Discos lá de fora
Vampire Weekend – Modern Vampire of the City
Nick Cave and the Bad Seeds – Push the Sky Away
You La Tengo - Fade
These New Puritans – Field of Reeds
Arcade Fire - Reflektor
Discos cá dentro
Linda Martini - Turbo Lento
Noiserv – A.V.O.
Gisela João – Gisela João
Beautify Junkards – Beautify Junkyards
Valter Lobo - Inverno
Músicas ao vivo
Vampire Weekend - Optimus Alive
Scott Matthew - CCB
Dead Can Dance - Coliseu de Lisboa
Yo La Tengo – Aula Magna
Anna Calvi - Aula Magna
Novos sons lá de fora
Daughter
Savages
Palma Violets
Deap Vally
Jagwar Ma
Novos sons cá de dentro
Gisela João
Valter Lobo
Ciclo Preparatório
Tape Junk
Beautify Junkyards
Livros para alimentar a alma
Afonso Cruz - Livro do ano
Afonso Cruz - Para onde vão os guarda-chuvas
David Machado - Índice médio de felicidade
Valter Hugo Mãe - A desumanização
Herbjorg Wassamo - A casa com alpendre de vidro cego
Filmes gravados na memória
Temporário 12 - Destin Cretton
A vida de Adèle (Cap 1 e 2) - Abdellatif Kechiche
Para lá das colinas - Cristian Mungiu
A caça - Thomas Vintenberg
Hannah Arendt - Margarethe von Trotta
Aventuras nas consolas
Beyond - Duas almas - PS3
Rain - PS3
Killzone: Mercenary - PS Vita
Tearaway - PS Vita
Fifa 14 - PS3 / PS Vita
The Last of us - PS3
“Don’t think about making art, just get it done. Let everyone else decide if it’s good or bad, whether they love it or hate it. While they are deciding, make even more art.” Andy Warhol
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
“UM MILIONÁRIO EM LISBOA”
de JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS
A erupção do vulcão arménio
Ainda na primeira metade de “Um milionário em Lisboa” (Gradiva, 2013), José Rodrigues dos Santos ensaia um diálogo entre Kaloust Sarkisian e Sir Kenneth Bark, curador da National Gallery. O tema é a definição de arte portadora da noção de belo e as mudanças desse paradigma depois do flagelo da Primeira Grande Guerra.
Para a conversa convocam-se nomes como Marchel Duchamp, Picasso, Stravinsky, Virginia Wolf, Dostoiévski, Platão e Sócrates. Percorrem-se séculos em poucas páginas e discute-se convenções, ideias, conceitos e revolução das mentes face ao novo, ao diferente. Ainda que não seja, dizemos nós, uma das prioridades deste romance de José Rodrigues dos Santos, a ideia de “formar” o leitor está bem patente nas mais de mil páginas que representam os dois mais recentes livros do autor, que assenta a sua escrita numa base de assinalável e eficaz entretenimento.
Algumas semanas depois de lançar “O Homem de Constantinopla”, chega-nos entretanto “Um milionário em Lisboa”, uma obra ficcionada sobre Calouste Gulbenkian que visa dar seguimento ao primeiro livro e leva o leitor a conhecer um pouco do progresso do “senhor cinco por cento” nos negócios do petróleo, que o tornariam no homem mais rico do mundo, na construção da maior coleção privada de arte que o planeta já conheceu bem como o amor que o arménio desenvolveu pela capital portuguesa, local que serviu de exílio durante a Segunda Grande Guerra.
Este livro dá eco a episódios como a detenção de Sarkisian pela PIDE, a criação da sua fundação homónima, permitindo ainda continuar a viagem pela mente de um dos mais brilhantes homens de negócios que o mundo já conheceu.
Ainda que seja Kaloust o personagem maior deste livro, Krikor, o seu único herdeiro, tem um papel deveras importante na trama, sendo que a primeira metade do livro centra a atenção sobre o atribulado e dramático percurso de vida do jovem Sarkisian que, depois de correr atrás de uma paixão avassaladora por Marjan Kinosian, se vê envolvido numa das mais negras fases da história do século XX, sendo engolido pelo movimento que ficou conhecido por “Genocídio Arménio”, uma marcha de morte organizada pelas forças do Império Otomano que massacrou perto de um milhão de homens, mulheres e crianças de origem arménia.
Fazendo o leitor atravessar alguns dos momentos mais marcantes do século XX, José Rodrigues dos Santos torna “Um milionário em Lisboa” num diário de costumes e vivências de assinalável competência, revelando estratégias de um homem com um ímpar poder negocial que conseguiu domar a seu bel-prazer as mudanças geopolíticas provocadas pela dialética belicista das duas Grandes Guerras e que viu, em Lisboa, um definitivo porto de abrigo, muito por culpa das semelhanças entre o espírito português e o arménio e a arquitetura gémea entre Constantinopla e Lisboa, isto depois de viver alguns dos momentos mais importantes da sua vida em Londres ou Paris.
A escrita cativante de José Rodrigues dos Santos torna a narrativa de “Um milionário em Lisboa” – tal como já tinha acontecido com “O homem de Constantinopla” – num autêntico filme romanceado, que não dá tréguas ao leitor que rapidamente é seduzido por uma estória invulgar onde a ação se divide pelos quatros cantos de um mundo sempre à beira do colapso.
In Rua de Baixo
Ainda na primeira metade de “Um milionário em Lisboa” (Gradiva, 2013), José Rodrigues dos Santos ensaia um diálogo entre Kaloust Sarkisian e Sir Kenneth Bark, curador da National Gallery. O tema é a definição de arte portadora da noção de belo e as mudanças desse paradigma depois do flagelo da Primeira Grande Guerra.
Para a conversa convocam-se nomes como Marchel Duchamp, Picasso, Stravinsky, Virginia Wolf, Dostoiévski, Platão e Sócrates. Percorrem-se séculos em poucas páginas e discute-se convenções, ideias, conceitos e revolução das mentes face ao novo, ao diferente. Ainda que não seja, dizemos nós, uma das prioridades deste romance de José Rodrigues dos Santos, a ideia de “formar” o leitor está bem patente nas mais de mil páginas que representam os dois mais recentes livros do autor, que assenta a sua escrita numa base de assinalável e eficaz entretenimento.
Algumas semanas depois de lançar “O Homem de Constantinopla”, chega-nos entretanto “Um milionário em Lisboa”, uma obra ficcionada sobre Calouste Gulbenkian que visa dar seguimento ao primeiro livro e leva o leitor a conhecer um pouco do progresso do “senhor cinco por cento” nos negócios do petróleo, que o tornariam no homem mais rico do mundo, na construção da maior coleção privada de arte que o planeta já conheceu bem como o amor que o arménio desenvolveu pela capital portuguesa, local que serviu de exílio durante a Segunda Grande Guerra.
Este livro dá eco a episódios como a detenção de Sarkisian pela PIDE, a criação da sua fundação homónima, permitindo ainda continuar a viagem pela mente de um dos mais brilhantes homens de negócios que o mundo já conheceu.
Ainda que seja Kaloust o personagem maior deste livro, Krikor, o seu único herdeiro, tem um papel deveras importante na trama, sendo que a primeira metade do livro centra a atenção sobre o atribulado e dramático percurso de vida do jovem Sarkisian que, depois de correr atrás de uma paixão avassaladora por Marjan Kinosian, se vê envolvido numa das mais negras fases da história do século XX, sendo engolido pelo movimento que ficou conhecido por “Genocídio Arménio”, uma marcha de morte organizada pelas forças do Império Otomano que massacrou perto de um milhão de homens, mulheres e crianças de origem arménia.
Fazendo o leitor atravessar alguns dos momentos mais marcantes do século XX, José Rodrigues dos Santos torna “Um milionário em Lisboa” num diário de costumes e vivências de assinalável competência, revelando estratégias de um homem com um ímpar poder negocial que conseguiu domar a seu bel-prazer as mudanças geopolíticas provocadas pela dialética belicista das duas Grandes Guerras e que viu, em Lisboa, um definitivo porto de abrigo, muito por culpa das semelhanças entre o espírito português e o arménio e a arquitetura gémea entre Constantinopla e Lisboa, isto depois de viver alguns dos momentos mais importantes da sua vida em Londres ou Paris.
A escrita cativante de José Rodrigues dos Santos torna a narrativa de “Um milionário em Lisboa” – tal como já tinha acontecido com “O homem de Constantinopla” – num autêntico filme romanceado, que não dá tréguas ao leitor que rapidamente é seduzido por uma estória invulgar onde a ação se divide pelos quatros cantos de um mundo sempre à beira do colapso.
In Rua de Baixo
“ALEX CROSS: A CAÇA”
de JAMES PATTERSON
Em busca do impiedoso gangue felino
Longe vão os tempos em que o norte-americano James Brendan Patterson venceu o prestigiado Edgar Award em 1977 e, desde a edição de “The Thomas Berryman Number”, o autor já vendeu perto de 300 (!) milhões de livros, divididos por 43 países.
A capacidade de escrita de Patterson, uma verdadeira máquina de fazer livros, levou-o a escrever vários géneros. Desde a literatura infantil até aos livros policias carregados de várias camadas de mistério, ação, aventura e suspense, o criador de personagens como Alex Cross fidelizou milhões de fãs em todo o mundo que aguardam com ansiedade cada novo projeto do seu escritor favorito.
Ciente do potencial de James Patterson, a Topseller agarrou com unhas e dentes a possibilidade de editar o norte-americano por terras nacionais e, a prolífera cadência criativa do norte-americano, levou a editora a colocar no mercado 14 títulos deste autor no curto espaço de um ano.
Entre as criações mais procurados do universo de James Patterson destacam-se as coleções “Private: Agência Internacional de Investigação”, “The Women’s Murder Club – (Clube das Investigadoras)”, “Micheal Bennett” e, claro, a série dedicada a Alex Cross.
Depois do sucesso das edições de “Alex Cross” e “Alex Cross: Perigo Duplo”, chega-nos agora “Alex Cross: A Caça” (Topseller, 2013), o terceiro livro da apetecível saga do conhecido ex-agente do FBI, que promete fazer as delícias da sua crescente trupe de fãs.
Mais uma vez, Patterson leva-nos a mergulhar nos meandros de Washington DC, uma cidade desta vez assombrada pela crueldade de um assassino que surpreende os mais frios através da brutalidade da sua ação.
A entrada de Cross neste autêntico inferno acontece quando Ellie Cox, camarada de Alex nos tempos de liceu, é morta e mutilada, assim como os membros da sua família, por um bando em fúria cujos membros, aparentemente, fazem parte de um gangue impiedoso que tem na ameaçadora e misteriosa figura de um homem apelidado de “Tigre” o seu líder.
Aquele que ousa atravessar o caminho de “Tigre” conhece a morte como a consequência de tal atrevimento. Suspeito pelo envolvimento em casos de vendas de estupefacientes, lavagem de dinheiro e ilegalidades várias, “O Gangue do Tigre” tem como imagem de marca brutais assassinatos a sangue-frio cuja intensidade não encontra precedentes na história criminal da cidade.
Sucedem-se os crimes, morrem famílias inteiras cujos corpos são alvo de violentos atos de crueldade e, perante tal cenário, Cross – na companhia de Brianna Stone, a sua atual cara-metade – envolve-se num dos mais intricados e perigosos casos da sua carreira que o levam a embrenhar-se no mortífero submundo de Washington DC e que, num ápice, pode tornar o caçador numa inofensiva presa.
Sem armas para enfrentar a poderosa organização, Alex é subjugado pelo “Tigre” e seus homens, sofrendo as mais difíceis provações depois de decidir seguir o terrível bando por terras de África. Qual será o destino de Cross?
É essa a dúvida que leva o leitor a devorar as páginas deste livro, que se revela uma das mais complexas obras do autor trazendo consigo alguns tiques atípicos à obra de Patterson, uma vez que estamos perante um romance que privilegia a ação em detrimento do habitual jogo psicológico presente nos livros do autor norte-americano. Outras das características inovadoras de “Alex Cross: A Caça” é a brutalidade dos crimes praticados pelo gangue felino, que se assumem como insuperáveis doses de horror face às anteriores aventuras escritas por Patterson que, com este livro, reforça a sua condição do mais bem-sucedido autor de policiais em todo o planeta.
In Rua de Baixo
Longe vão os tempos em que o norte-americano James Brendan Patterson venceu o prestigiado Edgar Award em 1977 e, desde a edição de “The Thomas Berryman Number”, o autor já vendeu perto de 300 (!) milhões de livros, divididos por 43 países.
A capacidade de escrita de Patterson, uma verdadeira máquina de fazer livros, levou-o a escrever vários géneros. Desde a literatura infantil até aos livros policias carregados de várias camadas de mistério, ação, aventura e suspense, o criador de personagens como Alex Cross fidelizou milhões de fãs em todo o mundo que aguardam com ansiedade cada novo projeto do seu escritor favorito.
Ciente do potencial de James Patterson, a Topseller agarrou com unhas e dentes a possibilidade de editar o norte-americano por terras nacionais e, a prolífera cadência criativa do norte-americano, levou a editora a colocar no mercado 14 títulos deste autor no curto espaço de um ano.
Entre as criações mais procurados do universo de James Patterson destacam-se as coleções “Private: Agência Internacional de Investigação”, “The Women’s Murder Club – (Clube das Investigadoras)”, “Micheal Bennett” e, claro, a série dedicada a Alex Cross.
Depois do sucesso das edições de “Alex Cross” e “Alex Cross: Perigo Duplo”, chega-nos agora “Alex Cross: A Caça” (Topseller, 2013), o terceiro livro da apetecível saga do conhecido ex-agente do FBI, que promete fazer as delícias da sua crescente trupe de fãs.
Mais uma vez, Patterson leva-nos a mergulhar nos meandros de Washington DC, uma cidade desta vez assombrada pela crueldade de um assassino que surpreende os mais frios através da brutalidade da sua ação.
A entrada de Cross neste autêntico inferno acontece quando Ellie Cox, camarada de Alex nos tempos de liceu, é morta e mutilada, assim como os membros da sua família, por um bando em fúria cujos membros, aparentemente, fazem parte de um gangue impiedoso que tem na ameaçadora e misteriosa figura de um homem apelidado de “Tigre” o seu líder.
Aquele que ousa atravessar o caminho de “Tigre” conhece a morte como a consequência de tal atrevimento. Suspeito pelo envolvimento em casos de vendas de estupefacientes, lavagem de dinheiro e ilegalidades várias, “O Gangue do Tigre” tem como imagem de marca brutais assassinatos a sangue-frio cuja intensidade não encontra precedentes na história criminal da cidade.
Sucedem-se os crimes, morrem famílias inteiras cujos corpos são alvo de violentos atos de crueldade e, perante tal cenário, Cross – na companhia de Brianna Stone, a sua atual cara-metade – envolve-se num dos mais intricados e perigosos casos da sua carreira que o levam a embrenhar-se no mortífero submundo de Washington DC e que, num ápice, pode tornar o caçador numa inofensiva presa.
Sem armas para enfrentar a poderosa organização, Alex é subjugado pelo “Tigre” e seus homens, sofrendo as mais difíceis provações depois de decidir seguir o terrível bando por terras de África. Qual será o destino de Cross?
É essa a dúvida que leva o leitor a devorar as páginas deste livro, que se revela uma das mais complexas obras do autor trazendo consigo alguns tiques atípicos à obra de Patterson, uma vez que estamos perante um romance que privilegia a ação em detrimento do habitual jogo psicológico presente nos livros do autor norte-americano. Outras das características inovadoras de “Alex Cross: A Caça” é a brutalidade dos crimes praticados pelo gangue felino, que se assumem como insuperáveis doses de horror face às anteriores aventuras escritas por Patterson que, com este livro, reforça a sua condição do mais bem-sucedido autor de policiais em todo o planeta.
In Rua de Baixo
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
ANNA CALVI @ AULA MAGNA
O (EN)CANTO DA SEREIA
Maravilhoso. Esta pode ser uma das formas de adjetivar aquilo que se passou na noite de ontem na quase lotada Aula Magna. Rendido desde a primeira hora, o muito público presente sublinhou com aplausos e outros tiques de devoção cada interpretação da cantora, compositora e exímia guitarrista britânica.
No seguimento da digressão que promove o seu segundo álbum, “One Breath”, Anna Calvi regressou a Portugal para duas datas que, por certo, ficarão na memória dos privilegiados que assistiram aos concertos na Casa da Música e Aula Magna, espetáculos esses que encerram a referida tour.
De aspeto frágil, assente nuns desafiadores saltos altos e trajando elegantemente de vermelho e negro, Calvi enceta uma deslumbrante metamorfose ao pegar na guitarra, elemento ensimesmado da sua própria existência. Por entre registos perto de paisagens sónicas e outros momentos a reclamar o sussurro, a britânica explorou os seus únicos dois discos editados até hoje, gravando na memória dos presentes instantes perto da perfeição técnica e orgânica, com particular destaque para uma voz ímpar e um trabalho de guitarra fantástico.
Depois do público marcar a sua impaciência face a um palco momentaneamente vazio através de gritos de chamamento a Anna Calvi, a pequena diva, acompanhada por um trio de grandes músicos, entrou em palco poucos minutos depois das 22 horas. Com a bateria a marcar o ritmo inicial, “Suzanne & I”, retirado do trabalho debutante de Anna Calvi, numa versão mais calma que a do registo de estúdio, revelou a aparente fragilidade da figura que ocupava o centro do palco, rapidamente ultrapassada quando da guitarra sairam acordes maiores, assentes numa mestria assinalável.
Depois de receber, sorridente, as primeiras palmas do público, Calvi atira-se a uma grande versão de “Eliza”, retirada do recente “One Breath”. Para tocar “Suddenly”, a pequena grande britânica troca de guitarra e a voz doce de Calvi faz a todos percorrer sonhos tranquilos, através de uma doçura intimista, apenas quebrada por alguns momentos de explosão. A seguir, “Sing to Me”, uma das mais belas composição de Calvi, fez sentir laivos do universo musical de David Lynch misturado com fantasmas de PJ Harvey, e o público sente o encanto da sereia.
A assistência não esconde a emoção que se vive na sala e alguém grita: “we love you!”. Sorridente, Calvi agradece e logo a seguir atira-se a um potente “Cry” e, pela primeira vez, sente-se a presença do inconfundível sublinhar de um baixo. Em curtos minutos de genial manobra de uma guitarra que “fala” para quem a escuta, Calvi mostra que é uma das maiores guitarristas do momento. Na verdadeira montanha-russa de sentimentos que é um concerto de Anna Calvi, “First We Kiss”, leva-nos de volta ao fundo de um mar vermelho, cuja intensidade das cordas da guitarra faz a todos flutuar.
Decididamente mais potente e emotiva ao vivo, a música de Calvi procura inspiração em territórios díspares e em “I’ll be Your Man” é o blues a marcar presença. Durante alguns instantes, Anna abandona a frente do microfone e leva a guitarra mais perto da assistência através de um maravilhoso solo de intensidade oscilante. O silêncio reclama espaço e o público respeita o pedido. Antes de tocar “Piece by Piece”, a banda é premiada com uma das maiores ovações da noite e, em forma de agradecimento, oferece intensos minutos groove ao tocar outra das faixas de “One Breath”. “Carry Me Over”, um dos momentos mais “pop” da noite, faz outros instrumentos brilhar e o som irrepreensível da Aula Magna delicia os ouvidos com toques de xilofone, grandes momentos de bateria e teclas, que apenas são profanados com a estática e o feedback da responsabilidade e mestria de Calvi.
Depois, a banda retira-se de palco e Anna, tomando por companhia apenas a guitarra, toca uma assombrosa versão de “Fire”, de Bruce Springsteen. Numa atitude descaradamente sedutora, Calvi faz suar os presentes com uma interpretação agridoce que reclama desejo. Já com a banda novamente em palco, a paixão continua sob a forma de “Desire”, um exercício perfeito que conjuga a arte de bem tocar um instrumento e a magnitude de uma voz surpreendente.
Antes de se retirar pela primeira vez do palco há ainda tempo para “Love Will Be Leaving”, que assumiu contornos de uma saudável jam session.
O regresso ao palco fez-se pouco momentos depois, pois o público não se cansava de reclamar a presença de Calvi e seus pares. Depois de uma hora certinha de canções, música e momentos de grande beleza interpretativa, a serena “Bleed Into Me” e a mais encorpada “Jezebel” confirmaram a excelência do concerto, que terminaria apenas com um fantasmagórico “Blackout”, que contou com um início à moda de um western spaghetti envolto de outro solo marcante e circular de Calvi e que serviu de desculpa para regressar ao placo depois de outra curtíssima pausa.
A ovação final, com todos de pé, mostrou como todos estavam rendidos a um dos melhores concertos que os portugueses tiveram a honra de assistir em 2013 e cuja definição possível pode ser encontrada na primeira palavra deste texto.
Antes da inesquecível atuação de Anna Calvi, esteve em palco “I Have a Tribe”, um projeto de um homem só que aposta na companhia de uma guitarra ou de um piano, conseguindo proporcionar momentos de rara beleza, assentes numa assinalável linguagem corporal e dramatismo. Ao longo de sete canções, das quais de destaca “Monsoon”, assistimos a uma muito interessante e intimista prestação, cujo ambiente toca nos universos de gente como Jeff Buckley ou Justin Vernon. Em jeito de confissão, o enigmático e simpático intérprete revelou que se tratava da sua primeira digressão, sendo que o nome de “I Have a Tribe” deixou o público com água na boca, esperando-se mais novidades do músico e do seu projeto.
Foto: Marta Ribeiro/Palco Principal
In Palco Principal
Maravilhoso. Esta pode ser uma das formas de adjetivar aquilo que se passou na noite de ontem na quase lotada Aula Magna. Rendido desde a primeira hora, o muito público presente sublinhou com aplausos e outros tiques de devoção cada interpretação da cantora, compositora e exímia guitarrista britânica.
No seguimento da digressão que promove o seu segundo álbum, “One Breath”, Anna Calvi regressou a Portugal para duas datas que, por certo, ficarão na memória dos privilegiados que assistiram aos concertos na Casa da Música e Aula Magna, espetáculos esses que encerram a referida tour.
De aspeto frágil, assente nuns desafiadores saltos altos e trajando elegantemente de vermelho e negro, Calvi enceta uma deslumbrante metamorfose ao pegar na guitarra, elemento ensimesmado da sua própria existência. Por entre registos perto de paisagens sónicas e outros momentos a reclamar o sussurro, a britânica explorou os seus únicos dois discos editados até hoje, gravando na memória dos presentes instantes perto da perfeição técnica e orgânica, com particular destaque para uma voz ímpar e um trabalho de guitarra fantástico.
Depois do público marcar a sua impaciência face a um palco momentaneamente vazio através de gritos de chamamento a Anna Calvi, a pequena diva, acompanhada por um trio de grandes músicos, entrou em palco poucos minutos depois das 22 horas. Com a bateria a marcar o ritmo inicial, “Suzanne & I”, retirado do trabalho debutante de Anna Calvi, numa versão mais calma que a do registo de estúdio, revelou a aparente fragilidade da figura que ocupava o centro do palco, rapidamente ultrapassada quando da guitarra sairam acordes maiores, assentes numa mestria assinalável.
Depois de receber, sorridente, as primeiras palmas do público, Calvi atira-se a uma grande versão de “Eliza”, retirada do recente “One Breath”. Para tocar “Suddenly”, a pequena grande britânica troca de guitarra e a voz doce de Calvi faz a todos percorrer sonhos tranquilos, através de uma doçura intimista, apenas quebrada por alguns momentos de explosão. A seguir, “Sing to Me”, uma das mais belas composição de Calvi, fez sentir laivos do universo musical de David Lynch misturado com fantasmas de PJ Harvey, e o público sente o encanto da sereia.
A assistência não esconde a emoção que se vive na sala e alguém grita: “we love you!”. Sorridente, Calvi agradece e logo a seguir atira-se a um potente “Cry” e, pela primeira vez, sente-se a presença do inconfundível sublinhar de um baixo. Em curtos minutos de genial manobra de uma guitarra que “fala” para quem a escuta, Calvi mostra que é uma das maiores guitarristas do momento. Na verdadeira montanha-russa de sentimentos que é um concerto de Anna Calvi, “First We Kiss”, leva-nos de volta ao fundo de um mar vermelho, cuja intensidade das cordas da guitarra faz a todos flutuar.
Decididamente mais potente e emotiva ao vivo, a música de Calvi procura inspiração em territórios díspares e em “I’ll be Your Man” é o blues a marcar presença. Durante alguns instantes, Anna abandona a frente do microfone e leva a guitarra mais perto da assistência através de um maravilhoso solo de intensidade oscilante. O silêncio reclama espaço e o público respeita o pedido. Antes de tocar “Piece by Piece”, a banda é premiada com uma das maiores ovações da noite e, em forma de agradecimento, oferece intensos minutos groove ao tocar outra das faixas de “One Breath”. “Carry Me Over”, um dos momentos mais “pop” da noite, faz outros instrumentos brilhar e o som irrepreensível da Aula Magna delicia os ouvidos com toques de xilofone, grandes momentos de bateria e teclas, que apenas são profanados com a estática e o feedback da responsabilidade e mestria de Calvi.
Depois, a banda retira-se de palco e Anna, tomando por companhia apenas a guitarra, toca uma assombrosa versão de “Fire”, de Bruce Springsteen. Numa atitude descaradamente sedutora, Calvi faz suar os presentes com uma interpretação agridoce que reclama desejo. Já com a banda novamente em palco, a paixão continua sob a forma de “Desire”, um exercício perfeito que conjuga a arte de bem tocar um instrumento e a magnitude de uma voz surpreendente.
Antes de se retirar pela primeira vez do palco há ainda tempo para “Love Will Be Leaving”, que assumiu contornos de uma saudável jam session.
O regresso ao palco fez-se pouco momentos depois, pois o público não se cansava de reclamar a presença de Calvi e seus pares. Depois de uma hora certinha de canções, música e momentos de grande beleza interpretativa, a serena “Bleed Into Me” e a mais encorpada “Jezebel” confirmaram a excelência do concerto, que terminaria apenas com um fantasmagórico “Blackout”, que contou com um início à moda de um western spaghetti envolto de outro solo marcante e circular de Calvi e que serviu de desculpa para regressar ao placo depois de outra curtíssima pausa.
A ovação final, com todos de pé, mostrou como todos estavam rendidos a um dos melhores concertos que os portugueses tiveram a honra de assistir em 2013 e cuja definição possível pode ser encontrada na primeira palavra deste texto.
Antes da inesquecível atuação de Anna Calvi, esteve em palco “I Have a Tribe”, um projeto de um homem só que aposta na companhia de uma guitarra ou de um piano, conseguindo proporcionar momentos de rara beleza, assentes numa assinalável linguagem corporal e dramatismo. Ao longo de sete canções, das quais de destaca “Monsoon”, assistimos a uma muito interessante e intimista prestação, cujo ambiente toca nos universos de gente como Jeff Buckley ou Justin Vernon. Em jeito de confissão, o enigmático e simpático intérprete revelou que se tratava da sua primeira digressão, sendo que o nome de “I Have a Tribe” deixou o público com água na boca, esperando-se mais novidades do músico e do seu projeto.
Foto: Marta Ribeiro/Palco Principal
In Palco Principal
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
“Um céu demasiado azul”
de Francisco José Viegas
Um policial com sotaque do norte
Numa atitude que nos apraz saudar, a Porto Editora lançou recentemente uma nova edição de “Um céu demasiado azul” (Porto Editora, 2013), um dos mais apetecíveis romances policiais de Francisco José Viegas e que tem como maior protagonista Jaime Ramos, um detetive “tripeiro” da velha guarda que resgata para si o direito de assumir o papel de anti-herói e que tem, nos refinados gostos gourmet, um dos mais marcantes traços do seu perfil.
Outras das personagens que ocupam o universo de Ramos é o seu camarada de luta Filipe Castanheira, um jovem polícia apaixonado pela sua profissão e por uma açoriana que lhe raptou o coração, assim como Rosa, a vizinha do veterano agente da autoridade com a qual partilha uma relação de especial proximidade.
A trama de “Um céu demasiado azul”, livro também publicado no mercado brasileiro, alemão e francês, foca-se na investigação que Jaime Ramos leva a cabo depois de encontrado o cadáver de João Alves Lopes, antigo membro de um partido esquerdista nacional que é também conhecido pelas bem-sucedidas aventuras profissionais no mundo da publicidade. Como ponto de partida, para além da descoberta do corpo da vítima dentro do próprio carro, a dupla Ramos e Castanheira consegue uma série de pistas que os levam a considerar Amélia Lobo Correia, uma stripper itinerante e estudante de filosofia, uma potencial suspeita.
Para desconsolo de Rosa, a demanda de Jaime Ramos em descobrir o assassino de João Alves Lopes leva o primeiro a percorrer terras sul americanas, tendo como cenário Cuba e México. Num autêntica viagem ao passado, Ramos constrói um delicado e intrincado puzzle cujas peças são compostas de corações partidos, traições e sonhos perdidos que têm, como elos aglutinadores, elevadas doses de azar e coincidências que se tornam ainda mais autênticas quando transportadas para dentro de um Portugal mesquinho onde todas as armas são possíveis para um desejado fim.
Um dos homens mais conhecidos do espetro cultural nacional, cujo trajeto profissional o conduziu pela arte de lecionar, pelo jornalismo e pela edição, Francisco José Viegas atinge, dizemos nós, a plenitude da sua escrita com o retrato de um polícia à portuguesa que faz lembrar, por exemplo, o fantástico Mário Conde do cubano Leonardo Padura, através de uma narrativa exemplar e um assinalável requinte, principalmente no que toca ao perfil de Jaime Ramos, um dos personagens maiores da ficção nacional.
Vivamente aconselhado aos amantes do género policial mas não só, “Um céu demasiado azul” é um livro que apaixona, envolve e seduz de uma forma tão natural que, depois de apenas algumas páginas, o leitor desliga-se da realidade que o rodeia e dá por si dentro da ação vivida e sentida ao sabor dos ritmos e paisagens particulares, cujo fascínio é sublinhado pela presença de Jaime Ramos e companhia deveras limitada.
In Rua de Baixo
Numa atitude que nos apraz saudar, a Porto Editora lançou recentemente uma nova edição de “Um céu demasiado azul” (Porto Editora, 2013), um dos mais apetecíveis romances policiais de Francisco José Viegas e que tem como maior protagonista Jaime Ramos, um detetive “tripeiro” da velha guarda que resgata para si o direito de assumir o papel de anti-herói e que tem, nos refinados gostos gourmet, um dos mais marcantes traços do seu perfil.
Outras das personagens que ocupam o universo de Ramos é o seu camarada de luta Filipe Castanheira, um jovem polícia apaixonado pela sua profissão e por uma açoriana que lhe raptou o coração, assim como Rosa, a vizinha do veterano agente da autoridade com a qual partilha uma relação de especial proximidade.
A trama de “Um céu demasiado azul”, livro também publicado no mercado brasileiro, alemão e francês, foca-se na investigação que Jaime Ramos leva a cabo depois de encontrado o cadáver de João Alves Lopes, antigo membro de um partido esquerdista nacional que é também conhecido pelas bem-sucedidas aventuras profissionais no mundo da publicidade. Como ponto de partida, para além da descoberta do corpo da vítima dentro do próprio carro, a dupla Ramos e Castanheira consegue uma série de pistas que os levam a considerar Amélia Lobo Correia, uma stripper itinerante e estudante de filosofia, uma potencial suspeita.
Para desconsolo de Rosa, a demanda de Jaime Ramos em descobrir o assassino de João Alves Lopes leva o primeiro a percorrer terras sul americanas, tendo como cenário Cuba e México. Num autêntica viagem ao passado, Ramos constrói um delicado e intrincado puzzle cujas peças são compostas de corações partidos, traições e sonhos perdidos que têm, como elos aglutinadores, elevadas doses de azar e coincidências que se tornam ainda mais autênticas quando transportadas para dentro de um Portugal mesquinho onde todas as armas são possíveis para um desejado fim.
Um dos homens mais conhecidos do espetro cultural nacional, cujo trajeto profissional o conduziu pela arte de lecionar, pelo jornalismo e pela edição, Francisco José Viegas atinge, dizemos nós, a plenitude da sua escrita com o retrato de um polícia à portuguesa que faz lembrar, por exemplo, o fantástico Mário Conde do cubano Leonardo Padura, através de uma narrativa exemplar e um assinalável requinte, principalmente no que toca ao perfil de Jaime Ramos, um dos personagens maiores da ficção nacional.
Vivamente aconselhado aos amantes do género policial mas não só, “Um céu demasiado azul” é um livro que apaixona, envolve e seduz de uma forma tão natural que, depois de apenas algumas páginas, o leitor desliga-se da realidade que o rodeia e dá por si dentro da ação vivida e sentida ao sabor dos ritmos e paisagens particulares, cujo fascínio é sublinhado pela presença de Jaime Ramos e companhia deveras limitada.
In Rua de Baixo
sábado, 14 de dezembro de 2013
“Temporário 12”
de Destin Cretton
Interrupção (in)voluntária da existência
Um dos grandes vencedores da mais recente edição do SXSW Film Festival, tendo também arrebatado os maiores galardões no Los Angeles Film Festival e no Locarno Filme Festival, “Temporário 12”, escrito e realizado por Destin Cretton é, sem dúvida, uma das mais comoventes peças cinematográficas de 2013 e que tem num elenco praticamente desconhecido do grande público a sua grande mais-valia.
Com um perfil assumidamente indie onde a câmara subjetiva de Cretton ousa entrar na mente dos personagens através de muitos e ajustados grandes planos, “Temporário 12” centra a sua narrativa num centro de acolhimento temporário para adolescentes com um comportamento socialmente desviante que escondem dentro das ainda tenras existências segredos, medos e cicatrizes que os impedem de encarar o futuro de forma risonha.
De forma a conseguir uma ponte entre os jovens, a instituição e a vida fora das suas paredes, Grace (Brie Larson) é uma das mais dedicadas monitoras do centro e tem na sua relação apaixonada com o colega Mason (John Gallagher Jr.) um ponto de equilíbrio para a sua vida também ela manchada com alguns dos tormentos que assolam alguns dos adolescentes internados.
Enquanto alguns dos membros da comunidade lutam dentro de si para conseguir ganhar a necessária coragem para o inevitável abandono da instituição, outros estão a chegar. Se, por exemplo, o revoltado Marcus (Keith Stanfield) vê no festejo do seu 18 aniversário uma fronteira entre a desejada liberdade e o medo desse sentimento, a recém-chegada Jayden (Kaitlyn Dever) não esconde a raiva que lhe rói a alma, sensação essa também parceira de vida de Grace que se revê na atitude desesperada da jovem nascendo assim uma poderosa ligação entre ambas.
De alma e corpo entregue às responsabilidades profissionais, Grace não consegue ser tão pragmática na sua vida e relacionamento com Mason como o faz junto dos membros do centro de acolhimento sendo que os fantasmas do passado impedem que presente e futuro sejam formas verbais presentes no seu vocabulário.
Envolto de uma sensibilidade desarmante, “Temporário 12” coloca a nu os fantasmas e o reflexo dos sentimentos recalcados nas mentes perturbadas dos seus personagens que têm nos já referidos grandes planos um espelho da sua perversidade. Ainda assim entre cenas em que unhas castigam a carne e a automutilação se assuma como um poderoso grito de revolta, existe espaço para diálogos onde o humor, a partilha e a vontade de viver consigam resgatar laivos de uma ténue esperança.
Nesse aspeto o personagem encarnado pela excelente Brie Larson é sublime e Grace consegue criar fortes laços e elevados níveis de cumplicidade ao expor as próprias fraquezas conferindo às jovens almas solitárias uma crescente sensação de “conforto”, pertença e amor-próprio. No fundo “Temporário 12” dá a conhecer vidas sufocadas pela omnipresença da dor psicológica que se estende ao patamar físico.
Para além da mestria de Cretton, convém realçar a importância da banda-sonora de “Temporário 12” da autoria de Joel P. West que em toda a sua plenitude tem como propósito e significado algo mais que uma mera transposição entre cenas. Aqui, a música, muitas vezes num registo acústico ou envolto de uma simplicidade semelhante, representa sentimentos e emoções delicadas e que completam o perfil dos personagens. Se noutros filmes as canções possam transmitir ações e pensamentos impercetíveis pela representação dos atores, em “Temporário 12” West completa as pessoas presentes na tela através dos vários acordes e sons.
Repleto de emoções, honesto, apaixonado e arrebatadoramente simples, “Temporário 12” tem, obrigatoriamente, de figurar entre as listas dos melhores objetos cinematográficos de 2013 sob pena de se ostracizar aquilo que melhor traduz a arte de fazer cinema e que é a “simples” partilha de sentimentos puros.
In Rua de Baixo
Um dos grandes vencedores da mais recente edição do SXSW Film Festival, tendo também arrebatado os maiores galardões no Los Angeles Film Festival e no Locarno Filme Festival, “Temporário 12”, escrito e realizado por Destin Cretton é, sem dúvida, uma das mais comoventes peças cinematográficas de 2013 e que tem num elenco praticamente desconhecido do grande público a sua grande mais-valia.
Com um perfil assumidamente indie onde a câmara subjetiva de Cretton ousa entrar na mente dos personagens através de muitos e ajustados grandes planos, “Temporário 12” centra a sua narrativa num centro de acolhimento temporário para adolescentes com um comportamento socialmente desviante que escondem dentro das ainda tenras existências segredos, medos e cicatrizes que os impedem de encarar o futuro de forma risonha.
De forma a conseguir uma ponte entre os jovens, a instituição e a vida fora das suas paredes, Grace (Brie Larson) é uma das mais dedicadas monitoras do centro e tem na sua relação apaixonada com o colega Mason (John Gallagher Jr.) um ponto de equilíbrio para a sua vida também ela manchada com alguns dos tormentos que assolam alguns dos adolescentes internados.
Enquanto alguns dos membros da comunidade lutam dentro de si para conseguir ganhar a necessária coragem para o inevitável abandono da instituição, outros estão a chegar. Se, por exemplo, o revoltado Marcus (Keith Stanfield) vê no festejo do seu 18 aniversário uma fronteira entre a desejada liberdade e o medo desse sentimento, a recém-chegada Jayden (Kaitlyn Dever) não esconde a raiva que lhe rói a alma, sensação essa também parceira de vida de Grace que se revê na atitude desesperada da jovem nascendo assim uma poderosa ligação entre ambas.
De alma e corpo entregue às responsabilidades profissionais, Grace não consegue ser tão pragmática na sua vida e relacionamento com Mason como o faz junto dos membros do centro de acolhimento sendo que os fantasmas do passado impedem que presente e futuro sejam formas verbais presentes no seu vocabulário.
Envolto de uma sensibilidade desarmante, “Temporário 12” coloca a nu os fantasmas e o reflexo dos sentimentos recalcados nas mentes perturbadas dos seus personagens que têm nos já referidos grandes planos um espelho da sua perversidade. Ainda assim entre cenas em que unhas castigam a carne e a automutilação se assuma como um poderoso grito de revolta, existe espaço para diálogos onde o humor, a partilha e a vontade de viver consigam resgatar laivos de uma ténue esperança.
Nesse aspeto o personagem encarnado pela excelente Brie Larson é sublime e Grace consegue criar fortes laços e elevados níveis de cumplicidade ao expor as próprias fraquezas conferindo às jovens almas solitárias uma crescente sensação de “conforto”, pertença e amor-próprio. No fundo “Temporário 12” dá a conhecer vidas sufocadas pela omnipresença da dor psicológica que se estende ao patamar físico.
Para além da mestria de Cretton, convém realçar a importância da banda-sonora de “Temporário 12” da autoria de Joel P. West que em toda a sua plenitude tem como propósito e significado algo mais que uma mera transposição entre cenas. Aqui, a música, muitas vezes num registo acústico ou envolto de uma simplicidade semelhante, representa sentimentos e emoções delicadas e que completam o perfil dos personagens. Se noutros filmes as canções possam transmitir ações e pensamentos impercetíveis pela representação dos atores, em “Temporário 12” West completa as pessoas presentes na tela através dos vários acordes e sons.
Repleto de emoções, honesto, apaixonado e arrebatadoramente simples, “Temporário 12” tem, obrigatoriamente, de figurar entre as listas dos melhores objetos cinematográficos de 2013 sob pena de se ostracizar aquilo que melhor traduz a arte de fazer cinema e que é a “simples” partilha de sentimentos puros.
In Rua de Baixo
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Muse
“Live at Rome Olympic Stadium”
Ao vivo e a (muitas) cores
Depois de seis álbuns de estúdio, dois registos ao vivo, milhões de discos vendidos em todo o mundo e alguns prémios internacionais arrecadados, o trio britânico Muse regressa aos títulos registados durante uma digressão, no caso “Live at Rome Olympic Stadium”, uma muito bem-vinda consequência direta da mais recente tour da banda de Matthew Bellamy, Christopher Wolstenholme e Dominic Howard, a propósito da edição e divulgação de “The 2nd Law”.
Visivelmente orgulhoso do trabalho da banda ao vivo, Bellamy não tem dúvidas em afirmar que “Live at Rome Olympic Stadium” é o reflexo da maior e mais ambiciosa digressão que a banda já realizou. Sem dúvida um dos mais excitantes coletivos rock no registo ao vivo, os Muse são hoje, cerca de duas décadas depois da sua génese, uma espécie de assumidos herdeiros da opulência e magnitude dos Queen, até mesmo do que toca às similaridades sonoras, ainda com as respetivas diferenças e tiques próprios.
Edição em formatos CD/DVD e Blu-Ray, “Live at Rome Olympic Stadium” foi filmado com ajuda da tecnologia 4K, que permite uma fantástica resolução na exibição em salas de cinema, sendo que a versão DVD caseira é sinónimo de um visionamento ultra HD. O registo áudio ousa roçar a perfeição, sendo o som deste disco uma verdadeira obra-prima da técnica, ainda que a voz de Bellamy e a mestria dos instrumentistas da banda ajude, e muito, ao excelente resultado final.
Com dois alinhamentos díspares (CD com 13 temas, DVD com 20 canções mais três extras retirados da digressão norte-americana, assim como um documentário – "The Road" -, que mostra as várias perspetivas de uma digressão) “Live at Rome Olympic Stadium” é uma aconselhável edição e, aproveitando a época natalícia, a prenda ideal, principalmente para os fãs da banda.
Ambas as versões abrem com “Supremacy” e terminam com “Starlight” e, depois de observar atentamente o alinhamento dos registos áudio e vídeo, verifica-se, com alguma surpresa, diga-se, que o seminal “Origin of the Symmetry” é, de certa forma, preterido, sendo apenas possível no formato DVD ver e ouvir “Plug in Baby” e “Feeling Good”, as únicas faixas retiradas do álbum de 2001.
Ainda assim, “Live at Rome Olympic Stadium” apresenta o esqueleto habitual de um disco ao vivo e assume uma natural veia “best of”. “Panic Sation”, com uma interessante intro e um excelente trabalho de baixo de Wolstenholme, que adensa a performance do coletivo, e “Resistance” são dois exemplos da majestade do som atual dos Muse e da energia e dedicação que colocam na sua arte. O som das cerca de 60 mil almas que encheram por completo o estádio romano está deliciosamente misturado com a música e capta na perfeição o frenesim resultante da atuação dos britânicos.
“Hysteria” é um dos momentos mais marcantes do concerto e “Animals” revela a liberdade criativa que um concerto permite, com Matt Bellamy a fazer o que quer da sua guitarra. O épico “Knights of Cydonia”, que se inicia ao dramático som da harmónica de Chris, que interpreta “Man With a Harmonica”, de Ennio Morricone - e que depois de atirar o instrumento de sopro para a multidão corre umas boas dezenas de metros para abraçar o baixo - é outra magnífica interpretação de uns Muse que dominam o palco como poucos.
A união, ou fusão, entre voz e música é impecável e “Explorers” e, especialmente, “Follow Me” levam o ouvinte a estabelecer “óbvias” comparações entre Bellamy e Mercury, sem que nenhum desses protagonistas seja eclipsado. Convém aqui fazer a devida ressalva para a grande forma que Bellamy exibe no que toca ao ato de cantar. O hipnótico “Madness”, cantado em uníssono pela audiência, dá liberdade a Mark para percorrer a passadeira e olhar o público nos olhos antes de pegar na guitarra. Por outro lado, uma audição mais atenta em “Guiding Light” permite ter a certeza da qualidade de som de um instrumento como a bateria, que beneficia das inúmeras vantagens proporcionadas por uma gravação multipistas.
Antes da faixa retirada de “The Resistance”, o mega sucesso “Time is Running Out”, apenas presente na versão DVD, revela o fantástico ambiente vivido na noite de 6 de julho do corrente ano e toda a gente salta ao ritmo de uma das mais emblemáticas canções de “Absolution”. Seguem-se “Supermassive Black Hole” e “Uprising”, fantásticos registos que se assumem ainda mais interessantes que a edição de estúdio pois, ao vivo, os Muse crescem e tornam ainda mais apetecível a sua música.
A honra de fechar este magnífico concerto cabe a “Starlight”, retirada do álbum “Black Holes and Revalations”, e, mais uma vez, é possível ver e sentir a magnitude deste concerto realizado num dos mais fantásticos palcos jamais vistos, que ganha ainda mais brilhantismo com a qualidade ultra HD do registo.
Resumidamente, “Live at Rome Olympic Stadium” é um excelente disco de uma das maiores bandas atuais, ainda que a versão CD merecesse conter mais canções. A interação minimalista de Matt Bellamy junto do público revela uma certa atitude introvertida, mas a entrega do vocalista e restante banda compensa essa lacuna comunicacional, dando ao público aquilo que este mais procura: boa música.
Alinhamento:
CD:
1. "Supremacy"
2. "Panic Station"
3. "Resistance"
4. "Hysteria"
5. "Animals"
6. "Knights of Cydonia"
7. "Explorers"
8. "Follow Me"
9. "Madness"
10. "Guiding Light"
11. "Supermassive Black Hole"
12. "Uprising"
13. "Starlight"
DVD:
1. "Intro"
2. "Supremacy"
3. "Panic Station"
4. "Plug In Baby"
5. "Resistance"
6. "Animals"
7. "Knights of Cydonia"
8. "Explorers"
9. "Hysteria"
10. "Feeling Good"
11. "Follow Me"
12. "Madness"
13. "Time Is Running Out"
14. "Guiding Light"
15. "Undisclosed Desires"
16. "Supermassive Black Hole"
17. "Survival"
18. "The 2nd Law: Isolated System"
19. "Uprising"
20. "Starlight"
Classificação do Palco: 8/10
In Palco Principal
Depois de seis álbuns de estúdio, dois registos ao vivo, milhões de discos vendidos em todo o mundo e alguns prémios internacionais arrecadados, o trio britânico Muse regressa aos títulos registados durante uma digressão, no caso “Live at Rome Olympic Stadium”, uma muito bem-vinda consequência direta da mais recente tour da banda de Matthew Bellamy, Christopher Wolstenholme e Dominic Howard, a propósito da edição e divulgação de “The 2nd Law”.
Visivelmente orgulhoso do trabalho da banda ao vivo, Bellamy não tem dúvidas em afirmar que “Live at Rome Olympic Stadium” é o reflexo da maior e mais ambiciosa digressão que a banda já realizou. Sem dúvida um dos mais excitantes coletivos rock no registo ao vivo, os Muse são hoje, cerca de duas décadas depois da sua génese, uma espécie de assumidos herdeiros da opulência e magnitude dos Queen, até mesmo do que toca às similaridades sonoras, ainda com as respetivas diferenças e tiques próprios.
Edição em formatos CD/DVD e Blu-Ray, “Live at Rome Olympic Stadium” foi filmado com ajuda da tecnologia 4K, que permite uma fantástica resolução na exibição em salas de cinema, sendo que a versão DVD caseira é sinónimo de um visionamento ultra HD. O registo áudio ousa roçar a perfeição, sendo o som deste disco uma verdadeira obra-prima da técnica, ainda que a voz de Bellamy e a mestria dos instrumentistas da banda ajude, e muito, ao excelente resultado final.
Com dois alinhamentos díspares (CD com 13 temas, DVD com 20 canções mais três extras retirados da digressão norte-americana, assim como um documentário – "The Road" -, que mostra as várias perspetivas de uma digressão) “Live at Rome Olympic Stadium” é uma aconselhável edição e, aproveitando a época natalícia, a prenda ideal, principalmente para os fãs da banda.
Ambas as versões abrem com “Supremacy” e terminam com “Starlight” e, depois de observar atentamente o alinhamento dos registos áudio e vídeo, verifica-se, com alguma surpresa, diga-se, que o seminal “Origin of the Symmetry” é, de certa forma, preterido, sendo apenas possível no formato DVD ver e ouvir “Plug in Baby” e “Feeling Good”, as únicas faixas retiradas do álbum de 2001.
Ainda assim, “Live at Rome Olympic Stadium” apresenta o esqueleto habitual de um disco ao vivo e assume uma natural veia “best of”. “Panic Sation”, com uma interessante intro e um excelente trabalho de baixo de Wolstenholme, que adensa a performance do coletivo, e “Resistance” são dois exemplos da majestade do som atual dos Muse e da energia e dedicação que colocam na sua arte. O som das cerca de 60 mil almas que encheram por completo o estádio romano está deliciosamente misturado com a música e capta na perfeição o frenesim resultante da atuação dos britânicos.
“Hysteria” é um dos momentos mais marcantes do concerto e “Animals” revela a liberdade criativa que um concerto permite, com Matt Bellamy a fazer o que quer da sua guitarra. O épico “Knights of Cydonia”, que se inicia ao dramático som da harmónica de Chris, que interpreta “Man With a Harmonica”, de Ennio Morricone - e que depois de atirar o instrumento de sopro para a multidão corre umas boas dezenas de metros para abraçar o baixo - é outra magnífica interpretação de uns Muse que dominam o palco como poucos.
A união, ou fusão, entre voz e música é impecável e “Explorers” e, especialmente, “Follow Me” levam o ouvinte a estabelecer “óbvias” comparações entre Bellamy e Mercury, sem que nenhum desses protagonistas seja eclipsado. Convém aqui fazer a devida ressalva para a grande forma que Bellamy exibe no que toca ao ato de cantar. O hipnótico “Madness”, cantado em uníssono pela audiência, dá liberdade a Mark para percorrer a passadeira e olhar o público nos olhos antes de pegar na guitarra. Por outro lado, uma audição mais atenta em “Guiding Light” permite ter a certeza da qualidade de som de um instrumento como a bateria, que beneficia das inúmeras vantagens proporcionadas por uma gravação multipistas.
Antes da faixa retirada de “The Resistance”, o mega sucesso “Time is Running Out”, apenas presente na versão DVD, revela o fantástico ambiente vivido na noite de 6 de julho do corrente ano e toda a gente salta ao ritmo de uma das mais emblemáticas canções de “Absolution”. Seguem-se “Supermassive Black Hole” e “Uprising”, fantásticos registos que se assumem ainda mais interessantes que a edição de estúdio pois, ao vivo, os Muse crescem e tornam ainda mais apetecível a sua música.
A honra de fechar este magnífico concerto cabe a “Starlight”, retirada do álbum “Black Holes and Revalations”, e, mais uma vez, é possível ver e sentir a magnitude deste concerto realizado num dos mais fantásticos palcos jamais vistos, que ganha ainda mais brilhantismo com a qualidade ultra HD do registo.
Resumidamente, “Live at Rome Olympic Stadium” é um excelente disco de uma das maiores bandas atuais, ainda que a versão CD merecesse conter mais canções. A interação minimalista de Matt Bellamy junto do público revela uma certa atitude introvertida, mas a entrega do vocalista e restante banda compensa essa lacuna comunicacional, dando ao público aquilo que este mais procura: boa música.
Alinhamento:
CD:
1. "Supremacy"
2. "Panic Station"
3. "Resistance"
4. "Hysteria"
5. "Animals"
6. "Knights of Cydonia"
7. "Explorers"
8. "Follow Me"
9. "Madness"
10. "Guiding Light"
11. "Supermassive Black Hole"
12. "Uprising"
13. "Starlight"
DVD:
1. "Intro"
2. "Supremacy"
3. "Panic Station"
4. "Plug In Baby"
5. "Resistance"
6. "Animals"
7. "Knights of Cydonia"
8. "Explorers"
9. "Hysteria"
10. "Feeling Good"
11. "Follow Me"
12. "Madness"
13. "Time Is Running Out"
14. "Guiding Light"
15. "Undisclosed Desires"
16. "Supermassive Black Hole"
17. "Survival"
18. "The 2nd Law: Isolated System"
19. "Uprising"
20. "Starlight"
Classificação do Palco: 8/10
In Palco Principal
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