Avante com a vida!
Corria o ano de 2001 quando Emmanuelle Bercot encarnou na tela o papel de Marion em “Clément”, acumulando essa interpretação com a função de realizadora. Ainda que tal não fosse a sua primeira experiência de direção (a sua estreia remonta a 1999 com “It All Starts Today”) “Clément” tornou Bercot como uma nova promessa do cinema francês.
Treze anos e cinco filmes depois, a atriz e realizadora oferece-nos “Ela Está de Partida”, um filme que tem como principal protagonista a eternamente bela Catherine Deneuve que assume o papel de Bettie, uma sexagenária proprietária de um restaurante e ex-Miss Bretanha, à beira da falência financeira e emocional.
Filme que integrou a seleção oficial do Festival de Berlim, obteve nomeações para Melhor Atriz e Melhor Ator Revelação nos Prémio César assim como para Melhor Filme no Festival Loius Delluc, “Ela está de Partida” é uma espécie de road-movie no feminino, versão Thelma sem Louise, envolto de uma toada trágico-cómica e repleto de personagens em busca de redenção e de reconciliação familiar e afetiva, ainda que não o admitam.
Bercot pensou “Ela Está de Partida” tendo em conta Bettie e a personagem encarnada por Deneuve consegue ser o centro das atenções – dentro de um elenco que acolhe alguns amadores e não-atores – de uma forma suave e gentil que apenas é possível depois de décadas à frente de uma câmara. E é essa mulher, que a vida deixou marcas profundas no coração, que se encontra numa encruzilhada emocional.
Um dia, Bettie sabe através da sua mãe, que o Homem que ama a abandonou. Desta relação complicada (Bettie é, era, amante do marido da mulher que era amante do seu marido) resultam mais desilusões, frustrações, antigos medos. Ainda que viva confortavelmente em casa de sua mãe, no andar de cima do restaurante das duas, Bettie reabre feridas. Estranhamente, ou não, o seu único consolo são os cigarros, vício que tinha interrompido.
Os laços familiares desta mulher que já foi Miss Bretanha, resumem-se à sua mãe pois a relação com a sua filha é um ato irremediavelmente falhado. A tristeza apodera-se de Bettie que de forma a escapar de um quotidiano que a estrangula, abandona o restaurante a meio de um dia e depois de um “já volto”, inicia a mais decisiva viagem da sua vida.
O início da mesma, a bordo do seu carro, é um dos momentos mais bonitos do filme ao qual não é de todo alheia a banda sonora que faz nesse momento brilhar a música de Rufus Wainwright. Bettie deixa tudo e todos, sem aviso e, metaforicamente, abandona a urbanidade embrenhando-se na bonita paisagem rural de França.
Para trás fica o restaurante, a mãe, o amante, a vida tal como ela era. O futuro é incerto, à base de um cigarro que teima em ser um consolo difícil de ser encontrado e apenas uma chamada telefónica da sua filha Muriel (bem interpretada pela cantora Camille) a leva a pensar numa nova rota. Charly (o excelente Nemo Schiffman), neto de Bettie e filho de Muriel, tem de ser entregue ao avô paterno pois a sua mãe sai em busca de emprego.
Os dados estão assim lançados e Bettie, que entretanto evita a tudo o custo reunir-se com as antigas Miss regionais de França de 1969 para participar na elaboração de um calendário, vê-se assim na companhia de um pequeno “estranho” que é o seu neto. É a partir do momento em que se juntam neto e avó que o filme de Bercot começa a ganhar consistência e um fio condutor pois até ai os minutos vão passando e ao espectador está reservado o papel de alguém que tenta juntar peças de um puzzle algo obtuso que busca, a espaços, fazer a dicotomia entre a juventude e a velhice e o choque geracional “triangular” entre Bettie, a sua mãe e filha.
Para trás ficam minutos que revelam uma personagem sem destino, propensa a encontros fugazes e que tem no ombro desconhecido a melhor forma de exorcizar fantasmas. Nesses momentos, a realizadora “ilude” o espetador com uma câmara que procura algum dinamismo a partir de uma subjetividade propositadamente “tosca” ou com a ajuda de grandes planos (excessivos?) que devassam a intimidade de Bettie ainda que é sempre um deleite olhar para um ecrã completamente preenchido pelo (ainda) doce semblante da “bela de dia”.
Felizmente que a segunda metade do filme consegue dar mais alguma chama a este filme e no final a sensação é de um confortável dever cumprido por parte de Emanuelle Bercot mas ainda assim um pouco tirado a ferros tal como a esperança e a felicidade finalmente conseguida por alguns dos personagens.
In Rua de Baixo
“Don’t think about making art, just get it done. Let everyone else decide if it’s good or bad, whether they love it or hate it. While they are deciding, make even more art.” Andy Warhol
quarta-feira, 21 de maio de 2014
terça-feira, 20 de maio de 2014
“O Olhar de Sophie”
de Jojo Moyes
Retrato para a eternidade
Estamos em 1916. A Europa está a ferro e fogo e a Primeira Guerra Mundial está ao rubro. Em Somme, uma pequena cidade francesa, Sophie Lefevre sonha com o seu marido Édouard, um pintor impressionista que partiu para a frente para combater o inimigo alemão.
De forma a vasculhar as maravilhas de uma memória envolta de momentos especiais, Sophie tem por hábito contemplar o seu retrato, pintado pelo marido. A ausência de quem se ama deixa profundas marcas num coração que sofre com a ausência e que as saudades dilacera.
Quando os alemães chegam a Somme, o comandante local revela um particular interesse por Sophie que é, agor,a uma mulher disposta a tudo: a arriscar perder entes queridos, a sua autoestima e até mesmo a própria vida, para recuperar o amor da sua vida.
Décadas depois, o retrato de Sophie chega a Londres e às mãos de Liv Halston, que tem nessa obra de arte a única recordação da memória do seu marido que morreu de forma prematura. Mas a vida traz mais desilusões. Liv é confrontada com a eventual perda do quadro, pois o mesmo está a ser reclamado pelos herdeiros e a sua única esperança é Paul, o homem que conseguiu tornar a vida de Liv novamente apaixonante e quetem agora a missão de investigar o seu paradeiro.
É desta forma que podemos traçar o perfil do novo livro da londrina Jojo Moyes. “O Olhar de Sophie” (Porto Editora, 2014) narra a vida de duas mulheres que, apesar de viverem em dois períodos muito diferentes da história, têm em comum uma luta particular – que tem no epicentro a pintura de Sophie – e revelam uma personalidade forte, obstinada e independente, ainda que salpicada por traços de uma fragilidade latente.
Outra das questões que as duas mulheres têm em comum é a pressão a que estão sujeitas, o que as torna em alvos fáceis de crítica por parte quem as rodeia. Neste capítulo, Moyes consegue fazer um interessante diálogo em forma de espelho entre os personagens, apesar das diferentes temáticas abordadas; enquanto Sophie é obrigada e lutar pelo presente e futuro, Liv tem no passado o maior inimigo.
Através de uma abordagem contemporânea, Moyes, por exemplo, confere à personagem de Liv um particular interesse neste livro, pois ao tornar-se viúva de forma muito precoce sente a dor da perda de forma injusta e galopante. É nesse contexto que o quadro de Sophie se torna numa peça fulcral para a sua existência, assumindo-se como o único laço que resta da sua ligação com o falecido marido.
Daí que toda a sua luta seja legitima, justa, clara e óbvia e a escritora, que já venceu o prémio Romantic Novel of the Year por duas vezes – e que editou entre nós livros como “A Baía do Desejo” ou “Viver Depois de Ti” -, consegue trabalhar o personagem de uma forma convincente, competente e apaixonada. Jojo Moyes tem o mérito de humanizar Liv e, ao leitor, é inato o sentimento de identificação com um personagem de corpo inteiro que se encontra (quase) sozinha num perigoso labirinto emocional.
Já com Sophei, Moyes resgata uma excelente dinâmica que tem como palco uma pequena cidade sitiada pelo inimigo. Também aqui a sobrevivência está em jogo, até de forma mais intensa. As emoções desfilam em carne viva através das linhas deste livro e Sophie dispensa a lógica e a ética com o fim de conseguir o seu objetivo.
No fundo, Sophie e Liv lutam por amor e a ligação emocional entre personagens e leitor é inevitável e muito bem recebida. Para isso muito contribui o talento da escrita de Jojo Moyes, que sabe captar a atenção de forma sagaz e eficiente o que torna este romance numa muito agradável surpresa.
Os personagens são credíveis, reais, muito bem desenvolvidos e a escrita simples e direta torna “O Olhar de Sophie” num livro altamente recomendável. Se ainda não conhecida a obra desta autora britânica, eis um bom ponto de partida.
In Rua de Baixo
Estamos em 1916. A Europa está a ferro e fogo e a Primeira Guerra Mundial está ao rubro. Em Somme, uma pequena cidade francesa, Sophie Lefevre sonha com o seu marido Édouard, um pintor impressionista que partiu para a frente para combater o inimigo alemão.
De forma a vasculhar as maravilhas de uma memória envolta de momentos especiais, Sophie tem por hábito contemplar o seu retrato, pintado pelo marido. A ausência de quem se ama deixa profundas marcas num coração que sofre com a ausência e que as saudades dilacera.
Quando os alemães chegam a Somme, o comandante local revela um particular interesse por Sophie que é, agor,a uma mulher disposta a tudo: a arriscar perder entes queridos, a sua autoestima e até mesmo a própria vida, para recuperar o amor da sua vida.
Décadas depois, o retrato de Sophie chega a Londres e às mãos de Liv Halston, que tem nessa obra de arte a única recordação da memória do seu marido que morreu de forma prematura. Mas a vida traz mais desilusões. Liv é confrontada com a eventual perda do quadro, pois o mesmo está a ser reclamado pelos herdeiros e a sua única esperança é Paul, o homem que conseguiu tornar a vida de Liv novamente apaixonante e quetem agora a missão de investigar o seu paradeiro.
É desta forma que podemos traçar o perfil do novo livro da londrina Jojo Moyes. “O Olhar de Sophie” (Porto Editora, 2014) narra a vida de duas mulheres que, apesar de viverem em dois períodos muito diferentes da história, têm em comum uma luta particular – que tem no epicentro a pintura de Sophie – e revelam uma personalidade forte, obstinada e independente, ainda que salpicada por traços de uma fragilidade latente.
Outra das questões que as duas mulheres têm em comum é a pressão a que estão sujeitas, o que as torna em alvos fáceis de crítica por parte quem as rodeia. Neste capítulo, Moyes consegue fazer um interessante diálogo em forma de espelho entre os personagens, apesar das diferentes temáticas abordadas; enquanto Sophie é obrigada e lutar pelo presente e futuro, Liv tem no passado o maior inimigo.
Através de uma abordagem contemporânea, Moyes, por exemplo, confere à personagem de Liv um particular interesse neste livro, pois ao tornar-se viúva de forma muito precoce sente a dor da perda de forma injusta e galopante. É nesse contexto que o quadro de Sophie se torna numa peça fulcral para a sua existência, assumindo-se como o único laço que resta da sua ligação com o falecido marido.
Daí que toda a sua luta seja legitima, justa, clara e óbvia e a escritora, que já venceu o prémio Romantic Novel of the Year por duas vezes – e que editou entre nós livros como “A Baía do Desejo” ou “Viver Depois de Ti” -, consegue trabalhar o personagem de uma forma convincente, competente e apaixonada. Jojo Moyes tem o mérito de humanizar Liv e, ao leitor, é inato o sentimento de identificação com um personagem de corpo inteiro que se encontra (quase) sozinha num perigoso labirinto emocional.
Já com Sophei, Moyes resgata uma excelente dinâmica que tem como palco uma pequena cidade sitiada pelo inimigo. Também aqui a sobrevivência está em jogo, até de forma mais intensa. As emoções desfilam em carne viva através das linhas deste livro e Sophie dispensa a lógica e a ética com o fim de conseguir o seu objetivo.
No fundo, Sophie e Liv lutam por amor e a ligação emocional entre personagens e leitor é inevitável e muito bem recebida. Para isso muito contribui o talento da escrita de Jojo Moyes, que sabe captar a atenção de forma sagaz e eficiente o que torna este romance numa muito agradável surpresa.
Os personagens são credíveis, reais, muito bem desenvolvidos e a escrita simples e direta torna “O Olhar de Sophie” num livro altamente recomendável. Se ainda não conhecida a obra desta autora britânica, eis um bom ponto de partida.
In Rua de Baixo
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Susana Nobre em entrevista
“Os RVCC resolviam, ou ajudavam a resolver, um problema administrativo que advém da obrigatoriedade de ter o 9ª ano de escolaridade para ter acesso a uma grande parte dos empregos. Não há neste momento nenhuma resposta tão eficaz como foi o caso dos RVCC”
País de brandos costumes e de gente trabalhadora, Portugal procura sair da crise económica e pessoal. Através do documentário “Vida Activa” Susana Nobre traça o perfil orgulhoso de gente que não desiste mas sente-se encurralada numa conjuntura que transforma a existência numa vivência interrompida. O desemprego, a precaridade e a requalificação estão na base dos testemunhos que compõem o fio condutor desta brilhante experiência cinematográfica. Para a devida contextualização deste projeto estivemos à conversa com Susana Nobre
RDB – Como surgiu a ideia de fazer um filme deste género?
Susana Nobre – Partiu do conhecimento prévio das metodologias dos processos de Reconhecimento e Validação e Certificação de Competências (RVCC). Estas metodologias implicavam a enunciação da história de vida a partir de instrumentos formais. Interessava-me ver como a história de vida particular, na sua enunciação, resistia a um processo institucional e formatado como era o RVCC.
RDB – A conjuntura social e económica em Portugal tende a tecer uma diferença cada vez maior entre o desempregado e quem tem emprego. Até que ponto acha que programas como o RVCC podem estimular quem se encontra inscrito num centro de emprego?
SN – Os RVCC resolviam, ou ajudavam a resolver, um problema administrativo que advém da obrigatoriedade de ter o 9ª ano de escolaridade para ter acesso a uma grande parte dos empregos. Não há neste momento nenhuma resposta tão eficaz como foi o caso dos RVCC. Nesse sentido, estimulam porque regulam o acesso. Podemos questionar essa formatação do mercado de trabalho para o 9º ano. Foi ela que tornou premente a criação destes processos que têm uma lógica integradora e não de exclusão. No caso português fazia todo o sentido, pois temos uma população pouco qualificada do ponto de vista académico e com percursos profissionais muito determinados e desenvolvidos pela experiência de vida.
RDB – Das muitas entrevistas que realizou como se processou a escolha daquelas que figuram em “Vida Activa”? Obedeceu a algum critério predefinido?
SN – Penso que talvez haja um traço comum que é o extravasar para além do guião técnico e das respostas formatadas. Era muito frequente os candidatos terem um discurso orientado para o pressuposto do que deveria ser correto responder. Isto tem a ver com uma dimensão opressiva que as instituições produzem, ou podem produzir, no confronto com elas. Também é dessa tensão entre o indivíduo e a sua história particular e a instituição, que a todos obriga e a todos trata por igual, que o filme vive.
RDB – Dos rostos que se dão a conhecer no documentário é notória uma certa sensação de tranquilidade dando a entender que a câmara não intimidava. Como se realizava o processo de filmagem?
SN – A câmara não intimidava mas penso que o guião técnico das entrevistas sim. O filme pode ser estruturado em dois momentos: um primeiro momento de seriação de entrevistas, conduzidas pelo guião técnico de entrevista, e um segundo momento em que intervenho mais, ao procurar outras questões que já não faziam parte dos instrumentos do RVCC. Esta segunda parte decorre principalmente em sessões de grupo onde já havia uma relação estabelecida com os protagonistas.
RDB – Invariavelmente os testemunhos refletem vidas que estão de certa forma interrompidas. Ainda assim, o orgulho é um dos sentimentos mais presentes no discurso dos entrevistados. Entende esse orgulho como uma reação face às adversidades vividas por estas pessoas?
SN – Talvez seja um orgulho pela lucidez, pelo conhecimento do lugar em que se está. Mas há diferentes tipos de orgulho. Há o brio profissional de se ter cumprido as tarefas propostas, mas também o orgulho pelo conhecimento construído. O conhecimento profissional construído ao longo dos anos funciona como uma catedral que permite assumir com segurança uma perspetiva crítica sobre o lugar em que se está. No caso do filme isto é bastante evidente nos relatos masculinos.
RDB – Ao longo do filme somos presenteados com inúmero material fotográfico que serve de contextualização ideal. Foi difícil obter esse material?
SN – Esses materiais faziam parte dos portefólios que os candidatos tinham de construir ao longo do processo. Uma das funções que tinha, era dar orientação na construção dos mesmos.
RBD – Tendo em conta a sua experiência na génese de “Vida Activa”, como definiria o perfil do português? Será que o facto de se registar uma elevada taxa de desemprego e uma situação laboral precária pode tornar-nos num povo definitivamente depressivo?
SN – Não sei se é uma característica do povo português, penso que não, mas está muito enraizada a ideia de que a dignificação pessoal só advém do trabalho enquanto emprego. Quando esse lugar deixa de existir, instala-se uma crise de participação que desvincula politicamente as pessoas do mundo à sua volta.
RDB – Ainda que falemos em termos documentais, sentimos que “Vida Activa” tende a centrar-se no depoimento evitando sempre qualquer tipo de julgamento. Nunca sentiu a tentação de deixar cair a cortina da imparcialidade?
SN – A subjetividade não se dá apenas em comentários na primeira pessoa. A estrutura do filme não é imparcial. Há uma montagem de problemas que tem uma orientação muita clara. A cena final é disso emblemática. A destruição dos papéis ressoa por todo o filme, como o facilitismo dominante em destruir o que levou anos a construir. Não se trata da destruição da memória pessoal mas sim de estruturas produtivas irreparáveis.
RDB – De que forma motivaria o espetador a ver o seu documentário?
SN – O ato de ver um filme em sala transforma o filme numa experiência, o que nem sempre acontece numa televisão ou num computador.
In Rua de Baixo
País de brandos costumes e de gente trabalhadora, Portugal procura sair da crise económica e pessoal. Através do documentário “Vida Activa” Susana Nobre traça o perfil orgulhoso de gente que não desiste mas sente-se encurralada numa conjuntura que transforma a existência numa vivência interrompida. O desemprego, a precaridade e a requalificação estão na base dos testemunhos que compõem o fio condutor desta brilhante experiência cinematográfica. Para a devida contextualização deste projeto estivemos à conversa com Susana Nobre
RDB – Como surgiu a ideia de fazer um filme deste género?
Susana Nobre – Partiu do conhecimento prévio das metodologias dos processos de Reconhecimento e Validação e Certificação de Competências (RVCC). Estas metodologias implicavam a enunciação da história de vida a partir de instrumentos formais. Interessava-me ver como a história de vida particular, na sua enunciação, resistia a um processo institucional e formatado como era o RVCC.
RDB – A conjuntura social e económica em Portugal tende a tecer uma diferença cada vez maior entre o desempregado e quem tem emprego. Até que ponto acha que programas como o RVCC podem estimular quem se encontra inscrito num centro de emprego?
SN – Os RVCC resolviam, ou ajudavam a resolver, um problema administrativo que advém da obrigatoriedade de ter o 9ª ano de escolaridade para ter acesso a uma grande parte dos empregos. Não há neste momento nenhuma resposta tão eficaz como foi o caso dos RVCC. Nesse sentido, estimulam porque regulam o acesso. Podemos questionar essa formatação do mercado de trabalho para o 9º ano. Foi ela que tornou premente a criação destes processos que têm uma lógica integradora e não de exclusão. No caso português fazia todo o sentido, pois temos uma população pouco qualificada do ponto de vista académico e com percursos profissionais muito determinados e desenvolvidos pela experiência de vida.
RDB – Das muitas entrevistas que realizou como se processou a escolha daquelas que figuram em “Vida Activa”? Obedeceu a algum critério predefinido?
SN – Penso que talvez haja um traço comum que é o extravasar para além do guião técnico e das respostas formatadas. Era muito frequente os candidatos terem um discurso orientado para o pressuposto do que deveria ser correto responder. Isto tem a ver com uma dimensão opressiva que as instituições produzem, ou podem produzir, no confronto com elas. Também é dessa tensão entre o indivíduo e a sua história particular e a instituição, que a todos obriga e a todos trata por igual, que o filme vive.
RDB – Dos rostos que se dão a conhecer no documentário é notória uma certa sensação de tranquilidade dando a entender que a câmara não intimidava. Como se realizava o processo de filmagem?
SN – A câmara não intimidava mas penso que o guião técnico das entrevistas sim. O filme pode ser estruturado em dois momentos: um primeiro momento de seriação de entrevistas, conduzidas pelo guião técnico de entrevista, e um segundo momento em que intervenho mais, ao procurar outras questões que já não faziam parte dos instrumentos do RVCC. Esta segunda parte decorre principalmente em sessões de grupo onde já havia uma relação estabelecida com os protagonistas.
RDB – Invariavelmente os testemunhos refletem vidas que estão de certa forma interrompidas. Ainda assim, o orgulho é um dos sentimentos mais presentes no discurso dos entrevistados. Entende esse orgulho como uma reação face às adversidades vividas por estas pessoas?
SN – Talvez seja um orgulho pela lucidez, pelo conhecimento do lugar em que se está. Mas há diferentes tipos de orgulho. Há o brio profissional de se ter cumprido as tarefas propostas, mas também o orgulho pelo conhecimento construído. O conhecimento profissional construído ao longo dos anos funciona como uma catedral que permite assumir com segurança uma perspetiva crítica sobre o lugar em que se está. No caso do filme isto é bastante evidente nos relatos masculinos.
RDB – Ao longo do filme somos presenteados com inúmero material fotográfico que serve de contextualização ideal. Foi difícil obter esse material?
SN – Esses materiais faziam parte dos portefólios que os candidatos tinham de construir ao longo do processo. Uma das funções que tinha, era dar orientação na construção dos mesmos.
RBD – Tendo em conta a sua experiência na génese de “Vida Activa”, como definiria o perfil do português? Será que o facto de se registar uma elevada taxa de desemprego e uma situação laboral precária pode tornar-nos num povo definitivamente depressivo?
SN – Não sei se é uma característica do povo português, penso que não, mas está muito enraizada a ideia de que a dignificação pessoal só advém do trabalho enquanto emprego. Quando esse lugar deixa de existir, instala-se uma crise de participação que desvincula politicamente as pessoas do mundo à sua volta.
RDB – Ainda que falemos em termos documentais, sentimos que “Vida Activa” tende a centrar-se no depoimento evitando sempre qualquer tipo de julgamento. Nunca sentiu a tentação de deixar cair a cortina da imparcialidade?
SN – A subjetividade não se dá apenas em comentários na primeira pessoa. A estrutura do filme não é imparcial. Há uma montagem de problemas que tem uma orientação muita clara. A cena final é disso emblemática. A destruição dos papéis ressoa por todo o filme, como o facilitismo dominante em destruir o que levou anos a construir. Não se trata da destruição da memória pessoal mas sim de estruturas produtivas irreparáveis.
RDB – De que forma motivaria o espetador a ver o seu documentário?
SN – O ato de ver um filme em sala transforma o filme numa experiência, o que nem sempre acontece numa televisão ou num computador.
In Rua de Baixo
quarta-feira, 14 de maio de 2014
“Private: Principal suspeito”
James Patterson
Claquete, páginas, ação!
“Alex Cross”, “O Clube das Investigadoras”, “Michael Bannett”, “Private”. Eis algumas das séries que têm em comum a pena de James Patterson, com ou sem ajuda de terceiros.
São incontáveis os sucessos, entendam-se bestsellers, deste norte-americano que já vendeu milhões de livros em todo o mundo. O seu nome, a sua marca, são sinónimos de policiais onde a ação supera o suspense e a dinâmica presente nas páginas afasta qualquer (mau) presságio de monotonia.
E é esse o sentimento que assola “Private: Principal Suspeito” (Topseller, 2014), um livro que se lê num abrir e fechar de olhos, com a sua rápida cadência a fazer lembrar os filmes de ação made in Hollyood e revelando-se com um verdadeiro vício para o leitor.
Como a mais eficiente agência de investigação privada em todo o Mundo, a “Private” tem ao seu leme Jack Morgan, um antigo fuzileiro que herdou o “negócio” do seu pai pouco tempo antes de este ser assassinado. Para além da empresa, Jack recebera do pai um incentivo de 15 milhões de dólares.
Empresário muito bem-sucedido e invejado pela polícia local, Jack Morgan vê-se agora envolvido numa situação que pode mudar a sua vida para sempre. Ao regressar de uma viagem à Europa, chega a casa e encontra Colleen, sua ex-namorada e assistente, morta na cama. Entretanto, uma carrinha carregada com medicamentos ilegais no valor de 30 milhões de dólares é assaltada e, numa conhecida cadeia de hotéis locais, um empresário é morto.
A confusão insta-se na vida de Jack Morgan e, pela primeira vez, é o principal suspeito de um crime que apenas ele próprio pode provar que não cometeu. A arma do crime é sua, os alibis fracos. A ajuda dos sobredotados técnicos da Private pode, desta vez, não ser suficiente para fazer-se justiça.
Para além do seu drama pessoal, Jack vê-se obrigado a colaborar com a Máfia – pois não se quebra um pacto com um homem como Carmine Noccia -, a recuperar os referidos medicamentos roubados e a ajudar a bela e desesperada Jinx Poole, dona de uma cadeia hoteleira à beira da falência devido aos assassinatos que têm ocorrido nas suas unidades.
Ao longo das páginas deste livro, escrito entre Patterson e Maxine Paetro (autora que já participou em alguns tomos desta série bem como em “O Clube das Investigadoras”), embalamos numa aventura frenética, repleta de jogos e investigações policiais, ficando ainda a conhecer mais da vida pessoal de Jack Morgan, um personagem deveras humano, através de uma contextualização muito bem elaborada pela dupla de autores que consegue, também, entrelaçar tramas bem delineados e recheados de pormenores que tornam “Private: Principal Suspeito” num dos melhores livros da saga.
In Rua de Baixo
“Alex Cross”, “O Clube das Investigadoras”, “Michael Bannett”, “Private”. Eis algumas das séries que têm em comum a pena de James Patterson, com ou sem ajuda de terceiros.
São incontáveis os sucessos, entendam-se bestsellers, deste norte-americano que já vendeu milhões de livros em todo o mundo. O seu nome, a sua marca, são sinónimos de policiais onde a ação supera o suspense e a dinâmica presente nas páginas afasta qualquer (mau) presságio de monotonia.
E é esse o sentimento que assola “Private: Principal Suspeito” (Topseller, 2014), um livro que se lê num abrir e fechar de olhos, com a sua rápida cadência a fazer lembrar os filmes de ação made in Hollyood e revelando-se com um verdadeiro vício para o leitor.
Como a mais eficiente agência de investigação privada em todo o Mundo, a “Private” tem ao seu leme Jack Morgan, um antigo fuzileiro que herdou o “negócio” do seu pai pouco tempo antes de este ser assassinado. Para além da empresa, Jack recebera do pai um incentivo de 15 milhões de dólares.
Empresário muito bem-sucedido e invejado pela polícia local, Jack Morgan vê-se agora envolvido numa situação que pode mudar a sua vida para sempre. Ao regressar de uma viagem à Europa, chega a casa e encontra Colleen, sua ex-namorada e assistente, morta na cama. Entretanto, uma carrinha carregada com medicamentos ilegais no valor de 30 milhões de dólares é assaltada e, numa conhecida cadeia de hotéis locais, um empresário é morto.
A confusão insta-se na vida de Jack Morgan e, pela primeira vez, é o principal suspeito de um crime que apenas ele próprio pode provar que não cometeu. A arma do crime é sua, os alibis fracos. A ajuda dos sobredotados técnicos da Private pode, desta vez, não ser suficiente para fazer-se justiça.
Para além do seu drama pessoal, Jack vê-se obrigado a colaborar com a Máfia – pois não se quebra um pacto com um homem como Carmine Noccia -, a recuperar os referidos medicamentos roubados e a ajudar a bela e desesperada Jinx Poole, dona de uma cadeia hoteleira à beira da falência devido aos assassinatos que têm ocorrido nas suas unidades.
Ao longo das páginas deste livro, escrito entre Patterson e Maxine Paetro (autora que já participou em alguns tomos desta série bem como em “O Clube das Investigadoras”), embalamos numa aventura frenética, repleta de jogos e investigações policiais, ficando ainda a conhecer mais da vida pessoal de Jack Morgan, um personagem deveras humano, através de uma contextualização muito bem elaborada pela dupla de autores que consegue, também, entrelaçar tramas bem delineados e recheados de pormenores que tornam “Private: Principal Suspeito” num dos melhores livros da saga.
In Rua de Baixo
sexta-feira, 9 de maio de 2014
The Afghan Whigs - “To do the Beast”
O regresso do senhor Dulli
Logo nas primeiras linhas cantadas de “Parked Outside”, primeira faixa de “To do the beast”, o primeiro disco dos norte-americanos The Afghan Whigs desde 1998, Greg Dulli afirma: “If they've seen it all show them something new”.
Mas o que terão Dulli e os seus The Afghan Whigs de novo para nos oferecer? O grunge dos anos 1990 já foi chão que deu uvas, a banda apenas tem como membros originais o seu grande mentor e o baixista John Curley, e uma das maiores referências das cordas elétricas da banda, Ricky McCollum, não esteve ativamente presente nas gravações de “To do the beast”, apesar de ter participado na reunião que a banda promoveu há cerca de dois anos.
Para além disso, Dulli aproveitou o hiato criativo da sua banda de sempre para investir em projetos paralelos, como os muitíssimos interessantes Gutter Twins e Twilight Singers. Razões mais do que suficientes, portanto, para receber o sucessor de “1965” ainda com maior ansiedade.
E as primeiras impressões de “Do to the Beast” são, acreditem, muito positivas. Dulli continua um renegado com capa rock and rool, um narrador obsessivo, instável (entenda-se, neste contexto, como um fator positivo) e com instintos deliciosamente ásperos. O autor de temas como “Debonair” e “Gentlemen” (não é de forma aleatória que referimos temas do álbum “Gentlemen”, um dos melhores da década de 1990) continua a revelar tiques de um assassino que justifica os crimes com a sua paixão.
Mas não há nada melhor do que continuar em frente, de forma a honrar um passado musical que, lamentavelmente, se viu interrompido por questões diversas durante mais de década e meia. Hoje, no ano de 2014, não se pode pedir um arrojo semelhante ao que se colava a discos como, por exemplo, “Big top Halloween” e “Congregation”. Ou pode?
Empurrados pela boa imagem que causou a reunião da banda em 2012, Dulli e Curley convidaram músicos como Dave Rosser, Jon Skibic ou Mark Mcguire e atacaram “To do the Beast”. O resultado é um disco muito interessante, que junta a face mais agressiva dos The Afghan Whigs com uma sonoridade mais contemplativa e soul, que resulta da experiência do vocalista e guitarrista nos já referidos projetos Gutter Twins e Twilight Singers.
Existe como que um sentimento de montanha-russa musical ao ouvir “To do the Beast”. Temas mais agressivos, onde as guitarras afiam garras, são intercalados com momentos mais intimistas, com Greg Dulli a chegar à performance em falsete, ao som de piano. Se logo nas duas primeiras composições, “Parked Outside” e Matamoros”, o ambiente é claramente rock, com a música a serpentear entre guitarras, baixo e uma voz quente e familiar, “It Kills”, por exemplo, começa com acordes de piano, que paulatinamente vão permitindo a entrada dos restantes companheiros de luta sonora, que sabem estar e respeitar o espaço de cada qual.
Assim, em “It Kills”, Dulli presenteia os nossos ouvidos com uma variedade vocal, que vai do sussurro arranhado ao grito no já referido registo falsete, que a ambiência temporariamente acústica desta canção permite encaixar que nem uma luva. Esse sentimento mais contido e com a eletricidade trocada pela claridade acústica – interrompida aqui e ali por um solo elétrico - mantém-se em “Algiers”, uma canção que leva Dulli a aproximar-se ao mestre David Bowie.
Depois, “Lost in Woods”, um dos momentos mais dramáticos do disco, devido à cadência negra e dolente do piano, faz crescer a certeza de que, contrariamente ao que seria suposto pensar, são estes momentos menos associados à sonoridade característica dos The Afghan Whigs que tornam “To do the Beast” numa experiência muito pertinente. Essa ideia habita também no espectro de “Can Rova”, peça musical que lembra, a espaços, a atmosfera mais calma de alguns discos dos Pearl Jam, mas que tem no ADN da voz de Dulli a sua mais importante marca distintiva.
Para agitar as almas, “To do the Beast” tem momentos como a acutilante “Lottery”, uma das faixas mais viciantes deste disco, cheia de instinto radio friendly e onde as guitarras soltam amarras. Outro dos momentos altos do álbum é “Royal Cream”, uma canção que faz o exorcismo de alguns fantasmas e que conjuga como nunca a harmonia entre voz, guitarras, baixo e bateria.
Perto do final de “To do the Beast”, “I am Fire” resgata um sentimento redentor em toada contida, enquanto “These Sticks” é um curto e delicioso tour de force repleto de guitarras planantes e de uma bateria em ritmo tribal que, na companhia de alguns metais, convidam-nos a entrar num ritual “privado”, onde o mestre de cerimónia, Greg Dulli, alerta: “Tie these stakes around my heart, be here when it blows apart."
Feitas as contas, “To do the Beast”, não sendo um típico disco dos antigos The Afghan Whigs, é um delicioso exercício musical que não vai desiludir os acérrimos fãs da banda nem os mais recentes seguidores de Dulli a solo. Aquilo que podemos desejar é que não sejam precisos mais 16 anos para ouvirmos outro disco da banda natural de Ohio, pois os nossos ouvidos merecem mais novidades do senhor Dulli e seus comparsas.
Alinhamento:
1.Parked Outside
2.Matamoros
3.It Kills
4.Algiers
5.Lost in the Woods
6.The Lottery
7.Can Rova
8.Royal Cream
9.I Am Fire
10.These Sticks
Classificação do Palco: 7 / 10
In Palco Principal
Logo nas primeiras linhas cantadas de “Parked Outside”, primeira faixa de “To do the beast”, o primeiro disco dos norte-americanos The Afghan Whigs desde 1998, Greg Dulli afirma: “If they've seen it all show them something new”.
Mas o que terão Dulli e os seus The Afghan Whigs de novo para nos oferecer? O grunge dos anos 1990 já foi chão que deu uvas, a banda apenas tem como membros originais o seu grande mentor e o baixista John Curley, e uma das maiores referências das cordas elétricas da banda, Ricky McCollum, não esteve ativamente presente nas gravações de “To do the beast”, apesar de ter participado na reunião que a banda promoveu há cerca de dois anos.
Para além disso, Dulli aproveitou o hiato criativo da sua banda de sempre para investir em projetos paralelos, como os muitíssimos interessantes Gutter Twins e Twilight Singers. Razões mais do que suficientes, portanto, para receber o sucessor de “1965” ainda com maior ansiedade.
E as primeiras impressões de “Do to the Beast” são, acreditem, muito positivas. Dulli continua um renegado com capa rock and rool, um narrador obsessivo, instável (entenda-se, neste contexto, como um fator positivo) e com instintos deliciosamente ásperos. O autor de temas como “Debonair” e “Gentlemen” (não é de forma aleatória que referimos temas do álbum “Gentlemen”, um dos melhores da década de 1990) continua a revelar tiques de um assassino que justifica os crimes com a sua paixão.
Mas não há nada melhor do que continuar em frente, de forma a honrar um passado musical que, lamentavelmente, se viu interrompido por questões diversas durante mais de década e meia. Hoje, no ano de 2014, não se pode pedir um arrojo semelhante ao que se colava a discos como, por exemplo, “Big top Halloween” e “Congregation”. Ou pode?
Empurrados pela boa imagem que causou a reunião da banda em 2012, Dulli e Curley convidaram músicos como Dave Rosser, Jon Skibic ou Mark Mcguire e atacaram “To do the Beast”. O resultado é um disco muito interessante, que junta a face mais agressiva dos The Afghan Whigs com uma sonoridade mais contemplativa e soul, que resulta da experiência do vocalista e guitarrista nos já referidos projetos Gutter Twins e Twilight Singers.
Existe como que um sentimento de montanha-russa musical ao ouvir “To do the Beast”. Temas mais agressivos, onde as guitarras afiam garras, são intercalados com momentos mais intimistas, com Greg Dulli a chegar à performance em falsete, ao som de piano. Se logo nas duas primeiras composições, “Parked Outside” e Matamoros”, o ambiente é claramente rock, com a música a serpentear entre guitarras, baixo e uma voz quente e familiar, “It Kills”, por exemplo, começa com acordes de piano, que paulatinamente vão permitindo a entrada dos restantes companheiros de luta sonora, que sabem estar e respeitar o espaço de cada qual.
Assim, em “It Kills”, Dulli presenteia os nossos ouvidos com uma variedade vocal, que vai do sussurro arranhado ao grito no já referido registo falsete, que a ambiência temporariamente acústica desta canção permite encaixar que nem uma luva. Esse sentimento mais contido e com a eletricidade trocada pela claridade acústica – interrompida aqui e ali por um solo elétrico - mantém-se em “Algiers”, uma canção que leva Dulli a aproximar-se ao mestre David Bowie.
Depois, “Lost in Woods”, um dos momentos mais dramáticos do disco, devido à cadência negra e dolente do piano, faz crescer a certeza de que, contrariamente ao que seria suposto pensar, são estes momentos menos associados à sonoridade característica dos The Afghan Whigs que tornam “To do the Beast” numa experiência muito pertinente. Essa ideia habita também no espectro de “Can Rova”, peça musical que lembra, a espaços, a atmosfera mais calma de alguns discos dos Pearl Jam, mas que tem no ADN da voz de Dulli a sua mais importante marca distintiva.
Para agitar as almas, “To do the Beast” tem momentos como a acutilante “Lottery”, uma das faixas mais viciantes deste disco, cheia de instinto radio friendly e onde as guitarras soltam amarras. Outro dos momentos altos do álbum é “Royal Cream”, uma canção que faz o exorcismo de alguns fantasmas e que conjuga como nunca a harmonia entre voz, guitarras, baixo e bateria.
Perto do final de “To do the Beast”, “I am Fire” resgata um sentimento redentor em toada contida, enquanto “These Sticks” é um curto e delicioso tour de force repleto de guitarras planantes e de uma bateria em ritmo tribal que, na companhia de alguns metais, convidam-nos a entrar num ritual “privado”, onde o mestre de cerimónia, Greg Dulli, alerta: “Tie these stakes around my heart, be here when it blows apart."
Feitas as contas, “To do the Beast”, não sendo um típico disco dos antigos The Afghan Whigs, é um delicioso exercício musical que não vai desiludir os acérrimos fãs da banda nem os mais recentes seguidores de Dulli a solo. Aquilo que podemos desejar é que não sejam precisos mais 16 anos para ouvirmos outro disco da banda natural de Ohio, pois os nossos ouvidos merecem mais novidades do senhor Dulli e seus comparsas.
Alinhamento:
1.Parked Outside
2.Matamoros
3.It Kills
4.Algiers
5.Lost in the Woods
6.The Lottery
7.Can Rova
8.Royal Cream
9.I Am Fire
10.These Sticks
Classificação do Palco: 7 / 10
In Palco Principal
quarta-feira, 7 de maio de 2014
“Vida Activa”
de Susana Nobre
A existência em suspenso
A revitalização social é uma das tarefas de um Estado que em tempos de assumiu de providência. Nas últimas quatro décadas, que tem no seu início a fronteira política, económica e social que foi desenhada com o 25 de abril de 1974, Portugal modificou o seu perfil.
Depois de alguma insistência lográmos entrar na Comunidade Económica Europeia e o futuro adivinhava-se risonho. Uns diziam que estávamos no “comboio da frente” da Europa, outros entendiam essa metáfora como um adiar de uma eventual perda de soberania e independência financeira face a países europeus de outras valias.
Entretanto, os fundos europeus chegavam para (quase) tudo. O país apostava tudo na sua revitalização, a informática entrava em força mas aquilo que os bites e bytes não conseguiam prever era o descalabro que se assistiria com o decorrer do século XXI. Ousava-se sonhar com novos aeroportos e linhas férreas de alta velocidade. Mais uma vez, o sonho tendia a ser mais rápido que a realidade que seguia em velocidade de um cruzeiro à deriva. A crise chegaria pouco depois. Mais uma vez aos portugueses pedia-se para apertar os cintos.
Numa situação onde a concorrência interpessoal passou a ser determinante no que toca à afirmação profissional e até pessoal, o governo português, através do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), criou em 2001 um programa que viria a ser conhecido como Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC), que tinha por fim fazer crescer o nível de qualificação e empregabilidade de adultos ativos, afirmar a importância da formação contínua e valorizar as aprendizagens adquiridas ao longa da vida.
Mais tarde, os Centros RVCC seriam alvo de restruturação e passariam a designar-se por Centros de Novas Oportunidades. Nesses locais, chegavam candidatos que visavam cursos de formação de adultos. Estavam sujeitos a uma entrevista, realizam testes escritos de forma a serem identificadas as suas “competências” em termos de escolaridade e depois formavam grupos que frequentam uma série de sessões.
Esse novo regresso à “escola” assumia-se sob a forma de várias disciplinas entre as quais se destacava “Histórias de Vida”, um espaço que levava o aluno a realizar um dossier narrativo da sua vida, uma espécie de portefólio que superava em emoção e pertinência qualquer exercício matemático ou redação. No final da ação, os alunos recebiam certificados que numa primeira fase equivaliam ao 9º ano de escolaridade e, a partir de 2007, ao 12º ano.
Com o objetivo de realizar um filme sobre esta temática, Susana Nobre começou em 2006 a frequentar Centros de Novas Oportunidades na Zona da Grande Lisboa, região bastante afetada pelo desemprego. Dessa envolvência surgiu a possibilidade de integrar a equipa do Centro de Novas Oportunidades do Centro de Formação Profissional de Alverca assumindo o papel de profissional de reconhecimento de competências.
A realizadora que na altura contava já com a autoria de filmes como “As nadadoras” e “O Que pode um rosto”, conseguia assim uma forma privilegiada de fazer um filme documental sobre uma complexa realidade. Depois de muitas horas a filmar episódios quotidianos da sua atividade, Susana Nobre chegaria a “Vida Activa”, um extraordinário exercício documental que simboliza a epifania de milhares de vidas que, invariavelmente, tiveram, quase todas, por fim o desemprego por triste sina.
Ao longo de 90 minutos somos transportados para realidades nuas e cruas, sem rede, de pessoas que sentem a vida interrompida depois de dezenas de anos no mercado de trabalho. Muitas delas saíram de casas dos pais com 11, 12 e 13 anos para começar uma nova vida e ganhar o pão que faltava junto dos seus.
Em “Vida Activa” as estrelas, sem as devidas aspas e com a nossa maior vénia, são as pessoas que aceitaram dar a cara, que possibilitaram um processo de certa forma voyeurista e completamente transparente.
Ao longo do documentário, são muitos os sentimentos que nos assolam. Há tristeza, incompreensão, raiva e até quase uma sensação de rendição, mas estas pessoas não deixam de lutar, exultando a capacidade de sacrifício, o orgulho das tarefas que exercem ou exerciam e uma humildade e simpatia comoventes. A tensão está presente nos seus rostos, nas suas mãos, nos seus olhos.
Longe do propósito biográfico, Susana Nobre, construiu um complexo quebra-cabeças documental cuja montagem não tende a seguir um fio condutor, um guião, mas que no seu conjunto tende a ser coerente, verdadeiro, pois, no fundo, estamos perante histórias de vida de gente que integra o povo que quer trabalhar, uma classe que deixou de ser operária mas que não perdeu o orgulho das suas raízes.
Sempre com a devida autorização da pessoa filmada, Susana Nobre mostra entrevistas, momentos das sessões de formação, relatos diversos que atingem a dimensão de um “diário existencial” que tem o auge nos já referidos dossiers elaborados na disciplina “História de Vida”. O arquivo de imagens em “Vida Activa” é outra das formas de contextualização brilhante presentes neste documentário que tem o mérito de tentar entender a crise que hoje assola este país sob as perspetivas de quem é despedido mas também de quem se vê na obrigação de despedir.
Espelho de um país cinzento, “Vida Activa” é um documentário autêntico que não se coíbe de ser duro, direto e cru quando tem de o ser mas que consegue resgatar momentos onde a esperança supera o estado moribundo e depressivo de gente que sofre na pele a ingerência de outros.
Portugal mudou nas últimas décadas. A situação de pleno emprego dificilmente voltará e hoje trabalha-se a prazo, curto. Ter emprego passou a ser um privilégio e o despedimento tornou-se na solução “óbvia”. Alguém à beira da reforma causa “inveja” por ter conseguido um percurso laboral que hoje é quase uma utopia. A emigração cresceu, o desemprego também ainda que se tente mascarar esse facto com as sucessivas chamadas por parte do IEFP aos desempregados inscritos nos Centros de (des)Emprego perante cursos “Vida Ativa”.
É este o país que, por hora, temos e é o seu reflexo que Susana Nobre transmite de forma exemplar em “Vida Activa”, documentário que esteve patente no festival DocLisboa e chega esta semana à sala do Cinema City Alvalade. Porque a melhor ficção cinematográfica é a própria realidade.
In Rua de Baixo
A revitalização social é uma das tarefas de um Estado que em tempos de assumiu de providência. Nas últimas quatro décadas, que tem no seu início a fronteira política, económica e social que foi desenhada com o 25 de abril de 1974, Portugal modificou o seu perfil.
Depois de alguma insistência lográmos entrar na Comunidade Económica Europeia e o futuro adivinhava-se risonho. Uns diziam que estávamos no “comboio da frente” da Europa, outros entendiam essa metáfora como um adiar de uma eventual perda de soberania e independência financeira face a países europeus de outras valias.
Entretanto, os fundos europeus chegavam para (quase) tudo. O país apostava tudo na sua revitalização, a informática entrava em força mas aquilo que os bites e bytes não conseguiam prever era o descalabro que se assistiria com o decorrer do século XXI. Ousava-se sonhar com novos aeroportos e linhas férreas de alta velocidade. Mais uma vez, o sonho tendia a ser mais rápido que a realidade que seguia em velocidade de um cruzeiro à deriva. A crise chegaria pouco depois. Mais uma vez aos portugueses pedia-se para apertar os cintos.
Numa situação onde a concorrência interpessoal passou a ser determinante no que toca à afirmação profissional e até pessoal, o governo português, através do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), criou em 2001 um programa que viria a ser conhecido como Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC), que tinha por fim fazer crescer o nível de qualificação e empregabilidade de adultos ativos, afirmar a importância da formação contínua e valorizar as aprendizagens adquiridas ao longa da vida.
Mais tarde, os Centros RVCC seriam alvo de restruturação e passariam a designar-se por Centros de Novas Oportunidades. Nesses locais, chegavam candidatos que visavam cursos de formação de adultos. Estavam sujeitos a uma entrevista, realizam testes escritos de forma a serem identificadas as suas “competências” em termos de escolaridade e depois formavam grupos que frequentam uma série de sessões.
Esse novo regresso à “escola” assumia-se sob a forma de várias disciplinas entre as quais se destacava “Histórias de Vida”, um espaço que levava o aluno a realizar um dossier narrativo da sua vida, uma espécie de portefólio que superava em emoção e pertinência qualquer exercício matemático ou redação. No final da ação, os alunos recebiam certificados que numa primeira fase equivaliam ao 9º ano de escolaridade e, a partir de 2007, ao 12º ano.
Com o objetivo de realizar um filme sobre esta temática, Susana Nobre começou em 2006 a frequentar Centros de Novas Oportunidades na Zona da Grande Lisboa, região bastante afetada pelo desemprego. Dessa envolvência surgiu a possibilidade de integrar a equipa do Centro de Novas Oportunidades do Centro de Formação Profissional de Alverca assumindo o papel de profissional de reconhecimento de competências.
A realizadora que na altura contava já com a autoria de filmes como “As nadadoras” e “O Que pode um rosto”, conseguia assim uma forma privilegiada de fazer um filme documental sobre uma complexa realidade. Depois de muitas horas a filmar episódios quotidianos da sua atividade, Susana Nobre chegaria a “Vida Activa”, um extraordinário exercício documental que simboliza a epifania de milhares de vidas que, invariavelmente, tiveram, quase todas, por fim o desemprego por triste sina.
Ao longo de 90 minutos somos transportados para realidades nuas e cruas, sem rede, de pessoas que sentem a vida interrompida depois de dezenas de anos no mercado de trabalho. Muitas delas saíram de casas dos pais com 11, 12 e 13 anos para começar uma nova vida e ganhar o pão que faltava junto dos seus.
Em “Vida Activa” as estrelas, sem as devidas aspas e com a nossa maior vénia, são as pessoas que aceitaram dar a cara, que possibilitaram um processo de certa forma voyeurista e completamente transparente.
Ao longo do documentário, são muitos os sentimentos que nos assolam. Há tristeza, incompreensão, raiva e até quase uma sensação de rendição, mas estas pessoas não deixam de lutar, exultando a capacidade de sacrifício, o orgulho das tarefas que exercem ou exerciam e uma humildade e simpatia comoventes. A tensão está presente nos seus rostos, nas suas mãos, nos seus olhos.
Longe do propósito biográfico, Susana Nobre, construiu um complexo quebra-cabeças documental cuja montagem não tende a seguir um fio condutor, um guião, mas que no seu conjunto tende a ser coerente, verdadeiro, pois, no fundo, estamos perante histórias de vida de gente que integra o povo que quer trabalhar, uma classe que deixou de ser operária mas que não perdeu o orgulho das suas raízes.
Sempre com a devida autorização da pessoa filmada, Susana Nobre mostra entrevistas, momentos das sessões de formação, relatos diversos que atingem a dimensão de um “diário existencial” que tem o auge nos já referidos dossiers elaborados na disciplina “História de Vida”. O arquivo de imagens em “Vida Activa” é outra das formas de contextualização brilhante presentes neste documentário que tem o mérito de tentar entender a crise que hoje assola este país sob as perspetivas de quem é despedido mas também de quem se vê na obrigação de despedir.
Espelho de um país cinzento, “Vida Activa” é um documentário autêntico que não se coíbe de ser duro, direto e cru quando tem de o ser mas que consegue resgatar momentos onde a esperança supera o estado moribundo e depressivo de gente que sofre na pele a ingerência de outros.
Portugal mudou nas últimas décadas. A situação de pleno emprego dificilmente voltará e hoje trabalha-se a prazo, curto. Ter emprego passou a ser um privilégio e o despedimento tornou-se na solução “óbvia”. Alguém à beira da reforma causa “inveja” por ter conseguido um percurso laboral que hoje é quase uma utopia. A emigração cresceu, o desemprego também ainda que se tente mascarar esse facto com as sucessivas chamadas por parte do IEFP aos desempregados inscritos nos Centros de (des)Emprego perante cursos “Vida Ativa”.
É este o país que, por hora, temos e é o seu reflexo que Susana Nobre transmite de forma exemplar em “Vida Activa”, documentário que esteve patente no festival DocLisboa e chega esta semana à sala do Cinema City Alvalade. Porque a melhor ficção cinematográfica é a própria realidade.
In Rua de Baixo
segunda-feira, 5 de maio de 2014
“Do Branco ao Negro”
Vários Autores
A vida a várias cores
Uma dúzia de contos, doze formas de encarar a vida através de várias tonalidades que servem de um particular arco-íris da existência.
“Do Branco ao Negro” (Sextante Editora, 2014) é um libertador, belo e acutilante livro que nasceu da colaboração de algumas das mais interessantes vozes literárias nacionais no feminino, que resulta num exercício que retrata o amor, incondicional ou não, através de um filtro colorido espelhado em palavras e ilustrações que vagueiam num oceano que acolhe vagas que misturam tranquilidade e agitação, sons e silêncios, partidas e despedidas, memórias e tempos presentes e futuros.
Rematadas com apontamentos ilustrados de Rita Roquette de Vasconcellos, as estórias de “Do Branco ao Negro” refletem também a mestria narrativa de algumas das grandes senhoras da escrita portuguesa.
O livro começa com a cor branca e as palavras nascem do raciocínio de Ana Luísa Amaral. Aqui o branco é luto, é perda, é consolo de uma relação à beira do fim entre o ser humano e o animal, sendo também conforto e amizade. A seguir, Ana Zanatti fala de uma abóbora-menina, ou vice-versa, atrações de intuições metafóricas num cenário amarelo.
Depois, Clara Ferreira Alves revela uma relação egoísta vivida entre Portugal, a Turquia e o mais distante Uzbequistão. A desilusão pode ter varias cores mas o laranja pode ser sinónimo de ridículo. Por sua vez, Elgga Moreira traça segmentos de uma fuga em tons vermelhos e com um discurso em forma de desconversa onírica.
Lídia Jorge é a senhora que se segue e é de sua autoria um dos mais interessantes momentos deste livro. A mudez tem a cor esverdeada de forma suave. Ainda sob um cenário esverdeado, ainda que mais denso, Maria Isabel Barrento fala de uma esperança fugidia, de uma vida que cresce e passa num abrir e fechar de olhos.
Mas também há espaço para momentos mais quentes e o erotismo aracnídeo de uma Raquel em tons marinhos traz à tona o discurso sempre forte de Maria Teresa Horta. Explorando também a cor azul, Raquel Freire contribui com uma narrativa em forma de busca desesperada assente numa visão desfocada e paranoica.
Já perto do final mais três estórias. Rita Roquette de Vasconcellos, agora a fazer uso da palavra escrita, descreve a aventura urbana da geometria do pensamento violeta, enquanto S. José Almeida usa o roxo como sinónimo saudosista. O último capítulo surge da pena de Yvette K. Centeno e em toadas escuras fala-se das não-coincidências da sombra.
Com os direitos autorais a reverterem exclusivamente para a Alzheimer Portugal, “Do Branco ao Negro” une, numa mesma história, diversos capítulos de gente comum em forma de contos cujo perfil revela excelência e elegância.
In Rua de Baixo
Uma dúzia de contos, doze formas de encarar a vida através de várias tonalidades que servem de um particular arco-íris da existência.
“Do Branco ao Negro” (Sextante Editora, 2014) é um libertador, belo e acutilante livro que nasceu da colaboração de algumas das mais interessantes vozes literárias nacionais no feminino, que resulta num exercício que retrata o amor, incondicional ou não, através de um filtro colorido espelhado em palavras e ilustrações que vagueiam num oceano que acolhe vagas que misturam tranquilidade e agitação, sons e silêncios, partidas e despedidas, memórias e tempos presentes e futuros.
Rematadas com apontamentos ilustrados de Rita Roquette de Vasconcellos, as estórias de “Do Branco ao Negro” refletem também a mestria narrativa de algumas das grandes senhoras da escrita portuguesa.
O livro começa com a cor branca e as palavras nascem do raciocínio de Ana Luísa Amaral. Aqui o branco é luto, é perda, é consolo de uma relação à beira do fim entre o ser humano e o animal, sendo também conforto e amizade. A seguir, Ana Zanatti fala de uma abóbora-menina, ou vice-versa, atrações de intuições metafóricas num cenário amarelo.
Depois, Clara Ferreira Alves revela uma relação egoísta vivida entre Portugal, a Turquia e o mais distante Uzbequistão. A desilusão pode ter varias cores mas o laranja pode ser sinónimo de ridículo. Por sua vez, Elgga Moreira traça segmentos de uma fuga em tons vermelhos e com um discurso em forma de desconversa onírica.
Lídia Jorge é a senhora que se segue e é de sua autoria um dos mais interessantes momentos deste livro. A mudez tem a cor esverdeada de forma suave. Ainda sob um cenário esverdeado, ainda que mais denso, Maria Isabel Barrento fala de uma esperança fugidia, de uma vida que cresce e passa num abrir e fechar de olhos.
Mas também há espaço para momentos mais quentes e o erotismo aracnídeo de uma Raquel em tons marinhos traz à tona o discurso sempre forte de Maria Teresa Horta. Explorando também a cor azul, Raquel Freire contribui com uma narrativa em forma de busca desesperada assente numa visão desfocada e paranoica.
Já perto do final mais três estórias. Rita Roquette de Vasconcellos, agora a fazer uso da palavra escrita, descreve a aventura urbana da geometria do pensamento violeta, enquanto S. José Almeida usa o roxo como sinónimo saudosista. O último capítulo surge da pena de Yvette K. Centeno e em toadas escuras fala-se das não-coincidências da sombra.
Com os direitos autorais a reverterem exclusivamente para a Alzheimer Portugal, “Do Branco ao Negro” une, numa mesma história, diversos capítulos de gente comum em forma de contos cujo perfil revela excelência e elegância.
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