“Don’t think about making art, just get it done. Let everyone else decide if it’s good or bad, whether they love it or hate it. While they are deciding, make even more art.” Andy Warhol
terça-feira, 16 de setembro de 2014
“Entrevistas de Nuremberga”
de Leon Goldensohn
No final da Segunda Grande Guerra, depois da muito aguardada queda da Alemanha, era urgente encontrar e, acima de tudo, punir culpados. Milhões de mortos e variadíssimos crimes contra a humanidade tinham de ser vingados com vista a restituir uma réstia de dignidade e justiça.
A Europa vivera um dos seus períodos mais negros entre 1939 e 1945 e, da luta entre Aliados e Forças do Eixo, os vencedores, se é que existiram, queriam o regresso da normalidade e, para isso, era necessário um julgamento global e público. Franklin Roosevelt, José Estaline e Winston Churchill ainda hesitaram entre execuções sem julgamento e um julgamento realizado por um Hermanntribunal internacional mas a segunda via, mais racional, acabou por vencer.
Diversos especialistas em direito internacional analisaram o perfil e ação dos arguidos e tentaram distinguir entre líderes, organizadores, instigadores, cúmplices, conspiradores e outros. A acusação variava entre Crimes contra a Paz, Crimes de Guerra e Crimes contra a Humanidade. As definições variavam, as consequências foram igualmente devastadoras e inimagináveis.
A sete de maio de 1945, a Alemanha rendia-se oficialmente e entre maio e outubro os Aliados analisaram os crimes praticados pelas forças do Terceiro Reich e, entre os nomes dos assassinos, figuravam figuras como Hermann Goering ou Ernst Kaltenbrunner. Detidos, os antigos membros nazis ocuparam as celas da prisão de Nuremberga e, enquanto aguardavam julgamento, foram entrevistados por Leon Goldensohn, um psiquiatra norte-, como os já referidos Goering e Kaltenbrunner mas também Hans Frank, Joachim von Ribbentrop, Rudolf Hoess ou Albert Speer.
Goldensohn, que fez parte da 63. ª Divisão de Infantaria do Exército do Mississípi enquanto capitão, chegou ao 121. º Hospital de Nuremberga a 29 de setembro de 1945, já com a patente de major, e organizou uma série de dossiers sobre os detidos que serviram a loucura liderada por Adolf Hitler.
Ao folhear as quase 600 páginas de “Entrevistas de Nuremberga” (Tinta da China, 2014) verificamos, de forma clara, a capacidade (ou tentativa) manipuladora da psicologia “barata” utilizada pelos detidos que, quase na sua totalidade, afirmavam desconhecer por completo a estratégia de Hitler, limitando-se a cumprir ordens como um bom militar.
Essa tentativa de racionalização, quebrada pontualmente por homens como Speer ou Hess, está bem patente neste fabuloso grupo de entrevistas que ousam revelar várias facetas. Karl Donitz, autor do primeiro testemunho e o oficial mais graduado dos entrevistados, oferece, por exemplo, uma análise parcialmente interessante da Segunda Grande Guerra por parte do Terceiro Reich.
Segundo Donitz, muitos oficiais não sabiam sequer da “Solução Final”, limitando-se a, mais uma vez, “cumprir ordens” e, ainda que reconheçam as perseguições étnicas levadas a cabo pela SS, afastam-se dessa responsabilidade.
Para muitos dos arguidos, as entrevistas de Goldensohn eram uma forma de conseguir alguma credibilidade (em alguns casos completamente bacoca), de forma a saírem beneficiados no que toca à sua defesa e presença em tribunal.
A manipulação, ou a tentativa da mesma, é diversas vezes notória em “Entrevistas de Nuremberga” e a frieza de algumas declarações deixam o leitor entender um pouco do raciocínio dos acusados.
Numa das mais intensas declarações de Goring, este afirmou: «Penso que não é nada desportivo matar crianças. É isso que mais me incomoda no extermínio dos judeus.» Hoess foi mais longe no que toca a sua desresponsabilização reagindo às perguntas de Goldensohn de forma fria e distante. Em resposta a uma questão do psiquiatra afirmou mesmo: «Não entendo o que quer dizer com ficar perturbado com estas coisas porque eu, pessoalmente, não assassinei ninguém. Era apenas o diretor do programa de extermínio de Auschwitz.»
Mesmo décadas depois é ainda hoje impossível não sentir um arrepio ao lembrar as atrocidades cometidas durante a ditadura nazi na Europa e, este livro, assume-se como um documento essencial para a compreensão e contextualização da história do Terceiro Reich e da Segunda Grande Guerra. Para que a memória não se apague.
In deusmelivro
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
MARK KOZELEK
"LIVE AT BIKO"
A VIDA (INTEIRA) NAS CORDAS DE UMA GUITARRA
O lançamento de “Benji” - um dos melhores trabalhos do norte-americano Mark Kozelek, ainda que sob a designação Sun Kil Moon - em fevereiro deste ano fez o mítico líder dos Red House Painters regressar aos grandes discos, aos registos que têm dentro de si uma aliança ideal entre a música (no caso, voz e guitarra) e a vida. Ainda que não fosse preciso qualquer forma de prova, “Benji” confirmou, mais uma vez, a genialidade da arte saída da mente e guitarra de Kozelek, cuja harmonia resulta num registo música emocional, direto e, por que não dizê-lo, implosivo. Falamos de um disco que resulta de um gigantesco sentido de fragilidade e laivos de mortalidade, características que sempre acompanharam a alma poética de Kozelek, alguém que não precisa de uma orquestra para tornar a melodia gigante. E, ao vivo, as composições que fazem parte de “Benji”, e não só, resultam de forma maravilhosa.
“Live at Biko” é, mais uma vez, uma categórica mostra da majestade do reportório de Mark Kozelek, que, com uma assinalável regularidade, faz nascer música, canções que afastam com distinção o fantasma da redundância. O músico natural de Massillon, Ohio, torna o simples em momentos de rara beleza e quem não teve o privilégio de acompanhar a digressão de “Benji” tem neste “Live at Biko” a possibilidade de sentir essa magia.
E a inveja é um dos sentimentos possíveis ao ouvir “Live at Biko”. Inveja de não ter estado em Milão, inveja de não ter ouvido aquelas músicas ao vivo. Inveja de uma tal Sara que “invadiu” o palco. Inveja de não sentir a melancolia da mestria de Kozelek. Inveja, assim, pura e dura, daquilo que é único.
A intimidade que resulta da conceção de “Live at Biko” vai ao ponto de causar arrepios a cada acorde, a cada palavra cantada, a cada segredo revelado, a cada segundo de partilha entre cantor, músico e público. Até mesmo quando Kozelek interrompe de forma abrupta “I Love My Dad”, – numa atmosfera que lembra algumas aproximações acústicas de Springsteen a “Born to Run” – porque entende que a canção não resulta por terras de Itália, não se perde uma pontinha de magia.
Ao longo das 14 canções deste disco fala-se de desventuras sexuais, filmes, familiares, heróis de sempre, namoradas, problemas com drogas, assassinos, prostitutas, casinos, adolescência, da vida toda, sem filtros ou medo da memória, ainda que a mesma já revele falências que equivalem à cada vez mais iminente proximidade dos 50 anos.
O concerto (ou devemos dizer disco?) começa com a fantástica “Gustavo”, seguida de “I Watched the Film The Song Remains the Same”, está última retirada de “Benji”, o disco mais representado em “Live at Biko”. Entre as canções há espaço para a partilha, para o silêncio, para o humor ou até mesmo para perguntar quanto tempo resta para a guitarra e voz de Kozelek poderem enfeitiçar a plateia.
A beleza da prestação de Mark Kozelek conserva, assim, para a história maravilhosas interpretações de, por exemplo, “Micheline”, “Alesund”, “Carrisa”, “Tavoris Cloud” ou “Caroline”. Ainda que a tranquilidade seja o sentimento mais presente, em momentos como na interpretação de “Hey you Bastards, I’m Still Here”, que surgiu da colaboração de Kozelek com Desertshore, assalta-nos um desafio, um enfrentar de fantasmas que ganha ainda mais força com uma interpretação a lembrar Neil Young.
A cereja em cima de um bolo - muito delicioso mesmo - é a prestação de “Sunshine in Chicago”, um pedido especial, segundo Kozelek, do seu tour manager e que foi sinónimo de (mais) um esforço de memória.~
Aquilo que fica, não só deste disco como de tudo em que Kozelek participa, é a simplicidade desarmante com que faz uma música que entra dentro de quem a ouve e aí permanece para a eternidade. Não há muitos compositores assim, com uma alma maior que a vida, com uma musicalidade única e inebriante. Ouvir discos como “Live at Biko” é obrigatório, viciante e decididamente um presente dos deuses.
Alinhamento:
01 Gustavo
02 I Watched The Film The Song Remains The Same
03 I Love My Dad
04 Dogs
05 Micheline
06 Richard Ramirez Died Today Of Natural Causes
07 Alesund
08 Hey You Bastards I'm Still Here
09 Sunshine In Chicago
10 Carissa
11 Caroline
12 Ceiling Gazing
13Tavoris Cloud
14 Elaine
Classificação do Palco: 9/10
In Palco Principal
O lançamento de “Benji” - um dos melhores trabalhos do norte-americano Mark Kozelek, ainda que sob a designação Sun Kil Moon - em fevereiro deste ano fez o mítico líder dos Red House Painters regressar aos grandes discos, aos registos que têm dentro de si uma aliança ideal entre a música (no caso, voz e guitarra) e a vida. Ainda que não fosse preciso qualquer forma de prova, “Benji” confirmou, mais uma vez, a genialidade da arte saída da mente e guitarra de Kozelek, cuja harmonia resulta num registo música emocional, direto e, por que não dizê-lo, implosivo. Falamos de um disco que resulta de um gigantesco sentido de fragilidade e laivos de mortalidade, características que sempre acompanharam a alma poética de Kozelek, alguém que não precisa de uma orquestra para tornar a melodia gigante. E, ao vivo, as composições que fazem parte de “Benji”, e não só, resultam de forma maravilhosa.
“Live at Biko” é, mais uma vez, uma categórica mostra da majestade do reportório de Mark Kozelek, que, com uma assinalável regularidade, faz nascer música, canções que afastam com distinção o fantasma da redundância. O músico natural de Massillon, Ohio, torna o simples em momentos de rara beleza e quem não teve o privilégio de acompanhar a digressão de “Benji” tem neste “Live at Biko” a possibilidade de sentir essa magia.
E a inveja é um dos sentimentos possíveis ao ouvir “Live at Biko”. Inveja de não ter estado em Milão, inveja de não ter ouvido aquelas músicas ao vivo. Inveja de uma tal Sara que “invadiu” o palco. Inveja de não sentir a melancolia da mestria de Kozelek. Inveja, assim, pura e dura, daquilo que é único.
A intimidade que resulta da conceção de “Live at Biko” vai ao ponto de causar arrepios a cada acorde, a cada palavra cantada, a cada segredo revelado, a cada segundo de partilha entre cantor, músico e público. Até mesmo quando Kozelek interrompe de forma abrupta “I Love My Dad”, – numa atmosfera que lembra algumas aproximações acústicas de Springsteen a “Born to Run” – porque entende que a canção não resulta por terras de Itália, não se perde uma pontinha de magia.
Ao longo das 14 canções deste disco fala-se de desventuras sexuais, filmes, familiares, heróis de sempre, namoradas, problemas com drogas, assassinos, prostitutas, casinos, adolescência, da vida toda, sem filtros ou medo da memória, ainda que a mesma já revele falências que equivalem à cada vez mais iminente proximidade dos 50 anos.
O concerto (ou devemos dizer disco?) começa com a fantástica “Gustavo”, seguida de “I Watched the Film The Song Remains the Same”, está última retirada de “Benji”, o disco mais representado em “Live at Biko”. Entre as canções há espaço para a partilha, para o silêncio, para o humor ou até mesmo para perguntar quanto tempo resta para a guitarra e voz de Kozelek poderem enfeitiçar a plateia.
A beleza da prestação de Mark Kozelek conserva, assim, para a história maravilhosas interpretações de, por exemplo, “Micheline”, “Alesund”, “Carrisa”, “Tavoris Cloud” ou “Caroline”. Ainda que a tranquilidade seja o sentimento mais presente, em momentos como na interpretação de “Hey you Bastards, I’m Still Here”, que surgiu da colaboração de Kozelek com Desertshore, assalta-nos um desafio, um enfrentar de fantasmas que ganha ainda mais força com uma interpretação a lembrar Neil Young.
A cereja em cima de um bolo - muito delicioso mesmo - é a prestação de “Sunshine in Chicago”, um pedido especial, segundo Kozelek, do seu tour manager e que foi sinónimo de (mais) um esforço de memória.~
Aquilo que fica, não só deste disco como de tudo em que Kozelek participa, é a simplicidade desarmante com que faz uma música que entra dentro de quem a ouve e aí permanece para a eternidade. Não há muitos compositores assim, com uma alma maior que a vida, com uma musicalidade única e inebriante. Ouvir discos como “Live at Biko” é obrigatório, viciante e decididamente um presente dos deuses.
Alinhamento:
01 Gustavo
02 I Watched The Film The Song Remains The Same
03 I Love My Dad
04 Dogs
05 Micheline
06 Richard Ramirez Died Today Of Natural Causes
07 Alesund
08 Hey You Bastards I'm Still Here
09 Sunshine In Chicago
10 Carissa
11 Caroline
12 Ceiling Gazing
13Tavoris Cloud
14 Elaine
Classificação do Palco: 9/10
In Palco Principal
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
“A Sombra da Rota da Seda”
de Colin Thubron
Revisitar a história é um dos mais fascinantes exercícios que o Homem pode almejar. Na impossibilidade de poder fazer um regresso ao passado através de um instrumento (irreal) como uma “máquina do tempo”, resta recriar acontecimentos, períodos… ou rotas comerciais.
E é essa última abordagem que Colin Thubron faz em “A Sombra da Rota da Seda” (Bertrand Editora, 2014), transformando este maravilhoso livro de viagens em uma obra repleta de emoção, pertinência e acutilância.
O autor, que faz parte de uma lista elaborada pelo jornal The Times que engloba os 50 maiores escritores britânicos do pós-guerra e preside a Royal Society of Literature, conta com livros traduzidos em mais de duas dezenas de línguas, cujo conteúdo o levou a percorrer o Médio Oriente, nomeadamente países como a Síria, Líbano ou Chipre.
Em “A sombra da Rota da Seda”, Thubron inicia a sua demanda em Xian, antiga capital da China, de forma a percorrer os milhares de quilómetros que compunham a antiga Rota da Seda, vivendo uma experiência que mistura conhecimento histórico com pertinentes e muito interessantes notas sobre a vida contemporânea. A viagem é feita de autocarro, avião, a pé, em carroças com tração quadrúpede, de comboio ou jipe.
Desde o coração da China, Colin segue o trilho da primeira grande rota comercial e atravessa as montanhas da Ásia Central, as planícies do Irão e penetra em território turco. Pelo caminho ficam experiências ímpares e irrepetíveis, que tornam os mais de 4500 quilómetros percorridos numa das maiores aventuras levadas a cabo pelo homem “moderno”.
A narrativa é absolutamente maravilhosa e a escrita de Thubron leva o leitor a sentir as agruras e delícias da viagem de forma única. Tal como é seu apanágio, Colin mistura erudição com sensibilidade, bom gosto com assertividade, passado com presente e laivos de futuro.
A facilidade e capacidade com que Thubron fala mandarim ou russo permitiu recolher informações preciosas ao longo de um percurso que cresce à medida da presença dos seus intervenientes. Apenas assim é possível sentir a miscigenação interpessoal e intercultural que é intrínseca às tribos e nações que integram as várias fronteiras políticas percorridas pelo britânico.
Em alguns locais da China Ocidental, por exemplo, o nosso narrador tenta entender um território habitado há muito por tibetanos, uigures e outros povos que encaram a presença chinesa de forma quase dilacerante e “incógnita”. Os fenómenos migratórios são outro dos temas observados e debatidos neste livro, que também faz um pertinente perfil de alguns espaços, outrora quase virgens, que estão a ser invadidos pelo cinzentismo do betão e pela industrialização sem alma.
Colin Thubron consegue relembrar a Rota da Seda como um trajeto bipolar e com vários sentidos, ou seja, como o resultado de um nervosíssimo sistema com dois polos distintos: a China e o Mediterrâneo.
Este percurso, que existiu durante cerca de três milénios, era feito em territórios que hoje são extremamente perigosos e votados ao isolamento. Thubron percorreu muitas vezes os caminhos sozinho, pois nenhum guia local ousou pisar tais campos “minados”, enfrentando graves problemas de saúde e tendo mesmo ficado de quarentena devido a insuficiências que derivaram da síndrome respiratória – também conhecida por SARS.
Ultrapassando problemas vários e com uma persistência heroica, Colin Thubron consegue tornar esta viagem numa maravilhosa experiência que toca o leitor de uma forma absolutamente emocionante, onde a geografia, a cultura e a política são ingredientes essenciais para a elaboração de um prato com sabor a mundo.
In deusmelivro
“Morte numa Noite de Verão”
de K. O. Dahl
Um “clássico” vindo do Norte
Ainda que não estejamos perante um livro novo – a edição norueguesa deste título data de 2000 – “Morte numa Noite de Verão” (Porto Editora, 2014) traz, finalmente, ao mercado editorial português, K. O. Dahl, um dos mais respeitados autores de policiais oriundos das prolíferas paisagens nórdicas.
Com um início de carreira que nos remete para os primeiros anos da década de 1990, seria com “Morte numa Noite de Verão” que Dahl arrecadaria o galardão do Melhor Policial Norueguês do Ano e seria também nomeado para o Brage Literary Award, assim como para o Glass Key Award e o Martin Beck Award.
Ainda que sem edição nacional, Dahl é dono de vários títulos interessantes com destaque para as aventuras do detetive Frolich que em “Morte numa Noite de Verão” tem como companheiro o solitário Gunnarstranda, um personagem fruto de muitas influências noir de autores como Dashiell Hammett ou Raymond Chandler, que combate a solidão através de monólogos com Kalfatrus, um peixe de aquário, mas que não renega o exílio da sua cabana no seio da floresta junto de Oslo.
A trama de “Morte numa Noite de Verão” remete-nos para Katrine Bratterud, uma bela e sedutora jovem que está perto de conseguir o pleno da sua reabilitação face às drogas. De forma a comemorar tal feito, Katrine e o seu namorado Ole, são convidados de Annabeth e Bjorn, o casal que dirige o centro de reabilitação, para uma festa privada em casa desses.
A noite vai longa mas Katrine não se sente bem e abandona o local, sozinha. Na ressaca, a jovem procura um ombro amigo e quando procura refrescar-se junto de um lago, depois de momentos de luxúria, é vítima de uma morte brutal que leva a uma série de interrogações e dúvidas sobre o seu passado longínquo e recente.
O caso traz à ação a dupla de inspetores Frolich e Gunnarstranda, dois experientes agentes policiais que refutam coincidências e afastam do cenário da morte de Katrine uma questão relativa à falta de sorte.
A investigação leva Frolich e Gunnarstranda a difíceis puzzles pessoais e de uma densidade assinalável que estão para além das ligações de Katrine a redes de prostituição e droga. Os suspeitos crescem a cada página. Ninguém está a salvo e a violência do assassino apenas encontra paralelo na intensidade com que Folich e Gunnarstranda se embrenham num caso que os leva a uma viagem que atravessa gerações.
As páginas fluem com uma cadência quase “teatral” onde cada capítulo pode ser entendido como um “ato” cuja sumula vai ao encontro da globalidade de um romance dividido em três partes. O enredo é satisfatoriamente intrincado e resulta numa amálgama de desilusão, problemas que derivam da adição a drogas e questões sociais diversas.
Dahl, serve-nos um romance cativante e sólido onde a música e a literatura são referências (Tom Waits, Mozart e Arundhati Roy são algumas referências) mas os principais ingredientes são uma típica poesia nórdica e um élan emocional que está intrinsecamente associado aos metidos da investigação policial.
Para além disso, Folich e Gunnarstranda transpõem para a ação a complexidade das suas relações pessoais que juntamente com o mistério do assassinato em si mesmo tornam o livro numa peça mais una e interessante. Outra das particularidades da escrita de Dahl é a forma como nos apresenta Oslo, como dá a conhecer facetas “turísticas” da cidade, algo que é uma das mais interessantes imagens de marca dos títulos entendidos como policiais nórdicos.
Ainda que, em 2014, “Morte numa Noite de Verão” não seja uma “lança em África” no que toca aos romances policiais oriundos do norte da Europa, não deixa de ser um livro obrigatório para os amantes do género.
In Rua de Baixo
Ainda que não estejamos perante um livro novo – a edição norueguesa deste título data de 2000 – “Morte numa Noite de Verão” (Porto Editora, 2014) traz, finalmente, ao mercado editorial português, K. O. Dahl, um dos mais respeitados autores de policiais oriundos das prolíferas paisagens nórdicas.
Com um início de carreira que nos remete para os primeiros anos da década de 1990, seria com “Morte numa Noite de Verão” que Dahl arrecadaria o galardão do Melhor Policial Norueguês do Ano e seria também nomeado para o Brage Literary Award, assim como para o Glass Key Award e o Martin Beck Award.
Ainda que sem edição nacional, Dahl é dono de vários títulos interessantes com destaque para as aventuras do detetive Frolich que em “Morte numa Noite de Verão” tem como companheiro o solitário Gunnarstranda, um personagem fruto de muitas influências noir de autores como Dashiell Hammett ou Raymond Chandler, que combate a solidão através de monólogos com Kalfatrus, um peixe de aquário, mas que não renega o exílio da sua cabana no seio da floresta junto de Oslo.
A trama de “Morte numa Noite de Verão” remete-nos para Katrine Bratterud, uma bela e sedutora jovem que está perto de conseguir o pleno da sua reabilitação face às drogas. De forma a comemorar tal feito, Katrine e o seu namorado Ole, são convidados de Annabeth e Bjorn, o casal que dirige o centro de reabilitação, para uma festa privada em casa desses.
A noite vai longa mas Katrine não se sente bem e abandona o local, sozinha. Na ressaca, a jovem procura um ombro amigo e quando procura refrescar-se junto de um lago, depois de momentos de luxúria, é vítima de uma morte brutal que leva a uma série de interrogações e dúvidas sobre o seu passado longínquo e recente.
O caso traz à ação a dupla de inspetores Frolich e Gunnarstranda, dois experientes agentes policiais que refutam coincidências e afastam do cenário da morte de Katrine uma questão relativa à falta de sorte.
A investigação leva Frolich e Gunnarstranda a difíceis puzzles pessoais e de uma densidade assinalável que estão para além das ligações de Katrine a redes de prostituição e droga. Os suspeitos crescem a cada página. Ninguém está a salvo e a violência do assassino apenas encontra paralelo na intensidade com que Folich e Gunnarstranda se embrenham num caso que os leva a uma viagem que atravessa gerações.
As páginas fluem com uma cadência quase “teatral” onde cada capítulo pode ser entendido como um “ato” cuja sumula vai ao encontro da globalidade de um romance dividido em três partes. O enredo é satisfatoriamente intrincado e resulta numa amálgama de desilusão, problemas que derivam da adição a drogas e questões sociais diversas.
Dahl, serve-nos um romance cativante e sólido onde a música e a literatura são referências (Tom Waits, Mozart e Arundhati Roy são algumas referências) mas os principais ingredientes são uma típica poesia nórdica e um élan emocional que está intrinsecamente associado aos metidos da investigação policial.
Para além disso, Folich e Gunnarstranda transpõem para a ação a complexidade das suas relações pessoais que juntamente com o mistério do assassinato em si mesmo tornam o livro numa peça mais una e interessante. Outra das particularidades da escrita de Dahl é a forma como nos apresenta Oslo, como dá a conhecer facetas “turísticas” da cidade, algo que é uma das mais interessantes imagens de marca dos títulos entendidos como policiais nórdicos.
Ainda que, em 2014, “Morte numa Noite de Verão” não seja uma “lança em África” no que toca aos romances policiais oriundos do norte da Europa, não deixa de ser um livro obrigatório para os amantes do género.
In Rua de Baixo
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Rentreé Grupo BertrandCírculo
Até ao final de 2014 o Grupo BertrandCírculo vai fazer chegar às livrarias mais de cinco dezenas de livros que, por certo, vão fazer as delícias dos leitores das mais variadas temáticas e abordagens.
Ao longo de quase hora e meia de apresentação – e boa disposição -, Francisco José Viegas, Eduardo Boavida e Guilhermina Gomes abriram literalmente o livro e deram a conhecer novidades sobre autores como José Luís Peixoto, Thomas Piketty, Mário Soares, José Viale Moutinho, Daniel Silva, José Rentes de Carvalho ou Sérgio Godinho, que se aventura pela primeira vez no campo da ficção.
A mostra começou com Francisco José Viegas e ficámos a saber que já este mês a Quetzal Editores vai lançar, no campo da literatura e ficção, “Montedor”, o primeiro romance de J. Rentes de Carvalho, “Mustang Branco” de Filipa Martins e o muito esperado “Herzog” de Saul Bellow, uma obra de tom autobiográfico que foi editado pela primeira vez há cinco décadas. No universo da ciência política, “Da Europa de Schumann à Não Europa de Merkel”, do açoriano Eduardo Paz Ferreira, faz um retrato da evolução da Europa das uniões e espírito comunitário.
Para outubro Viegas destacou mais quatro obras, sendo uma delas “Galveias”, a nova aposta literária de José Luís Peixoto. “Vida Dupla” marcará a estreia de Sérgio Godinho na ficção, enquanto “A Mística de Putin”, de Anna Aruntunyan, traça um perfil sem filtro de um dos mais polémicos líderes da atualidade. Também dentro do espetro político, o ex-jornalista Ricardo Saavedra oferece “O Puto”, um livro que levou cerca de três décadas a ser devidamente preparado e que resultou de um inesperado pedido de entrevista por parte do mítico Comandante Paulo a Saavedra.
“O Rei Pálido”, romance inacabado em forma de testemunho emocional de David Foster Wallace, marca a atividade editorial da Quetzal em novembro, que lançará também “Biografia de Marcello Caetano”, título de Luís Menezes Leitão que revelará várias facetas pouco exploradas de uma das mais controversas figuras da história recente de Portugal.
No que toca as chancelas da Bertrand Editora, Eduardo Boavida tem muitas e boas propostas. Este mês vão chegar às livrarias, por exemplo, “O Filho” de Philipp Meyer, um épico que faz uma tangente à história dos Estados Unidos da América e que sucede ao sucesso internacional que foi “Ferrugem Americana”, “Vibração” de Anders de la Motte e “Os Luminares”, um romance de quase novecentas páginas de Eleanor Catton, vencedora do Man Booker Prize de 2013. Em termos da não ficção, o destaque vai para “O Demónio na Cidade Branca”, de Erik Larson, “Como Sentimos” do neurocientista Giovanni Frazzetto, assim como “As Mulheres Contra a Ditadura”, de Cecília Honório. A literatura juvenil está bem representada com “Todos por um Risquinho”, de Alexandre Honrado, livro vencedor do Prémio Cidade de Almada /Maria Rosa Colaço 2013 e que conta com ilustrações de Joana Rita.
Outubro vai fazer chegar “Nigelissima”, com Nigella Lawson a ditar mais de uma centena de receitas simples e rápidas que nasceram da experiência da autora em Florença, assim como “A Retirada dos Dez Mil”, de Aquilino Ribeiro, que resulta da tradução da obra de Xerofonte que tem como epicentro a epopeia dos gregos por terras da Pérsia. Mário de Carvalho é o autor do prefácio. “Sycamore Row”, de John Grisham, fecha o mês de outubro por parte da Bertrand.
No que toca a novembro, esperam-se obras como “Agridoce”, de Collin McCullough, “Dispara que Eu já Estou Morto”, de Julia Navarro, ou “22/11/63”, do mestre Stephen King. Daniel Silva é outras das estrelas deste mês e “O Assalto” resulta de um enorme esforço por parte da Bertrand, pois este título chega com apenas quatro meses de “atraso” face ao lançamento mundial, uma clara vitória do grupo por forma a criar cada vez mais íntima a ligação entre o leitor português e o escritor norte-americano.
No que toca a edições da Pergaminho, Eduardo Boavida destacou a toada mais espiritual de “O Voo do Pássaro”, de Osho, assim como a poesia e meditação de “Bolota“, de Yoko Ono, e a emoção de “Um Milhão de Cartas com Amor”, de Jodi Ann Bickley. Todos estes títulos chegam ao público já este mês. Através da Arte Plural as livrarias vão contar com “Petiscos de Ramsay” e “In the Mix”, um livro com receitas para a Bimby que conta com contributos de chefes internacionais com estrelas Michellin, entre os quais o português Sá Pessoa.
Finalmente Guilhermina Gomes, felicíssima e orgulhosa com os vinte anos da Temas e Debates, apresentou alguns dos seus mais queridos “afectos”. Depois de falar da publicação dos últimos três tomos da Obra Completa de Padre António Vieira, destacou “A Insurreição de Jesus”, de Frei Bento Domingues, que vai ver a luz do dia já em setembro, que será também o mês de lançamento de “A Tragédia da União Europeia”, de George Soros, e “Arte na Cidade”, de Mário Caeiro.
Em outubro são editados “O Capital no século XXI”, do economista Thomas Piketty – obra apelidada como a melhor da atualidade no que toca ao espetro da economia -, assim como “A República dos Sonhos”, da brasileira Nelida Piñon, bem como o polémico “Bom dia, Sr. Mandela”, de Zelda de la Grange, que trabalhou como assistente de um dos mais emblemáticos africanos da história da humanidade.
Mário Soares é um dos grandes nomes do catálogo da Temas e Debates em novembro: “Cartas e Intervenções Políticas do Exílio” apresenta textos do carismático líder do PS escritos antes de 1974. “O Passageiro Clandestino”, um ensaio de Leonor Xavier, é outro dos destaques. Outro motivo de orgulho foi o anúncio de uma nova coleção dedicada à literatura tradicional portuguesa, a ser editada pelo Círculo de Leitores da autoria de José Viale Moutinho.
In deusmelivro
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Rentrée literária Orfeu Negro
Até ao final do ano, a Orfeu Negro conta apresentar algumas surpresas que vão da literatura de toada erótica ao ensaio, passando pelo universo infantil.
Para os mais crescidos, “Obscénica – Textos Eróticos & Grotescos”, integrado na Colecção Casimiro, é um livro composto por palavras e ilustrações da autoria de Hilda Hilst – um dos nomes maiores da literatura oriunda do Brasil – e André da Loba, respetivamente, e será lançado em novembro.
No campo do ensaio, “Preto – História de uma Cor”, da autoria de Michel Pastoureau, é outra das apostas da Orfeu Negro e será editado já em setembro. Esta obra comprova a mestria de Pastoreau no que toca à simbólica das cores e terá apresentação oficial no Institut Français du Portugal. E, já que falamos do universo francófono, “Os Filmes da minha Vida”, de François Truffaut, obra que compila mais de uma centena de artigos da autoria do cineasta francês escritos para o consagrado Cahiers du Cinéma.Amantes do cinema estejam assim atentos ao mês de novembro.
No que toca ao catálogo Colecção Mini-Orfeu, “Arte & Max”, de David Wieser, chega aos escaparates em setembro. Depois de arrecadar por três vezes a Caldecott Medal – galardão atribuído anualmente pela norte-americana Association for Library Service to Children aos ilustradores infantis -, Wieser apresenta um livro original que versa sobre a criação artística em si mesma.
Em outubro a editora vai colocar no mercado mais duas obras: “O Escuro” – vencedor do Melhor Livro Ilustrado 2013, galardão atribuído pelo New York Times –, uma história de suspense sobre o medo do escuro, com texto de Lemony Snicket e ilustrações de Jon Klassen, assim como “A Minha Professora é um Monstro!”, de Peter Brown, um livro que traça o perfil (divertido) da professora de Fred, que grita muito e não deixa ir ao recreio quem atira aviões de papel da sala de aula.
Também dedicado ao público mais pequeno – e não só , “Mãos à obra: Cada Casa a seu Dono”, de Didier Cornille, vai chegar às livrarias em novembro, explicando à criançada a arquitetura contemporânea.
In deusmelivro
Rentrée literária 20|20 editora
Com setembro à porta, as editoras preparam a rentrée editorial com muitas e boas surpresas. Com um perfil cada vez mais cimentado no mercado português, a 20|20 editora celebra o seu quinto aniversário com a certeza de se assumir como uma das seis mais representativas editoras nacionais, e nada melhor para celebrar essas conquistas que mais livros e uma nova chancela.
Assim, ainda em agosto, chega aos escaparates via Topseller o thriller “Não Digas Nada” de Mary Kubica, assim como “Ama-me”, tomo número três da premiada série de J. Kenner que conquistou o Prémio Melhor Romance Erótico de 2014 e “Um Caso Perdido”, um romance de Collen Hover, uma das mais representativas autoras com selo New York Times.
Para os mais novos a Booksmile oferece pela primeira vez uma agenda especialíssima para os inúmeros fãs da série “O Diário de um Banana”. Um utensílio essencial para o ano escolar que se aproxima.
Em setembro, os amantes de policiais com inspiração no eterno Sherlock Holmes vão ter como prenda “A Mulher Má”, obra de Marc Pastor, uma das mais jovens vozes da literatura espanhola que leva o leitor até à Barcelona do início do século passado. O romance histórico também está em destaque neste mês e “O Segredo dos Tudor” de C.W. Gortner é uma obra a descobrir. Por sua vez, Taylor Stevens traz-nos mais uma aventura de Vanessa Michael Monroe em “Os Inocentes”.
Os autores nacionais têm um cantinho muito especial na 20|20 e, através da Vogais, a editora vai lançar “Mourinho Rockstar: As Duas Faces do Treinador Mais Polémico do Mundo”, de Luís Aguilar, “ABC da Poupança”, de Ana Rosa Bravo, “Dieta Anti-Cancro”, de Magda Roma, e “Um Homem Também Chora”, de Mónica Menezes. Universos literários diferentes, interesse comum.
Já em outubro chega mais um excitante livro do aclamado James Patterson: “I, Alex Cross” será a terceira obra de uma das mais procuradas séries policiais dos últimos tempos. Mas não é tudo no que toca aos policiais. Janet Evanovich regressa com “A perseguição”, nova aventura de Kate O’Hare. Para quem gosta de thrillers de intensidade desmedida, “Fraturado” de Karin Slaughter traz às livrarias o segundo livro da série Will Trent.
Da ficção para o espetro biográfico, Paul Webster apresenta “Antoine de Saint Exupéry: Vida e Morte do Principezinho”, via Vogais. “Crazy Phill”, de Philip Leonetti, é outra das novidades e relata, na primeira pessoa, a intimidade do quotidiano da família mais violenta da história da América. Para os amantes da Cosa Nostra recomendamos também “O Príncipe da Máfia”. E como a arte de poupar é cada vez mais uma filosofia, “Kakebo” será alvo de atualização para 2015.
Em novembro, a Topseller apresenta “Quando a Neve Cai”, obra saída da pena de John Green, Lauren Myracle e Maureen Johnson, que reúne três histórias onde o amor é figura central. E, com a natal à porta, a Booksmile não podia deixar de editar “O Diário de um Banana 9”. Também a pensar na gente mais pequena Janey Louise Jones apresentará dois títulos incluidos na coleção “Princesa Poppy”. Para os adultos a Vogais tem também uma grande surpresa: a biografia do Papa Francisco da autoria do jornalista britânico Austin Ivereigh será um livro a não perder.
Outra das grandes novidades da 20|20 vai ser o nascimento de uma nova chancela para 2015, que reunirá 15 títulos divididos entre autores estrangeiros e nacionais. Ainda com o nome da chancela no segredo dos deuses, o Deus Me Livro já sabe que o primeiro autor a ser publicado será o Prémio Nobel Pearl S. Buck, através de “A Eterna Demanda”, um inédito que esteve “perdido” durante cerca de quatro décadas e que vai chegar às livrarias em fevereiro do próximo ano.
In Deusmelivro
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