Crime à Escala Internacional
O espaço literário internacional dos romances tidos como policiais é frequentemente assaltado por uma next big thing oriunda dos países nórdicos. As expectativas são muitas mas na maioria das vezes, infelizmente, o que testemunhamos é uma constante repetição de fórmulas ainda que, por vezes, existam casos muito pertinentes.
Apelidado como “a nova voz do policial nórdico”, Alexander Soderberg – sueco natural de Estocolmo que tem experiência como argumentista na televisão do seu país e inclusive já tenha adaptado obras de Camilla Lackberg – faz-nos chegar “O Amigo Andaluz” (Porto Editora, 2014), o primeiro tomo da trilogia “Brinkmann” e que tem como figura central Sophie Brinkmann, uma enfermeira viúva que ao envolver-se com um ex-paciente vê a sua vida mudar completamente.
O culpado dessa alteração é Hector Guzman, um homem elegante e sofisticado que por trás de um charme irresistível lidera uma rede internacional de crime organizado. Fruto da sua condição, Guzman não é pessoa de aceitar um não como resposta e o vasto leque de recursos que apresenta é um garante de vitória face a qualquer obstáculo ou rival.
A viver uma situação emocional que caminha para um esperado equilíbrio face à perda precoce do seu marido, Sophie tem por melhor companhia e companheiro, Albert, o seu filho de 14 anos, mas a presença de Hector vai trazer um sol há muito esquecido.
Aos poucos, Guzman conquista a atenção e o coração de Sophie que se deixa levar. Mas o mundo do andaluz é escuro como as trevas. O tráfico de drogas não obedece a qualquer regra e nada melhor que possuir um poderoso manancial bélico para conseguir a vitória.
Enquanto a enfermeira está anestesiada com a atenção de Guzman, a sua casa está sob vigilância e a sua família em risco. A polícia abeira-se de Sophie para a ajudar mas esta está dividida. Em quem poderá confiar? Em um criminoso charmoso e apaixonante ou em um sistema policial que utiliza métodos estranhos e perigosos?
“O Amigo Andaluz” não é um livro fácil. Até o leitor encontrar o ritmo e a orientação correta para se inteirar desta obra de Alexander Soderberg aconselhamos vivamente o recurso a uma das primeiras páginas do romance que tem uma lista de personagens que são muitos e de variadíssimas nacionalidades.
Ao contrário da maioria dos romances policiais, nórdicos ou não, “O Amigo Andaluz” não tem uma narrativa “padronizada”. Neste livro não se procura um assassino de um crime em particular e o rumo da estória assemelha-se às camadas de uma cebola, tantas são as suas tramas. Suecos, russos, espanhóis e alemães disputam entre si a atenção e partilham um mundo sórdido no qual está retratada a fragilidade do ser humano.
Dividido em quatro partes, “O Amigo Andaluz” observa capítulos que divergem a sua atenção entre muitos, acreditem, personagens e locais do planeta. À medida que a tensa história se desenrola, melhor o leitor capta o seu ritmo ainda que neste primeiro volume da trilogia sejam deixadas muitas pontas soltas e a coerência de alguns acontecimentos e personagens fazem esperar que os próximos livros da saga “Brinkmann” sejam, de facto, esclarecedores.
No melhor e no menos completamente definido está a personagem de Sophie cujo crescimento e mudança de perfil durante as quase 500 páginas de “O Amigo Andaluz” assume-se como um dos pontos mais fortes em termos de expectativa para as próximas aventuras da enfermeira sueca e restante (imenso) elenco.
Livro de uma generosa complexidade, “O Amigo Andaluz” mistura traços épicos como situações que combinam momentos de ação e verdadeiro thriller que apontam para um lado mais espetacular e cinematográfico e pode transformar Sodergerg em mais um nome a ter em conta em termos do policial que vem do frio mas a sua confirmação deve, esperemos, chegar com a restante saga “Brinkmann”.
In Rua de Baixo
“Don’t think about making art, just get it done. Let everyone else decide if it’s good or bad, whether they love it or hate it. While they are deciding, make even more art.” Andy Warhol
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
“Pontes de Sarajevo”
Vários realizadores
Episódios de vida de uma Cidade
A Europa e o Mundo mudaram significativamente nos últimos 100 anos. Duas Guerras Mundiais passadas, muitos países nascidos e impérios terminados, alteram, definitivamente, a face de um planeta marcado pelos conflitos e as fronteiras políticas assumiram a forma de um intrincado puzzle depois um século de discórdia.
Assim chegamos a 2014, ano que lembra o centenário da morte do Arquiduque Francisco Fernando à mercê de Gavrilo Princip, um anarquista radical sérvio que “provocou” uma verdadeira revolução mundial.
A propósito nessa celebração, e sob a direção artística de Jean-Michel Frondon, treze cineastas europeus foram convidados a dedicar a sua câmara a Sarajevo e ao que a cidade significa para a cronologia da Europa nos últimos 100 anos.
Fruto de abordagens e filosofias díspares entre si, “Pontes de Sarajevo” é um projeto delicado cuja pertinência se revela através das perspetivas dos realizadores convidados cuja orientação e origem são sinónimo de uma muito pertinente análise de uma cidade que vive sob o efeito de uma retorcida e dilacerante memória que a assombra desde 1914.
Em uma viagem entre o passado e os traumas associados a um presente dorido, “Pontes de Sarajevo” – trabalho que teve a honrar de configurar na seleção oficial da mais recente edição do Festival de Cannes –, assume uma pretensão exorcista rumo a um estado de redenção.
O ponto de partida desta aventura, “Querida Noite”, um trabalho do búlgaro Kamen Kalev, retrata o próprio ato do assassinato de Francisco Fernando na noite de 28 de junho de 1914, perto da ponte romana da capital bósnia, episódio que dinamitou a política europeia e despoletou a Primeira Guerra Mundial.
Ao longo de cerca de duas horas, somos convidados a assistir a uma sucessão de eventos cronológicos que se pode traduzir (ou não) na história recente de Sarajevo e cabe a Kalev o privilégio de abrir a sequência com uma visão onírica que mistura uma profunda reflexão entre o destino, a providência e o livre arbítrio. Os grandes planos de Kamen Kalev revelam a intimidade de um ser (Francisco Fernando) à beira do sacrifício onde o medo se traduz na massa anónima.
E é esse também o sentimento que o sérvio Vladimir Perisic tenta transmitir em “A Vontade das Sombras”, um exercício em surdina construído com o auxílio de um conjunto de confissões sublinhadas por uma câmara que avança por entre pedaços de uma memória coletiva aqui representada por um arquivo do género bibliotecário. Tal como em outros momentos de “Pontes de Sarajevo”, o papel do espetador encontra paralelismo em um peculiar instrumento voyeur que versa sobre um acontecimento transversal que é a história da génese do conflito dos Balcãs.
O terceiro tomo deste conjunto fílmico é da responsabilidade do italiano Leonardo di Contanzo e “O Posto de Vigia” leva-nos até a uma trincheira da Primeira Guerra Mundial onde um pequeno pelotão de soldados italianos tenta reconquistar um posto de vigia que está assombrado pela exímia pontaria de um atirador inimigo.
O cheiro a morte, a desespero, a medo puro e duro, sente-se em “O Posto de Vigia” e é sinónimo do dilema do soldado em enfrentar a morte ou optar pelo cobarde ato suicida. A honra da guerra é a medalha dos destemidos e a cruz dos anónimos.
Já “Princip, Text”, da alemã Angela Schanelec, espelha algumas passagens de uma entrevista de Gavrilo Princip que se confunde com laivos de urbanidade contemporânea e fala do fim da Sérvia e de um ideal político que representa a salvação da alma. Os grandes planos dos rostos do jovem casal que lê os excertos de Princip são o espelho dessa dicotomia entre a paz e o conflito (interior).
“Europa”, do romeno Christi Puiu, revela um ambiente natalício que tem como figuras centrais um casal que no conforto da cama reflete sobre o livro “A Análise Espetral da Europa”, um misto de reflexão sobre os conflitos raciais dos Balcãs e uma atribuição de culpa, mas que deixa também espaço para a especulação de datas e o fator coincidente do aspeto numérico das mesmas. Mais uma vez, a câmara espreita a narrativa de uma perspetiva distante mas atenta e assim o espetador entra pelo quarto do casal fruto de uma porta convenientemente aberta e que convida à partilha.
Cabe ao franco-suíço Jean-Luc Godard um dos exercícios mais complexos de “Pontes de Sarajevo”. Dono de uma linguagem cinematográfica muito própria e experimental, Godard transforma “A Ponte dos Suspiros” em uma narrativa que resulta de um sucessivo quebranto de sons e imagens que mistura o bem e o mal, a morte e a sobrevivência, a violência e o conflito, através de uma forma documental. Faz-se o elogio de uma abordagem que coabita matéria e espírito e onde o poder da imagem (no caso a Fotografia enquanto expressão) capta uma realidade em estado bruto.
Tendo como pano de fundo um bonito preto e branco, o ucraniano Sergei Loznitsa oferece-nos “Reflexo(e)s”, um interessante esboço que faz entender as duas perspetivas de uma mesma imagem e que reúne em si a sobreposição de uma fotografia sobre um episódio quotidiano.
Tendo como matéria-prima fotografias dos defensores sérvios da autoria do bósnio Milomir Kovacevic, Loznitsa cria um ambiente que convida à abstração da visão face ao elemento da memória. Neste caso, é a simplicidade que se revela o maior trunfo.
“A Viagem de Zan”, do espanhol Marc Recha, conta-nos a epifania de um rapaz que vive com a sua família no interior da Catalunha que tenta entender um conflito responsável pelo abandono da sua terra natal. Para conseguir o desejado equilibro, Zan conta com as memórias que ganham vida pela voz dos relatos do seu irmão.
Recha consegue um filme de uma beleza fotográfica impar e joga com aquilo que o Homem tem de mais sagrado: os seus sentimentos. Um dos momentos mais inspirados de “Pontes de Sarajevo”.
Já a bósnia Aida Begic não segue esse lado mais narrativo e aposta num género documental que torna “Álbum” em um testemunho emocional da relação entre a cidade e os seus habitantes, entre as memórias de um conflito e a esperança de um futuro melhor. Sarajevo é, através da lente de Begic, uma paixão, um primeiro amor que nunca se esquece mas que entretanto terminou.
“Sara e sua Mãe”, da autoria de Teresa Villaverde, mostra a mudança de casa de uma família que conta com a ajuda de uma amiga da pequena Sara. Enquanto se abrem caixotes e se arrumam coisas, são as memórias que se sentem, umas partilháveis outras sob a forma de íntimo segredo. A realizadora mostra também como a cultura é um fenómeno que caiu no esquecimento da Sarajevo contemporânea que encerrou os seus museus e outros espaços lúdicos castrando assim o lado cultural de um povo.
“A Ponte”, do italiano Vicenzo Marra, revela um casal sérvio que abandonou o país aquando do cerco de Sarajevo e durante duas décadas conseguiu equilibrar-se em uma terra estranha e não deixando que as diferenças (ele muçulmano, ela cristã) assombrassem a sua existência.
Marra filma a saudade entendida de diferentes ângulos, sentimento esse que apenas é desafiado pela morte de um ente querido que faz o casal recuar ao passado e sentir a dor da perda antigas…
De França, sob a batuta de Isild Le Besco, surge um dos mais emocionantes relatos de sobrevivência de “Pontes de Sarajevo” e a história de um menino de cinco anos, órfão de pais e que vive com a avó, e que luta pela sua vida social e fraterna, é muito comovente.
Em uma cidade vítima de um conflito quase eterno, o nosso pequeno herói vagueia pela urbe e serve-se desse anonimato para se assumir como uma peça fundamental em um cenário em tons cinza. A camara de Besco acompanha esses atos de bravura com descrição e uma apaixonante sobriedade.
“Pontes de Sarajevo” tem como último capítulo “O Silêncio de Mujo”, da suíça Ursula Meier e mostra um treino de futebol onde Mujo, uma criança de dez anos, torna-se no protagonista ao falhar uma grande penalidade e ser obrigado a procurar a bola para lá da cerca.
Paredes meias com o campo, está um cemitério que mostra a triste realidade de uma cidade dividida entre muçulmanos e católicos e cujas lápides revelam vidas perdidas de forma precoce. Nesta viagem ao “reino dos mortos”, Meier transporta Mujo para o seio de uma realidade que mostra as divisões provocadas entre a vida e a morte e como um abraço anónimo pode ser sinónimo de um esparso momento reconfortante.
Pelo meio das curtas, surgem animações da autoria de Francois Schuiten e Luis da Matta Almeida que servem de interlúdio e fazem a ligação entre as referidas 13 obras que mostram algumas das feridas de uma cidade que teimam em não sarar.
No seu todo, “Pontes de Sarajevo” faz a ligação entre a memória e o presente sem descartar uma ambiência nostálgica, mas sempre com um sentimento de esperança, otimismo e fé, nunca esquecendo o lado cultural de um povo que, gradualmente, volta a reclamar tal desígnio. O futuro a todos pertence e estes trezes pedaços de história vão fazer parte dele.
In Rua de Baixo
A Europa e o Mundo mudaram significativamente nos últimos 100 anos. Duas Guerras Mundiais passadas, muitos países nascidos e impérios terminados, alteram, definitivamente, a face de um planeta marcado pelos conflitos e as fronteiras políticas assumiram a forma de um intrincado puzzle depois um século de discórdia.
Assim chegamos a 2014, ano que lembra o centenário da morte do Arquiduque Francisco Fernando à mercê de Gavrilo Princip, um anarquista radical sérvio que “provocou” uma verdadeira revolução mundial.
A propósito nessa celebração, e sob a direção artística de Jean-Michel Frondon, treze cineastas europeus foram convidados a dedicar a sua câmara a Sarajevo e ao que a cidade significa para a cronologia da Europa nos últimos 100 anos.
Fruto de abordagens e filosofias díspares entre si, “Pontes de Sarajevo” é um projeto delicado cuja pertinência se revela através das perspetivas dos realizadores convidados cuja orientação e origem são sinónimo de uma muito pertinente análise de uma cidade que vive sob o efeito de uma retorcida e dilacerante memória que a assombra desde 1914.
Em uma viagem entre o passado e os traumas associados a um presente dorido, “Pontes de Sarajevo” – trabalho que teve a honrar de configurar na seleção oficial da mais recente edição do Festival de Cannes –, assume uma pretensão exorcista rumo a um estado de redenção.
O ponto de partida desta aventura, “Querida Noite”, um trabalho do búlgaro Kamen Kalev, retrata o próprio ato do assassinato de Francisco Fernando na noite de 28 de junho de 1914, perto da ponte romana da capital bósnia, episódio que dinamitou a política europeia e despoletou a Primeira Guerra Mundial.
Ao longo de cerca de duas horas, somos convidados a assistir a uma sucessão de eventos cronológicos que se pode traduzir (ou não) na história recente de Sarajevo e cabe a Kalev o privilégio de abrir a sequência com uma visão onírica que mistura uma profunda reflexão entre o destino, a providência e o livre arbítrio. Os grandes planos de Kamen Kalev revelam a intimidade de um ser (Francisco Fernando) à beira do sacrifício onde o medo se traduz na massa anónima.
E é esse também o sentimento que o sérvio Vladimir Perisic tenta transmitir em “A Vontade das Sombras”, um exercício em surdina construído com o auxílio de um conjunto de confissões sublinhadas por uma câmara que avança por entre pedaços de uma memória coletiva aqui representada por um arquivo do género bibliotecário. Tal como em outros momentos de “Pontes de Sarajevo”, o papel do espetador encontra paralelismo em um peculiar instrumento voyeur que versa sobre um acontecimento transversal que é a história da génese do conflito dos Balcãs.
O terceiro tomo deste conjunto fílmico é da responsabilidade do italiano Leonardo di Contanzo e “O Posto de Vigia” leva-nos até a uma trincheira da Primeira Guerra Mundial onde um pequeno pelotão de soldados italianos tenta reconquistar um posto de vigia que está assombrado pela exímia pontaria de um atirador inimigo.
O cheiro a morte, a desespero, a medo puro e duro, sente-se em “O Posto de Vigia” e é sinónimo do dilema do soldado em enfrentar a morte ou optar pelo cobarde ato suicida. A honra da guerra é a medalha dos destemidos e a cruz dos anónimos.
Já “Princip, Text”, da alemã Angela Schanelec, espelha algumas passagens de uma entrevista de Gavrilo Princip que se confunde com laivos de urbanidade contemporânea e fala do fim da Sérvia e de um ideal político que representa a salvação da alma. Os grandes planos dos rostos do jovem casal que lê os excertos de Princip são o espelho dessa dicotomia entre a paz e o conflito (interior).
“Europa”, do romeno Christi Puiu, revela um ambiente natalício que tem como figuras centrais um casal que no conforto da cama reflete sobre o livro “A Análise Espetral da Europa”, um misto de reflexão sobre os conflitos raciais dos Balcãs e uma atribuição de culpa, mas que deixa também espaço para a especulação de datas e o fator coincidente do aspeto numérico das mesmas. Mais uma vez, a câmara espreita a narrativa de uma perspetiva distante mas atenta e assim o espetador entra pelo quarto do casal fruto de uma porta convenientemente aberta e que convida à partilha.
Cabe ao franco-suíço Jean-Luc Godard um dos exercícios mais complexos de “Pontes de Sarajevo”. Dono de uma linguagem cinematográfica muito própria e experimental, Godard transforma “A Ponte dos Suspiros” em uma narrativa que resulta de um sucessivo quebranto de sons e imagens que mistura o bem e o mal, a morte e a sobrevivência, a violência e o conflito, através de uma forma documental. Faz-se o elogio de uma abordagem que coabita matéria e espírito e onde o poder da imagem (no caso a Fotografia enquanto expressão) capta uma realidade em estado bruto.
Tendo como pano de fundo um bonito preto e branco, o ucraniano Sergei Loznitsa oferece-nos “Reflexo(e)s”, um interessante esboço que faz entender as duas perspetivas de uma mesma imagem e que reúne em si a sobreposição de uma fotografia sobre um episódio quotidiano.
Tendo como matéria-prima fotografias dos defensores sérvios da autoria do bósnio Milomir Kovacevic, Loznitsa cria um ambiente que convida à abstração da visão face ao elemento da memória. Neste caso, é a simplicidade que se revela o maior trunfo.
“A Viagem de Zan”, do espanhol Marc Recha, conta-nos a epifania de um rapaz que vive com a sua família no interior da Catalunha que tenta entender um conflito responsável pelo abandono da sua terra natal. Para conseguir o desejado equilibro, Zan conta com as memórias que ganham vida pela voz dos relatos do seu irmão.
Recha consegue um filme de uma beleza fotográfica impar e joga com aquilo que o Homem tem de mais sagrado: os seus sentimentos. Um dos momentos mais inspirados de “Pontes de Sarajevo”.
Já a bósnia Aida Begic não segue esse lado mais narrativo e aposta num género documental que torna “Álbum” em um testemunho emocional da relação entre a cidade e os seus habitantes, entre as memórias de um conflito e a esperança de um futuro melhor. Sarajevo é, através da lente de Begic, uma paixão, um primeiro amor que nunca se esquece mas que entretanto terminou.
“Sara e sua Mãe”, da autoria de Teresa Villaverde, mostra a mudança de casa de uma família que conta com a ajuda de uma amiga da pequena Sara. Enquanto se abrem caixotes e se arrumam coisas, são as memórias que se sentem, umas partilháveis outras sob a forma de íntimo segredo. A realizadora mostra também como a cultura é um fenómeno que caiu no esquecimento da Sarajevo contemporânea que encerrou os seus museus e outros espaços lúdicos castrando assim o lado cultural de um povo.
“A Ponte”, do italiano Vicenzo Marra, revela um casal sérvio que abandonou o país aquando do cerco de Sarajevo e durante duas décadas conseguiu equilibrar-se em uma terra estranha e não deixando que as diferenças (ele muçulmano, ela cristã) assombrassem a sua existência.
Marra filma a saudade entendida de diferentes ângulos, sentimento esse que apenas é desafiado pela morte de um ente querido que faz o casal recuar ao passado e sentir a dor da perda antigas…
De França, sob a batuta de Isild Le Besco, surge um dos mais emocionantes relatos de sobrevivência de “Pontes de Sarajevo” e a história de um menino de cinco anos, órfão de pais e que vive com a avó, e que luta pela sua vida social e fraterna, é muito comovente.
Em uma cidade vítima de um conflito quase eterno, o nosso pequeno herói vagueia pela urbe e serve-se desse anonimato para se assumir como uma peça fundamental em um cenário em tons cinza. A camara de Besco acompanha esses atos de bravura com descrição e uma apaixonante sobriedade.
“Pontes de Sarajevo” tem como último capítulo “O Silêncio de Mujo”, da suíça Ursula Meier e mostra um treino de futebol onde Mujo, uma criança de dez anos, torna-se no protagonista ao falhar uma grande penalidade e ser obrigado a procurar a bola para lá da cerca.
Paredes meias com o campo, está um cemitério que mostra a triste realidade de uma cidade dividida entre muçulmanos e católicos e cujas lápides revelam vidas perdidas de forma precoce. Nesta viagem ao “reino dos mortos”, Meier transporta Mujo para o seio de uma realidade que mostra as divisões provocadas entre a vida e a morte e como um abraço anónimo pode ser sinónimo de um esparso momento reconfortante.
Pelo meio das curtas, surgem animações da autoria de Francois Schuiten e Luis da Matta Almeida que servem de interlúdio e fazem a ligação entre as referidas 13 obras que mostram algumas das feridas de uma cidade que teimam em não sarar.
No seu todo, “Pontes de Sarajevo” faz a ligação entre a memória e o presente sem descartar uma ambiência nostálgica, mas sempre com um sentimento de esperança, otimismo e fé, nunca esquecendo o lado cultural de um povo que, gradualmente, volta a reclamar tal desígnio. O futuro a todos pertence e estes trezes pedaços de história vão fazer parte dele.
In Rua de Baixo
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Mão Morta em entrevista
"A música salva-nos a alma - e de que maneira!"
No ano em que comemoram três décadas de existência, os Mão Morta lançaram “Pelo Meu Relógios são Horas de Matar”, um registo pesado e lento, que nos traz de volta o peculiar universo musical da banda de Adolfo Luxúria Canibal. E foi o vocalista da banda que nos revelou alguns dos pormenores que levaram à génese deste disco, cujo perfil metafórico e acutilante apela à transformação e renovação de uma sociedade entre a crise e a parede, castrada de alternativas.
Palco Principal – Tal como prometido, “Pelo Meu Relógio são Horas de Matar” é um disco mais pesado e niilista, comparativamente aos últimos trabalhos dos Mão Morta. Podemos assumir o mesmo como um álbum conceptual, como um exercício simbólico de pensar a crise que nos assola?
Adolfo Luxúria Canibal - Estou de acordo que é um álbum mais pesado, sobretudo tendo em conta o disco anterior, mas de maneira nenhuma é mais niilista – bem pelo contrário, é um registo cheio de energia redentora, que a partir de uma situação negativa traça possibilidades para a sua superação. Não chega a ser um álbum conceptual – conceptual era o “Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável” –, mas sim um disco temático, como o são grande parte dos discos dos Mão Morta. E é efetivamente um exercício de pensamento sobre a realidade portuguesa, sobre o quotidiano que nos destrói.
PP – Ao longo do disco, está presente um sentimento de vertigem associado ao Homem enquanto ser social, que perdeu a sua individualidade, a capacidade de pensar, sendo subjugado a interesses conjunturais. “Hipótese de Suicídio” espelha, por exemplo, essa ideia. Qual será a solução para sair desse labirinto? Hoje, “viver é arrastar este morrer”?
ALC - A sociedade pós-industrial atomizou o indivíduo e transformou essa atomização num valor desejado e num símbolo de liberdade e autonomia – na realidade, essa atomização apenas serviu para melhor o subjugar, ao cortar-lhe os laços sociais e, com isso, afastá-lo do contacto com o real, para o substituir pelas imagens mediatizadas desse real. As soluções são sempre muitas e longe de mim querer apontar uma, mas o “Hipótese do Suicídio” serve exatamente para levantar a questão, para abrir a porta da superação desta escravatura contrária à vida em que se transformou o quotidiano dos produtores-consumidores, não através da morte – que essa, simbolicamente, já aí está presente –, mas pelo vencer do medo que os impede de dizer não à desdita e avançar pela aventura do desconhecido.
PP – No vídeo promocional do vosso disco, o privilégio de abertura cabe a Marcelo Caetano, figura devidamente homenageada, musicalmente, no minimal “Os Ossos de Marcelo Caetano”. Sentem que, politicamente, Portugal regrediu?
ALC - Aquilo que é a essência de uma democracia, que é a possibilidade de escolha e de alternativa, foi profundamente esvaziado com a desculpa da crise financeira e com a culpabilização dos cidadãos por essa crise, acusados de viverem acima das suas possibilidades, e por isso merecedores de castigo e, como tal, condenados num processo arbitrário e sem garantias mínimas de defesa. Agora, que o mal está feito, sabemos que a crise foi consequência da especulação financeira e da atividade bancária à base de produtos fictícios a que os Estados, dominados ideologicamente por posturas desreguladoras, vieram dar o seu aval, transformando o que era financeiro em soberano. Agora, vai ganhando forma e, a custo, rasgando a cortina do pensamento único, a noção de que poderá haver outra maneira de gerir a crise instalada e a economia destroçada. Agora, titubeante, começa a despontar um desígnio democrático. Mas, até agora – e hoje ainda com predomínio acentuado –, o que imperou foi o despotismo da falta de alternativa, numa equivalência da chamada Primavera Marcelista que, nos anos finais do fascismo, quis fazer vingar a ideia de que estava a acontecer uma abertura democrática quando o Estado continuava profundamente mergulhado no atavismo do pensamento único. Isto é, claramente, uma regressão, não só política mas também civilizacional, à essência dessa época funesta.
PP – Ainda a respeito desse vídeo, colocaram o mesmo no ar no dia 13 de maio, uma data forte do calendário religioso nacional. Queriam que o mesmo funcionasse como uma forma de manifesto?
ALC - Não, foi um mero acaso. Somos tão pouco beatos que nem reparamos na data. E acredito que tenha sido a um 13 de maio porque o diz, já que, de facto, não faço a mínima ideia em que dia concreto o vídeo foi tornado público.
PP – No que toca à musicalidade, “Pelo Meu Relógio…” traz à tona composições como “Hipótese de Suicídio” e, principalmente, “Nuvens Bárbaras”, dois tour de force intensos que relembram o ambiente de clássicos como o “O Divino Marquês”. Essa forma de narrativa combina um discurso acutilante como uma exploração musical onde o piano e as guitarras dão especial envolvência. Sentem que a mensagem passa melhor dessa forma ou através de canções mais “diretas”, como “Horas de Matar” ou “Mulher Clitóris Morango”?
ALC - A nós não nos preocupa a comunicação de mensagens nem sequer equacionamos qualquer mensagem a ser transmitida. Gostamos de pensar um disco como um todo, em que cada uma das canções que o compõem têm uma relação com cada uma das outras, tal como gostamos de pensar cada canção como uma obra única, composta por diversos elementos, é certo, nomeadamente letra e música, mas ainda assim única, em que os diversos componentes em que pode ser decomposta concorrem em igualdade de importância para a sua unidade. Assim, não se trata de tentar encontrar a maneira mais eficaz de passar uma mensagem – palavra que me arrepia –, mas de perceber o que faz sentido para que a fusão entre letra e música aconteça.
PP – “Pelo Meu Relógio…” é o vosso álbum mais político. Como acham que a comunidade artística portuguesa está a digerir a profanada crise? Existe um caminho para a salvação da alma através da música?
ALC - Não faço a mínima ideia de como é que a comunidade artística portuguesa está a digerir a crise, nem me interessa muito saber. Os ecos do que a comunidade artística portuguesa, supondo que tal monstro existe, está a fazer ou a não fazer não chegam ao recôndito Minho… Para nós, Mão Morta, a música é o nosso recreio, o lugar onde nos evadimos do mundo, pensando sobre ele e sobre nós, e sobretudo onde nos divertimos - e muito! Nesse sentido, salva-nos a alma – e de que maneira!
PP – O disco abre com “Irmão da Solidão”, uma canção que faz o apelo à catarse mas que reforça a noção da perda do sentido opinativo. Estará o Homem moderno condenado a uma felicidade segmentada?
ALC - A felicidade não é sempre segmentada? O discurso mediático cria a ilusão de que a felicidade é uma espécie de nirvana permanente, mais da ordem do ser do que do estar, e – já agora – que está intrinsecamente associada à posse dos mais díspares produtos e objetos. Mas isso não passa de falácia de vendedor de carros usados…
PP – O disco, no seu todo, é muito coeso, e música e mensagem apresentam uma grande coerência. Como se realizou o processo de composição? Primeiro pensaram a música, as letras ou no conceito?
ALC - Tudo partiu de uma vontade de experimentar como ficaria a música, uma qualquer composição rock, se o seu tempo fosse desacelerado. Fizemos uma primeira experiência usando uma letra antiga, de uma canção que pertencera aos Auaufeiomau e, a partir do resultado obtido e da impressão positiva que nos causou, tudo o resto foi mais ou menos em simultâneo e em catadupa: o tema, a ideia da narrativa geral para o disco, a composição das músicas, em sucessivas declinações da ideia original de desaceleração do tempo, e as letras concretas para cada uma dessas composições. Foi um processo muito homogéneo e daí, talvez, essa coesão final que conseguimos atingir.
PP – A metáfora é uma das formas de poesia mais utilizadas para a composição dos Mão Morta. Pelo vosso relógio é mesmo hora de matar?
ALC - São sempre horas de matar, entendendo-se aqui matar no sentido que as cartas do Tarot dão à morte – que é um momento de transformação e de renovação –, sobretudo quando, como atualmente, o presente se mostra tão negativo.
In Palco Principal
No ano em que comemoram três décadas de existência, os Mão Morta lançaram “Pelo Meu Relógios são Horas de Matar”, um registo pesado e lento, que nos traz de volta o peculiar universo musical da banda de Adolfo Luxúria Canibal. E foi o vocalista da banda que nos revelou alguns dos pormenores que levaram à génese deste disco, cujo perfil metafórico e acutilante apela à transformação e renovação de uma sociedade entre a crise e a parede, castrada de alternativas.
Palco Principal – Tal como prometido, “Pelo Meu Relógio são Horas de Matar” é um disco mais pesado e niilista, comparativamente aos últimos trabalhos dos Mão Morta. Podemos assumir o mesmo como um álbum conceptual, como um exercício simbólico de pensar a crise que nos assola?
Adolfo Luxúria Canibal - Estou de acordo que é um álbum mais pesado, sobretudo tendo em conta o disco anterior, mas de maneira nenhuma é mais niilista – bem pelo contrário, é um registo cheio de energia redentora, que a partir de uma situação negativa traça possibilidades para a sua superação. Não chega a ser um álbum conceptual – conceptual era o “Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável” –, mas sim um disco temático, como o são grande parte dos discos dos Mão Morta. E é efetivamente um exercício de pensamento sobre a realidade portuguesa, sobre o quotidiano que nos destrói.
PP – Ao longo do disco, está presente um sentimento de vertigem associado ao Homem enquanto ser social, que perdeu a sua individualidade, a capacidade de pensar, sendo subjugado a interesses conjunturais. “Hipótese de Suicídio” espelha, por exemplo, essa ideia. Qual será a solução para sair desse labirinto? Hoje, “viver é arrastar este morrer”?
ALC - A sociedade pós-industrial atomizou o indivíduo e transformou essa atomização num valor desejado e num símbolo de liberdade e autonomia – na realidade, essa atomização apenas serviu para melhor o subjugar, ao cortar-lhe os laços sociais e, com isso, afastá-lo do contacto com o real, para o substituir pelas imagens mediatizadas desse real. As soluções são sempre muitas e longe de mim querer apontar uma, mas o “Hipótese do Suicídio” serve exatamente para levantar a questão, para abrir a porta da superação desta escravatura contrária à vida em que se transformou o quotidiano dos produtores-consumidores, não através da morte – que essa, simbolicamente, já aí está presente –, mas pelo vencer do medo que os impede de dizer não à desdita e avançar pela aventura do desconhecido.
PP – No vídeo promocional do vosso disco, o privilégio de abertura cabe a Marcelo Caetano, figura devidamente homenageada, musicalmente, no minimal “Os Ossos de Marcelo Caetano”. Sentem que, politicamente, Portugal regrediu?
ALC - Aquilo que é a essência de uma democracia, que é a possibilidade de escolha e de alternativa, foi profundamente esvaziado com a desculpa da crise financeira e com a culpabilização dos cidadãos por essa crise, acusados de viverem acima das suas possibilidades, e por isso merecedores de castigo e, como tal, condenados num processo arbitrário e sem garantias mínimas de defesa. Agora, que o mal está feito, sabemos que a crise foi consequência da especulação financeira e da atividade bancária à base de produtos fictícios a que os Estados, dominados ideologicamente por posturas desreguladoras, vieram dar o seu aval, transformando o que era financeiro em soberano. Agora, vai ganhando forma e, a custo, rasgando a cortina do pensamento único, a noção de que poderá haver outra maneira de gerir a crise instalada e a economia destroçada. Agora, titubeante, começa a despontar um desígnio democrático. Mas, até agora – e hoje ainda com predomínio acentuado –, o que imperou foi o despotismo da falta de alternativa, numa equivalência da chamada Primavera Marcelista que, nos anos finais do fascismo, quis fazer vingar a ideia de que estava a acontecer uma abertura democrática quando o Estado continuava profundamente mergulhado no atavismo do pensamento único. Isto é, claramente, uma regressão, não só política mas também civilizacional, à essência dessa época funesta.
PP – Ainda a respeito desse vídeo, colocaram o mesmo no ar no dia 13 de maio, uma data forte do calendário religioso nacional. Queriam que o mesmo funcionasse como uma forma de manifesto?
ALC - Não, foi um mero acaso. Somos tão pouco beatos que nem reparamos na data. E acredito que tenha sido a um 13 de maio porque o diz, já que, de facto, não faço a mínima ideia em que dia concreto o vídeo foi tornado público.
PP – No que toca à musicalidade, “Pelo Meu Relógio…” traz à tona composições como “Hipótese de Suicídio” e, principalmente, “Nuvens Bárbaras”, dois tour de force intensos que relembram o ambiente de clássicos como o “O Divino Marquês”. Essa forma de narrativa combina um discurso acutilante como uma exploração musical onde o piano e as guitarras dão especial envolvência. Sentem que a mensagem passa melhor dessa forma ou através de canções mais “diretas”, como “Horas de Matar” ou “Mulher Clitóris Morango”?
ALC - A nós não nos preocupa a comunicação de mensagens nem sequer equacionamos qualquer mensagem a ser transmitida. Gostamos de pensar um disco como um todo, em que cada uma das canções que o compõem têm uma relação com cada uma das outras, tal como gostamos de pensar cada canção como uma obra única, composta por diversos elementos, é certo, nomeadamente letra e música, mas ainda assim única, em que os diversos componentes em que pode ser decomposta concorrem em igualdade de importância para a sua unidade. Assim, não se trata de tentar encontrar a maneira mais eficaz de passar uma mensagem – palavra que me arrepia –, mas de perceber o que faz sentido para que a fusão entre letra e música aconteça.
PP – “Pelo Meu Relógio…” é o vosso álbum mais político. Como acham que a comunidade artística portuguesa está a digerir a profanada crise? Existe um caminho para a salvação da alma através da música?
ALC - Não faço a mínima ideia de como é que a comunidade artística portuguesa está a digerir a crise, nem me interessa muito saber. Os ecos do que a comunidade artística portuguesa, supondo que tal monstro existe, está a fazer ou a não fazer não chegam ao recôndito Minho… Para nós, Mão Morta, a música é o nosso recreio, o lugar onde nos evadimos do mundo, pensando sobre ele e sobre nós, e sobretudo onde nos divertimos - e muito! Nesse sentido, salva-nos a alma – e de que maneira!
PP – O disco abre com “Irmão da Solidão”, uma canção que faz o apelo à catarse mas que reforça a noção da perda do sentido opinativo. Estará o Homem moderno condenado a uma felicidade segmentada?
ALC - A felicidade não é sempre segmentada? O discurso mediático cria a ilusão de que a felicidade é uma espécie de nirvana permanente, mais da ordem do ser do que do estar, e – já agora – que está intrinsecamente associada à posse dos mais díspares produtos e objetos. Mas isso não passa de falácia de vendedor de carros usados…
PP – O disco, no seu todo, é muito coeso, e música e mensagem apresentam uma grande coerência. Como se realizou o processo de composição? Primeiro pensaram a música, as letras ou no conceito?
ALC - Tudo partiu de uma vontade de experimentar como ficaria a música, uma qualquer composição rock, se o seu tempo fosse desacelerado. Fizemos uma primeira experiência usando uma letra antiga, de uma canção que pertencera aos Auaufeiomau e, a partir do resultado obtido e da impressão positiva que nos causou, tudo o resto foi mais ou menos em simultâneo e em catadupa: o tema, a ideia da narrativa geral para o disco, a composição das músicas, em sucessivas declinações da ideia original de desaceleração do tempo, e as letras concretas para cada uma dessas composições. Foi um processo muito homogéneo e daí, talvez, essa coesão final que conseguimos atingir.
PP – A metáfora é uma das formas de poesia mais utilizadas para a composição dos Mão Morta. Pelo vosso relógio é mesmo hora de matar?
ALC - São sempre horas de matar, entendendo-se aqui matar no sentido que as cartas do Tarot dão à morte – que é um momento de transformação e de renovação –, sobretudo quando, como atualmente, o presente se mostra tão negativo.
In Palco Principal
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
“Montedor”
de J. Rentes de Carvalho
O cenário de crise em Portugal está, infelizmente, envolvido numa dinâmica de eterno retorno. Ciclicamente, somos arrastados para um profundo estado de apatia no que toca ao desenvolvimento económico, social e pessoal.
Hoje, a profunda depressão que a sociedade portuguesa atravessa é como um dilacerante sentimento de déjà vu. O desemprego teima em manter-se elevado (ainda que alguns tentem desmenti-lo com base em subterfúgios envoltos de características pontuais ou sazonais), a confiança está no limiar do desespero e, uma das soluções encontradas por milhares, é a emigração.
É esse um dos paralelismos que encontramos em “Montedor” (Quetzal, 2014), o primeiro romance de J. Rentes de Carvalho, um livro que nos apresenta um anónimo personagem que, na distante década de 1960, sentia na pele a desesperança de muitas famílias portuguesas que, depois de muita luta, não encontra uma saída, um rasgo de futuro.
A solução passa por sonhar, por não desistir de um qualquer objetivo mas que, ainda assim, se desmorona com o passar do tempo. Ao viver uma vida onde a frustração é apenas erradicada (e a muito esforço) através de laivos de uma irrealidade momentânea, o presente pode ser sinónimo de uma morte lenta, de um impasse que corrói a alma e pode levar a quebrar fronteiras morais.
Ainda que através de uma (des)confortável lupa, “Montedor” reflete também uma das fases da vida de Rentes de Carvalho, quando foi obrigado a sair do país por questões políticas e que o tornou em um cidadão do mundo ao palmilhar as Américas passando pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Nova Iorque, como também alguns canto da Europa como Paris ou Amesterdão – esta última cidade que ofereceu ao homem nascido em Vila Nova de Gaia a oportunidade de se licenciar em Literatura Portuguesa, disciplina que lecionou entre 1964 e 1988.
Enquanto paira no ar um sentimento que traz à tona uma tensão constante, “Montedor” é um retrato onde o destino é adiado de forma crua e o medo está ao virar de cada canto da existência. Viver é, assim, entendido como uma luta entre o fantasma do “tentar ser” e a (triste) consciência do que se “é”.
Em uma sociedade que tem no “tacho” uma das mais tradicionais formas de sobrevivência social, o nosso personagem procura uma espécie de El Dourado. Os estudos fracassam, a tropa revela-se pouco útil e as austrálias, tão longe, não são alternativas reais. O recurso ao padre – em troca de uma franga – é sinónimo de um embaraço da desventura, uma forma de pedalar uma bicicleta que percorre um trajeto repleto de obstáculos entre o café e o local a que se ousa chamar de “casa”.
Viviam-se (tal como hoje) tempos onde a miséria de espírito é um reflexo da precariedade social de um país fechado em si mesmo sob a égide da ditadura. Ao “herói” de “Montedor” resta pouco mais do esconder-se no refúgio fugaz da felicidade, aqui entendido como o leito, bem como nas páginas de livros e jornais na esperança de antecipar o tal estado onírico que tarda.
Nas entrelinhas percebe-se também uma crítica mordaz ao hábito da Igreja que, no caso, não faz o monge. Mas talvez a salvação, ou não, passe mesmo por um matrimónio a contra gosto e a vida que mais parece a dor de um parto precoce e indevido possa endireitar por linhas tortas.
Com uma prosa direta, simples e repleta de uma portugalidade que se vive ainda fora dos grandes meios urbanos, “Montedor” é um livro fabuloso e a sua leitura é obrigatória.
Galardoado recentemente com os prémios APE (Associação Portuguesa de Escritores) para a Escrita Biográfica e Crónica, Rentes de Carvalho é, sem dúvida, um dos autores mais emblemáticos de língua portuguesa. Esta edição da Quetzal reflete esse estatuto e dimensão.
In deusmelivro
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
“As Raparigas Cintilantes”
de Lauren Beukes
Assassino intemporal
Enquanto Chicago sente as dilacerantes consequências da Grande Depressão, Harpes Curtis, um vagabundo violento e paranoico, encontra uma casa que reserva em si um segredo que mistura magia e tormento. De exterior decrépito, a invulgar habitação observa um interior opulento. Para além disso, um cadáver estendido em um dos corredores adensa o mistério.
Ao explorar o local, Harper dá de caras com uma grande quantia de dinheiro assim como com uma coleção de objetos que pertencem a dispares períodos temporais. Mas o mais intrigante é um portal que possibilita viajar entre o passado e o futuro.
A ligação entre a Casa e o vagabundo adensa-se e Curtis começa a entender o que o chamou a tal local. A mensagem é clara: Harper deve encontrar raparigas que “brilham” e as mesmas estão espalhadas ao longo de uma peculiar linha cronológica. Sem olhar a credos ou afins, Harper interioriza a sua demanda. As raparigas devem morrer e sentir a força da sua faca. Alice, Julia, Margot, Jin-Sook, Zora, Willie, Misha e Catherine cintilam e esperam a morte. Mas nem tudo corre na perfeição ao plano de Curtis…
Kirby Mazrachi está a passar pela maior provação da sua vida. Vítima de uma brutal tentativa de assassinato, salva-se miraculosamente mas depois de recuperar, em parte, a sua vida, olha ao espelho e cada cicatriz que sente no corpo é uma razão para não desistir de procurar o seu agressor.
Vivem-se os anos 1990 e Chicago continua uma cidade emersa em si mesma. Kirby, aspirante a jornalista e dona de uma alma (e visual) punk, consegue um estágio na editoria de desporto no Chicago Sun-Times, ficando à responsabilidade de Dan Velasquez, um antigo repórter criminal. Paralelamente ao seu trabalho no campo do desporto, Mazrachi serve-se do arquivo do jornal para procurar mais informações sobre outras raparigas assassinadas e aquilo que descobre desafia a compreensão humana.
Por entre linhas que se bifurcam entre o thriller policial, o fantástico e o terror, “As Raparigas Cintilantes” (Porto Editora, 2014) assume-se com a estreia nos escaparates nacionais da obra da sul-africana Lauren Beukes que acumula as funções de argumentista, realizadora de documentários, autora de livros de banda desenhada e jornalista com a nobre arte de escrever romances.
Beukes que teve a honrar de receber o consagrado Prémio Authur C. Clarke por altura da publicação do seu romance visionário “Zoo City” – que brevemente será alvo de uma adaptação cinematográfica – faz-nos chegar um livro que vai fazer as delícias dos que procuram emoções fortes e não se deixam intimidar com cenas que combinam brutalidade, terror e uma demência atroz e que se serve de constantes flashbacks que tornam a narrativa muito dinâmica e apelativa principalmente devido aos curtos capítulos que alternam entre realidades, personagens e linhas cronológicas.
O segredo do sucesso deste livro está na atribulada relação do trio Harper-Kirby-Dan, ainda que não exista um grande trabalho em termos de densidade emocional no que toca à caracterização dos personagens por parte de Beukes. Ainda assim, no seu todo, “As Raparigas Cintilantes” é uma obra interessante que mexe com a memória e as cicatrizes (metafóricas ou reais) cravadas no corpo de assassinos e vítimas, sendo a sua leitura uma espécie de redenção.
In Rua de Baixo
Enquanto Chicago sente as dilacerantes consequências da Grande Depressão, Harpes Curtis, um vagabundo violento e paranoico, encontra uma casa que reserva em si um segredo que mistura magia e tormento. De exterior decrépito, a invulgar habitação observa um interior opulento. Para além disso, um cadáver estendido em um dos corredores adensa o mistério.
Ao explorar o local, Harper dá de caras com uma grande quantia de dinheiro assim como com uma coleção de objetos que pertencem a dispares períodos temporais. Mas o mais intrigante é um portal que possibilita viajar entre o passado e o futuro.
A ligação entre a Casa e o vagabundo adensa-se e Curtis começa a entender o que o chamou a tal local. A mensagem é clara: Harper deve encontrar raparigas que “brilham” e as mesmas estão espalhadas ao longo de uma peculiar linha cronológica. Sem olhar a credos ou afins, Harper interioriza a sua demanda. As raparigas devem morrer e sentir a força da sua faca. Alice, Julia, Margot, Jin-Sook, Zora, Willie, Misha e Catherine cintilam e esperam a morte. Mas nem tudo corre na perfeição ao plano de Curtis…
Kirby Mazrachi está a passar pela maior provação da sua vida. Vítima de uma brutal tentativa de assassinato, salva-se miraculosamente mas depois de recuperar, em parte, a sua vida, olha ao espelho e cada cicatriz que sente no corpo é uma razão para não desistir de procurar o seu agressor.
Vivem-se os anos 1990 e Chicago continua uma cidade emersa em si mesma. Kirby, aspirante a jornalista e dona de uma alma (e visual) punk, consegue um estágio na editoria de desporto no Chicago Sun-Times, ficando à responsabilidade de Dan Velasquez, um antigo repórter criminal. Paralelamente ao seu trabalho no campo do desporto, Mazrachi serve-se do arquivo do jornal para procurar mais informações sobre outras raparigas assassinadas e aquilo que descobre desafia a compreensão humana.
Por entre linhas que se bifurcam entre o thriller policial, o fantástico e o terror, “As Raparigas Cintilantes” (Porto Editora, 2014) assume-se com a estreia nos escaparates nacionais da obra da sul-africana Lauren Beukes que acumula as funções de argumentista, realizadora de documentários, autora de livros de banda desenhada e jornalista com a nobre arte de escrever romances.
Beukes que teve a honrar de receber o consagrado Prémio Authur C. Clarke por altura da publicação do seu romance visionário “Zoo City” – que brevemente será alvo de uma adaptação cinematográfica – faz-nos chegar um livro que vai fazer as delícias dos que procuram emoções fortes e não se deixam intimidar com cenas que combinam brutalidade, terror e uma demência atroz e que se serve de constantes flashbacks que tornam a narrativa muito dinâmica e apelativa principalmente devido aos curtos capítulos que alternam entre realidades, personagens e linhas cronológicas.
O segredo do sucesso deste livro está na atribulada relação do trio Harper-Kirby-Dan, ainda que não exista um grande trabalho em termos de densidade emocional no que toca à caracterização dos personagens por parte de Beukes. Ainda assim, no seu todo, “As Raparigas Cintilantes” é uma obra interessante que mexe com a memória e as cicatrizes (metafóricas ou reais) cravadas no corpo de assassinos e vítimas, sendo a sua leitura uma espécie de redenção.
In Rua de Baixo
terça-feira, 21 de outubro de 2014
“Duas Vidas”
de Georg Maas
A verdade da mentira
Em novembro de 1989, Berlim tornou-se, por alguns dias, no epicentro do mundo. Quase três décadas depois da sua construção, o Muro de Berlim, para muitos apelidado de Parede da Vergonha, era derrubado. Berlim e a Alemanha (e por que não dizer o mundo) regressavam ao ponto de partida, sem divisões. Por terra caiam as repúblicas federais e democráticas, a Guerra Fria terminava.
O muro que dividia a Europa entre ocidente e a influência de leste foi destruído em clima de euforia. A liberdade chegava, finalmente, mas, ainda assim, nem todas as questões associadas à Cortina de Ferro ficaram resolvidas. A política, como sempre, é dona de longos tentáculos e os seus fins justificam alguns meios.
É na ressaca do eco dos acontecimentos registados a 9 de novembro de 1989 que “Duas Vidas”, a segunda longa-metragem do alemão Georg Mass, toma palco tendo como fonte inspiradora um romance baseado em fatos verídicos da autoria de Hannalore Hippe.
A ação leva-nos a terras norueguesas no raiar da década de 1990 e Katrine Evensen Myrdal (Juliane Katrine) é uma mulher feliz e o centro de uma família estável. Trabalha numa empresa de design gráfico e é casada com Bjarte Myrdal (Sven Nordin), um capitão naval. O casal tem como maior preocupação a filha Anne (Julia Bache-Wiig), estudante universitária e mãe solteira. O outro elemento da família é Ase Evensen (Liv Ullmann, uma das divas de Ingmar Bergman), mãe de Katrine e uma bisavó muito presente.
Tudo está tranquilo até à chegada de Sven Solbach (Ken Duken), um idealista advogado com uma nobre causa e que quer processar o Estado norueguês. Com a reunificação alemã em progresso, são possíveis alguns ajustes de contas jurídicas pela (nova) Europa.
Ainda que a família não tenha muito presente o fato, Katrine é fruto de uma relação proibida, é um bebé “Lebensborn”. Também apelidadas de “crianças da vergonha”, muitos foram os bebés cuja génese foi a relação entre a uma mãe (norueguesa) e um oficial nazi durante a ocupação na Segunda Grande Guerra.
Ase engravidou de um soldado alemão e Katrine nasceu em um período conturbado. A vitória dos Aliados teve as suas consequências e muitos foram mortos ou acusados e presos por serem colaboracionistas das forças de Hitler.
Antes, os bebés foram encaminhados para um orfanato especial na Saxónia que funcionava como uma espécie de “laboratório da raça ariana”. O Terceiro Reich conseguiu seduzir muitos noruegueses a fazerem parte da mistura étnica que resultaria na supra raça ariana. Mas o conflito terminaria e a Cortina de Ferro separou tudo e todos. As crianças perderam o rasto dos pais.
Mas a conjuntura mudou e a verdade pode ser reposta ainda que tal acarrete custos. Depois de muita insistência, Sven Solbach consegue levar Katrine a testemunhar em tribunal a sua experiência de vida e na sequência de tal a realidade começa a ficar ligeiramente distorcida. O que leva alguém a esconder algo durante uma vida inteira? Pode alguém assumir uma identidade falsa em nome de uma missão?
Como uma narrativa de construção semelhante às obras de mestres do suspense e espionagem como John le Carré, “Duas Vidas” aposta na duplicidade de uma personalidade que luta interiormente entre a verdade e a conveniência, entre a vida e uma missão. Nesta adaptação de Mass face ao romance de Hannalore Hippe são caras as aproximações à espionagem nos tempos da Guerra Fria e ao longo do filme o espetador é convidado a desbravar as várias camadas de uma mesma estória. Com o recurso a muitos flashbacks, “Duas Vidas”, assume a forma de um puzzle com uma leitura cronológica difusa mas que permite, gradualmente, um conveniente entendimento.
A par dos referidos regressos ao passado – período que tem Klara Manzel a interpretar o papel da jovem Katrine -, Maas aposta numa filmagem segura a formal mas, a espaços, concede à câmara uma liberdade que a faz deslizar sobre a belíssima paisagem nórdica ou colocar, com distinção, os atores como figuras preponderantes face a uma narrativa que aqui e ali parece carecer de um ou outro pormenor ainda que tal seja ultrapassado com competência no seu todo.
De forma propositada ou não, ao longo do filme somos levados a pensar se Maas terá tido como propósito assentar a sua perspetiva sobre um perfil de espionagem pura ou fazer realçar mais a questão dramática dos acontecimentos que receberam o nome do ideal nazi apelidado de “Fonte da Vida”.
Acima de tudo, “Duas Vidas” foca-se na exploração levada a cabo pela Stasi, os serviços secretos da ex-RDA, na tentativa de forjar falsas identidades aos seus agentes recrutados ao programa “Lebensborn”.
Escolhido como o candidato alemão ao Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro em 2014, “Duas Vidas” – que já arrecadou galardões como o Melhor Filme no Festival de Cinema Alemão – é um filme muito interessante e conta com um fortíssimo e coeso elenco com destaque para Kohler e Ullmann que muitas vezes não precisam de quaisquer palavras para expressar os seus sentimentos, sendo as suas faces verdadeiros espelhos da alma.
A banda sonora de Christoph Kaiser e Julian Maas também dá um forte contributo ao filme e faz da música um elemento preponderante na evolução narrativa do filme, papel que deve ser dividido com a fotografia de Judith Kaufmann que trabalha com mestria os díspares momentos da própria trama.
In Rua de Baixo
Em novembro de 1989, Berlim tornou-se, por alguns dias, no epicentro do mundo. Quase três décadas depois da sua construção, o Muro de Berlim, para muitos apelidado de Parede da Vergonha, era derrubado. Berlim e a Alemanha (e por que não dizer o mundo) regressavam ao ponto de partida, sem divisões. Por terra caiam as repúblicas federais e democráticas, a Guerra Fria terminava.
O muro que dividia a Europa entre ocidente e a influência de leste foi destruído em clima de euforia. A liberdade chegava, finalmente, mas, ainda assim, nem todas as questões associadas à Cortina de Ferro ficaram resolvidas. A política, como sempre, é dona de longos tentáculos e os seus fins justificam alguns meios.
É na ressaca do eco dos acontecimentos registados a 9 de novembro de 1989 que “Duas Vidas”, a segunda longa-metragem do alemão Georg Mass, toma palco tendo como fonte inspiradora um romance baseado em fatos verídicos da autoria de Hannalore Hippe.
A ação leva-nos a terras norueguesas no raiar da década de 1990 e Katrine Evensen Myrdal (Juliane Katrine) é uma mulher feliz e o centro de uma família estável. Trabalha numa empresa de design gráfico e é casada com Bjarte Myrdal (Sven Nordin), um capitão naval. O casal tem como maior preocupação a filha Anne (Julia Bache-Wiig), estudante universitária e mãe solteira. O outro elemento da família é Ase Evensen (Liv Ullmann, uma das divas de Ingmar Bergman), mãe de Katrine e uma bisavó muito presente.
Tudo está tranquilo até à chegada de Sven Solbach (Ken Duken), um idealista advogado com uma nobre causa e que quer processar o Estado norueguês. Com a reunificação alemã em progresso, são possíveis alguns ajustes de contas jurídicas pela (nova) Europa.
Ainda que a família não tenha muito presente o fato, Katrine é fruto de uma relação proibida, é um bebé “Lebensborn”. Também apelidadas de “crianças da vergonha”, muitos foram os bebés cuja génese foi a relação entre a uma mãe (norueguesa) e um oficial nazi durante a ocupação na Segunda Grande Guerra.
Ase engravidou de um soldado alemão e Katrine nasceu em um período conturbado. A vitória dos Aliados teve as suas consequências e muitos foram mortos ou acusados e presos por serem colaboracionistas das forças de Hitler.
Antes, os bebés foram encaminhados para um orfanato especial na Saxónia que funcionava como uma espécie de “laboratório da raça ariana”. O Terceiro Reich conseguiu seduzir muitos noruegueses a fazerem parte da mistura étnica que resultaria na supra raça ariana. Mas o conflito terminaria e a Cortina de Ferro separou tudo e todos. As crianças perderam o rasto dos pais.
Mas a conjuntura mudou e a verdade pode ser reposta ainda que tal acarrete custos. Depois de muita insistência, Sven Solbach consegue levar Katrine a testemunhar em tribunal a sua experiência de vida e na sequência de tal a realidade começa a ficar ligeiramente distorcida. O que leva alguém a esconder algo durante uma vida inteira? Pode alguém assumir uma identidade falsa em nome de uma missão?
Como uma narrativa de construção semelhante às obras de mestres do suspense e espionagem como John le Carré, “Duas Vidas” aposta na duplicidade de uma personalidade que luta interiormente entre a verdade e a conveniência, entre a vida e uma missão. Nesta adaptação de Mass face ao romance de Hannalore Hippe são caras as aproximações à espionagem nos tempos da Guerra Fria e ao longo do filme o espetador é convidado a desbravar as várias camadas de uma mesma estória. Com o recurso a muitos flashbacks, “Duas Vidas”, assume a forma de um puzzle com uma leitura cronológica difusa mas que permite, gradualmente, um conveniente entendimento.
A par dos referidos regressos ao passado – período que tem Klara Manzel a interpretar o papel da jovem Katrine -, Maas aposta numa filmagem segura a formal mas, a espaços, concede à câmara uma liberdade que a faz deslizar sobre a belíssima paisagem nórdica ou colocar, com distinção, os atores como figuras preponderantes face a uma narrativa que aqui e ali parece carecer de um ou outro pormenor ainda que tal seja ultrapassado com competência no seu todo.
De forma propositada ou não, ao longo do filme somos levados a pensar se Maas terá tido como propósito assentar a sua perspetiva sobre um perfil de espionagem pura ou fazer realçar mais a questão dramática dos acontecimentos que receberam o nome do ideal nazi apelidado de “Fonte da Vida”.
Acima de tudo, “Duas Vidas” foca-se na exploração levada a cabo pela Stasi, os serviços secretos da ex-RDA, na tentativa de forjar falsas identidades aos seus agentes recrutados ao programa “Lebensborn”.
Escolhido como o candidato alemão ao Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro em 2014, “Duas Vidas” – que já arrecadou galardões como o Melhor Filme no Festival de Cinema Alemão – é um filme muito interessante e conta com um fortíssimo e coeso elenco com destaque para Kohler e Ullmann que muitas vezes não precisam de quaisquer palavras para expressar os seus sentimentos, sendo as suas faces verdadeiros espelhos da alma.
A banda sonora de Christoph Kaiser e Julian Maas também dá um forte contributo ao filme e faz da música um elemento preponderante na evolução narrativa do filme, papel que deve ser dividido com a fotografia de Judith Kaufmann que trabalha com mestria os díspares momentos da própria trama.
In Rua de Baixo
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
“Bolota”
de Yoko Ono
Cantora, artista plástica e cineasta, a japonesa Yoko Ono ficou, acima de tudo, conhecida por ser a ex-mulher de John Lennon e, para muitos, a principal responsável pelo fim dos The Beatles. Mas tal epíteto é manifestamente injusto.
Depois de uma juventude dividida entre o Japão e os Estados Unidos da América, Ono decidiu fixar-se em Nova Iorque no início da década de 1950. Foi nessa cosmopolita metrópole que conheceu alguns dos maiores vultos da cultura vanguardista entre os quais se destacava, por exemplo, o músico John Cage.
De profundo espírito independente, rejeitaria o apoio e o apelo da sua milionária família para regressar ao Japão, optando por ensinar arte japonesa e música em algumas escolas públicas norte-americanas. Paralelamente, está na génese da formação de um novo movimento vanguardista denominado Fluxus, onde explorava ideias que juntavam conceitos dadaístas e construtivistas.
otalmente embrenhada na exploração da arte enquanto forma de expressão universal, Yoko Ono lança em 1964 o livro “Grapefruit”, obra que exemplificava o expoente da arte conceptual através de uma nova filosofia e perspetivas. Hoje, quase cinco décadas depois, Ono regressa com “Bolota” (Pergaminho, 2014), uma espécie de elemento de continuidade face a “Grapefruit”, que nasceu para integrar um evento de uma plataforma online e, depois, assumiu a forma de livro. No fundo, o propósito foi, nas palavras da autora, «viajar numa máquina do tempo que me transportasse para a forma antiga de fazer as coisas.»
Como uma semente que deve ser enraizada nas entrelinhas da história de Yoko Ono, “Bolota” condensa pensamentos, poemas, meditações e desenhos (entre a bizarria e a abstração) ponteados da japonesa, que assim incita à reflexão. As palavras fluem de forma serena e mordaz e ao leitor está reservado um papel fruidor e humanista que possibilita uma viagem entre o céu, a terra e a cidade, passando por tangentes face às estações do ano, à magia dos sons e silêncios ou à própria vida.
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