segunda-feira, 29 de setembro de 2014

“Amar, Beber e Cantar”
de Alain Resnais

No Palco de Vida


Quando a comunidade cinéfila mundial ainda chora a morte de Alain Resnais, um dos mais emblemáticos mestres do cinema europeu, é-nos dada a oportunidade de ver “Amar, Beber e Cantar”, o último suspiro criativo do realizador de alguns dos maiores momentos da Sétima Arte como o foram “Hiroshima, Meu Amor”, “Muriel”, “O Ano Passado em Marienbad” ou “Smoking / No Smoking”.

Vencedor dos Prémio FIPRESCI e Alfred Bauer na mais recente edição do Festival de Berlim, “Amar, Beber e Cantar” simboliza o regresso de Resnais ao universo teatral, cerca de dois anos depois de “Vous n’avez Encore Rien Vu”, um filme cujos protagonistas eram atores em pleno ensaio de uma peça. Ainda que explorem um mesmo universo, as referidas películas distam entre si no seu conteúdo pois enquanto em “Vous n’avez Encore Rien Vu” o espetador assistia a um desfile globalmente profissional, “Amar, Beber e Cantar” eleva o amadorismo ao palco principal.

Livre adaptação cinematográfica da peça “Life of Riley” de Alan Ayckbourn, “Amar, Beber e Cantar”, é um filme que mistura drama com um apurado sentido de humor e retrata a relação de três casais cujo elo aglutinador é George Riley, um personagem omnipresente e omnipotente que nunca aparece em cena.

No centro da ação estão Colin (Hippolyte Girardot) e Kathryn (Sabine Azema), Tamara (Caroline Silhol) e Jack (Michel Vuillermoz) e ainda Monica (Sandrine Kiberlain) e Simeon (Andre Dussolier).

Os primeiros a entrar em cena são Colin e Kathryn, ambos convidados a integrar a peça dirigida por Peggy Parker, apesar de Kathryn acusar o seu marido de falta de empenho na atuação. No meio de um ensaio privado, Colin recebe uma chamada que vai mudar a vida do seu círculo de amigos. O diagnóstico dos exames de George Riley revelam que o mesmo está a braços com um cancro em fase terminal e tem apenas seis meses de vida.

Ainda que Colin peça segredo a Kathryn, a veia alcoviteira da mulher leva-a a espalhar a triste notícia de imediato. Tamara, amiga do casal e mulher de Jack, melhor amigo de Riley, é a primeira a saber a novidade. O desespero e sentido de injustiça apodera-se de todos mas depois de Jack abandonar a peça, surge a ideia de convidar Riley para o seu papel numa tentativa de dar algum alento aos últimos suspiros de vida do enfermo.

De uma forma ou de outra, todos querem passar o pouco tempo que resta com Riley e até Monica, ex-mulher de George, é convencida a voltar ao contacto do ex-companheiro numa tentativa de alegrar os seus derradeiros momentos apesar de ainda sentir-se bastante magoada. Quem não gosta da ideia é Simeon, atual amante de Monica, mas rende-se às evidências.

É notória a estreita ligação afetiva que todas as mulheres do grupo sentem em relação a George Riley e tal, acreditem, extravasa a simples compaixão. Resnais consegue contextualizar um enredo labiríntico servindo-se de um surrealismo aplicado a uma estrutura narrativa que serve-se de vários cenários artificiais e visualmente fruto de um devaneio onírico e teatral inspirado nas cortinas de um vulgar palco.

Em todas as cenas, as paisagens são pintadas e minimalistas, os sons ambientes são reais e os grandes planos dos atores remetem o espetador para momentos que nos fazem lembrar as obras arte pop de Roy Lichtenstein, quando o fundo se resume a centenas de linhas negras traçadas sobre um fundo branco. No lado oposto deste universo irreal estão as personagens de carne e osso assim como as imagens do countryside inglês que servem de estrada, literal, entre as habitações dos três casais ainda que essas também sejam vítimas de uma metamorfose entre realidade e um quadro pictórico. Para unir estes opostos artísticos está a música de Mark Snow que faz a ponte entre o burlesco e o bucólico.

Através de um jogo de diálogos que cruzam sentimentos, estados de espírito e almas diferentes, Resnais orquestra uma sucessão de acontecimentos cuja graça faz o espectador seguir meticulosamente uma tela que vai alternando entre situações mais expansivas e alguns grandes planos.

Apesar disso nunca se perde a formalidade dos personagens que são um típico exemplo da arte de Ayckbourn, cujo perfil situa-se na meia-idade entre tiques de classe-média e um extravasar burguês, nomeadamente nas pessoas de Jack e Tamara. Enquanto isso, a câmara de Resnais mostra uma miríade de sentimentos, desapontamentos, arrependimentos e quase-acontecimentos em relação aos três casais.

Nas entrelinhas ficamos também a saber que Jack e Tamara têm uma filha adolescente (Tilly) que serve de desculpa para não aflorar os verdadeiros problemas que existem entre o casal; como Kathryn e Colin enfrentem o tédio de uma relação também desgastada; e como Monica e Simeon tardam em alinhar agulhas afetivas sem esquecer fantasmas. E por falar em almas penadas, o episódio das últimas férias em Tenerife é a cereja no topo do bolo e vai fazer o copo transbordar.

Ainda que o todo do filme revela algumas oscilações entre o interessante e menos acutilante, destaque-se o magnifico trabalho dos atores, em especial Vuillermoz que envolve o “seu” Jack num brilhante dramatismo que mostra um homem em constante desafio face ao seu atribulado quotidiano e que tem na eminente morte do seu melhor amigo uma luta grandiosa.

O coloquialismo britânico dos personagens faz crescer o perfil burlesco de um “filme” que junta os universos de Resnais e Ayckbourn de forma eficaz e deliciosamente colorida. Os dias sucedem-se, sem a pretensão de qualquer exatidão e entre a primavera e o outono tudo pode acontecer, algo que contrasta, por exemplo, com a obsessão de tempo por parte de uma personagem como Colin que faz da sincronia entre relógios o seu barómetro existencial.

Sem ser uma obra-prima, “Amar, Beber e Cantar” é um exercício pertinente, bem-disposto e visualmente atrativo. Resnais serve-se da faceta neurótica e algo depressiva dos personagens e faz das suas fraquezas forças que afastam laivos de uma crescente ausência de sentido. Sabine Azema, ex-companheira de Resnais, e Michel Vuillermoz colocam os personagens de Kathryn e Jack no pódio de um filme que reclama a atenção do espetador de forma natural e não obsessiva, enquanto os casais falam dos seus descontentamentos, frustrações e crises cuja cura, culpa e redenção assume, a espaços, a figura de George Riley.

No fundo, Resnais reclama na tela por resquícios de uma morna humanidade ainda que refutando alguma audácia por parte de personagens que habitam um presente assente entre um pessimismo fruto de um passado longínquo e um otimismo em relação a um futuro indefinido. A nós, enquanto testemunhas, resta-nos percorrer cenários que misturam imaginação, vertigem, episódios surreais e um sentimento de celebração da vida ainda que assombrada pela presença da morte.

In Rua de Baixo

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Ashrae Fax
“Never Really Been Into It”

Ecos do Passado



Têm sido frequentes, nos últimos anos, várias abordagens sonoras que remetem os nossos ouvidos para melodias e ambientes perfeitamente datados. Os anos 1970, 1980 e 1990 têm sido “vítimas” de múltiplos revivalismos numa espécie de (eterno) retorno. Se em alguns casos as experiências têm sido bastante satisfatórias, noutros, o resultado é, no mínimo, duvidoso.

Na música, como na arte em geral, a recriação pode ser entendida como um processo revivalista ou, para os mais pessimistas e desconfiados, uma forma descarada de copiar o que já existe. Em ambos os casos os terrenos assemelham-se a um verdadeiro campo minado.

Nas últimas décadas foram muitas as bandas ou movimentos estéticos que deixaram escola. Do punk, à new wave, passando pelo rock ou pelos sons mais étnicos ou experimentalistas, o universo musical global presta repetidamente homenagem a bandas como, por exemplo, os Sex Pistols, Joy Division, The Cure, Bauhaus, Depeche Mode, The Pixies, Dead Can Dance ou Cocteau Twins. Todos estes nomes, alguns deles diretamente, ou não, associados à mítica editora 4AD, não surgem por acaso neste contexto, principalmente no que toca à banda de Elizabeth Fraser e Robin Guthrie. Banda de referência dos anos 1980, os Cocteau Twins deixaram um legado com maravilhosos discos que misturavam uma ambiência mágica e um cenário etéreo. Trabalhos como “Treasure”, “Victorialand” ou “Blue Bell Knoll” são ainda hoje uma referência e o seu conteúdo imaculado.

Natural da Carolina do Norte, o duo Ashrae Fax, formado pela vocalista Renée Mendoza e o guitarrista e também produtor Alex Chesney, depois de editar, em 2003, “Static Crash”, um disco descaradamente mergulhado em ritmos new wave e synth pop, regressa agora com um, de certa forma, inesperado segundo trabalho, encaixando-se perfeitamente no que acima escrevemos.

“Never Really Been Into It”, apesar de ser um objeto lançado em 2014, através da indie Mexican Summer, faz inevitavelmente uma ponte entre os anos 1980 e o presente. Fruto de um parto longo, este disco traz à tona os “fantasmas” estéticos dos Cocteau Twins, ainda que sob a versão mais tardia da banda, quando Fraser já tinha abandonado a linguagem “elfica” dos primeiros discos e cantava em inglês, de facto.

Musicalmente, os Ashrae Fax estão fechados em si mesmos e refugiam-se na beleza da conjugação entre laivos góticos, um drum beat minimal, um baixo denso, teclas etéreas e uma voz que mistura (claras) influencias da já referida vocalista dos Cocteau Twins, como também da peculiar comunicação verbal de Siouxsie Soiux. E tal sente-se logo desde os primeiros acordes.

“Dreamers Tied to Chairs”, a primeira canção de “Never Really Been Into It”, tem o condão de interromper a contagem do tempo e remete-nos para os idos anos 1980. A melancolia das guitarras, juntamente com as batidas dolentes da secção rítmica, permite à voz avançar de forma segura e planante, mesmo quando a ambiência experimenta um pouco de intensidade na parte final da composição.

Se “Dreamers Tied to Chairs” é uma peça exemplar de um pop com salpicos góticos, a fazer lembrar aos mais saudosistas as brisas suaves das canções de discos como por exemplo “Treasure”, “CHKN”, a segunda faixa do álbum, vinca uma vontade de mostrar, e oferecer, momentos musicais que rejeitam urgências desmedidas. Enquanto a voz desliza suavemente, as guitarras (muito próximas dos acordes dos The Cure de “Three Imaginary Boys”) marcam um perfil pop muito elegante. Já “The Big Lie” afasta-se deste palco mais contemplativo e ataca ambientes mais densos e escuros de uns The Soft Moon ou da fase mais punky dos Dead Can Dance, nomeadamente aquando do seu álbum de estreia.

Mas não é a fúria que move os Ashrae Fax e faixas como “Fits and Stars”, Decaax”, “Hurricanes in a Jar” - que junta a presença de um saxofone à restante orquestra - ou “Second Chances” mostram novamente a face mais açucarada do duo norte-americano. “You Make Me Question My Mind” é outra peça de assinalável beleza que cresce à medida das audições e que leva a descobrir pormenores que podem transformar uma canção banal numa composição de excelência.

Ao chegar a “In Motion”, o tranquilo e último tomo de “Never Really Been Into It”, já as almas foram tomadas pela dolência de Mendoza e Chesney e o fim do disco assemelha-se a um leve acordar depois de um sonho bonito.

Não sendo uma obra-prima, e apesar de parecer algo “desfasado” temporalmente, “Never Really Been Into It” é um álbum bem conseguido, bonito e lembra o que de melhor já se fez nas últimas décadas no que à música mais indie diz respeito. Mais do que um exercício de memória ou revivalismo, os Ashrae Fax conseguiram fazer nascer um disco que faz bem aos sentidos, nos deixa tranquilos e de sorriso (nostálgico) nos lábios. Afinal, a música também serve para isso mesmo.

Alinhamento:

01.Deamers Tied to Chairs
02.CHKN
03.The Big Lie
04.Fits and Stars
05.Decaax
06.Hurricanes in a Jar
07.You Make Me Question My Mind
08.Intexus
09.Second Chances
10.In Motion

Classificação do Palco: 7/10

In Palco Principal

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

“A Mulher Louca”
de Juan José Millás


Diário Pouco Secreto de Lúcidas Loucuras

Um dos mais brilhantes escritores da sua geração, o espanhol Juan José Millás deixa, a cada livro, uma marca profunda de uma genialidade que mistura a realidade objetiva e corriqueira com elevadas doses de surrealismo.

Com uma assinalável carreira enquanto jornalista e também escritor, o autor de livros como “O Mundo”, “Laura e Júlio”, “Os Objetos Chamam-nos” ou “O Que Sei dos Homenzinhos”, faz-nos agora chegar “A Mulher Louca” (Planeta, 2014), um dos mais aguardados livros do ano e, sem dúvida, um dos mais brilhantes.

Vencedor de galardões como o “Prémio Planeta 2007” ou o “Prémio Nacional de Narrativa 2008”, Millás é dono de uma escrita única, desconcertante e profundamente psicanalítica e “A Mulher Louca” eleva a narrativa ao expoente da fronteira (ténue) que divide realidade e ficção, possível e impossível, verdade e mentira.

Embrulhado em um sentido de humor cuja génese resulta de uma capacidade honesta de combater a dura realidade, seja ela alternativa ou não, “A Mulher Louca” é um livro diferente. Os seus personagens desafiam a lógica a cada frase, a cada conceito. O desejo de pertença é assinalável e o próprio autor não resistiu ao enredo. Millás vive nas páginas desta obra através de um desdobramento triplo: como autor, narrador e personagem.

No centro da trama está Julia, que mistura o trabalho em uma peixaria com o estudo autodidata da gramática. Fá-lo para entender a linguagem mas também porque quer entrar no mundo de Roberto, o seu chefe, e amante, filólogo de formação.

Nos intervalos da sua atividade, Julia, dedica os seus tempos livres a ajudar a cuidar de Emérita, uma doente terminal e na sequência de tal conhece Millás, o jornalista, que está a preparar uma reportagem sobre a eutanásia. Mas Millás, o escritor, vê em Julia o objeto perfeito de um romance. A braços com um terrível bloqueio criativo, Millás, a pessoa, refugia-se na cadeira de uma psicoterapeuta idosa.

É a realidade que assombra Millás, a pessoa, o jornalista, o escritor. As coisas tornam-se ainda mais complexas quando Emérita revela a Millás um segredo que guardou toda a sua vida. O que se assemelhava a uma reportagem mudou por completo durante as vistas a Emérita e o que era lógico torna-se absurdo e um dilema.

Ao longo do curto “A Mulher Louca” (apenas 190 páginas, para nosso descontentamento), Millás revela-se, expõem-se, arrisca-se. As metáforas concecionais são frequentes, assim como os delírios narrativos, as coincidências, os devaneios ou as interrupções (in)voluntárias da realidade.

Julia é, por exemplo, uma personagem cuja personalidade assume-se avessa. Alucina com a linguagem, ajuda palavras com problemas no seu consultório verbal. Deliciosamente saída da mente de Millás, Julia resulta da relação entre a literatura e a loucura, de um jogo criado em torno da dicotomia entre criatividade e rutura, características inatas à escrita do autor.

Millás consegue mesmo, com elevada distinção, abordar a insanidade de forma a extravasar os clichés do tema. A perceção da realidade é aqui adulterada e Millás é também ele uma “vítima” da narrativa assumindo uma personalidade tripla e bidimensional. Assistimos, deliciados, a uma fuga da banalidade do complexo narrativo simultaneamente com um processo intuitivo que busca forças e pertinência na inspiração e reflete (sobre) a criação literária.

Os desdobramentos pessoais, o carteiro analfabeto, o silêncio sem gramática, a enfermidade turística da existência, os senhores Porquesim e Porquenão, a morte assistida e uma certa intriga policial são outros componentes que somados ajudam a conseguir um todo que é sinónimo de um romance inteiro e imperdível pois “A Mulher Louca” revela o melhor de Juan José Millás, alguém que tem o condão de transformar a pura ficção em ficção pura.

In Rua de Baixo

terça-feira, 23 de setembro de 2014

transeatlântico, uma voz insular



A identidade, seja ela individual ou coletiva, pode ser fomentada através da linguagem escrita, da comunicação enquanto espelho da alma, como um instrumento dialético criado através do ato de conhecer e divulgar, com orgulho.

Como resultado dessa dialética pode nascer um poema, um filme, um livro, uma revista. E é sob este último desígnio que nasceu a transeatlântico, a uma nova revista literária que vai chegar ao público no final deste mês, estando o seu lançamento agendado para o próximo dia 28 de setembro, domingo, pelas 18 horas, no Instituto Cultural de Ponta Delgada.

Sob a batuta de Nuno Costa Santos, a transeatlântico, propriedade da Companhia das Ilhas – instituição essa também responsável pela sua edição – aposta na cultura açoriana através de uma divulgação elegante, criteriosa e profundamente lírica.

Com um catálogo que reúne obras de autores açorianos como Urbano Bettencourt, Nuno Costa Santos, Jácome Armas, Mário Cabral, Alexandre Borges, Manuel Tomás, Nuno Dempster, Manuel Serpa e Nunes da Rosa, a Companhia das Ilhas quer tornar a transeatlântico numa ferramenta de divulgação cultural sobre um prisma que centra toda a sua acutilância no ato de (bem) escrever. Nas palavras de Nuno Costa Santos, «esta é uma revista que quer incentivar a escrever, de modo ficcional ou ensaístico, sobre o que são os Açores hoje – nas suas novas entranhas. Nas suas personagens, nas suas tensões biográficas, nos seus sonhos e ilusões, nos seus conflitos e acidentes. Mas também nos seus costumes, nos seus pequenos hábitos e nas suas expressões verbais.»

Ao longo das 112 páginas do número zero da transeatlântico podemos contar com muitas surpresas, sendo o propósito traçar um possível retrato, literal, ficcional, poético ou sonhado, de uma ilha especial e partilhada de corpo e alma. Para isso reuniram-se nomes como Alexandre Borges, Bianca M, João Pedro Porto, Joel Neto, Leonardo, Luís Filipe Borges, Luís Rego, Maria das Mercês Pacheco, Mariana Matos, Mário T Cabral, Paula de Sousa Lima, Renata Correia Botelho, Rogério Sousa e Rui Jorge Cabral.

A responsabilidade de apresentar a revista está a cargo de Leonor Sampaio, sendo que um dos maiores destaques desta primeira edição é a entrevista realizada por Nuno Costa Santos a Daniel Sá, escritor açoriano recentemente falecido. Outros pontos fortes são, por exemplo, um trabalho de Vasco Medeiros Rosa sobre um texto pouco conhecido de Vitorino Nemésio, assim como o portefólio com fotografias de grotas dos Açores da responsabilidade de Duarte Belo.

Com uma periodicidade anual, a transeatlântico tem distribuição regional e nacional e pode ser adquirida a troco de 10 euros.

In deusmelivro

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Cinema Ideal
Um ponto de encontro no coração do bairro



É a mais antiga sala de cinema de Lisboa e já teve vários nomes. De Salão Ideal, passou a Cine Camões e nos últimos anos respondia pela designação de Paraíso. Hoje abraça a graça de Cinema Ideal e devido à união de esforços entre a Midas Filmes e a Casa da Imprensa, proprietária do imobiliário, ousa colocar o triângulo entre o Chiado, o Bairro Alto e a Bica no roteiro dos amantes da Sétima Arte e não só.

O projeto foi pensado de forma gradual mas só depois de ultrapassadas várias batalhas burocráticas e outras, o Cinema Ideal teve condições para ser uma realidade. Para além da sala de cinema, o espaço, muito acolhedor diga-se, vai contar ainda com uma área – denominada Salão Ideal – que acolherá uma DVDteca, um alfarrabista e uma cafetaria e vai abrir portas depois de concluídas as remodelações (daquilo que conseguimos apurar a abertura pode estar à distância de duas a três semanas) estando à disposição da cidade não sendo um exclusivo para quem vai ver um filme.

Pedro Borges, diretor da Midas Filmes e um dos maiores responsáveis pela génese do Cinema Ideal, não tem dúvidas em afirmar que era urgente ter um espaço do género no centro histórico de Lisboa. “Depois de desapareceram completamente todas as salas de cinema na zona nobre da cidade, um fenómeno único na Europa, pensámos em erguer o Cinema Ideal. Para tal tivemos a felicidade de encontrar um espaço como este que tinha a vantagem de ser propriedade da Casa da Imprensa, entidade que pretendia manter a atividade de sempre do imóvel da Rua do Loreto. A mudança da Lei do Arrendamento Comercial tornou o projeto ainda mais possível e depois de um considerável esforço financeiro por parte da Casa da Imprensa conseguiu-se libertar o espaço. Depois, adequámos os nossos desejos à realidade enfrentando uma batalha burocrática insuportável”.

O projeto de remodelação e renovação, que esteve a cargo do conceituado arquiteto José Neves, está avaliado em cerca de 500 mil euros, valor em nada comparticipado pela secretária de Estado da Cultura. Cerca de um quinto desse investimento teve como fim um dos mais modernos sistemas de projeção e som.

Numa altura em que se fala numa hipotética crise no que toca à frequência das salas de cinema, o Cinema Ideal quer inverter essa ideia, nomeadamente no que toca ao centro da capital. Pedro Borges é perentório: “Os cinemas de Lisboa não fecharam por não ter espetadores pois na altura do seu encerramento tinham milhares de visitas por semana. O problema é que as propriedades eram do ponto de vista imobiliário muito apetecíveis. A empresa que está a fechar as salas no centro de Lisboa é a mesma que as abre nos centros comerciais cuja atividade é muito mais rentável. A principal razão da morte das salas de cinema na cidade é pura especulação imobiliária e o negócio.”

Sendo uma sala relativamente pequena, com um máximo de espetadores a rodar as duas centenas de cadeiras, o Cinema Ideal enquanto conceito tende a colocar-se fora da órbita dos espaços mais comerciais. Borges assume a sala da Rua do Loreto como um local menos tentado pelo consumo associado ao novo ato de ir ao cinema. “A partir de certa altura os cinemas transformaram-se em espaços onde é essencial o consumo de produtos que vão complementar o preço do bilhete. Quem vem ao Cinema Ideal “queixa-se” do preço do bilhete mas não podemos ignorar que os ingressos dos cinemas dos centros comerciais não têm o mesmo valor, pois ao mesmo estão associados uma média de consumos derivados por pessoa que integra o preço do bilhete”.

Pensado com uma filosofia diferente, o Cinema Ideal, nas palavras do diretor da Midas Filmes, oferece um produto diferente. “Apesar de termos uma única sala existem várias sessões diárias e, em média, os filmes a exibir vão ser três e com vários horários. Os filmes são destinados a públicos diferentes entre si. Conhecemos o público português, reconhecemos as suas disparidades e vamos ter uma oferta muito particular. Queremos reunir o melhor do mundo do cinema e contem com muitas estreias. Estamos num espaço construído propositadamente para o cinema e está longe de ser um caixote preto com corredores forrados a cartazes. Foi concebido por um arquiteto e tem o melhor equipamento possível de imagem e som. O grande objetivo é manter esse nível de qualidade e é essa, essencialmente, a maior diferença que queremos assumir”.

No que toca à programação, o Cinema Ideal vai apostar numa mostra diversificada mas também em alguns filmes que, por regra, vão ter menos visibilidade nas salas de cinema dos espaços comerciais e com isso trazer o cinema para junto das pessoas, para o coração da cidade. “Para quem vive no centro histórico de Lisboa é um privilégio ter uma sala como esta. Assim, as pessoas vão ter um cinema perto de si e evitam deslocar-se significativamente. Quem mora, por exemplo, num raio de vinte minutos da Rua do Loreto, pode vir a pé ver um filme no Cinema Ideal. Queremos que as pessoas passem a encarar o cinema tal como ele foi em tempos, ou seja, algo normal, como uma atividade próxima à semelhança de outras mas que infelizmente perdeu essas características. As pessoas vão a pé ao restaurante, à farmácia, para a escola. Por várias razões o cinema tem sido excluído dessas movimentações urbanas. No meu entender deveríamos ter um “Cinema Ideal” na Graça, em Alcântara, em Alfama, em Santa Apolónia, etc.. Temos a obrigação de devolver o cinema à cidade para além de tornar um local como o Cinema Ideal em um ponto de encontro”, sublinha Pedro Borges.

Para além da normal exibição diária, o Cinema Ideal vai servir de palco para eventos na área da Sétima Arte e da imagem e a colaboração com, por exemplo, o IndieLisboa está já equacionada ainda que tal não signifique o fecho de portas da sala em termos da regularidade das sessões.

Para os interessados em vir até à Rua do Loreto ver um filme, a bilheteira do Cinema Ideal apresenta três modalidades. Às quintas, o “Dia Ideal”, os bilhetes são a cinco euros independentemente da hora de exibição. Esse valor é também praticado, diariamente, nas sessões com arranque antes das 13 horas. À tarde, compreenda-se um período até às 18.30, e para jovens, estudantes e maiores de 65, o valor é de seis euros. À noite, cada bilhete custa sete euros.

In Rua de Baixo

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

“Impérios em Guerra 1911-1923”
de Robert Gerwarth e Erez Manela



Os conflitos são habitualmente segmentados ou compreendidos através de períodos temporais de forma a conseguir-se um perfil cronológico. Se a Segunda Grande Guerra ficou definida por uma baliza entre 1939 e 1945, o primeiro grande embate de perfil mundial encaixa, por norma, num período de quatro anos, isto é, entre 1914 e 1918.

Mas, por vezes, essa matemática cronológica está sujeita a readaptações que derivam de novos estudos e análises globais. E é mediante tais pressupostos que “Impérios em Guerra 1911-1923” (D. Quixote, 2014) foi pensado, escrito, organizado e apresentado por Robert Gerwarth e Erez Manela em conjunto com mais de uma dezena de alguns dos maiores especialistas mundiais no que ao período da Primeira Grande Guerra diz respeito.

Falamos de uma obra que apresenta uma nova perspetiva da Primeira Grande Guerra que extravasa a genericamente aceite linha cronológica entre 1914 e 1918, olhando para o conflito como um recontro global entre impérios e recusando uma abordagem unicamente observada entre nações ou estados europeus.
Ao folhear “Impérios em Guerra 1911-1923”, somos convidados a entender um conflito que apresenta dados concretos em termos de tempo e espaço e que abarca violentos acontecimentos que antecedem e precedem a Primeira Grande Guerra, como o foram a invasão italiana à Líbia em 1911 ou os ecos violentos que resultaram do colapso dos impérios otomano, russo e austríaco até 1923.

Apenas poderemos entender o que se passou entre 1914 e 1918 tendo em conta os desequilíbrios que tiveram como palco a Europa – e não só – e que transcendem as desmobilizações militares levadas a cabo em novembro de 1918. A esses quatro anos devem “juntar-se” os embates imperiais entre 1911 e 1923.
Quando ainda se sentem os ecos do primeiro centenário da Primeira Grande Guerra, é urgente adotar uma perspetiva diferente face aos milhões que perderam a vida, aos interesses conjunturais e respetivos atos governativos, aos locais por onde o conflito passou e que ultrapassaram as fronteiras do Velho Continente.

Mas “Impérios em Guerra 1911-1923” vai mais longe e leva o leitor a compreender as movimentações globais de tropas africanas e dos civis chineses nas trincheiras na frente Oeste, os trabalhos dos soldados indianos em Jerusalém ou as movimentações nipónicas em terras chinesas que, diretamente ou não, foram responsáveis pela nova ordem mundial.

Olhando um pouco para o umbigo, não podíamos deixar de destacar o capítulo dedicado ao Império Português, cuja autoria esteve a cargo de Filipe Ribeiro de Meneses, professor de História na National University of Irland Maynooth. Nestas três dezenas de páginas ficamos a conhecer melhor a conjuntura do Portugal da década de 1910, bem como a atividade militar das tropas nacionais em Angola e Moçambique, assim como questões relacionadas com o rescaldo do conflito.

Resultado de um notável espírito de pesquisa, “Impérios em Guerra 1911-1923” nasceu depois de anos de trabalho – a maioria dos autores reuniu-se por duas vezes em conferências temáticas que tiveram Dublin como palco -, complementando o seu conteúdo através de mapas e imagens que tornam ainda mais dinâmico e apelativo um livro que tem o condão de revelar outras faces de um conflito que representou uma das maiores mexidas no mapa global do planeta.

In deusmelivro

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

“Jacques, o Fatalista e o Seu Amo”
de Denis Diderot



Ao longo dos últimos dois séculos, foram vários os nomes que ousaram analisar “Jacques o Fatalista e o seu Amo”, uma das mais marcantes obras do século XVIII. Se o alemão Friedrich Schlegel, homem de letras que fez a ponte entre os séculos XVIII e XIX, salientou o brilhantismo da criação da personagem de um criado imbecil que usa a estupidez como uma forma de crítica mordaz, o contemporâneo Milan Kundera chega mesmo a comparar este livro a clássicos como “D. Quixote” ou “Ulisses”.

Esta última observação, como facilmente pode verificar-se ao folhear a nova edição de “Jacques, o Fatalista, e o Seu Amo” (Tinta da China, 2014), com prefácio de Eduardo Prado Coelho, não tem a ver com a elevada erudição do texto, mas sim com a mestria da natureza do mesmo que se serve do riso como uma forma de tocar o leitor, de contar uma estória, de desafiar os limites da falência humana.

Claramente inspirado no romance “A Vida e Opiniões de Tristram Shandy”, de Laurence Sterne, e publicado originalmente em nove volumes – sendo os dois primeiros datados de 1759 -, “Jacques O Fatalista e o seu Amo” é uma maravilhosa peça de características anti-romance, uma forma de provocação feita por Diderot ao leitor através de uma sucessão de ideias, não necessariamente ordenadas cronologicamente, que resultam de um diálogo entre Jacques e o seu mordomo ao longo de um percurso cujo local de partida e destino afiguram-se desconhecidos e desnecessários.

Jacques o Fatalista e o seu Amo, Diderot, Tinta da ChinaMais que uma bússola, ao leitor é recomendada uma grande capacidade de encaixe literário – aqui entendido como uma mescla de humor -, seja ele corrosivo ou naïve, discussões filosóficas, aventuras amorosas, exposições de caráter religioso, médico, financeiro ou jurista. Tudo temperado com elevadas doses de senso-comum, nem que o tema central seja um palavrão ou a sua pertinência conceptual através de argumentos cuja valia encontra sentido tanto há dois séculos atrás como na atualidade.

Nas entrelinhas desta obra Diderot consegue traçar a fotografia da França pré-revolução, das suas relações sociais e dos conflitos que dai emergem. Tudo é caricaturado e a tendência natural é o exagero, ainda que o enquadramento seja bipolar e as visões entre mestre e amo se complementem. A liberdade é um lugar-comum na escrita de Diderot e não se espantem ao ler – e entender -, por exemplo, a necessidade óbvia que os filósofos sentem de ofender o próximo.

À imagem de outras obras de caráter discursivo, Diderot pensou este “Jacques o Fatalista e o seu Amo” como uma paródia (ou talvez não) que se estenderia por um período largo, existindo muito mais neste livro que a ridicularização e o conceito de paradoxo.

Diderot tinha por propósito fazer o leitor pensar, levar-nos a entender que o mundo pode estar organizado de uma forma que transcende os conceitos comuns de ordem e caos. “Jacques o Fatalista e o seu Amo” é um alerta face à modernidade que se aproximava, face às mudanças que o final do século XVIII poderia proporcionar.

A complexidade deste livro pode mesmo levar a equacionar, tal como já fora referido, o seu estatuto de romance. De facto, podemos mesmo considerá-lo uma narrativa parodiada ou ainda uma novela conceptual em forma de desafio. O extremo fatalismo de Jacques é o que faz funcionar um livro que se assume como um clássico sem espinhas, cujo todo assume a estrutura de um puzzle que deriva em um todo fragmentado mas incrivelmente (in)coerente, que o torna um documento único.

In deusmelivro