“Don’t think about making art, just get it done. Let everyone else decide if it’s good or bad, whether they love it or hate it. While they are deciding, make even more art.” Andy Warhol
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
“Montedor”
de J. Rentes de Carvalho
O cenário de crise em Portugal está, infelizmente, envolvido numa dinâmica de eterno retorno. Ciclicamente, somos arrastados para um profundo estado de apatia no que toca ao desenvolvimento económico, social e pessoal.
Hoje, a profunda depressão que a sociedade portuguesa atravessa é como um dilacerante sentimento de déjà vu. O desemprego teima em manter-se elevado (ainda que alguns tentem desmenti-lo com base em subterfúgios envoltos de características pontuais ou sazonais), a confiança está no limiar do desespero e, uma das soluções encontradas por milhares, é a emigração.
É esse um dos paralelismos que encontramos em “Montedor” (Quetzal, 2014), o primeiro romance de J. Rentes de Carvalho, um livro que nos apresenta um anónimo personagem que, na distante década de 1960, sentia na pele a desesperança de muitas famílias portuguesas que, depois de muita luta, não encontra uma saída, um rasgo de futuro.
A solução passa por sonhar, por não desistir de um qualquer objetivo mas que, ainda assim, se desmorona com o passar do tempo. Ao viver uma vida onde a frustração é apenas erradicada (e a muito esforço) através de laivos de uma irrealidade momentânea, o presente pode ser sinónimo de uma morte lenta, de um impasse que corrói a alma e pode levar a quebrar fronteiras morais.
Ainda que através de uma (des)confortável lupa, “Montedor” reflete também uma das fases da vida de Rentes de Carvalho, quando foi obrigado a sair do país por questões políticas e que o tornou em um cidadão do mundo ao palmilhar as Américas passando pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Nova Iorque, como também alguns canto da Europa como Paris ou Amesterdão – esta última cidade que ofereceu ao homem nascido em Vila Nova de Gaia a oportunidade de se licenciar em Literatura Portuguesa, disciplina que lecionou entre 1964 e 1988.
Enquanto paira no ar um sentimento que traz à tona uma tensão constante, “Montedor” é um retrato onde o destino é adiado de forma crua e o medo está ao virar de cada canto da existência. Viver é, assim, entendido como uma luta entre o fantasma do “tentar ser” e a (triste) consciência do que se “é”.
Em uma sociedade que tem no “tacho” uma das mais tradicionais formas de sobrevivência social, o nosso personagem procura uma espécie de El Dourado. Os estudos fracassam, a tropa revela-se pouco útil e as austrálias, tão longe, não são alternativas reais. O recurso ao padre – em troca de uma franga – é sinónimo de um embaraço da desventura, uma forma de pedalar uma bicicleta que percorre um trajeto repleto de obstáculos entre o café e o local a que se ousa chamar de “casa”.
Viviam-se (tal como hoje) tempos onde a miséria de espírito é um reflexo da precariedade social de um país fechado em si mesmo sob a égide da ditadura. Ao “herói” de “Montedor” resta pouco mais do esconder-se no refúgio fugaz da felicidade, aqui entendido como o leito, bem como nas páginas de livros e jornais na esperança de antecipar o tal estado onírico que tarda.
Nas entrelinhas percebe-se também uma crítica mordaz ao hábito da Igreja que, no caso, não faz o monge. Mas talvez a salvação, ou não, passe mesmo por um matrimónio a contra gosto e a vida que mais parece a dor de um parto precoce e indevido possa endireitar por linhas tortas.
Com uma prosa direta, simples e repleta de uma portugalidade que se vive ainda fora dos grandes meios urbanos, “Montedor” é um livro fabuloso e a sua leitura é obrigatória.
Galardoado recentemente com os prémios APE (Associação Portuguesa de Escritores) para a Escrita Biográfica e Crónica, Rentes de Carvalho é, sem dúvida, um dos autores mais emblemáticos de língua portuguesa. Esta edição da Quetzal reflete esse estatuto e dimensão.
In deusmelivro
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
“As Raparigas Cintilantes”
de Lauren Beukes
Assassino intemporal
Enquanto Chicago sente as dilacerantes consequências da Grande Depressão, Harpes Curtis, um vagabundo violento e paranoico, encontra uma casa que reserva em si um segredo que mistura magia e tormento. De exterior decrépito, a invulgar habitação observa um interior opulento. Para além disso, um cadáver estendido em um dos corredores adensa o mistério.
Ao explorar o local, Harper dá de caras com uma grande quantia de dinheiro assim como com uma coleção de objetos que pertencem a dispares períodos temporais. Mas o mais intrigante é um portal que possibilita viajar entre o passado e o futuro.
A ligação entre a Casa e o vagabundo adensa-se e Curtis começa a entender o que o chamou a tal local. A mensagem é clara: Harper deve encontrar raparigas que “brilham” e as mesmas estão espalhadas ao longo de uma peculiar linha cronológica. Sem olhar a credos ou afins, Harper interioriza a sua demanda. As raparigas devem morrer e sentir a força da sua faca. Alice, Julia, Margot, Jin-Sook, Zora, Willie, Misha e Catherine cintilam e esperam a morte. Mas nem tudo corre na perfeição ao plano de Curtis…
Kirby Mazrachi está a passar pela maior provação da sua vida. Vítima de uma brutal tentativa de assassinato, salva-se miraculosamente mas depois de recuperar, em parte, a sua vida, olha ao espelho e cada cicatriz que sente no corpo é uma razão para não desistir de procurar o seu agressor.
Vivem-se os anos 1990 e Chicago continua uma cidade emersa em si mesma. Kirby, aspirante a jornalista e dona de uma alma (e visual) punk, consegue um estágio na editoria de desporto no Chicago Sun-Times, ficando à responsabilidade de Dan Velasquez, um antigo repórter criminal. Paralelamente ao seu trabalho no campo do desporto, Mazrachi serve-se do arquivo do jornal para procurar mais informações sobre outras raparigas assassinadas e aquilo que descobre desafia a compreensão humana.
Por entre linhas que se bifurcam entre o thriller policial, o fantástico e o terror, “As Raparigas Cintilantes” (Porto Editora, 2014) assume-se com a estreia nos escaparates nacionais da obra da sul-africana Lauren Beukes que acumula as funções de argumentista, realizadora de documentários, autora de livros de banda desenhada e jornalista com a nobre arte de escrever romances.
Beukes que teve a honrar de receber o consagrado Prémio Authur C. Clarke por altura da publicação do seu romance visionário “Zoo City” – que brevemente será alvo de uma adaptação cinematográfica – faz-nos chegar um livro que vai fazer as delícias dos que procuram emoções fortes e não se deixam intimidar com cenas que combinam brutalidade, terror e uma demência atroz e que se serve de constantes flashbacks que tornam a narrativa muito dinâmica e apelativa principalmente devido aos curtos capítulos que alternam entre realidades, personagens e linhas cronológicas.
O segredo do sucesso deste livro está na atribulada relação do trio Harper-Kirby-Dan, ainda que não exista um grande trabalho em termos de densidade emocional no que toca à caracterização dos personagens por parte de Beukes. Ainda assim, no seu todo, “As Raparigas Cintilantes” é uma obra interessante que mexe com a memória e as cicatrizes (metafóricas ou reais) cravadas no corpo de assassinos e vítimas, sendo a sua leitura uma espécie de redenção.
In Rua de Baixo
Enquanto Chicago sente as dilacerantes consequências da Grande Depressão, Harpes Curtis, um vagabundo violento e paranoico, encontra uma casa que reserva em si um segredo que mistura magia e tormento. De exterior decrépito, a invulgar habitação observa um interior opulento. Para além disso, um cadáver estendido em um dos corredores adensa o mistério.
Ao explorar o local, Harper dá de caras com uma grande quantia de dinheiro assim como com uma coleção de objetos que pertencem a dispares períodos temporais. Mas o mais intrigante é um portal que possibilita viajar entre o passado e o futuro.
A ligação entre a Casa e o vagabundo adensa-se e Curtis começa a entender o que o chamou a tal local. A mensagem é clara: Harper deve encontrar raparigas que “brilham” e as mesmas estão espalhadas ao longo de uma peculiar linha cronológica. Sem olhar a credos ou afins, Harper interioriza a sua demanda. As raparigas devem morrer e sentir a força da sua faca. Alice, Julia, Margot, Jin-Sook, Zora, Willie, Misha e Catherine cintilam e esperam a morte. Mas nem tudo corre na perfeição ao plano de Curtis…
Kirby Mazrachi está a passar pela maior provação da sua vida. Vítima de uma brutal tentativa de assassinato, salva-se miraculosamente mas depois de recuperar, em parte, a sua vida, olha ao espelho e cada cicatriz que sente no corpo é uma razão para não desistir de procurar o seu agressor.
Vivem-se os anos 1990 e Chicago continua uma cidade emersa em si mesma. Kirby, aspirante a jornalista e dona de uma alma (e visual) punk, consegue um estágio na editoria de desporto no Chicago Sun-Times, ficando à responsabilidade de Dan Velasquez, um antigo repórter criminal. Paralelamente ao seu trabalho no campo do desporto, Mazrachi serve-se do arquivo do jornal para procurar mais informações sobre outras raparigas assassinadas e aquilo que descobre desafia a compreensão humana.
Por entre linhas que se bifurcam entre o thriller policial, o fantástico e o terror, “As Raparigas Cintilantes” (Porto Editora, 2014) assume-se com a estreia nos escaparates nacionais da obra da sul-africana Lauren Beukes que acumula as funções de argumentista, realizadora de documentários, autora de livros de banda desenhada e jornalista com a nobre arte de escrever romances.
Beukes que teve a honrar de receber o consagrado Prémio Authur C. Clarke por altura da publicação do seu romance visionário “Zoo City” – que brevemente será alvo de uma adaptação cinematográfica – faz-nos chegar um livro que vai fazer as delícias dos que procuram emoções fortes e não se deixam intimidar com cenas que combinam brutalidade, terror e uma demência atroz e que se serve de constantes flashbacks que tornam a narrativa muito dinâmica e apelativa principalmente devido aos curtos capítulos que alternam entre realidades, personagens e linhas cronológicas.
O segredo do sucesso deste livro está na atribulada relação do trio Harper-Kirby-Dan, ainda que não exista um grande trabalho em termos de densidade emocional no que toca à caracterização dos personagens por parte de Beukes. Ainda assim, no seu todo, “As Raparigas Cintilantes” é uma obra interessante que mexe com a memória e as cicatrizes (metafóricas ou reais) cravadas no corpo de assassinos e vítimas, sendo a sua leitura uma espécie de redenção.
In Rua de Baixo
terça-feira, 21 de outubro de 2014
“Duas Vidas”
de Georg Maas
A verdade da mentira
Em novembro de 1989, Berlim tornou-se, por alguns dias, no epicentro do mundo. Quase três décadas depois da sua construção, o Muro de Berlim, para muitos apelidado de Parede da Vergonha, era derrubado. Berlim e a Alemanha (e por que não dizer o mundo) regressavam ao ponto de partida, sem divisões. Por terra caiam as repúblicas federais e democráticas, a Guerra Fria terminava.
O muro que dividia a Europa entre ocidente e a influência de leste foi destruído em clima de euforia. A liberdade chegava, finalmente, mas, ainda assim, nem todas as questões associadas à Cortina de Ferro ficaram resolvidas. A política, como sempre, é dona de longos tentáculos e os seus fins justificam alguns meios.
É na ressaca do eco dos acontecimentos registados a 9 de novembro de 1989 que “Duas Vidas”, a segunda longa-metragem do alemão Georg Mass, toma palco tendo como fonte inspiradora um romance baseado em fatos verídicos da autoria de Hannalore Hippe.
A ação leva-nos a terras norueguesas no raiar da década de 1990 e Katrine Evensen Myrdal (Juliane Katrine) é uma mulher feliz e o centro de uma família estável. Trabalha numa empresa de design gráfico e é casada com Bjarte Myrdal (Sven Nordin), um capitão naval. O casal tem como maior preocupação a filha Anne (Julia Bache-Wiig), estudante universitária e mãe solteira. O outro elemento da família é Ase Evensen (Liv Ullmann, uma das divas de Ingmar Bergman), mãe de Katrine e uma bisavó muito presente.
Tudo está tranquilo até à chegada de Sven Solbach (Ken Duken), um idealista advogado com uma nobre causa e que quer processar o Estado norueguês. Com a reunificação alemã em progresso, são possíveis alguns ajustes de contas jurídicas pela (nova) Europa.
Ainda que a família não tenha muito presente o fato, Katrine é fruto de uma relação proibida, é um bebé “Lebensborn”. Também apelidadas de “crianças da vergonha”, muitos foram os bebés cuja génese foi a relação entre a uma mãe (norueguesa) e um oficial nazi durante a ocupação na Segunda Grande Guerra.
Ase engravidou de um soldado alemão e Katrine nasceu em um período conturbado. A vitória dos Aliados teve as suas consequências e muitos foram mortos ou acusados e presos por serem colaboracionistas das forças de Hitler.
Antes, os bebés foram encaminhados para um orfanato especial na Saxónia que funcionava como uma espécie de “laboratório da raça ariana”. O Terceiro Reich conseguiu seduzir muitos noruegueses a fazerem parte da mistura étnica que resultaria na supra raça ariana. Mas o conflito terminaria e a Cortina de Ferro separou tudo e todos. As crianças perderam o rasto dos pais.
Mas a conjuntura mudou e a verdade pode ser reposta ainda que tal acarrete custos. Depois de muita insistência, Sven Solbach consegue levar Katrine a testemunhar em tribunal a sua experiência de vida e na sequência de tal a realidade começa a ficar ligeiramente distorcida. O que leva alguém a esconder algo durante uma vida inteira? Pode alguém assumir uma identidade falsa em nome de uma missão?
Como uma narrativa de construção semelhante às obras de mestres do suspense e espionagem como John le Carré, “Duas Vidas” aposta na duplicidade de uma personalidade que luta interiormente entre a verdade e a conveniência, entre a vida e uma missão. Nesta adaptação de Mass face ao romance de Hannalore Hippe são caras as aproximações à espionagem nos tempos da Guerra Fria e ao longo do filme o espetador é convidado a desbravar as várias camadas de uma mesma estória. Com o recurso a muitos flashbacks, “Duas Vidas”, assume a forma de um puzzle com uma leitura cronológica difusa mas que permite, gradualmente, um conveniente entendimento.
A par dos referidos regressos ao passado – período que tem Klara Manzel a interpretar o papel da jovem Katrine -, Maas aposta numa filmagem segura a formal mas, a espaços, concede à câmara uma liberdade que a faz deslizar sobre a belíssima paisagem nórdica ou colocar, com distinção, os atores como figuras preponderantes face a uma narrativa que aqui e ali parece carecer de um ou outro pormenor ainda que tal seja ultrapassado com competência no seu todo.
De forma propositada ou não, ao longo do filme somos levados a pensar se Maas terá tido como propósito assentar a sua perspetiva sobre um perfil de espionagem pura ou fazer realçar mais a questão dramática dos acontecimentos que receberam o nome do ideal nazi apelidado de “Fonte da Vida”.
Acima de tudo, “Duas Vidas” foca-se na exploração levada a cabo pela Stasi, os serviços secretos da ex-RDA, na tentativa de forjar falsas identidades aos seus agentes recrutados ao programa “Lebensborn”.
Escolhido como o candidato alemão ao Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro em 2014, “Duas Vidas” – que já arrecadou galardões como o Melhor Filme no Festival de Cinema Alemão – é um filme muito interessante e conta com um fortíssimo e coeso elenco com destaque para Kohler e Ullmann que muitas vezes não precisam de quaisquer palavras para expressar os seus sentimentos, sendo as suas faces verdadeiros espelhos da alma.
A banda sonora de Christoph Kaiser e Julian Maas também dá um forte contributo ao filme e faz da música um elemento preponderante na evolução narrativa do filme, papel que deve ser dividido com a fotografia de Judith Kaufmann que trabalha com mestria os díspares momentos da própria trama.
In Rua de Baixo
Em novembro de 1989, Berlim tornou-se, por alguns dias, no epicentro do mundo. Quase três décadas depois da sua construção, o Muro de Berlim, para muitos apelidado de Parede da Vergonha, era derrubado. Berlim e a Alemanha (e por que não dizer o mundo) regressavam ao ponto de partida, sem divisões. Por terra caiam as repúblicas federais e democráticas, a Guerra Fria terminava.
O muro que dividia a Europa entre ocidente e a influência de leste foi destruído em clima de euforia. A liberdade chegava, finalmente, mas, ainda assim, nem todas as questões associadas à Cortina de Ferro ficaram resolvidas. A política, como sempre, é dona de longos tentáculos e os seus fins justificam alguns meios.
É na ressaca do eco dos acontecimentos registados a 9 de novembro de 1989 que “Duas Vidas”, a segunda longa-metragem do alemão Georg Mass, toma palco tendo como fonte inspiradora um romance baseado em fatos verídicos da autoria de Hannalore Hippe.
A ação leva-nos a terras norueguesas no raiar da década de 1990 e Katrine Evensen Myrdal (Juliane Katrine) é uma mulher feliz e o centro de uma família estável. Trabalha numa empresa de design gráfico e é casada com Bjarte Myrdal (Sven Nordin), um capitão naval. O casal tem como maior preocupação a filha Anne (Julia Bache-Wiig), estudante universitária e mãe solteira. O outro elemento da família é Ase Evensen (Liv Ullmann, uma das divas de Ingmar Bergman), mãe de Katrine e uma bisavó muito presente.
Tudo está tranquilo até à chegada de Sven Solbach (Ken Duken), um idealista advogado com uma nobre causa e que quer processar o Estado norueguês. Com a reunificação alemã em progresso, são possíveis alguns ajustes de contas jurídicas pela (nova) Europa.
Ainda que a família não tenha muito presente o fato, Katrine é fruto de uma relação proibida, é um bebé “Lebensborn”. Também apelidadas de “crianças da vergonha”, muitos foram os bebés cuja génese foi a relação entre a uma mãe (norueguesa) e um oficial nazi durante a ocupação na Segunda Grande Guerra.
Ase engravidou de um soldado alemão e Katrine nasceu em um período conturbado. A vitória dos Aliados teve as suas consequências e muitos foram mortos ou acusados e presos por serem colaboracionistas das forças de Hitler.
Antes, os bebés foram encaminhados para um orfanato especial na Saxónia que funcionava como uma espécie de “laboratório da raça ariana”. O Terceiro Reich conseguiu seduzir muitos noruegueses a fazerem parte da mistura étnica que resultaria na supra raça ariana. Mas o conflito terminaria e a Cortina de Ferro separou tudo e todos. As crianças perderam o rasto dos pais.
Mas a conjuntura mudou e a verdade pode ser reposta ainda que tal acarrete custos. Depois de muita insistência, Sven Solbach consegue levar Katrine a testemunhar em tribunal a sua experiência de vida e na sequência de tal a realidade começa a ficar ligeiramente distorcida. O que leva alguém a esconder algo durante uma vida inteira? Pode alguém assumir uma identidade falsa em nome de uma missão?
Como uma narrativa de construção semelhante às obras de mestres do suspense e espionagem como John le Carré, “Duas Vidas” aposta na duplicidade de uma personalidade que luta interiormente entre a verdade e a conveniência, entre a vida e uma missão. Nesta adaptação de Mass face ao romance de Hannalore Hippe são caras as aproximações à espionagem nos tempos da Guerra Fria e ao longo do filme o espetador é convidado a desbravar as várias camadas de uma mesma estória. Com o recurso a muitos flashbacks, “Duas Vidas”, assume a forma de um puzzle com uma leitura cronológica difusa mas que permite, gradualmente, um conveniente entendimento.
A par dos referidos regressos ao passado – período que tem Klara Manzel a interpretar o papel da jovem Katrine -, Maas aposta numa filmagem segura a formal mas, a espaços, concede à câmara uma liberdade que a faz deslizar sobre a belíssima paisagem nórdica ou colocar, com distinção, os atores como figuras preponderantes face a uma narrativa que aqui e ali parece carecer de um ou outro pormenor ainda que tal seja ultrapassado com competência no seu todo.
De forma propositada ou não, ao longo do filme somos levados a pensar se Maas terá tido como propósito assentar a sua perspetiva sobre um perfil de espionagem pura ou fazer realçar mais a questão dramática dos acontecimentos que receberam o nome do ideal nazi apelidado de “Fonte da Vida”.
Acima de tudo, “Duas Vidas” foca-se na exploração levada a cabo pela Stasi, os serviços secretos da ex-RDA, na tentativa de forjar falsas identidades aos seus agentes recrutados ao programa “Lebensborn”.
Escolhido como o candidato alemão ao Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro em 2014, “Duas Vidas” – que já arrecadou galardões como o Melhor Filme no Festival de Cinema Alemão – é um filme muito interessante e conta com um fortíssimo e coeso elenco com destaque para Kohler e Ullmann que muitas vezes não precisam de quaisquer palavras para expressar os seus sentimentos, sendo as suas faces verdadeiros espelhos da alma.
A banda sonora de Christoph Kaiser e Julian Maas também dá um forte contributo ao filme e faz da música um elemento preponderante na evolução narrativa do filme, papel que deve ser dividido com a fotografia de Judith Kaufmann que trabalha com mestria os díspares momentos da própria trama.
In Rua de Baixo
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
“Bolota”
de Yoko Ono
Cantora, artista plástica e cineasta, a japonesa Yoko Ono ficou, acima de tudo, conhecida por ser a ex-mulher de John Lennon e, para muitos, a principal responsável pelo fim dos The Beatles. Mas tal epíteto é manifestamente injusto.
Depois de uma juventude dividida entre o Japão e os Estados Unidos da América, Ono decidiu fixar-se em Nova Iorque no início da década de 1950. Foi nessa cosmopolita metrópole que conheceu alguns dos maiores vultos da cultura vanguardista entre os quais se destacava, por exemplo, o músico John Cage.
De profundo espírito independente, rejeitaria o apoio e o apelo da sua milionária família para regressar ao Japão, optando por ensinar arte japonesa e música em algumas escolas públicas norte-americanas. Paralelamente, está na génese da formação de um novo movimento vanguardista denominado Fluxus, onde explorava ideias que juntavam conceitos dadaístas e construtivistas.
otalmente embrenhada na exploração da arte enquanto forma de expressão universal, Yoko Ono lança em 1964 o livro “Grapefruit”, obra que exemplificava o expoente da arte conceptual através de uma nova filosofia e perspetivas. Hoje, quase cinco décadas depois, Ono regressa com “Bolota” (Pergaminho, 2014), uma espécie de elemento de continuidade face a “Grapefruit”, que nasceu para integrar um evento de uma plataforma online e, depois, assumiu a forma de livro. No fundo, o propósito foi, nas palavras da autora, «viajar numa máquina do tempo que me transportasse para a forma antiga de fazer as coisas.»
Como uma semente que deve ser enraizada nas entrelinhas da história de Yoko Ono, “Bolota” condensa pensamentos, poemas, meditações e desenhos (entre a bizarria e a abstração) ponteados da japonesa, que assim incita à reflexão. As palavras fluem de forma serena e mordaz e ao leitor está reservado um papel fruidor e humanista que possibilita uma viagem entre o céu, a terra e a cidade, passando por tangentes face às estações do ano, à magia dos sons e silêncios ou à própria vida.
in deusmelivro
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
“Sara Prefere Correr”
de Chloé Robichaud
Pista de obstáculos
Sara Lepage (Sophie Desmarais), 20 anos, tem um sonho: alcançar a glória do atletismo. Menina calma, de olhos grandes, Sara recebe um convite para treinar em uma das mais referenciadas equipas de atletismo universitário do Canadá. Apesar das reticências da mãe (Helene Florent), Sara ruma a Montreal na companhia de Antoine (Jean-Sebastien Courchesne), colega de trabalho no restaurante onde Sara faz um part-time, e aposta tudo no sonho de menina.
As dificuldades financeiras fazem com que Antoine sugira a Sara um esquema utilizado pelos jovens universitários. Assim, os amigos tornam-se marido e mulher de forma a conseguir um subsídio do Estado que apoia jovens casais estudantes. A esperança invade o universo de Sara e Antoine mas a vida revela-se numa tortuosa pista de obstáculos.
Apresentado na mais recente edição do Festival de Cannes e integrado na Seleção Oficial Un Certain Regard, “Sara Prefere Correr” é a mais recente aposta cinematográfica da canadiana Chloé Robichaud (que assina a realização e argumento) e valeu à realizadora natural do Québec o Prémio Signis, no Festival de Cinema Independente de Buenos Aires, assim como o galardão de Melhor Filme no Baja International Film Festival. Sophie Desmarais também viu o seu trabalho reconhecido ao arrecadar o Prémio de Melhor Atriz no já referido certame argentino.
Ao longo de cerca de hora e meia, somos convidados a acompanhar uma fatia da vida de Sara Lepage que sonha ser uma atleta de referência. O seu dia-a-dia é feito na companhia das colegas de aventura, entre o ginásio e a pista. A paixão pela corrida é a grande razão de viver destas raparigas que centram a sua existência no desporto rejeitando outros sonhos ou perspetivas.
Quando surge o convite para Sara ir para Montreal para se juntar à equipa universitária de McGill tudo muda, ou melhor, o sonho é cada vez mais real. Depois, o já referido matrimónio de conveniência adensa a fragilidade emocional do “casal”. Com diferentes perspetivas da vida, Sara e Antoine unem-se pela fuga de si próprios.
Uma das colegas mais chegadas de Sara, e também atleta, Zoey (Genevieve Boivin-Roussy) confronta a amiga com o que esta pensa fazer da vida. A resposta não surpreende. Sara quer correr, apenas correr.
O personagem de Sara, excelente diga-se, é a trave mestra de um filme que coloca a nu as fragilidades de uma menina de 20 anos cuja vida apenas tem sentido quando corre. Mas tal como Sara tem dificuldade em impor a sua personalidade em termos sociais, também Chloé Robichaud tem problemas em tornar “Sara Prefere Correr” em um filme que mantenha a clarividência do início ao fim.
Ainda que a metáfora do atletismo assente que nem uma luva na pessoa de Sara Lepage, a narrativa de Robichaud, perde-se em um excesso de grandes planos e cenas de pormenor que, ainda assim, a espaços, permitem ao espetador absorver, com competência, o meio ambiente sem grande informação adicional.
A constante fragilidade de Sara, enquanto figura maior da película, leva a uma anulação da mesma, conduzindo o filme para momentos onde a frustração social e íntima da personagem principal acaba por colocar em causa o fio condutor de um filme que tende a perder-se em análises superficiais que não procuram um (mais) profundo trabalho patológico ou uma tentativa de revelação.
Ainda assim, Robichaud consegue dar mais “vida” a Antoine que se revela mais humano, mais sensível e emocionalmente também mais interessante. Tal é comprovado nos momentos mais tensos de “Sara Prefere Correr” onde o drama e o humor, ainda que fugidio, afastam uma certa opacidade fílmica no trabalho da realizadora canadiana.
A câmara, por vezes timidamente subjetiva e de características indie, trabalha bem os silêncios e os planos que seguem Sara pelas costas provocam um sentido de intimidade ao espetador. É também na quietude que Sara pensa e transmite a sua mensagem através da lente de Robichaud. Por vezes não são necessárias palavras para testemunhar um sentimento, uma emoção, e os melhores momentos do filme são aqueles em que quem está na sala de cinema assume o papel de testemunha de uma ação digerida entre uma muito interessante dança entre planos de pormenor, a música e a contrição de uma personagem cujo coração a atraiçoa.
Apesar de “Sara Prefere Correr” não ser uma obra-prima, é um objeto narrativo interessante. Os grandes planos assumem-se como “intertítulos” (as mensagens dos bolinhos da sorte são o melhor exemplo disso) mas por vezes condenam o filme a uma toada algo contraproducente. Por outro lado, a meticulosa formalidade de Sara resulta na maior parte do filme mas também retira vestígios de um crescimento íntimo da personagem.
Muito bem filmado, “Sara Prefere Correr” apresenta-se como um retrato que não define o seu perfil. São frequentes as oscilações entre excelentes momentos e períodos mais passivos e apesar da boa química entre Desmarais e Courchesne, os diálogos minimalistas entre ambos condenam uma maior profundidade dramática.
Numa corrida com alguns obstáculos, Sara e Robichaud, dão boas indicações para o futuro apesar de neste filme não irem além dos tempos mínimos. No futuro, esperemos, esta dupla pode bater recordes.
In Rua de Baixo
Sara Lepage (Sophie Desmarais), 20 anos, tem um sonho: alcançar a glória do atletismo. Menina calma, de olhos grandes, Sara recebe um convite para treinar em uma das mais referenciadas equipas de atletismo universitário do Canadá. Apesar das reticências da mãe (Helene Florent), Sara ruma a Montreal na companhia de Antoine (Jean-Sebastien Courchesne), colega de trabalho no restaurante onde Sara faz um part-time, e aposta tudo no sonho de menina.
As dificuldades financeiras fazem com que Antoine sugira a Sara um esquema utilizado pelos jovens universitários. Assim, os amigos tornam-se marido e mulher de forma a conseguir um subsídio do Estado que apoia jovens casais estudantes. A esperança invade o universo de Sara e Antoine mas a vida revela-se numa tortuosa pista de obstáculos.
Apresentado na mais recente edição do Festival de Cannes e integrado na Seleção Oficial Un Certain Regard, “Sara Prefere Correr” é a mais recente aposta cinematográfica da canadiana Chloé Robichaud (que assina a realização e argumento) e valeu à realizadora natural do Québec o Prémio Signis, no Festival de Cinema Independente de Buenos Aires, assim como o galardão de Melhor Filme no Baja International Film Festival. Sophie Desmarais também viu o seu trabalho reconhecido ao arrecadar o Prémio de Melhor Atriz no já referido certame argentino.
Ao longo de cerca de hora e meia, somos convidados a acompanhar uma fatia da vida de Sara Lepage que sonha ser uma atleta de referência. O seu dia-a-dia é feito na companhia das colegas de aventura, entre o ginásio e a pista. A paixão pela corrida é a grande razão de viver destas raparigas que centram a sua existência no desporto rejeitando outros sonhos ou perspetivas.
Quando surge o convite para Sara ir para Montreal para se juntar à equipa universitária de McGill tudo muda, ou melhor, o sonho é cada vez mais real. Depois, o já referido matrimónio de conveniência adensa a fragilidade emocional do “casal”. Com diferentes perspetivas da vida, Sara e Antoine unem-se pela fuga de si próprios.
Uma das colegas mais chegadas de Sara, e também atleta, Zoey (Genevieve Boivin-Roussy) confronta a amiga com o que esta pensa fazer da vida. A resposta não surpreende. Sara quer correr, apenas correr.
O personagem de Sara, excelente diga-se, é a trave mestra de um filme que coloca a nu as fragilidades de uma menina de 20 anos cuja vida apenas tem sentido quando corre. Mas tal como Sara tem dificuldade em impor a sua personalidade em termos sociais, também Chloé Robichaud tem problemas em tornar “Sara Prefere Correr” em um filme que mantenha a clarividência do início ao fim.
Ainda que a metáfora do atletismo assente que nem uma luva na pessoa de Sara Lepage, a narrativa de Robichaud, perde-se em um excesso de grandes planos e cenas de pormenor que, ainda assim, a espaços, permitem ao espetador absorver, com competência, o meio ambiente sem grande informação adicional.
A constante fragilidade de Sara, enquanto figura maior da película, leva a uma anulação da mesma, conduzindo o filme para momentos onde a frustração social e íntima da personagem principal acaba por colocar em causa o fio condutor de um filme que tende a perder-se em análises superficiais que não procuram um (mais) profundo trabalho patológico ou uma tentativa de revelação.
Ainda assim, Robichaud consegue dar mais “vida” a Antoine que se revela mais humano, mais sensível e emocionalmente também mais interessante. Tal é comprovado nos momentos mais tensos de “Sara Prefere Correr” onde o drama e o humor, ainda que fugidio, afastam uma certa opacidade fílmica no trabalho da realizadora canadiana.
A câmara, por vezes timidamente subjetiva e de características indie, trabalha bem os silêncios e os planos que seguem Sara pelas costas provocam um sentido de intimidade ao espetador. É também na quietude que Sara pensa e transmite a sua mensagem através da lente de Robichaud. Por vezes não são necessárias palavras para testemunhar um sentimento, uma emoção, e os melhores momentos do filme são aqueles em que quem está na sala de cinema assume o papel de testemunha de uma ação digerida entre uma muito interessante dança entre planos de pormenor, a música e a contrição de uma personagem cujo coração a atraiçoa.
Apesar de “Sara Prefere Correr” não ser uma obra-prima, é um objeto narrativo interessante. Os grandes planos assumem-se como “intertítulos” (as mensagens dos bolinhos da sorte são o melhor exemplo disso) mas por vezes condenam o filme a uma toada algo contraproducente. Por outro lado, a meticulosa formalidade de Sara resulta na maior parte do filme mas também retira vestígios de um crescimento íntimo da personagem.
Muito bem filmado, “Sara Prefere Correr” apresenta-se como um retrato que não define o seu perfil. São frequentes as oscilações entre excelentes momentos e períodos mais passivos e apesar da boa química entre Desmarais e Courchesne, os diálogos minimalistas entre ambos condenam uma maior profundidade dramática.
Numa corrida com alguns obstáculos, Sara e Robichaud, dão boas indicações para o futuro apesar de neste filme não irem além dos tempos mínimos. No futuro, esperemos, esta dupla pode bater recordes.
In Rua de Baixo
terça-feira, 14 de outubro de 2014
“Como Sentimos”
Giovanni Frazzetto
O estudo das emoções teve como primeiro impulsionador o naturalista britânico Charles Darwin que, em 1872, publicou um volume intitulado “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”. Darwin baseou o seu estudo em descrições de vários testemunhos que descreviam e comentavam as emoções que sentiam ao observar um conjunto de fotografias.
Este, que foi um dos primeiros inquéritos da história da ciência moderna, tornou-se no ponto de partida para o estudo das emoções. Depois disso, nomes como William James, Sigmund Freud ou António Damásio, entre muitos outros, tentaram entender os sentimentos e emoções face às reações do ser humano face a episódios da sua existência.
Profundo entusiasta do tema, o italiano Giovanni Frazzetto, neurocientista e um dos fundadores da European Neuroscience & Society Network e criador do projeto transdisciplinar Neuroschools – iniciativa que garantiu a Franzzetto o Prémio John Kendrew para Jovem Cientista, em 2008 -, faz-nos chegar “Como Sentimos” (Bertrand Editora, 2014), um ensaio pertinente sobre a vida quotidiana e as emoções que a mesma provoca e a que está sujeita.
Obra dividida em sete capítulos – cada um exclusivamente dedicado a uma emoção em particular -, “Como Sentimos” usa uma linguagem assertiva e deveras acessível ao comum dos mortais, levando o leitor a embrenhar-se numa viagem que mistura o conhecimento científico com a experiência do dia-a-dia e que é sinónimo de uma perspetiva singular, que vagueia entre o ceticismo/dogmatismo contrastante de temas como a racionalidade e os sentimentos que advém de artes como, por exemplo, a pintura, a poesia, a música ou o teatro. É desse intrincado jogo que resulta uma melhor compreensão da forma como sentimos enquanto pessoas, enquanto ser falíveis que têm no cérebro um órgão decisor.
Ao longo das páginas dedicadas à raiva, culpa, ansiedade, luto, empatia, alegria e amor, o leitor conhece uma série de dilemas que Giovanni Frazzetto pretende desmistificar. As perguntas são muitas: Pode a poesia ensinar a mecânica da alegria? A obra de Heidegger ou a observação de ratos em laboratório são ferramentas que permitem lidar de forma mais eficaz com a ansiedade que deriva da crise económica global? Uma pintura de Caravaggio pode levar a uma reação idêntica que deriva de um exame ao cérebro face ao sentimento de culpa?
Estas e muitas outras questões são abordadas em “Como Sentimos” com uma assinalável competência, de uma forma prática e bastante acutilante e a escrita leve de Frazzetto leva-nos a embrenhar o nosso interesse em assuntos como os genes MAOA, os resultados de uma Ressonância Magnética – que se assemelham a vulgares imagens de paparazzi cerebral -, a pertinência dos biomarcadores, o balanço ativo da serotonina, a sinapse enquanto dialética, os sistemas de neurónios-espelho, os processos de recompensa, a estimulação bipartida dos hemisférios cerebrais ou a quantificação da felicidade.
Mais que uma obra fechada em si própria, “Como Sentimos” dá ao leitor uma liberdade interpretativa que apenas um génio de um homem como Giovanni Frazzetto pode fazer. Mais do que saber o que a neurociência pode ou não dizer sobre as nossas emoções, este livro faz-nos entender o cérebro como nunca o tínhamos visto e, acima de tudo, demonstra que a ciência é insuficiente para conseguir explicar a pertinência das emoções, pois o meio ambiente e a experiência pessoal são armas poderosas nesta luta entre razão e sentimentos.
In deusmelivro
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Interpol
“El Pintor”
Pinceladas de Génio
Quando os Interpol lançaram “Turn on the Black Lights”, em 2002, temas como "PDA", "NYC", "Obstacle 1" ou "Say Hello to the Angels" invadiram profundamente o perímetro auditivo dos mais atentos. No ar ficavam fragmentos de uma música inspirada num certo negrume, que tem no literalmente assombroso mundo dos Joy Division a sua maior fonte. De certa forma, nascia um novo movimento musical, uma espécie de herança melancólica sonora que juntava num mesmo barco bandas como os The National, She Wants Revenge, White Lies, Editors ou The Horrors, e que dividia a sua génese entre apontamentos que faziam a apologia da formação clássica guitarra-baixo-bateria ou momentos mais sintéticos.
Hoje, quatro anos depois do homónimo “Interpol”, a banda nova-iorquina - hoje em formato trio, depois da saída do baixista e fundador Carlos Dengler – regressa na máxima forma com “El Pintor” (o título assume a forma de um anagrama face ao nome da banda), um disco que mistura de forma extremamente competente os ambientes mais escuros do indie rock com uma languidez melódica (e algo dançável), que resulta das raízes pós-punk.
Claramente apostados em renascer das “cinzas”, os Interpol assumem-se diferentes em 2014, ou seja, mais motivados enquanto banda, mais sábios, e afastam para longe os fantasmas da eventual crise criativa que o anterior “Interpol” significou para os mais céticos. O álbum abre com “All the Rage Back Home” e os primeiros segundos, os mais contidos e contemplativos da canção, escondem, deliberadamente ou não, uma explosão que toma forma com as primeiras batidas, oriundas de uma bateria que abre o caminho para uma “fúria” sonora, que leva os Interpol de volta a momentos claramente inspirados, tal como acontecia nos seus primeiros trabalhos. Paul Banks não deixa quaisquer dúvidas ao cantar “It's all the rage back home”, frase que compõe o refrão do primeiro tema de “El Pintor” e celebra a nova missão do trio norte-americano. A seguir, sem perder o fôlego, “My Desire”, a segunda faixa do disco, mistura uma guitarra que sublinha um poema, que, por sua vez, mistura desejo com frustração, melodia com sons descarnados que se unem em prol de uma grande canção.
É certo que, depois da saída de Dengler, sentimos um certo abandono do baixo e não esperamos linhas fortes como a maravilhosa “Stella Was a Diver And She Was Always Down”, mas, ainda assim, o trabalho de Banks enquanto baixista de estúdio não deixa de ser louvável - e tal sente-se na frenética “Anywhere”, uma das composições mais orelhudas de “El Pintor”, aqui não tanto pelo que faz ouvir mas pela segurança que dá a uma bateria que se bate, sem complexos, frente à extrovertida guitarra de Daniel Kessler. Ainda assim, em momentos como “Everything is Wrong“ é mesmo o baixo a assumir as rédeas da musicalidade em vários momentos.
“El Pintor” faz-se de uma transversalidade melódica assente numa base segura e permite ligeiras oscilações de intensidade, e tal não acontece apenas em termos de instrumentos. Em “Blue Supreme”, por exemplo, Banks varia entre uma abordagem digna de um barítono até uma aproximação em falsete.
“Breaker 1” e “Same Time, New Story”, com as devidas idiossincrasias sonoras, mostram o que os Interpol querem hoje da sua música e apresentam um jogo sonoro que mistura várias camadas emotivas, entre a agitação e a acalmia, entre a luz e a escuridão, entre a certeza e uma elevada dose de insegurança. E é dessa esquizofrenia que nasce o equilibro da música, da arte dos Interpol. É também por isso que, embora não rejeitando o passado, “El Pintor” apresente peças como “Ancient Ways”, um claro aceno de despedida ao que ficou para trás, envolvido num distorcido movimento entre guitarras e bateria, fruto de um assinalável sentido de urbanidade.
Os cerca de 40 minutos de “El Pintor” passam a correr e, quando chegamos à serena e épica “Twice As Hard”, custa-nos a crer que o disco tenha chegado ao fim. Quando sentimos a distorção final do derradeiro tomo do quarto trabalho dos Interpol, queremos agarrar o som que resta, até ao último acorde, até à última palavra.
Por vezes, as alterações de alinhamento no seio de uma banda, ainda que impliquem mudanças de paradigma, são extremamente benéficas, e “El Pintor” resulta de um hiato que agora pode ser encarado como deveras positivo. Com canções como esta dezena que figura neste disco, os Interpol, vão, musicalmente, de certeza, onde querem. É difícil destacar elementos em separado, tal é o sentimento uno de um álbum que vai fazer as delícias dos mais exigentes fãs do trio nova-iorquino, mas é obrigatório afirmar que “El Pintor” é, talvez, o trabalho mais inteligente da banda de Paul Banks. A sua densidade, e por que não dizer genialidade, é a súmula entre simplicidade, entrega e talento. No fundo, “El Pintor” é uma viagem ao coração descarnado dos Interpol.
Alinhamento:
1."All the Rage Back Home"
2."My Desire"
3."Anywhere"
4."Same Town, New Story"
5."My Blue Supreme"
6."Everything Is Wrong"
7."Breaker 1"
8."Ancient Ways"
9."Tidal Wave"
10."Twice as Hard"
Classificação do Palco: 9/10
In Palco Principal
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