quinta-feira, 28 de novembro de 2013

“PARA ONDE VÃO OS GUARDA-CHUVAS”
de AFONSO CRUZ

Era uma vez o equilíbrio notavelmente/absolutamente/absurdamente/infinitivamente/moralmente/esteticamente desequilibrado




Num ano em que editou os infanto-juvenis “O livro do ano” e “Assim, mas sem ser assim”, o exercício teatral de “O cultivo das flores de plástico” bem como mais um tomo da “Enciclopédia da estória universal”, o multidisciplinar Afonso Cruz consegue, finalmente, lançar “Para onde vão os guarda-chuvas” (Alfaguara, 2013), um projeto no qual trabalhava há três anos e que vinha sendo adiado devido à sua complexidade e a outros compromissos que iam surgindo no seu empolgante percurso.

Ao longo de mais de 600 páginas, Afonso Cruz percorre um universo digno de umas peculiares mil e uma noites, que fazem o leitor entrar num Oriente efabulado e apaquistanado onde passado, presente e futuro servem de palco para um cenário que traz a mais profunda das dores, que é a perda de um filho, tendo como inspiração maior um conselho dado por Gandhi a um hindu destroçado por uma idêntica tragédia.

Repleto de surpresas e fortemente alicerçado no poder que a imagem representa enquanto objeto contextual, “Para onde vão os guarda-chuvas” começa com uma História de Natal dedicada a quem não acredita da mítica figura do velho das barbaras brancas e fatiota vermelha e, de uma forma, crua Afonso Cruz relata e ilustra uma outra visão da época natalícia que, ainda assim, recompensa os mais bem-comportados.

Tendo como figura central Fazal Elahi, um “marreco social” dono de uma fábrica de tapetes e que “gostava de ser como as paredes”, “Para onde vão os guarda-chuvas” é como que uma caixa de Pandora repleta de maravilhosas personagens, algumas das quais forçando uma tangente com outras obras do autor.

Numa sociedade onde a (in)tolerância religiosa é condição justificável para tudo, Fazal Elahi partilha uma casa, da qual se viam “as montanhas e o céu”, com a sua irmã de dentes desalinhados, Aminah, cujo sonho é casar com um rapaz de olhos azuis e que lhe dê uns sapatos vermelhos e perfumes estrangeiros. O primo Badini, um dervixe enorme e mudo que fala pelos cotovelos, Bibi, a sua mulher e Salim o seu cabritinho herdeiro, são os outros inquilinos da habitação.

A completar o eclético desfile de personagens surge um mulá dogmático, um general cujas vestes acerejadas tentam esconder intolerâncias e violências várias, hindus que se convertem ao islamismo, solados equivocados, prostitutas com e sem burcas, um anjo da guarda e muitos, muitos outros.

Todos estes ingredientes formam um prato absolutamente encantador, cuja escrita maravilhosamente encantada de Afonso Cruz nos deixa entregues a um dos mais deliciosos livros publicados em Portugal nos últimos anos e que tem, na metafórica visão estratégica de um jogo de xadrez, uma lição de vida, de comportamento e de existência.

Tendo como cenário uma sociedade onde a religião assume contornos de justificação moral para os mais bárbaros atos de violência, as mulheres são um ser menor e o trabalho infantil é uma necessária e bem-vinda banalidade, “Para onde vão os guarda-chuvas” é um livro cheio e que preenche uma obra maior que transcende a mera função romanceada que, através de uma narrativa ímpar, atinge o epicentro da pessoa que o lê. Mais que um livro, estamos perante um alimento para a alma e para os sentidos, características sempre presentes na obra de Afonso Cruz, sem dúvida um dos mais carismáticos e singulares escritores da sua geração e que tem na ponta dos dedos uma arrebatadora noção de humanidade.

Ao longo do livro, para além das muitas imagens cujo objeto central é um tabuleiro de xadrez, Afonso Cruz fez pequenas ilustrações, refugiando-se na sapiência dos fragmentos persas – frases, fruto da eventualidade da escrita de um anónimo do século I que foram enciclopedicamente recolhidas por Téophile Morel – para contextualizar a ação e o pensamento dos personagens.

E como a perda é o sentimento abrangente deste livro, Afonso Cruz deixa um apelo nas últimas páginas, encorajando o leitor a relatar uma perda semelhante ao que sucede a Fazal Elahi. Também a editora quis deixar uma nota especial no final da obra e oferece uma prenda a quem descobrir uma diferente palavra que apenas se pode encontrar em dois dos cinco mil exemplares da primeira edição desta obra.

In Rua de Baixo

THESE NEW PURITANS @ TMN AO VIVO

O LADO OBSCURO DA LUA




Com um considerável culto por terras nacionais e em ano de lançamento do seu terceiro disco de originais, o complexo e de toadas mais clássicas “Field of Reeds”, o agora trio These New Puritans regressou a Portugal e deu um brilhante concerto na aconchegante sala ribeirinha do TMN ao Vivo, que apenas pecou pela escassez de público.

A transformação sonora que a banda dos gémeos Jack e George Barnett e Thomas Hein tem vindo a registar desde do mais punky “Beat Pyramid” revela a constante espiral evolutiva que os britânicos fazem questão de ser sinónimo da sua música. Hoje, num registo onde a presença de instrumentos como uma trompa ou uma trompete confere uma maior solenidade ao seu ambiente, os britânicos These New Puritans têm em “Field of Reeds” uma majoração do seu talento enquanto intérpretes de uma arte que parece sedeada algures num satélite lunar que mistura eletrónica, um certo revivalismo punk e laivos de um neoclassicismo abrasivo.

Ao longo de mais de uma hora, as dezenas de espetadores que se deslocaram até à sala perto do Cais do Sodré vibraram com um alinhamento que teve por base o mais recente disco de originais da banda, que também recorreu a algumas faixas do brilhante “Hidden” para dar outras tonalidades à sua atuação. Curiosamente, ou talvez não, “Beat Pyramid” não marcou presença na noite de ontem.

Os primeiros sons que chegavam do palco, ainda sem todos os elementos da banda presentes, tinham como companheiras ténues luzes brancas que serviam de farol para o mecânico rugir de motores automóveis que aceleravam, a espaços, numa imaginária via rápida. De branca para roxa, a tonalidade sobre o palco era alvo de uma metamorfose que servia de entrada para um labirinto sonoro sinistro, apenas quebrado pelos acordes que saíam do baixo de Jack Barnett, que anunciavam assim “Spiral”, uma das mais densas composições de “Field of Reeds”.

Para além do formato trio, os These New Puritans contam com a companhia da doce e etérea voz da portuguesa Elisa Rodrigues, que lança uma espécie de feitiço sobre a música da banda e, ao entrelaçar-se com o espetro vocal de Jack, inicia um competente diálogo que, em conjunto com clarinete, trompete e piano, dá origem a um melódico e controlado caos sonoro, sublinhado pela eletrónica que resulta dos samples de Hein e dos loops de George.

A solenidade e jogos musicais proporcionados entre a pujante bateria, baixo e samples servem de apresentação a “Fragment Two”, um dos momentos mais saudados pelo público. O silêncio também marca a sua presença e cola sons ao quebrar fronteiras entre “extremos” orgânicos e maquinais. Ao vivo, as composições mais contidas de “Field of Reeds” crescem e a ensimesmada e jazzy “The Light in your Name” parece saída de um conto de fadas assombrado e enche a sala de uma bela melodia noturna que incendeia o jogo vocal entre Elisa e Jack. Piano e bateria engrandecem o negrume e teme-se a presença de Nosferatu na sala.

O primeiro recurso a “Hidden” chegou através da curta “Three Thousand” e, durante cerca de três minutos, a bateria pauta o ambiente e a voz de Jack assinala de forma sublime o ambiente marcial que ecoa na sala. Sons de vidro a quebrar tornam a performance mais teatral e punk. Os momentos seguintes têm o disco de 2010 como origem e o arábico “Attack Music” faz abanar as almas presentes, que se deixam embalar pelo sedutor hipnotismo maquinal que sai do palco. A eletrónica libertada por Hein encontra um porto de abrigo nas vozes de Elisa e Jack, que são abraçadas pela intervenção compassada da bateria.

Aos primeiros acordes da muito solicitada “We Want War”, a sala vibra de forma intensa. Naquele que é um dos exercícios que mais bem define o ADN dos These New Puritans, a faixa retirada de “Hidden” reflete o quebrante musical da banda e permite estabelecer o submundo sonoro habitado pelo trio britânico, que muitas vezes fixa raízes na interpretação minimal de uma escuridão urgente. As várias camadas sonoras de “We Want War” e a entrega dos músicos em palco resultam na maior ovação da noite.

Jack solta um “obrigado” e o concerto prossegue com “Organ Eternal”, mais outra peça de “Field of Reeds” que, aos primeiros acordes, encontra resposta nas palmas do público. Às primeiras notas saídas das teclas eletrónicas do órgão, George alheia-se da bateria e entrega-se aos loops que são ocasionalmente interrompidos pelos uivos samplados por Thomas Hein. Jack canta de forma sussurrada e a ténue cadência vocal é intencionalmente assaltada pelos outros elementos orgânicos em palco.

Esta magia sincopada encontra seguimento em “Field of Reeds”, faixa que dá o nome ao mais recente álbum da banda e que se movimenta entre momentos de puro e tranquilo deleite. Sem o baixo, Jack Barnett assume o microfone por completo e, por momentos, sentimos que estamos a caminhar numa qualquer floresta encantada onde fantasmas dos islandeses Sigur Rós seguem o seu caminho. Do palco, nascem luzes que parecem procurar almas incautas que vagueiam na sombra.

Antes da breve saída de palco, os These New Puritans anunciam “V (Island Song)” ,e ao longo de mais de dez minutos, as vozes misturam-se com a música e o resultado é mais um momento de grande intensidade. Os sons resultam na medida e lugar certos e do aparente caos surge a harmonia. No final, os músicos abandonam à vez o palco, que fica entregue a si próprio, ao som das palmas do público e de um omnipresente feedback.

O regresso, quase imediato, é feito com uma reinterpretação de “We Want War” e o público é presenteado com a brutal entrega dos músicos. O sampler domina o ambiente e, por momentos, sente-se a panfletária herança do manifesto dos suíços The Young Gods, que vão atuar nesta mesma sala no final da próxima semana. O último tema da noite seria um “Orion” em tom operático e brilhante, que se revelou no canto do cisne da brilhante e cativante atuação dos These New Puritans, que se assumem como uma das mais interessantes bandas da atualidade.

Antes do concerto dos These New Puritans o palco esteve entregue à solitária alma de Erica Buettner, uma norte-americana que adotou Portugal como sua casa e tem no registo indie-folk a sua imagem de marca. Num universo próximo de Joan Baez ou Joni Mitchell, Buettner cantou meia dúzia de canções cujo ambiente tranquilo e sedutor soube arrancar merecidas palmas em crescendo junto dos poucos que já se encontravam na sala. Com apenas um álbum editado, de seu nome “True Love and Water”, a simpática e cativante norte-americana tocou canções como “Parisian Clouds”, “Wolf Among Wolfs”, algumas das quais parte do reportório de uma colaboração resultante com o coletivo “The Resident Cards”. Apenas com uma viola como companhia, Erica Buettner deixou água na boca e o seu perfil tímido e intenso merece especial atenção num futuro próximo.

In Palco Principal

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Maria João Lopo de Carvalho em entrevista

«Não sendo eu feminista acredito que a mulher portuguesa é singular e, para mim, o símbolo máximo da resiliência e coragem. Somos metade de Portugal e mães da outra metade»



Com o pretexto do lançamento de “Padeira de Aljubarrota” estivemos à conversa com Maria João Lopo de Carvalho, ficando a conhecer um pouco do esquema de trabalho da autora, as suas fontes de inspiração e mestres, assim como o porquê de fazer um livro que se assume como um exercício metafórico sobre um Portugal que faz das fraquezas forças e encontra heróis improváveis que se superaram a si mesmos.

Em “A Marquesa de Alorna” explorou a vida de uma mulher rebelde e fez um elogio à liberdade e ao amor que sente por Portugal. Em a “Padeira de Aljubarrota”, a esse amor à pátria junta uma noção metafórica de resistência e coragem. Serão estes dois romances uma reflexão muito própria sobre o Portugal recente?

Os meus livros refletem sobretudo um eco do amor a Portugal por parte dos portugueses. É uma voz intemporal que cruza a sociedade de ontem e de hoje baseada na esperança de que «amanhã» haja também esta mesma resiliência e capacidade de lutar pelo país com a habitual coragem de uma nação que se diz «valente e imortal».

Explora a lenda da Padeira e os acontecimentos de 1385 de uma forma bastante pertinente e apaixonada. Quais foram as maiores fontes de inspiração para fazer um romance como a “Padeira de Aljubarrota”?

Antes e primeiro que tudo o meu amor a Portugal e à nossa Historia. Depois, o meu mestre: Fernão Lopes; e a minha maior luz: Nuno Alvares Pereira.

No livro cruza as vidas de D. Beatriz de Portugal, rainha-infanta, e Brites de Almeida, uma das maiores lendas nacionais. Se de um lado temos a “causadora” da Batalha de Aljubarrota, do outro está a maior heroína do conflito. Como foi trabalhar esses intrincados extremos?

Sempre desconfio da História quando é contada a uma só voz. Na batalha de Aljubarrota havia os dois lados da «moeda» Ao descobrir Beatriz de Portugal tive de fazer um exercício para não me deixar ir atrás dos acontecimentos, mas sim de analisar as causas da batalha de Aljubarrota, Atoleiros e Valverde pelo lado de Castela. Quem tinha razão? Haveria uma só «razão?» Estaria certa a causa de Beatriz, símbolo da nobreza e dos filhos primeiros? Ou de Brites, metáfora do povo e dos filhos segundos que estavam pelo mestre de Avis. Penso que não há, na crise de 1383-85, uma só versão da História. Há sim as várias «estórias» da histórias que ajudarão o leitor a tomar um ou outro partido. E isso é que pode ser mais interessante neste livro.

Este livro resulta num elogio ao género feminino. Sente que a mulher portuguesa tem dentro de si “uma costela” de Brites de Almeida?

Sinto e mais: tenho a certeza. Não sendo eu feminista acredito que a mulher portuguesa é singular e para mim o símbolo máximo da resiliência e coragem. Somos metade de Portugal e mães da outra metade.

Os seus romances históricos são muito ricos em pormenores e patenteiam a noção de uma forte investigação. Por norma, como realiza o processo e quanto tempo demora a preparar uma obra deste género?

Nada nesta vida se faz sem trabalho. Neste caso seria impossível deitar mãos à obra sem muito estudo e investigação. Passo pelo menos seis meses só a ler, a estudar e a investigar. Como costumo dizer, preciso de viajar 600 anos para trás e deixar-me lá ficar. Só quando tenho a época em questão como presente do indicativo, é que ouso começar a escrever. Depois são outros seis, sete meses isolada do mundo. Dias e dias inteiros a escrever, a corrigir a verificar fontes e a pintar o «quadro»!

De certa forma, o resultado dos acontecimentos ocorridos no final do século XIV foram um forte incentivo para Portugal começar a investir nos Descobrimentos e a formar um forte império. Tendo em conta a conjuntura atual, que tipo de “abanão” deveria Portugal sentir para dar a volta por cima?

Esta crise de austeridade que vivemos já é um forte abalo para não voltarmos a cometer os erros do passado. Temos de aprender todos a viver de outra forma e lá está, tal como no século XIV, a não desprezarmos a nosso força interior e a nossa capacidade de nos lançarmos a novos desafios. Ontem desvendamos o mar e conquistamos o mundo; hoje o incentivo é precisamente esse: superarmo-nos a nós próprios e conquistarmos o futuro.

Tem perto de 50 obras publicadas. Da literatura infantil aos títulos históricos, passando pelo romance ou a elaboração de manuais escolares, a Maria João Lopo de Carvalho é uma referência da literatura nacional. Dos géneros que referimos qual lhe dá mais prazer?

Completam-se. São desafios diferentes. Não posso dizer que me dá menos gozo ir buscar-me a mim própria aos doze anos e escrever de acordo com essa voz interior que ainda cá mora; como também não posso deixar de sentir um enorme gosto em tornar simples uma história complexa e com ela levar os leitores a refletirem sobre o nosso passado coletivo. Ao fim ao cabo, sou apenas uma cantadora de histórias. E é esse o meu maior prazer!

O que podemos esperar de Maria João Lopo de Carvalho no futuro próximo? Mais incursões históricas, aventuras no espetro infanto-juvenil, um romance…?

Tudo se conjuga. Para já o que posso dizer é que a ultima palavra deste romance «Padeira de Aljubarrota» é «mar».Talvez seja um presságio do futuro…

In Rua de Baixo

“Padeira de Aljubarrota”
de Maria João Lopo de Carvalho

Elogio metafórico à mulher portuguesa



Maria João Lopo de Carvalho, uma das mais ativas e preponderantes vozes portuguesas do mercado livreiro nacional, tem cerca de meia centena de obras publicadas, entre títulos infantojuvenis, manuais escolares, romances e obras de cariz histórico.

Depois do sucesso com “A Marquesa de Alorna”, a autora natural de Lisboa volta aos grandes romances históricos com “Padeira de Aljubarrota” (Oficina do Livro, 2013), um livro que aborda, de diferentes perspetivas, a lenda da famosa Brites de Almeida, mulher de armas e uma das grandes referências no que toca à estoicidade e resistência nacional face às adversidades.

De uma extraordinária riqueza no que toca aos pormenores, “Padeira de Aljubarrota” é um grito de revolta contra as crises várias e intemporais, fazendo da coragem e determinação no feminino a melhor das metáforas contra o período atual do Portugal de hoje, alvo de assinalável crise e vítima da desesperança coletiva.

No centro desta muito interessante e cativante narrativa está Brites de Almeida que, envolta de um ímpar fôlego patriótico, enfrenta as intrigas resultantes da política da rainha-infanta D. Beatriz de Portugal, uma forte aliada de Castela.

Mas não apenas de espírito guerreiro vive este livro. Lopo de Carvalho dá-nos uma visão mais feminina e deliciosamente sedutora de uma mulher que tinha consigo outras armas para levar de vencidas batalhas no campo dos sentimentos.

Dividido em quatro partes, “Padeira de Aljubarrota” denota influências dos estudos do mestre Fernão Lopes e, através de um confronto de Beatrizes, leva-nos de volta aos primeiros passos da afirmação e extensão da noção de portugalidade, que tem marcada nas suas raízes feitos – lendários ou não – de personalidades que ajudaram à atual definição patriótica.

De forma a colorir ainda mais esta cativante estória, as páginas centrais de “Padeira de Aljubarrota” mostram algumas imagens que retratam a narrativa que Maria João Lopo de Carvalho oferece ao longo das mais de 500 páginas deste romance, onde a intriga, a ação, a coragem e a resiliência de um povo estão gravadas a fundo no perfil da conhecida padeira que tinha seis dedos em cada mão.

In Rua de Baixo

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Scott Matthew
“Unlearned”

Direto ao coração



Ainda com os ecos do fantástico concerto que o australiano Scott Matthew deu no Pequeno Auditório do CCB no passado dia 14, integrado no cartaz da edição 2013 do Misty Fest, bem presentes, cabe agora fazer uma análise a “Unlearned”, a obra que serve de inspiração maior para a recente digressão do autor de álbuns como “There Is an Ocean That Divides and with My Longing I Can Charge It with a Voltage That's So Violent to Cross It Could Mean Death”.

Sendo um álbum de versões, “Unlearned” é muito, mas muito, mais do que isso. Matthew escolheu 14 canções que refletem a sua vida em determinadas fases. Estas canções, revistas e transvestidas, são fragmentos de um homem simples, sincero, talentoso e dono de uma das mais marcantes vozes da atualidade.

Eclético, Matthew, recorda clássicos de gente como os Bee Gees, Neil Young, Jesus & the Mary Chain, Radiohead, Joy Divison ou Whitney Houston. O registo acústico é o ambiente que envolve “Unlearned”, um disco feito com um deslumbrante carinho e que levou Scott a convidar Jurgen Stark para a guitarra, M Eugene Lemcio para as teclas, Clara Kennedy para o violoncelo e Celina da Piedade para o acordeão. Neil Hannon teve ainda o privilégio de cantar em “Smile”, um lindíssimo tema original de Charlie Chaplin, e Ian Matthew abrilhantou a versão de “Help me Make it Throught the Night”, uma balada da autoria de Kris Kristofferson que já foi também alvo de uma versão de Elvis Presley.

Sendo, na essência, um dos discos mais bonitos editados neste ano que se aproxima do fim, “Unlearned” revela a sensibilidade de um dos artistas mais especiais das últimas décadas. Scott Matthew consegue mesmo fazer-nos sentir que estamos perante composições em nome próprio, tal foi a intensidade e dedicação com que as levou para estúdio e, mais recentemente, para os palcos. Desde os primeiros momentos de “To Love Somebody” até aos últimos acordes de “Annie’s Song”, passando pela versão de “Love Will Tear Us Appart”, é impossível não sentir coração e alma a derreterem com a voz quente de Matthew, e os arranjos minimalistas e maravilhosamente assertivos que transformam as canções originais em pedaços da mais pura filigrana musical.

Logo no início do disco, a transformação do hit baladeiro dos Bee Gees “To Love Somebody”, ainda sem o registo em falsete, numa profunda composição solene onde as teclas e a cordas tímidas acompanham na perfeição a voz de Matthew, é uma excelente amostra do que podemos esperar de “Unleraned”. Sem qualquer tipo de urgência e de uma forma tranquila e doce, é possível sentir a transformação de uma descontraída composição como o é “I Wanna Dance With Somebody” numa canção completamente apaixonada e febril.

Existe também uma grande dose de coragem ao fazer-se versões de canções maiores que a própria vida, como o são “There's a Place in Hell for me and my Friends”, de Morrisey, ou, acima de tudo, “Love Will Tear Us Appart”, saída do génio de Ian Curtis, ou “Harvest Moon”, esta última tida, com uma boa dose de ironia, pelo cantor australiano como melhor que o original de Neil Young.

Em “Smile”, uma arrebatadora versão de um original de Charlie Chaplin, é impossível não sentir uma forte pontada no coração ao ouvir as cordas do ukelele de Matthew serem trespassadas pelas gargantas do vocalista dos Divine Comedy que, a meio da viagem, partilha o seu lugar com a poesia que brota da garganta angelical de Scott Matthew. Também fabulosas são as novas abordagens de “Jesse” e “Total Control”, canções que têm a sua génese nos trabalhos de Robert Flak ou no dos The Motels, de Jeff Jourard.

“Unlearned” é um disco que irradia sensibilidade e é vivamente aconselhável, senão imperdível, para quem sente a música de uma forma especial, como a banda sonora de uma vida inteira. Peça musical invulgar, este trabalho de Scott Matthew denota a extraordinária e bela melancolia que aponta em direto ao coração e tem no silêncio um poderoso aliado.

Alinhamento:

01 To Love Somebody
02 I Wanna Dance With Somebody
03 Darklands
04 Jesse
05 Smile com Neil Hannon
06 Help Me Make It Through The Night com Ian Matthew
07 No Surprises
08 L.O.V.E
09 Love Will Tear Us Apart
10 There`s A Place In Hell For Me And My Friends
11 Harvest Moon
12 I Don`t Want To Talk About It
13 Total Control
14 Annie`s Song

Classificação do Palco: 9/10

In Palco Principal

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

The Killers
“Direct Hits”

Bom prato, mas requentado



A proximidade com a época natalícia funciona como um motor propulsor no que às edições discográficas diz respeito, com particular incidência nos familiarizados “Best Of”. Quando tal acontece, estamos, vulgarmente, perante uma de três situações: o disco deriva de uma imposição contratual por parte da editora; a banda revela problemas criativos e o seu fim está, eventualmente, próximo; fecha-se um ciclo. No caso de um banda como os norte-americanos The Killers, que contam com uma década de existência e “apenas” quatro álbuns de originais, a edição de “Direct Hits” enquadra-se na primeira opção, como os próprios confirmaram recentemente.

Os mais de vinte milhões de discos vendidos até hoje tornam a banda natural de Nevada, Las Vegas, que tem na figura do seu vocalista, Brandon Flowers, o seu maior ícone, como uma importante referência nestas coisas da música. Em 2004 editaram “Hot Fuss”, o seu mais bem-sucedido trabalho em termos comerciais, e lograram subir aos lugares cimeiros dos tops mundiais através de um som que bebia influências no rock mais alternativo, assim como num revivalismo punk e new wave. Em entrevistas, aquando do lançamento do seu primeiro disco de originais, os próprios The Killers afirmavam que tinham muito carinho pelo trabalho de bandas como os New Order, The Cure, The Smiths, The Cars, Duran Duran, David Bowie ou Bruce Springsteen, sendo que estes nomes eram as suas maiores e assumidas influências.

De forma mais ou menos clara ou evidente, “Hot Fuss” e depois “Sam’s Town” - para muitos o mais sagaz trabalho do coletivo – traziam no seu som pedaços das referidas influências e, no caso do álbum de 2006, nota-se um crescimento musical assinalável, onde os ecos da obra de Bruce Springsteen eram notórios e muito bem-vindos. Os The Killers cresciam, davam muitos concertos, recebiam prémios e afirmavam-se junto de um público indie, mas nunca perdendo de vista o universo mais mainstream. Essa “metamorfose” seria completada nos passos seguintes, sendo “Day & Age” e “Battle Born” registos que situavam Flowers e companheiros em universos mais rock, por vezes muito dançáveis, outras mais contidos, mas manifestamente diferentes dos primeiros tempos.

E eis que surge “Direct Hits”. Muitos perguntam a pertinência da edição, outros ficam deliciados por verem compilados alguns dos temas mais emblemáticos da banda. Sim, hoje facilmente podemos fazer as nossas próprias “compilações”, graças a ferramentas como o itunes e similares, mas um registo em versão discutível de “o melhor de…” pode ser um objeto auditivo pertinente. Ainda que na construção do mesmo possa residir a grande fatia do seu sucesso e, talvez nesse aspeto, “Direct Hits” possa estar aquém do pretendido. Falamos em concreto da discutível organização cronológica da apresentação de “Direct Hits”, que revela uma preguiça de ideias, tanto na edição normal desta compilação, como na versão deluxe, que conta com mais três temas.

O disco começa com quatro belas canções de “Hot Fuss”. São elas: “Mr Brightside”, talvez o maior hino da banda, “Somebody Told Me”, “Smile Like you Meant” e “All These Things that I’ve Done”. O glamour indie disco do primeiro registo de originais dos The Killers é absolutamente irresistível e ficam na cabeça sons e frases como “I’ve got soul, but i’m not a soldier”.

Depois, é a vez de “Sam’s Town” brilhar, mais maduro e com uma escrita perto do registo de mestres como Bruce Springsteen ou Tom Petty, onde o rock and roll desponta com sobriedade. Houve quem afirmasse que este disco estava entre os melhores das últimas décadas. Exagero ou devoção desmedida, as reações ao álbum datado de 2006 transformaram os The Killers numa das maiores bandas do planeta rock. “Direct Hits” regista três momentos desse disco. “When you Were Young” e “Read My Mind” fazem como que a ponte entre sons indie e toadas associadas à América, e apontavam o futuro sonoro de Flowers e comparsas. Ainda que muito subjetivo, estranha-se, ou não, a opção de colocar no alinhamento “For Reasons Unknow” e deixar de fora a fantástica “Bones”.

Já em territórios assumidamente rock e em diálogo permanente com a grandiosidade dos grandes estádios e arenas onde os The Killers exibiram os seus “sucessos diretos”, “Day & Age” dá três músicas a esta compilação. “Human” é uma faixa coberta de uma tensão dançável, alimentada pelas teclas de um sintetizador omnipresente, mas que fica uns furos a baixo da intensidade de “Spaceman”, talvez a composição maior da banda nesta fase. Num registo mais intimista “A Dustland Fairytale” é um exercício que aponta para o exorcismo de sonhos perdidos.

Na ressaca de uma mega digressão que ocorreu a propósito de “Day & Age”, a banda fez uma longa pausa e tal hiato terminaria com a edição de “Battle Born”, lançado em 2012, um disco que foi sinónimo de um “retrocesso sonoro”, onde as guitarras assumiam maior protagonismo. “Runaways” é um exemplo disso e faz um passeio até aos recantos da memória dos anos 1980. “Miss Atomic Bomb” e “The Way t Is” continuam esse caminho e misturam ecos sintéticos com cordas que se soltam, transformando-se em paisagens, com a América sempre em mente, desculpando-se até a heresia de uma certa aproximação a gente como Meat Loaf.

Mas “Direct Hits” apresenta também duas e interessantes novidades. Se o synthpop de “Shot at the Night” é o reflexo do trabalho da banda com Antony Gonzalez, membro dos franceses M83, “Just Another Girl” é um regresso aos tempos de “Day & Age”, pois os The Killers voltam a trabalhar com o produtor Staurt Price.

Resumindo, ou talvez não, “Direct Hits” é um trabalho algo passivo e preguiçoso, mas tem excelentes canções que, de certa forma, retratam a evolução sonora dos The Killers. Fazer uma compilação com apenas quatro álbuns editados pode parecer estranho, mas a sua pertinência será mais bem analisada daqui a uns tempos, de preferência, esperemos, depois da edição de novos trabalhos. Até lá, “Direct Hits” é um disco envolto de fantasmas do passado, com uma leve esperança face ao futuro. Mas que dá vontade de ouvir, dá!

Alinhamento:

01.Mr Brightside
02.Somebody Told Me
03.Smile Like You Mean It
04.All These Things That I’ve Done
05.When You Were Young
06.Read My Mind
07.For Reasons Unknown
08.Human
09.Spaceman
10.A Dustland Fairytale
11.Runaways
12.Miss Atomic Bomb
13.The Way It Was
14.Shot At The Night
15.Just Another Girl

Classificação do Palco: 7/10

In Palco Principal

terça-feira, 19 de novembro de 2013

“A VIDA DE ADÈLE – CAPÍTULOS 1 E 2”
de Abdellatif Kechiche

Azul, a cor do desejo



Grande vencedor do mais recente Festival de Cannes, onde pela primeira vez os júris premiaram duas atrizes em simultâneo, “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” é um poderoso tour de force que assenta as suas forças e conteúdos nas deslumbrantes atuações das galardoadas Adèle Exarchopolus e Léa Seydoux e faz o realizador Abdellatif Kechiche regressar a temas como o amor e as difíceis dores do crescimento.

Baseado na novela gráfica de Julie Maroh, “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2”, que fez parte do cartaz do Lisbon & Estoril Film Festival 2013, conta a conturbada predestinação de uma adolescente que se sente “atraiçoada” pela sua sexualidade mas que, de início, luta contra o facto de forma a integrar-se numa pequena comunidade proletária e conservadora.

Os primeiros minutos do filme levam o realizador tunisino, que ficou conhecido pela direção de filmes como “Vénus Negra” ou “A Culpa de Voltaire”, a mostrar banais cenas do quotidiano da vida de Adèle enquanto estudante ou no conforto do lar. Os planos aproximados e a oscilação programada da câmara de Kechiche revelam pormenores mas ao mesmo tempo assume-se como um espelho bipolar que isola ou interioriza o personagem.

O contexto “escolar” permite também a exploração dos dramas da vida de adolescente. O flirt induzido por uma certa pressão do núcleo de colegas mais próximos de Adèle leva-a a envolver-se, com Thomas, um estudante local, mas tal fugaz relação apenas vai deixar a jovem mais confusa. Refugiada em si mesma e na procura de construir o complicado puzzle emocional do ato de crescer aceita um convite de Valentin, um amigo homossexual, e ao visitar um bar gay sente que o amor não tem sexo.



As dúvidas, ou certezas, aumentam na mente de Adèle quando vê na rua uma jovem de cabelo pintado de azul. Instintivamente, Adèle sente que dentro de si algo nasceu sente que está possuída por algo maior que ela quando (re)encontra Emma num bar de lésbicas.

Estas são algumas das linhas com que Abdellatif Kechiche faz evoluir a sua nova obra que tem o condão de deixar o espetador envolvido – e por vezes incomodado face aos limites que a câmara impõe – frente ao écran durante cerca de três horas absorvendo um intenso drama que capta a fundo a essência do ser humano e traça um fortíssimo retrato do amor, do sexo e das relações interpessoais.

Entre Adèle, uma jovem pragmática e Emma, uma estudante de Belas-Artes sonhadora, explode um sentimento irracional que explora e tende a derrubar fronteiras emocionais e físicas. Se por um lado Kechiche mostra alguém sem grande experiência de vida que apenas conhece a paixão através dos livros, do outro está uma mulher mais velha, desinibida e consciente. No fundo estamos perante antíteses, mulheres que apenas têm no amor que sentem pela outra a maior das afinidades.

Ao longo de todo o filme, mas principalmente na fase de conhecimento entre as personagens principais, o realizador tunisino serve-se de um inteligente jogo metafórico que traz à tona de forma vincada as diferenças entre Adèle e Emma. As ostras por oposição à bolonhesa, é um desses exemplos que dão origem a uma linha de pensamento que desagua na sexualidade muita exposta deste filme.



Tal como já tinha explorado em “A Esquiva”, Kechiche traz à tona a obra de Marivaux e “A Vida de Marianne” serve para contextualizar, na primeira fase do filme, as ações dos personagens mas face à maravilhosa interpretação da ainda pouco experiente Exarchopoulos pouco mais existe a dizer senão que é um dos mais intensos papéis que assistimos nos últimos tempos.

A exposição que a jovem parisiense de 19 anos está sujeita neste filme confere-lhe uma estonteante presença e não seriam muitas atrizes que conseguiriam aguentar a intensa e explosiva cena de sexo – ou paixão? – que protagoniza com Seydoux e que leva os presentes na sala de cinema a testarem a sua capacidade de resistência e saturação face a tão íntimas imagens. A matemática cinematográfica de Kechiche atinge o seu auge numa sucessão de grandes planos dos corpos das jovens que chega a roçar na exploração do ato do desejo mas que consegue, a esforço mas com distinção diga-se, situar-se nos limites do suportável. Mais que uma cena de sexo explícito, Adèle e Emma amam-se de forma absolutamente verdadeira, quente e apaixonada através de uma orgânica luxuriante.

A forma como que este filme trata a questão da traição e do arrependimento revela um sentimento urgente face às diferentes fases de um relacionamento que pode estar intrinsecamente associado a cenários meramente obsessivos. Uma discussão pode levar a uma rutura e ao espetador reserva-se o papel de rever os minutos passados e o que o futuro ainda pode oferecer. As personagens de “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” crescem, recuam, avançam e implodem. São alvo de uma (re)construção assente em camadas de fragilidade e solidão.

Depois da uma idade de inocência sentimos de fato que o azul é a cor da paixão mas também da desilusão e perda pois a linguagem cinematográfica de “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” é o reconhecimento que o cinema pode ser um reflexo complexo da realidade.

In Rua de Baixo