conseguir a concordância do gerente da empresa para se realizar outra votação.
Desesperada, Sandra tenta salvar o seu posto de trabalho e enceta uma terrível demanda. Do seu lado está o marido Manu (Fabrizio Rongione) que encoraja a muito fragilizada esposa a falar com os colegas. São necessários nove votos para Sandra manter o trabalho mas o que a ainda funcionária da Solwal tem para oferecer “em troca” aos seus colegas é apenas a sua angústia e ansiedade.
Essa terrível situação leva Sandra a voltar a sentir sintomas depressivos e sente constrições na garganta chegando a perder a capacidade de falar, hiperventila e a única “salvação” assume a forma de um conhecido antidepressivo. Não é apenas o emprego de Sandra que está em jogo, é o seu casamento, a sua vida.
A dificuldade de Sandra é acrescida pois durante o fim de semana é mais difícil encontrar os camaradas e suas famílias. Alguns dos seus colegas aproveitam os dias de descanso para conseguirem mais dinheiro pois a vida é complicada. O desemprego assola algumas destas famílias que têm nos mil euros de bónus um precioso aliado para colmatar as crescentes necessidades. Conseguirá Sandra o seu objetivo?
Com uma simplicidade desarmante, os irmãos Dardenne transformam “Dois Dias, Uma Noite” em um dos mais emblemáticos filmes deste ano e a sua participação na mais recente edição do Festival de Cannes pode ser sinónimo de grande sucesso não só pelo filme em si como através do magnífico trabalho de Cotillard.
Anteriormente galardoados com a Palma de Ouro com “Rosetta” (1999) e “A Criança” (2005), Jean-Pierre e Luc Dardenne oferecem ao espetador uma brilhante estória de cariz realista e social que se assume como uma tensa narrativa que vem mais uma vez revelar a mestria da sua capacidade de filmar pessoas “comuns” em situações “comuns”.
É com essa ímpar arte – que nos remete para, por exemplo, alguns dos momentos mais brilhantes do britânico Ken Loach, – que os Dardenne conseguem transformar “Dois Dias, Uma Noite”, em um filme que espelha a ténue linha que separa a solidariedade do ato (desesperado) da necessidade, trabalhando um personagem no seu limite emocional que tenta esconder o seu desabar face a uma intensão de resgatar uma maioria democrática que resulta de uma votação manipulada e suja que coloca em rota de colisão colegas de trabalho, familiares chegados, famílias à beira da rutura.
A simplicidade (e extrema competência) da trama encontra um poderoso aliado na câmara de Jean-Pierre e Luc Dardenne que acompanha Sandra na sua provação derivando de planos estáticos para outros cuja ligeiríssima oscilação faz sentir o espetador como parte do drama sentido a partilha de uma realidade filtrada pelo grande ecrã.
Para além disso, nunca é demais referir, outro dos grandes pilares da consistência de “Dois Dias, Uma Noite” é a extraordinária entrega de Marion Cotillard que a encaixa na perfeição em um dos mais austeros e difíceis papéis criados pela dupla belga. Sandra mistura traços de uma dignidade e contenção assombrosas e a sua técnica de atuação é deslumbrante – a cena em que está ao telefone com um dos primeiros colegas (no caso, Kader) com que tenta tornar seu aliado na votação é de um dramatismo extraordinário pela forma como a atriz se entrega e trabalha a ação, os silêncios, as pausas, a concentração. O seu rosto espelha a amargura, convence e comove, tal como um filme em si que figurará, seguramente, nas listas dos melhores do ano.
In Rua de Baixo
O sol, lá fora, ainda brilha. Sandra descansa, o telefone toca, insistentemente. Sandra, renitente, levanta-se e atende. Entretanto o forno dá sinal e a tarte está pronta. O dia corre normalmente até que se contrariam as lágrimas, em vão. A vida pode mudar a cada segundo, sem qualquer tipo de aviso. Resta lutar com as (poucas) forças que restam.
É desta forma crua que os veteranos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne filmaram a primeira cena de “Dois Dias, Uma Noite”, um fantástico e tocante drama que tem como figura principal (a belíssima) Marion Cotillard no papel de Sandra, uma mulher casada e com dois filhos que tenta salvar o seu emprego depois de os seus colegas terem optado por receber um bónus de mil euros em detrimento do lugar do seu posto de trabalho na Solwal, uma empresa de painéis solares.
O dilema fora colocado pelos responsáveis da empresa que depois do afastamento de Sandra devido a uma depressão de origem nervosa constataram que o volume de trabalho pode ser assegurando sem um dos colaboradores, ainda que com esforço acrescido de cada qual. Essa decisão coloca os colegas de Sandra no difícil lugar de “escolher” entre o bónus e Sandra, que finalmente se sente em condições psicológicas de regressar ao trabalho.
Esse forte revés é-lhe comunicado por Juliette (Catherine Salée) e resta a Sandra tentar durante o fim de semana convencer os colegas a mudarem de opinião, depois de conseguir a concordância do gerente da empresa para se realizar outra votação.
Desesperada, Sandra tenta salvar o seu posto de trabalho e enceta uma terrível demanda. Do seu lado está o marido Manu (Fabrizio Rongione) que encoraja a muito fragilizada esposa a falar com os colegas. São necessários nove votos para Sandra manter o trabalho mas o que a ainda funcionária da Solwal tem para oferecer “em troca” aos seus colegas é apenas a sua angústia e ansiedade.
Essa terrível situação leva Sandra a voltar a sentir sintomas depressivos e sente constrições na garganta chegando a perder a capacidade de falar, hiperventila e a única “salvação” assume a forma de um conhecido antidepressivo. Não é apenas o emprego de Sandra que está em jogo, é o seu casamento, a sua vida.
A dificuldade de Sandra é acrescida pois durante o fim de semana é mais difícil encontrar os camaradas e suas famílias. Alguns dos seus colegas aproveitam os dias de descanso para conseguirem mais dinheiro pois a vida é complicada. O desemprego assola algumas destas famílias que têm nos mil euros de bónus um precioso aliado para colmatar as crescentes necessidades. Conseguirá Sandra o seu objetivo?
Com uma simplicidade desarmante, os irmãos Dardenne transformam “Dois Dias, Uma Noite” em um dos mais emblemáticos filmes deste ano e a sua participação na mais recente edição do Festival de Cannes pode ser sinónimo de grande sucesso não só pelo filme em si como através do magnífico trabalho de Cotillard.
Anteriormente galardoados com a Palma de Ouro com “Rosetta” (1999) e “A Criança” (2005), Jean-Pierre e Luc Dardenne oferecem ao espetador uma brilhante estória de cariz realista e social que se assume como uma tensa narrativa que vem mais uma vez revelar a mestria da sua capacidade de filmar pessoas “comuns” em situações “comuns”.
É com essa ímpar arte – que nos remete para, por exemplo, alguns dos momentos mais brilhantes do britânico Ken Loach, – que os Dardenne conseguem transformar “Dois Dias, Uma Noite”, em um filme que espelha a ténue linha que separa a solidariedade do ato (desesperado) da necessidade, trabalhando um personagem no seu limite emocional que tenta esconder o seu desabar face a uma intensão de resgatar uma maioria democrática que resulta de uma votação manipulada e suja que coloca em rota de colisão colegas de trabalho, familiares chegados, famílias à beira da rutura.
A simplicidade (e extrema competência) da trama encontra um poderoso aliado na câmara de Jean-Pierre e Luc Dardenne que acompanha Sandra na sua provação derivando de planos estáticos para outros cuja ligeiríssima oscilação faz sentir o espetador como parte do drama sentido a partilha de uma realidade filtrada pelo grande ecrã.
Para além disso, nunca é demais referir, outro dos grandes pilares da consistência de “Dois Dias, Uma Noite” é a extraordinária entrega de Marion Cotillard que a encaixa na perfeição em um dos mais austeros e difíceis papéis criados pela dupla belga. Sandra mistura traços de uma dignidade e contenção assombrosas e a sua técnica de atuação é deslumbrante – a cena em que está ao telefone com um dos primeiros colegas (no caso, Kader) com que tenta tornar seu aliado na votação é de um dramatismo extraordinário pela forma como a atriz se entrega e trabalha a ação, os silêncios, as pausas, a concentração. O seu rosto espelha a amargura, convence e comove, tal como um filme em si que figurará, seguramente, nas listas dos melhores do ano.
In Rua de Baixo
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
“O PINTASSILGO”
DE DONNA TARTT
Um livro grande ou um grande livro?
Um dos maiores fenómenos dos últimos anos no que toca ao universo literário, “O Pintassilgo” (Presença, 2014) da norte-americana Donna Tartt – considerada pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes no mundo – chega-nos envolto de uma embalagem de sucesso e qualidade cujo expoente foi o arrebatar o Prémio Pulitzer em termos de ficção no ano de 2013.
Depois de “A História Secreta” e “O Pequeno Amigo”, Tartt aposta num livro de toadas épicas que nos leva a percorrer a história recente dos Estados Unidos da América, um país onde o medo do terrorismo e a dicotomia constante entre espaço público e privado estão na ordem das discussões quotidianas.
Ao longo das quase novecentas (!) páginas de “O Pintassilgo”, ficamos a conhecer fatias da existência de Theo Decker, um rapaz de 13 anos que vê a sua vida explodir, no sentido literal da palavra. Depois de ver um pai ausente abandonar definitivamente o lar, Theo vive os normais dramas de um adolescente, mas um dia a sua mãe é chamada à escola pelo seu mau comportamento e tudo não voltará a ser igual.
A caminho da escola, Theo e sua mãe, depois de uma viagem de táxi algo atribulada, decidem visitar o Metropolitan Museum of Art, em pleno coração da nova-iorquina Quinta Avenida. Depois de uma curta visita, enquanto a mãe de Theo ruma à loja de recordações, o rapaz deixa-se enfeitiçar pela magia que emana do olhar de Pippa, uma ruiva intrigante.
Mas não é só o coração de Theo que estreme. Instantes volvidos, uma bomba rebenta na galeria do museu e Theo é um dos poucos sobreviventes. Na ressaca do acidente, o adolescente carrega uma pintura datada de 1654 intitulada “O Pintassilgo”. A referida obra de arte foi-lhe “oferecida” por um velho cujo último suspiro foi dado na presença de Theo.
Mais tarde, Theo conhece Hobie, um restaurador de arte que se torna num confidente e uma espécie de refúgio perante a constante dor de Theo face a uma vida sublinhada pela perda da mãe e a ausência do pai e que encontra no álcool e outras substâncias um ponto de fuga que deriva em um comportamento autodestrutivo.
Egoísta e admiravelmente desagradável, Theo assume as funções de narrador e personagem principal e, através da hábil narrativa de Donna Tarrt, consegue transmitir um sentimento de decência, apesar de tudo. Já Hobie é um personagem mais maduro enquanto Boris, outro dos comparsas de Theo, é o reverso da medalha e não esconde a sua faceta desonesta, despreocupada e arrogante, sem qualquer pejo.
Com excelentes criticas um pouco em todo o mundo, “O Pintassilgo” deixou boquiabertos grandes mestres da literatura entre os quais Stephen King, que afirma que a obra de Tartt é: “um daqueles livros raros que aparecem meia dúzia de vezes por década” e cuja narrativa “resulta em um magnífico romance literário capaz de tocar tanto o coração como a mente”. Já outros referem a vertente dickensiana e algum virtuosismo vitoriano de “O Pintassilgo”, mas ao folhear a obra de Donna Tartt aquilo que fica é uma sensação controversa.
Se, por um lado, “O Pintassilgo” tem momentos de grande brilhantismo onde a capacidade de detalhe e dinâmica de Tarrt é assinalável, noutras passagens o leitor mergulha em um lento e desencorajador relato (por exemplo, as passagens que versam sobre Theo a ingerir substancias proibidas são um verdadeiro teste de resistência ao leitor, assim como o inicial relato da explosão do museu. Ambos os “episódios” prolongam-se por 50 ou mais páginas…) que leva à (quase) exaustão enquanto folheia este thriller. Será este registo bipolar que torna o livro em um fenómeno à escala mundial?
Outras das questões menos positivas da trama prende-se com o uso recorrente de clichés, sobretudo na pessoa da personagem de Theo, uma alma perseguida e assombrada por fantasmas do passado que impedem o seu amadurecimento, algo que assume alguns contornos de “banalidade”.
O próprio romance não se refugia de um eterno mar de coincidências que formam o evoluir da narrativa. Correndo o risco das próximas linhas serem uma espécie de spoiler, como entender que o senhor idoso que está no museu aquando da explosão peça a Theo para furtar a já referida pintura? Porque será que toda a gente que rodeia Theo está, mais ou menos, associada à arte? Será apenas sorte ou Theo conhece sempre a pessoa certa no momento certo, para mais numa metrópole como Nova Iorque? Estas são algumas das pontas soltas que podem ser identificadas em “O Pintassilgo”.
Somando virtudes e “defeitos”, entende-se porque “O Pintassilgo” tem sido alvo de tanto atenção apesar de, como referimos, a estatuto de obra-prima nos parecer exagerado, tal como o elevado e injustificado número de páginas. No entanto, é compreensivelmente difícil resistir à tentação de pegar em um livro cujo rasto seja sinónimo de um incomensurável sucesso mundial e tal, per si, pode justificar a sua pertinência.
In Rua de Baixo
Um dos maiores fenómenos dos últimos anos no que toca ao universo literário, “O Pintassilgo” (Presença, 2014) da norte-americana Donna Tartt – considerada pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes no mundo – chega-nos envolto de uma embalagem de sucesso e qualidade cujo expoente foi o arrebatar o Prémio Pulitzer em termos de ficção no ano de 2013.
Depois de “A História Secreta” e “O Pequeno Amigo”, Tartt aposta num livro de toadas épicas que nos leva a percorrer a história recente dos Estados Unidos da América, um país onde o medo do terrorismo e a dicotomia constante entre espaço público e privado estão na ordem das discussões quotidianas.
Ao longo das quase novecentas (!) páginas de “O Pintassilgo”, ficamos a conhecer fatias da existência de Theo Decker, um rapaz de 13 anos que vê a sua vida explodir, no sentido literal da palavra. Depois de ver um pai ausente abandonar definitivamente o lar, Theo vive os normais dramas de um adolescente, mas um dia a sua mãe é chamada à escola pelo seu mau comportamento e tudo não voltará a ser igual.
A caminho da escola, Theo e sua mãe, depois de uma viagem de táxi algo atribulada, decidem visitar o Metropolitan Museum of Art, em pleno coração da nova-iorquina Quinta Avenida. Depois de uma curta visita, enquanto a mãe de Theo ruma à loja de recordações, o rapaz deixa-se enfeitiçar pela magia que emana do olhar de Pippa, uma ruiva intrigante.
Mas não é só o coração de Theo que estreme. Instantes volvidos, uma bomba rebenta na galeria do museu e Theo é um dos poucos sobreviventes. Na ressaca do acidente, o adolescente carrega uma pintura datada de 1654 intitulada “O Pintassilgo”. A referida obra de arte foi-lhe “oferecida” por um velho cujo último suspiro foi dado na presença de Theo.
Mais tarde, Theo conhece Hobie, um restaurador de arte que se torna num confidente e uma espécie de refúgio perante a constante dor de Theo face a uma vida sublinhada pela perda da mãe e a ausência do pai e que encontra no álcool e outras substâncias um ponto de fuga que deriva em um comportamento autodestrutivo.
Egoísta e admiravelmente desagradável, Theo assume as funções de narrador e personagem principal e, através da hábil narrativa de Donna Tarrt, consegue transmitir um sentimento de decência, apesar de tudo. Já Hobie é um personagem mais maduro enquanto Boris, outro dos comparsas de Theo, é o reverso da medalha e não esconde a sua faceta desonesta, despreocupada e arrogante, sem qualquer pejo.
Com excelentes criticas um pouco em todo o mundo, “O Pintassilgo” deixou boquiabertos grandes mestres da literatura entre os quais Stephen King, que afirma que a obra de Tartt é: “um daqueles livros raros que aparecem meia dúzia de vezes por década” e cuja narrativa “resulta em um magnífico romance literário capaz de tocar tanto o coração como a mente”. Já outros referem a vertente dickensiana e algum virtuosismo vitoriano de “O Pintassilgo”, mas ao folhear a obra de Donna Tartt aquilo que fica é uma sensação controversa.
Se, por um lado, “O Pintassilgo” tem momentos de grande brilhantismo onde a capacidade de detalhe e dinâmica de Tarrt é assinalável, noutras passagens o leitor mergulha em um lento e desencorajador relato (por exemplo, as passagens que versam sobre Theo a ingerir substancias proibidas são um verdadeiro teste de resistência ao leitor, assim como o inicial relato da explosão do museu. Ambos os “episódios” prolongam-se por 50 ou mais páginas…) que leva à (quase) exaustão enquanto folheia este thriller. Será este registo bipolar que torna o livro em um fenómeno à escala mundial?
Outras das questões menos positivas da trama prende-se com o uso recorrente de clichés, sobretudo na pessoa da personagem de Theo, uma alma perseguida e assombrada por fantasmas do passado que impedem o seu amadurecimento, algo que assume alguns contornos de “banalidade”.
O próprio romance não se refugia de um eterno mar de coincidências que formam o evoluir da narrativa. Correndo o risco das próximas linhas serem uma espécie de spoiler, como entender que o senhor idoso que está no museu aquando da explosão peça a Theo para furtar a já referida pintura? Porque será que toda a gente que rodeia Theo está, mais ou menos, associada à arte? Será apenas sorte ou Theo conhece sempre a pessoa certa no momento certo, para mais numa metrópole como Nova Iorque? Estas são algumas das pontas soltas que podem ser identificadas em “O Pintassilgo”.
Somando virtudes e “defeitos”, entende-se porque “O Pintassilgo” tem sido alvo de tanto atenção apesar de, como referimos, a estatuto de obra-prima nos parecer exagerado, tal como o elevado e injustificado número de páginas. No entanto, é compreensivelmente difícil resistir à tentação de pegar em um livro cujo rasto seja sinónimo de um incomensurável sucesso mundial e tal, per si, pode justificar a sua pertinência.
In Rua de Baixo
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Apresentação de “LittleBigPlanet 3”
@ Lisbon Games Week
Jogar, criar, partilhar e cooperar
Cinco anos depois da Media Molecule ter lançado as primeiras aventuras de Sackboy, eis que foi hoje apresentado na Lisbon Games Week, “LittleBigPlanet 3”, versão PS4, que conta com muitas e boas novidades.
Na demonstração estiveram presentes David Dino, game designer da Sumo Digital e o responsável pelo desenvolvimento do jogo, assim como Sarah Wellock e Tom O’Connor, membros da equipa Sony XDev.
Dono de uma inovadora noção de profundidade graças ao novo motor gráfico, “LittleBigPlanet 3” traz muitas novidades, principalmente ao nível dos personagens. Se Oddsock é um rápido canino capaz de escalar paredes, Swoop é uma ave especial que voa livremente pelo gameplay e consegue apanhar pequenos objetos assim como resgatar os seus companheiros de aventura quando estes se encontram em apuros. Já Toggle, é um amigo de peso que utiliza o seu robusto perfil para derrubar obstáculos ou plataformas. Para além disso, Toggle também pode reduzir o seu porte e transformar-se em um pequeno e rápido personagem que consegue passar pelo buraco da agulha ou caminhar à superfície da água.
Também Sackboy apresenta um novo manancial de truques e habilidades e agora consegue, com destreza, subir objetos como cordas ou similares, pois toda a ajuda é necessária no planeta Bunkum depois de uma tripla de malvados Titãs serem libertados e com a ajuda do cáustico Newton têm como fim destruir o paraíso criativo deste pequeno grande planeta.
Daquilo que podemos ver (e jogar!) de “LittleBigPlanet 3”, esperam-se momentos muito interessantes e divertidos que fazem apanágio às premissas das aventuras de Sackboy e comparsas: jogar, criar, partilhar e cooperar.
É sabido que a saga “LittleBigPlanet” permite personalizar os níveis do gameplay – o novo “termómetro dinâmico” a par de uma maior capacidade do disco permite uma maior liberdade na criação de níveis – e a narrativa deste episódio possibilita ainda jogar níveis (assim como roupas e objetos conquistados) de episódios anteriores. Outra curiosidade, na versão PS4, as texturas exibem uma resolução 1080p (na versão PS3, a resolução fica-se pelos 720p), graças ao novo motor gráfico da mais recente consola da Sony.
O lançamento do jogo está agendado para o dia 26 de novembro e “LittleBigPlanet 3” vai poder ser jogado em ambiente PS4, PS3 e PSVita.
In Rua de Baixo
Cinco anos depois da Media Molecule ter lançado as primeiras aventuras de Sackboy, eis que foi hoje apresentado na Lisbon Games Week, “LittleBigPlanet 3”, versão PS4, que conta com muitas e boas novidades.
Na demonstração estiveram presentes David Dino, game designer da Sumo Digital e o responsável pelo desenvolvimento do jogo, assim como Sarah Wellock e Tom O’Connor, membros da equipa Sony XDev.
Dono de uma inovadora noção de profundidade graças ao novo motor gráfico, “LittleBigPlanet 3” traz muitas novidades, principalmente ao nível dos personagens. Se Oddsock é um rápido canino capaz de escalar paredes, Swoop é uma ave especial que voa livremente pelo gameplay e consegue apanhar pequenos objetos assim como resgatar os seus companheiros de aventura quando estes se encontram em apuros. Já Toggle, é um amigo de peso que utiliza o seu robusto perfil para derrubar obstáculos ou plataformas. Para além disso, Toggle também pode reduzir o seu porte e transformar-se em um pequeno e rápido personagem que consegue passar pelo buraco da agulha ou caminhar à superfície da água.
Também Sackboy apresenta um novo manancial de truques e habilidades e agora consegue, com destreza, subir objetos como cordas ou similares, pois toda a ajuda é necessária no planeta Bunkum depois de uma tripla de malvados Titãs serem libertados e com a ajuda do cáustico Newton têm como fim destruir o paraíso criativo deste pequeno grande planeta.
Daquilo que podemos ver (e jogar!) de “LittleBigPlanet 3”, esperam-se momentos muito interessantes e divertidos que fazem apanágio às premissas das aventuras de Sackboy e comparsas: jogar, criar, partilhar e cooperar.
É sabido que a saga “LittleBigPlanet” permite personalizar os níveis do gameplay – o novo “termómetro dinâmico” a par de uma maior capacidade do disco permite uma maior liberdade na criação de níveis – e a narrativa deste episódio possibilita ainda jogar níveis (assim como roupas e objetos conquistados) de episódios anteriores. Outra curiosidade, na versão PS4, as texturas exibem uma resolução 1080p (na versão PS3, a resolução fica-se pelos 720p), graças ao novo motor gráfico da mais recente consola da Sony.
O lançamento do jogo está agendado para o dia 26 de novembro e “LittleBigPlanet 3” vai poder ser jogado em ambiente PS4, PS3 e PSVita.
In Rua de Baixo
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