terça-feira, 14 de outubro de 2014

“Como Sentimos”
Giovanni Frazzetto



O estudo das emoções teve como primeiro impulsionador o naturalista britânico Charles Darwin que, em 1872, publicou um volume intitulado “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”. Darwin baseou o seu estudo em descrições de vários testemunhos que descreviam e comentavam as emoções que sentiam ao observar um conjunto de fotografias.

Este, que foi um dos primeiros inquéritos da história da ciência moderna, tornou-se no ponto de partida para o estudo das emoções. Depois disso, nomes como William James, Sigmund Freud ou António Damásio, entre muitos outros, tentaram entender os sentimentos e emoções face às reações do ser humano face a episódios da sua existência.

Profundo entusiasta do tema, o italiano Giovanni Frazzetto, neurocientista e um dos fundadores da European Neuroscience & Society Network e criador do projeto transdisciplinar Neuroschools – iniciativa que garantiu a Franzzetto o Prémio John Kendrew para Jovem Cientista, em 2008 -, faz-nos chegar “Como Sentimos” (Bertrand Editora, 2014), um ensaio pertinente sobre a vida quotidiana e as emoções que a mesma provoca e a que está sujeita.

Obra dividida em sete capítulos – cada um exclusivamente dedicado a uma emoção em particular -, “Como Sentimos” usa uma linguagem assertiva e deveras acessível ao comum dos mortais, levando o leitor a embrenhar-se numa viagem que mistura o conhecimento científico com a experiência do dia-a-dia e que é sinónimo de uma perspetiva singular, que vagueia entre o ceticismo/dogmatismo contrastante de temas como a racionalidade e os sentimentos que advém de artes como, por exemplo, a pintura, a poesia, a música ou o teatro. É desse intrincado jogo que resulta uma melhor compreensão da forma como sentimos enquanto pessoas, enquanto ser falíveis que têm no cérebro um órgão decisor.

Ao longo das páginas dedicadas à raiva, culpa, ansiedade, luto, empatia, alegria e amor, o leitor conhece uma série de dilemas que Giovanni Frazzetto pretende desmistificar. As perguntas são muitas: Pode a poesia ensinar a mecânica da alegria? A obra de Heidegger ou a observação de ratos em laboratório são ferramentas que permitem lidar de forma mais eficaz com a ansiedade que deriva da crise económica global? Uma pintura de Caravaggio pode levar a uma reação idêntica que deriva de um exame ao cérebro face ao sentimento de culpa?

Estas e muitas outras questões são abordadas em “Como Sentimos” com uma assinalável competência, de uma forma prática e bastante acutilante e a escrita leve de Frazzetto leva-nos a embrenhar o nosso interesse em assuntos como os genes MAOA, os resultados de uma Ressonância Magnética – que se assemelham a vulgares imagens de paparazzi cerebral -, a pertinência dos biomarcadores, o balanço ativo da serotonina, a sinapse enquanto dialética, os sistemas de neurónios-espelho, os processos de recompensa, a estimulação bipartida dos hemisférios cerebrais ou a quantificação da felicidade.

Mais que uma obra fechada em si própria, “Como Sentimos” dá ao leitor uma liberdade interpretativa que apenas um génio de um homem como Giovanni Frazzetto pode fazer. Mais do que saber o que a neurociência pode ou não dizer sobre as nossas emoções, este livro faz-nos entender o cérebro como nunca o tínhamos visto e, acima de tudo, demonstra que a ciência é insuficiente para conseguir explicar a pertinência das emoções, pois o meio ambiente e a experiência pessoal são armas poderosas nesta luta entre razão e sentimentos.

In deusmelivro

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Interpol
“El Pintor”



Pinceladas de Génio

Quando os Interpol lançaram “Turn on the Black Lights”, em 2002, temas como "PDA", "NYC", "Obstacle 1" ou "Say Hello to the Angels" invadiram profundamente o perímetro auditivo dos mais atentos. No ar ficavam fragmentos de uma música inspirada num certo negrume, que tem no literalmente assombroso mundo dos Joy Division a sua maior fonte. De certa forma, nascia um novo movimento musical, uma espécie de herança melancólica sonora que juntava num mesmo barco bandas como os The National, She Wants Revenge, White Lies, Editors ou The Horrors, e que dividia a sua génese entre apontamentos que faziam a apologia da formação clássica guitarra-baixo-bateria ou momentos mais sintéticos.

Hoje, quatro anos depois do homónimo “Interpol”, a banda nova-iorquina - hoje em formato trio, depois da saída do baixista e fundador Carlos Dengler – regressa na máxima forma com “El Pintor” (o título assume a forma de um anagrama face ao nome da banda), um disco que mistura de forma extremamente competente os ambientes mais escuros do indie rock com uma languidez melódica (e algo dançável), que resulta das raízes pós-punk.

Claramente apostados em renascer das “cinzas”, os Interpol assumem-se diferentes em 2014, ou seja, mais motivados enquanto banda, mais sábios, e afastam para longe os fantasmas da eventual crise criativa que o anterior “Interpol” significou para os mais céticos. O álbum abre com “All the Rage Back Home” e os primeiros segundos, os mais contidos e contemplativos da canção, escondem, deliberadamente ou não, uma explosão que toma forma com as primeiras batidas, oriundas de uma bateria que abre o caminho para uma “fúria” sonora, que leva os Interpol de volta a momentos claramente inspirados, tal como acontecia nos seus primeiros trabalhos. Paul Banks não deixa quaisquer dúvidas ao cantar “It's all the rage back home”, frase que compõe o refrão do primeiro tema de “El Pintor” e celebra a nova missão do trio norte-americano. A seguir, sem perder o fôlego, “My Desire”, a segunda faixa do disco, mistura uma guitarra que sublinha um poema, que, por sua vez, mistura desejo com frustração, melodia com sons descarnados que se unem em prol de uma grande canção.

É certo que, depois da saída de Dengler, sentimos um certo abandono do baixo e não esperamos linhas fortes como a maravilhosa “Stella Was a Diver And She Was Always Down”, mas, ainda assim, o trabalho de Banks enquanto baixista de estúdio não deixa de ser louvável - e tal sente-se na frenética “Anywhere”, uma das composições mais orelhudas de “El Pintor”, aqui não tanto pelo que faz ouvir mas pela segurança que dá a uma bateria que se bate, sem complexos, frente à extrovertida guitarra de Daniel Kessler. Ainda assim, em momentos como “Everything is Wrong“ é mesmo o baixo a assumir as rédeas da musicalidade em vários momentos.

“El Pintor” faz-se de uma transversalidade melódica assente numa base segura e permite ligeiras oscilações de intensidade, e tal não acontece apenas em termos de instrumentos. Em “Blue Supreme”, por exemplo, Banks varia entre uma abordagem digna de um barítono até uma aproximação em falsete.

“Breaker 1” e “Same Time, New Story”, com as devidas idiossincrasias sonoras, mostram o que os Interpol querem hoje da sua música e apresentam um jogo sonoro que mistura várias camadas emotivas, entre a agitação e a acalmia, entre a luz e a escuridão, entre a certeza e uma elevada dose de insegurança. E é dessa esquizofrenia que nasce o equilibro da música, da arte dos Interpol. É também por isso que, embora não rejeitando o passado, “El Pintor” apresente peças como “Ancient Ways”, um claro aceno de despedida ao que ficou para trás, envolvido num distorcido movimento entre guitarras e bateria, fruto de um assinalável sentido de urbanidade.

Os cerca de 40 minutos de “El Pintor” passam a correr e, quando chegamos à serena e épica “Twice As Hard”, custa-nos a crer que o disco tenha chegado ao fim. Quando sentimos a distorção final do derradeiro tomo do quarto trabalho dos Interpol, queremos agarrar o som que resta, até ao último acorde, até à última palavra.

Por vezes, as alterações de alinhamento no seio de uma banda, ainda que impliquem mudanças de paradigma, são extremamente benéficas, e “El Pintor” resulta de um hiato que agora pode ser encarado como deveras positivo. Com canções como esta dezena que figura neste disco, os Interpol, vão, musicalmente, de certeza, onde querem. É difícil destacar elementos em separado, tal é o sentimento uno de um álbum que vai fazer as delícias dos mais exigentes fãs do trio nova-iorquino, mas é obrigatório afirmar que “El Pintor” é, talvez, o trabalho mais inteligente da banda de Paul Banks. A sua densidade, e por que não dizer genialidade, é a súmula entre simplicidade, entrega e talento. No fundo, “El Pintor” é uma viagem ao coração descarnado dos Interpol.

Alinhamento:

1."All the Rage Back Home"
2."My Desire"
3."Anywhere"
4."Same Town, New Story"
5."My Blue Supreme"
6."Everything Is Wrong"
7."Breaker 1"
8."Ancient Ways"
9."Tidal Wave"
10."Twice as Hard"

Classificação do Palco: 9/10

In Palco Principal

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

E o Nobel da Literatura vai para…



Modiano, Patrick. Francês, nascido em Boulogne-Billancourt, perto da capital francesa, em julho de 1945. É ele o mais recente nome a figurar entre os privilegiados que foram destacados pela Academia Sueca na categoria de Prémio Nobel da Literatura.

Filho de pais judeus, Patrick Modiano é, aos 69 anos, considerado um dos maiores nomes da literatura francesa e apelidado de “Proust contemporâneo”, ainda que a sua fama se centre maioritariamente dentro de portas.

Reservado e bastante modesto, o novo Nobel da Literatura tem Paris como cenário de eleição para as suas obras, principalmente dos tempos da ocupação nazi ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial. A sua escrita, elegante, sem grandes artefactos e que tem na simplicidade intimista uma das maiores armas, vive de um sentimento autobiográfico, tendo em elementos como a memória, a sombra, a perda e uma busca pela identidade as suas grandes inspirações.

No discurso de atribuição deste prémio, Peter Englund, secretário perpétuo da Academia Sueca, referia a mestria escrita de Mondiano como um reflexo da «arte da memória com a qual o autor evocou os destinos humanos mais inatingíveis e descobriu a vida do mundo da ocupação nazi.»

Desta forma, algo inesperada para uns e aguardada por outros, Patrick Modiano sucede a Alice Munro e torna-se o décimo primeiro autor nascido por terras de França a receber o prémio maior da Literatura mundial e, para além dessa glória conseguida por uma privilegiada minoria, arrecada também cerca de 900 mil euros.

No que toca à sua obra, Modiano, assumidamente influenciado pelo escritor Raymond Queneau, seu docente de geometria nos tempos de liceu, estreou-se nas lides literárias em 1968 com “La Place de L’étoile”, chegando o primeiro reconhecimento público através de “Rue des Boutiques”, obra que fez o autor parisiense ser galardoado com o Prémio Goncourt em 1978. Depois seguiram-se, entre outros, o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa, o Grande Prémio Nacional das Letras e o Prémio Margerite-Duras.

Para além do formato romance, Patrick Modiano colabora em argumentos cinematográficos, já passou pelo grande écran enquanto ator em singelas participações, é autor de canções e assina livros para gente mais pequena.

Por cá, Modiano já editou vários trabalhos, entre os quais “A Rua das Lojas Escuras” e “Domingos de Agosto”, em 1988, através da Dom Quixote e da Relógio d’Água, respetivamente, assim como “No café da Juventude Perdida” em 2009, via Asa, ou o mais recente “O Horizonte”, editado pela Porto Editora.

In deusmelivro

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

“O Quarto Azul”
de Mathieu Amalric



Obsessão venenosa

Inspirado em um romance do belga Georges Simenon, “O Quarto Azul” é a segunda experiência do francês Mathieu Amalric enquanto realizador e fez parte da Seleção Oficial da mais recente edição dos festivais de Cannes e de Nova Iorque e conta com a produção de Paulo Branco.

A trama tem como figuras centrais Amalric -que junta a função de ator à realização -, Stéphanie Cléau e Lea Drucker e conta a trágica e misteriosa estória de uma relação extraconjugal que termina em uma sala de tribunal.

Tudo começa e acaba no quarto azul que dá nome a este curto mas muito interessante filme. Julien (Amalric) encontra acidentalmente Esther, (Cléau) uma antiga colega de escola que tinha uma secreta paixão por ele mas que por questões diversas nunca se concretizou por falta de interesse por parte de Julien. Os anos passaram e Julien e Esther seguiram caminhos diferentes.

Até que sentimentos antigos são finalmente consumados num quarto de hotel local, em algumas quintas-feiras. A luxúria toma conta dos dois amantes que têm nas paredes azuis da referida divisão hoteleira um espaço para explanar todo o desejo, havendo também lugar para promessas várias, para segredos e pedidos de uma fidelidade futura apesar do que os anelares das suas mãos esquerdas evidenciavam.

Amalric, realizador, torna a narrativa numa espécie de flashback constante que se mistura com momentos presentes. O mistério surge bem desconstruído fruto de um competente drama que desrespeita a normal cronologia e consegue captar a atenção do espetador que sente também ele enleado numa teia de mistério, crime, obsessão, traição e culpa.

À medida que o filme flui, somos confrontados por pequenos pormenores que fazem toda a diferença. Nas mãos de Amalric, a câmara dá espaço a atores e cenários com igual parcimónia e os planos estáticos, ainda que convenientemente curtos, assemelham-se a provas em local de crime. Mais, o realizador de “O Quarto Azul” filma os momentos de paixão entre Julien e Esther, qual femme fatale, como se de uma pintura de tratasse (excelente, a fotografia) onde toda a expressividade e sensualidade de Stéphanie Cléau – atual companheira do realizador e ator – não deixa por certo indiferente quem está na sala de cinema.

Mas mais que uma nota de exacerbado erotismo, os encontros entre Julien e Esther são as peças de um puzzle que vai sendo construído à sua volta, principalmente devido ao que tal pode significar face a dois casamentos à beira do colapso ainda que por questões muito diferentes.
Amalric explora de forma declarada a dicotomia entre os papéis de Esther e Delphine, entre a amante e a dona de casa, entre o segredo e a realidade, entre o prazer e o quotidiano. Mas tal não é apenas conseguido através das cenas carnais (bem quentes e expostas, por sinal) mas sim pela abordagem feita a Julien e Delphine enquanto um casal acomodado que vai revelando aqui e ali tentativas de salvar uma relação claramente desgastada.

Essas transições de intensidade são uma das mais-valias de “O Quarto Azul”, um filme que sabe jogar entre o clímax e a normalidade, entre a liberdade e a clausura, entre a pacatez e o crime. A forma como a narrativa se expõe ao espetador é também sinónimo da paixão com que a mesma é filmada, estejamos nós a falar de cenas de grande intensidade sexual ou aquando da frieza de um inquérito policial. Para tal é necessário um claro e equilibrado sentido entre amor e abandono, ainda que tal diste uns meros segundos em termos de ação.

Para além disso, os fragmentos fílmicos de Amalric, bem secundados na mestria cinematográfica de Christophe Beaucarne ou na musicalidade de Grégoire Hetzel, apresentam-se em um quase infinito número de assertivos detalhes que completam o todo.

“O Quarto Azul” é um excelente exemplo entre a arte de filmar e a capacidade de mostrar uma intriga policial onde a perceção psicológica dos personagens adensa o mistério, enfatiza o crime e faz sobressair o poder incomensurável de uma obsessiva paixão que transporta na face dos principais protagonistas sentimentos como a devoção frenética e a culpa que funcionam como uma espécie de fronteiras entre a normalidade e a transgressão, “legitima” ou não.

In Rua de Baixo

“O Guardião das Causas Perdidas”
de Jussi Adler-Olsen



Impiedosa sede de vingança

O policial é um género que, por vezes, peca por uma subserviência por parte de quem o idealiza e passa o esboço dessa criação para o ato da escrita face ao já existente. Reza a história da literatura que foi Edgar Allan Poe que fez nascer este tipo de abordagem criativa e desde “Os Crimes da Rua Morgue” foram muitos os que ousaram colocar o mistério e a arte de resolver os mais diversos delitos na forma de livro.

Em alguns casos, os personagens criados sobrepuseram-se face aos seus criadores. Hercule Poirot, Sam Spade, Sherlock Holmes, Javier Falcon, Kurt Wallander ou Mikael Blomkvist, entre muitos, muitos outros, tornaram-se referências maiores de obras que encontraram acérrimos seguidores por todo o mundo.

Por falar em Blomkvist, desde a morte precoce do sueco Stieg Larsson que as editoras anunciam um novo nome que faça, de certa forma, renascer o universo narrativo do autor do estrondoso sucesso que foi a trilogia Millennium. As promessas são muitas mas os resultados ficam (sempre) aquém.

Ainda assim, são muitos os autores que surpreendem os fãs dos mistérios policiais em forma de livro. Um deles é o dinamarquês Jussi Adler-Olsen que antes de se dedicar à escrita foi editor de inúmeras publicações. Hoje, com mais de 10 milhões de livros vendidos em 34 países, Adler-Olsen chega finalmente a Portugal através de “O Guardião das Causas Perdidas” (Editorial Presença, 2014).

No centro da ação está o ensimesmado inspetor Carl Morck, detetive da Divisão de Homicídios de Copenhaga, recentemente vítima de uma emboscada que vitimou dois dos seus mais queridos camaradas. Na ressaca desse caso, Morck vê-se obrigado a liderar uma nova secção dentro do sistema policial local. O Departamento Q tem a missão de rever casos arquivados e na berlinda surge o misterioso desaparecimento de Merete Lynggaard, uma muito atraente deputada que desapareceu há mais de cinco anos tendo sido vista pela última vez em uma travessia marítima.

A hipótese de suicídio é apontada como a mais provável causa do desaparecimento de Merete mas o corpo nunca apareceu. Todos pensam que a deputada está morta mas Carl Morck, na companhia do seu peculiar braço-direito, o sírio Assad, vai provar que o reacender do caso não é uma perda de tempo e dá início a uma fantástica investigação policial que revela contornos inesperados e sinistros.

A narrativa flui de uma forma natural e agarra, definitivamente, o leitor. A intriga vai crescendo à medida que vamos conhecendo melhor os acontecimentos e a própria personagem de Carl Morck que tem um profundo carisma solitário e persistente, e luta contra o poder dogmático e um certo sentido de desleixo e incompetência de uma instituição que tem nas figuras de Borge Bak ou Lars Bjorn o exemplo máximo de um servilismo que transforma pessoas em meras marionetas do sistema.

Inconformado, Morck agarra-se a este caso como uma espécie de catarse existencial e o Departamento Q afirma-se como algo mais do que uma qualquer divisão escondida na cave de uma instituição policial.
Jussi Adler-Olssen constrói um enredo que aposta em particulares doses de humor (negro) e tem na personagem Assad um verdadeira lufada de ar fresco. Comparativamente com o universo do já referido Stieg Larsson, Adler-Olssen opta por uma crueldade menos declarada e o jogo que faz entre o presente e o passado possibilita ao leitor juntar as peças que vão tornando-se cada vez mais evidentes e encaixadas à medida que o livro evolui sendo o seu final verdadeiramente excitante.

Tal como em outros livros de autores nórdicos, a questão social (e política) é bem explorada em várias vertentes e não é inocente a presença de um personagem como Assad, um muçulmano que é em si mesmo um mistério dentro do próprio complexo misterioso ou a referência à comunicação social enquanto um poder que mistura o dever de informar e a arte de manipular a opinião pública.

Vivamente aconselhado a todos os que gostam de um bom romance policial, “O Guardião das Causas Perdidas”, que foi recentemente alvo de uma adaptação cinematográfica, vai, de certeza, figurar no mapa das obras favoritas dos fãs da ficção escandinava e resta saber se a Editorial Presença vai fazer-nos chegar mais tomos da série Departamento Q que assentariam que nem uma luva na coleção O Fio da Navalha.

In Rua de Baixo

“Arte na Cidade”
de Mário Caeiro



Na sociedade contemporânea, o sentido de urbanidade, enquanto fator diferenciador e personalizado, está intrinsecamente associado à ideia de arte, à conceção de um esboço – aqui entendido no seu sentido mais abrangente – que tende a modelar ambientes, espaços.

A cidade é, portanto, no entender de Mário Caeiro, autor de “Arte na Cidade” (Temas e Debates, 2014), «um fenómeno cultural…com atributos comuns que concorrem com a própria definição de cidade, isto é, um lugar físico, de habitação, de circulação, de trocas, materiais ou espirituais…»

E é essa permuta entre artista, arte e espaço (urbano) que está patente em “Arte na Cidade”, um livro que elucida – ou tem esse propósito – o público sobre as possibilidades que a arte pode fornecer à cidade enquanto lugar envolto de uma contemporaneidade composta por um misto de público e “privado”.

Docente na ESAD.CR (Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha), doutorado em Artes Visuais e Intermédia pela Universidade Politécnica de Valência e Pós-graduado em Design Urbano pela Universidade de Barcelona, Mário Caeiro é, entre muitas outras atividades, responsável pela conceção e produção de projetos culturais e de espaço público desde 1993, sendo um dos mais brilhantes especialistas no que se designou apelidar de Arte Contemporânea, escrita em letras maiúsculas por princípio e convicção.

Ao longo das mais de 600 páginas de “Arte na Cidade”, o leitor assume um papel de voyeur entre artes e expressões várias. Ainda que, numa primeira abordagem, possa ser destinado a estudantes, artistas, arquitetos, designers, urbanistas e engenheiros, este livro extravasa tais fronteiras e incita à reflexão sobre a arte urbana ou no espaço urbano.

Com prefácio de Delfim Sardo, curador e ensaísta de Arte Contemporânea, esta obra convida ao pensamento através de acontecimentos artísticos de diferentes dimensões, bem como à instigação de segredos da linguagem associada à arte pública sob uma visão de futuro. Fruto de várias camadas observativas e refletivas, “Arte na Cidade” apresenta uma nova perspetiva sobre as metamorfoses do espaço urbano provocadas pela intervenção humana.

Para além das mais de seis centenas de páginas, “Arte na Cidade” apresenta ainda uma centena de extratextos coloridos, assim como uma miríade de imagens cinza, funcionando também como uma espécie de “dicionário de conteúdos” associados à plasticidade artística no espaço urbano.

Seguindo os trilhos da arte contemporânea, os projetos urbanos de arte efémera, a linguagem da arte pública, os fundamentos da arte enquanto ferramenta social e a valorização do ato da experiência, o livro de Mário Caeiro revela-se uma extraordinária ferramenta que permite pensar, entender e interiorizar a arte enquanto veiculo atual e em constante evolução.

In deusmelivro

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

“Herzog”
de Saul Bellow



Inicialmente publicado em 1964, “Herzog” (Quetzal, 2014) é um dos mais acutilantes livros do canadiano Saul Bellow, considerado por muitos como um dos expoentes da literatura norte-americana do pós-guerra, cuja inspiração estava ancorada no universo existencialista europeu e, acima de tudo, na obra de Franz Kafka.

Galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1976, Bellow escreveu “Herzog” há cinquenta anos, numa época em que o autor de livros como “As Aventuras de Augie March” ou “Morrem Mais de Mágoa” ainda não tinha sido atingido por uma personalidade perfilada por elevadas doses de um avarento conservadorismo que o levou a atacar constantemente o multiculturalismo e o pós-modernismo vigente.

Podemos assim afirmar que “Herzog” nasceu em um dos períodos mais positivos da vida de Bellow enquanto escritor, tendo como figura central Moses Elkanah Herzog, um individuo cujo perfil intelectual não o salvaguarda de uma miríade de sofrimentos existenciais – fruto de um “eu” conflituoso mas que, ainda assim, não elimina a sua faceta de homem dono de um charme inato.

No epicentro de um turbilhão emocional, Herzog vê a existência desmoronar. Sente-se um escritor falhado, um académico falido, um pai errante, um amigo ausente, um amante absurdo. O seu casamento com Madeleine, sua segunda mulher, acabou e, na ressaca desse problema, depara-se com o envolvimento da ex-esposa com Valentine Gersbach, o seu melhor amigo.

Numa tentativa de se agarrar ao pouco que lhe resta, Herzog investe o seu espírito de sobrevivente através de uma raiva concentrada em forma de cartas, que escreve de forma compulsiva a amigos, inimigos, famosos, desconhecidos, vivos ou falecidos. Ainda que essas missivas nunca cheguem aos seus destinatários, Herzog serve-se das mesmas como forma de redenção e constrói as mesmas sob uma peculiar visão da humanidade, que o cerca através de uma reflexão que condensa as esferas públicas e privadas.

O teor das cartas varia entre reflexões políticas, religiosas, filosóficas e culturais. É notório um sentimento autobiográfico em “Herzog” e o mesmo pode ser verificado, por exemplo, na questão do número de casamentos, pois tanto Bellow como Herzog contrariam matrimónio por duas vezes.

Ao percorrer avidamente as páginas deste livro, o leitor é deliciosamente confrontado com pontos de vista que resvalam entre a racionalidade e a instabilidade de um ser à beira do colapso emocional. Valha-nos a inebriante capacidade narrativa de Bellow que consegue transformar um sentimento de autorridicularização em uma forma de válido compromisso.

Ainda que a vida de Herzog seja sinónimo de uma desintegração progressiva, o humor (negro) com que a mesma é relatada abafa qualquer ponta de desistência, afirmando-se como um bonito labirinto escrito que assume a forma de resposta ou tentativa de colocar uma ordem lógica em uma mente momentaneamente estupidificada perante a fragilidade dos problemas que enfrenta.

A luta contra a solidão é, sem dúvida, uma das maiores batalhas que um homem como Herzog tem para enfrentar mas, por vezes, a vida como sinónimo do relacionamento entre homem e mulher pode oferecer surpresas inesperadas. A dicotomia entre personagens, por exemplo, como acontece com Madeleine e Ramona, traça uma tangente entre o compromisso e a realização, entre o possível e o meritório.

Imbuído sobre uma perspetiva masculina (e não machista) “Herzog” é um livro extraordinário e o seu personagem principal tem tudo para ficar na memória dos leitores. A paixão com que se devoram as páginas desta obra tem como fundamento maior um misto de incompetência e absurdo, predicados que elevam a condição humana a um permanente limbo existencial.

In deusmelivro