terça-feira, 19 de novembro de 2013

“A VIDA DE ADÈLE – CAPÍTULOS 1 E 2”
de Abdellatif Kechiche

Azul, a cor do desejo



Grande vencedor do mais recente Festival de Cannes, onde pela primeira vez os júris premiaram duas atrizes em simultâneo, “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” é um poderoso tour de force que assenta as suas forças e conteúdos nas deslumbrantes atuações das galardoadas Adèle Exarchopolus e Léa Seydoux e faz o realizador Abdellatif Kechiche regressar a temas como o amor e as difíceis dores do crescimento.

Baseado na novela gráfica de Julie Maroh, “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2”, que fez parte do cartaz do Lisbon & Estoril Film Festival 2013, conta a conturbada predestinação de uma adolescente que se sente “atraiçoada” pela sua sexualidade mas que, de início, luta contra o facto de forma a integrar-se numa pequena comunidade proletária e conservadora.

Os primeiros minutos do filme levam o realizador tunisino, que ficou conhecido pela direção de filmes como “Vénus Negra” ou “A Culpa de Voltaire”, a mostrar banais cenas do quotidiano da vida de Adèle enquanto estudante ou no conforto do lar. Os planos aproximados e a oscilação programada da câmara de Kechiche revelam pormenores mas ao mesmo tempo assume-se como um espelho bipolar que isola ou interioriza o personagem.

O contexto “escolar” permite também a exploração dos dramas da vida de adolescente. O flirt induzido por uma certa pressão do núcleo de colegas mais próximos de Adèle leva-a a envolver-se, com Thomas, um estudante local, mas tal fugaz relação apenas vai deixar a jovem mais confusa. Refugiada em si mesma e na procura de construir o complicado puzzle emocional do ato de crescer aceita um convite de Valentin, um amigo homossexual, e ao visitar um bar gay sente que o amor não tem sexo.



As dúvidas, ou certezas, aumentam na mente de Adèle quando vê na rua uma jovem de cabelo pintado de azul. Instintivamente, Adèle sente que dentro de si algo nasceu sente que está possuída por algo maior que ela quando (re)encontra Emma num bar de lésbicas.

Estas são algumas das linhas com que Abdellatif Kechiche faz evoluir a sua nova obra que tem o condão de deixar o espetador envolvido – e por vezes incomodado face aos limites que a câmara impõe – frente ao écran durante cerca de três horas absorvendo um intenso drama que capta a fundo a essência do ser humano e traça um fortíssimo retrato do amor, do sexo e das relações interpessoais.

Entre Adèle, uma jovem pragmática e Emma, uma estudante de Belas-Artes sonhadora, explode um sentimento irracional que explora e tende a derrubar fronteiras emocionais e físicas. Se por um lado Kechiche mostra alguém sem grande experiência de vida que apenas conhece a paixão através dos livros, do outro está uma mulher mais velha, desinibida e consciente. No fundo estamos perante antíteses, mulheres que apenas têm no amor que sentem pela outra a maior das afinidades.

Ao longo de todo o filme, mas principalmente na fase de conhecimento entre as personagens principais, o realizador tunisino serve-se de um inteligente jogo metafórico que traz à tona de forma vincada as diferenças entre Adèle e Emma. As ostras por oposição à bolonhesa, é um desses exemplos que dão origem a uma linha de pensamento que desagua na sexualidade muita exposta deste filme.



Tal como já tinha explorado em “A Esquiva”, Kechiche traz à tona a obra de Marivaux e “A Vida de Marianne” serve para contextualizar, na primeira fase do filme, as ações dos personagens mas face à maravilhosa interpretação da ainda pouco experiente Exarchopoulos pouco mais existe a dizer senão que é um dos mais intensos papéis que assistimos nos últimos tempos.

A exposição que a jovem parisiense de 19 anos está sujeita neste filme confere-lhe uma estonteante presença e não seriam muitas atrizes que conseguiriam aguentar a intensa e explosiva cena de sexo – ou paixão? – que protagoniza com Seydoux e que leva os presentes na sala de cinema a testarem a sua capacidade de resistência e saturação face a tão íntimas imagens. A matemática cinematográfica de Kechiche atinge o seu auge numa sucessão de grandes planos dos corpos das jovens que chega a roçar na exploração do ato do desejo mas que consegue, a esforço mas com distinção diga-se, situar-se nos limites do suportável. Mais que uma cena de sexo explícito, Adèle e Emma amam-se de forma absolutamente verdadeira, quente e apaixonada através de uma orgânica luxuriante.

A forma como que este filme trata a questão da traição e do arrependimento revela um sentimento urgente face às diferentes fases de um relacionamento que pode estar intrinsecamente associado a cenários meramente obsessivos. Uma discussão pode levar a uma rutura e ao espetador reserva-se o papel de rever os minutos passados e o que o futuro ainda pode oferecer. As personagens de “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” crescem, recuam, avançam e implodem. São alvo de uma (re)construção assente em camadas de fragilidade e solidão.

Depois da uma idade de inocência sentimos de fato que o azul é a cor da paixão mas também da desilusão e perda pois a linguagem cinematográfica de “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” é o reconhecimento que o cinema pode ser um reflexo complexo da realidade.

In Rua de Baixo

“UMA CANÇÃO DE EMBALAR”
de MARY HIGGINS CLARK

O Regresso da Rainha do Suspense



Com mais de 150 milhões de livros vendidos um pouco por todo o planeta, Mary Higgins Clark é uma das mais profícuas autoras dentro da chamada literatura de suspense, tendo já sido alvo de vários tipos de reconhecimento pela sua obra sendo, a eleição para o Grand Master of Edgar Award de 2000, por parte da Mystery Writers of America – entidade que presidiu posteriormente -, uma das maiores provas da sua intrínseca qualidade.

A dedicação à literatura surgiu depois de contrair matrimónio, pois chegou a trabalhar como secretária e hospedeira, ocupações que a autora norte-americana de livros como “Onde Estão as Crianças” e “Lar Doce Lar”, afirmou já, em algumas entrevistas, terem sido experiências importantes no que toca ao seu crescimento enquanto escritora.

Aos 83 anos a autora continua em grande forma e, a recente edição de “Uma Canção de Embalar” (Bertrand Editora, 2013) traz mais uma vez a inegável mestria de Mary Higgins Clark. O livro narra um obscuro segredo no seio familiar das irmãs Connelly, depois da empresa de mobiliário da família das mesmas ter sucumbido num terrível incêndio ocorrido misteriosamente a meio de uma noite calma de Long Island City.

A família Connelly não quer acreditar que a desgraça tenha assim batido à porta e depara-se com os edifícios, orgulhosamente erigidos pelo avô de Kate e Hannah – e fundador da Connelly Fine Antique Reproductions – transformados em cinzas. A tragédia maior está porém relacionada com o estimado museu, perdido para sempre, significando a perda de algumas antiguidades de valor incalculável que se encontravam em mostra permanente há inúmeros anos.

Para lá deste cenário dantesco, o rescaldo do incêndio trouxe à tona um achado surpreendente que levanta várias questões, sendo que a possibilidade de este acidente não ter sido obra do acaso ganha consistência. Crescem as dúvidas e surgem perguntas: Terá sido a presença de Kate no museu aquando do incêndio uma mera coincidência? Porque estaria ela acompanhada por Gus Schmidt, um artesão reformado e insatisfeito, nessa madrugada? Onde estará a verdade?

A investigação revela-se mais complicada pois Gus morreu e Kate está no hospital em coma e nenhum dos dois pode revelar o que os teria levado ao local do crime, e se o mesmo poderá estar eventualmente relacionado com o misterioso desaparecimento ocorrido há alguns anos de uma jovem. Estará alguém por detrás de todos estes acontecimentos? Alguém capaz de tudo para se salvar?

Os dados estão lançados e, numa corrida contra o tempo, Mary Higgins Clark tece um fantástico enredo repleto de suspense, ação, sobressaltos e interessantes personagens, assente numa escrita dinâmica que deixará o leitor definitivamente agarrado a “Uma Canção de Embalar” até devorar as mais de trezentas páginas deste livro.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

“Tearaway”
PS Vita

Num colorido mundo de papel



Uma das melhores formas de apresentar um jogo de consola é ter acesso ao trailer que faz a promoção do mesmo ainda que por vezes tal possa induzir em erro. Quem não se lembra de ver um desses vídeos de divulgação e depois sentir-se ultrajado pois o resultado final está aquém das expetativas?

Contudo essa frustração não faz parte do atraente mundo que compõe Tearaway, um dos mais interessantes jogos que o universo Vita ultimamente revelou. Se à primeira vista este novo jogo da Media Molecule – e que conta com a magia dos desenhos de Rex Crowle – se “assemelhava” a Little Big Planet, depois de alguns minutos de teste verificamos um charme, estilo gráfico e visual muito particular que tem nas virtudes do écran traseiro e da câmara frontal alguns dos seus trunfos.

Aventura jogada na terceira pessoa, Tearaway tem como figuras centrais duas personagens sendo Iota a versão masculina e Atoi a feminina. Ambas assumem a função de mensageiros e elevam sobremaneira a noção de interatividade que as funcionalidades da PS Vita permite.

Mas vamos por partes. Logo nos primeiros instantes do jogo somos convidados a assumir o papel de um “Tu” e temos honras de transportar a nossa cara no écran da Vita com a ajuda da câmara. Depois disso surgem questões pertinentes: qual o tamanho das nossas mãos? O tom de pele, género. Vamos entrar num mundo de lendas e tradição que precisa da nossa ajuda de forma a dar vida a um novo conto. E agitar é preciso, a consola claro, pois urge unir dois mundos onde o Sol tem um papel muito importante.

E, de repente, a mensagem torna-se o mensageiro e os perigos surgem na forma de Retalhos, incómodas criaturas que são eliminadas com a ajuda dos nossos dedos pois o écran tátil traseiro serve de porta de entrada para este delicioso mundo de papel. Salvar o Sol entretanto amaldiçoado é o objetivo e ao jogador é possível encarnar o mesmo pois o seu rosto incide no centro do astro-rei em tempo real.



Vencida a primeira batalha, somos convidados a dirigir-nos para o Sol e pelo caminho encontramos um fantástico mundo de origami que revela monstros, personagens que nos indicam o caminho e a vitória a cada nível é coroada com uma chuva de confetti. Em algumas situações o jogador é confrontado com obstáculos e plataformas que são ultrapassados, mais uma vez, com a ajuda dos dedos sendo que o écran traseiro pode, por vezes, servir de apetecível trampolim. Noutras situações o nosso personagem é levado a apanhar Retalhos e a atirá-los contra partes do cenário que revelam surpresas no seu interior.

A interatividade é constante e à medida que o jogo evolui o nosso Iota, ou Atoi, podem ser transformados ou enriquecidos. Ao ganhar pontos através da recolha de alguns pedaços coloridos de papel torna-se real personalizar o nosso mensageiro oferecendo-lhe olhos diferentes ou outros artefactos. Noutros casos somos convidados a colocar adereços em personagens e não se espante se tiver de coroar um esquilo. Ah, e quem faz, desenha e corta a coroa somos nós. Depois, se desejar partilhar tais objetos, pode fazê-lo no modo online.

A jogabilidade de Tearaway é bastante simples e intuitiva e o prazer de permanecer no meio de criaturas multicoloridas de papel é contagiante. O controlo do personagem é feito através dos comandos direcionais e, como já referimos, os dedos estão em permanente contacto com o painel traseiro.

Os gráficos de Tearaway são visualmente competentes e atraentes e por vezes imaginamos estar perante um constante stop motion vídeo ainda que de traços abstratos. No fundo, é como estar no sonho de papel onde a magia permite transformar o inimaginável em real. Para completar esta onírica ideia deixa-mos também uma palavra de apreço em relação à “música” que dá vida a este jogo e que quebra o aprazível e constante chilrear ambiente.

Uma clara aposta ganha por parte da Media Molecule, Tearaway assume-se como mais uma inovadora ideia num universo que, por vezes, opta pela cópia de um conceito em vez de seguir o caminho da novidade e criatividade. Quando essas ideias juntam-se às potencialidades da PS VITA cria-se algo de especial e único.

In Rua de Baixo

“Regresso ao Suez”
de Stevie Davies

As várias perspetivas de um conflito emocional



Naquela que é a estreia literária da galesa Stevie Davies por terras nacionais, “Regresso ao Suez” (Civilização Editora, 2013) revela-se um extraordinário romance que faz o somatório entre a experiência pessoal e um universo político muito próprio que tem, como base, um rol de personagens realistas e credíveis, assim como uma estória a todos os níveis coerente e que joga habilmente com uma intrincada linha cronológica de ritmo próprio.

Entretanto nomeada para importantes prémios internacionais como o Booker e o Orange, Davies, que acumula à paixão da escrita as atividades de historiadora, crítica literária e biógrafa, goza de um estatuto “clandestino” no universo literário, ainda que tenha já editado mais de uma dezena de livros e sejam sobejamente conhecidas as suas participações em ações de protesto contra o governo britânico.

Foi numa dessas manifestações, aquando das ações de rua contra a participação do Reino Unido no conflito do Iraque em 2003, que nasceu a ideia deste livro. Ainda que em parte desfasada na conjuntura e nos propósitos com a mais recente guerra no Iraque, Davies relembrou a crise no Suez na década de 1950, assim como a intervenção dos representantes governamentais britânicos aquando desse período crítico, começando assim a formar-se a ideia de escrever “Regresso ao Suez”.

Através de um romance sinónimo de profundo drama humano e político, somos levados ao período pós-guerra quando a Grã-Bretanha tentava assumir-se como potência mundial depois de acabar a Segunda Guerra financeiramente delapidada. A trama desta obra transporta o leitor para uma época imediatamente anterior à apelidada Crise do Suez, que acabou por “inspirar” o modelo das futuras invasões do Iraque ao Afeganistão.

Nesta emocionante e trágica estória, Stevie Davies apresenta-nos vários e atraentes personagens. Um deles é Joe Roberts, oficial do império britânico, um ser movido pelas agruras da vida motivadas pela veia proletária mas que tem um íntimo encantador, onde o humor está sempre presente – ainda que tal seja construído através de doses significativas de racismo e misoginia que, por vezes, roçam o extremismo.

A seu lado está Alisa, uma mulher inteligente que tem, na curiosidade e ansiedade de explorar a realidade do distante Egito, uma das suas maiores motivações de vida, aguçada pelo destacamento do seu marido Joe para o quartel britânico local. Pelo meio dessa maravilhosa viagem conhece Mona – tornada refugiada palestiniana depois da formação de Israel -, também casada com um militar, Ben, um devoto à causa judaica que a ensina a encarar o mundo de uma outra forma, desafiando Alisa rever os seus horizontes enquanto pessoa. Joe não concorda com tal visão liberal e, envolto de uma intolerância face às raízes de Mona, repudia a amizade entre a esposa e a nova amiga.

Apesar das diferentes visões da vida e unidos por um amor incondicional, Joe e Alisa observam a estrutura do seu edifício emocional ameaçar a derrocada depois da morte do melhor amigo de Joe, vítima do terrorismo egípcio. Anos mais tarde, Nia, filha do casal, mergulha no passado dos pais e, na companhia da idosa Mona, explora memórias e procura respostas. Será Joe um verdadeiro herói de guerra? Por vezes a vida mostra a verdade da forma mais dolorosa mas Nia está disposta a tudo…

Também ela filha de um antigo oficial da mítica RAF (Royal Air Force), Stevie Davies conhece bem a experiência de viver com os ecos das glórias remanescentes de um império, e tal ajudou a escritora a dedicar corpo e alma a este maravilhoso livro que revela, como poucos, a complexidade de uma paixão entre duas pessoas que conseguiram ao longo da vida colocar de lado as suas diferenças de forma a preservar a própria “conveniência” dessa união. Outro dos trunfos de “Regresso Suez” é a contextualização pormenorizada das épocas vividas no cerne deste romance, que tem como fundação para a sua grandeza a união de pequenos mas decisivos acontecimentos.

In Rua de Baixo

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

“Novela de Xadrez”
de Stefan Zweig

Retrato prepotente da desumanidade



Nascido em Viena em 1881, Stefan Zweig é uma das maiores vozes literárias europeias da primeira metade do século XX. Pautou a sua atividade intelectual através da poesia, ensaios, contos e novelas aventurando-se, também, enquanto dramaturgo, historiador e biógrafo.

Apesar de ter conquistado um invejável sucesso por terras do velho continente, o austríaco sentia-se verdadeiramente ameaçado pela crescente influência que o nacional-socialismo começava a demonstrar na década de 1930 e, a sua ascendência judaica, tornava-o como um potencial alvo de perseguição.
Os seus piores pesadelos foram confirmados e, entre outras ações contra a sua pessoa, o autor de “Amok” ou “Carta de Uma Desconhecida” viu os seus livros servirem de combustível para uma das famosas piras organizados pelos guardas nazis como forma de repúdio à cultura judaica.

Amargurado e desgostoso com a conjuntura decidiu abandonar a pátria austríaca e rumou a Inglaterra, mas seria o Brasil o seu destino final. Na companhia da sua secretária Lotte – mais tarde sua esposa – procurou, em vão, a paz espiritual por terras sul-americanas, mas a política de Getúlio Vargas adensou a sua depressão. Ainda assim, seria por terras do Brasil que descobriria uma nova paixão: o xadrez.

É já em Petrópolis que escreverá “Novela de Xadrez” (Assírio & Alvim, 2013), obra recentemente editada com tradução do alemão e que conta com notas de Álvaro Gonçalves, assim como uma biografia do autor nas primeiras páginas.

Esta novela, escrita pouco tempo antes do seu suicídio, assume-se como o derradeiro testemunho literário de Zweig e relata a vida de um campeão mundial de xadrez que tem, no jogo que domina como ninguém, a única forma de exteriorizar alguma competência enquanto pessoa, pois sem o xadrez Czentovic é apenas uma sombra do espetro humano.

Com uma escrita sóbria e sem subterfúgios empolados ou mascarados, Zweig descreve a viagem de Czentovic num navio de passageiros que parte de Nova Iorque para Buenos Aires e que tem, entre a sua tripulação, alguém que vai colocar em causa a arrogante mestria do campeão mundial de xadrez. Esse misterioso passageiro é a face de uma reviravolta a bordo, e através do seu exímio pensamento frente ao tabuleiro de 32 peças desperta a atenção de todos que questionam onde o Dr. B. terá adquirido tal sabedoria e a que custo a conquistou.

Com a sábia genialidade de um dissidente, Stefan Zweig torna “Novela de Xadrez” numa das mais apetecíveis novelas psicológicas de toda a história da literatura, através de um misto de suspense e realismo, fazendo uma pertinente e metafórica reflexão sobre a transformação de um ser humano frágil num animal prepotente. Isto, ao mesmo tempo que convida o leitor a sentir os dramas infligidos pelo nazismo e, de certa forma, a descrença face à cultura ocidental da época.

In Rua de Baixo

“Pede-me o que Quiseres”
de Megan Maxwell

Luxúria, desejo e muita, muita fantasia



Primeiro livro de uma trilogia que está a fazer grande furor entre os aficionados da literatura de conteúdo erótico, “Pede-me o que Quiseres” (Planeta, 2013) é um romance envolto de uma elevada carga de fantasias sexuais que têm, como companhia, alguns apontamentos mórbidos.

Filha de mãe espanhola e pai norte-americano, Megan Maxwell apresenta uma aventura repleta de encontros e desencontros onde o espírito voyeur e o desejo de ultrapassar limites e fronteiras leva os personagens deste livro a experimentar imparáveis limites de prazer.

No que toca à narrativa propriamente dita, “Pede-me o que Quiseres” centra-se em Eric Zimmerman e Judith (a narradora de toda esta trama) e tem Madrid como palco principal. Zimmerman é um prestigiado empresário alemão que, após o falecimento do seu pai, viaja até terras de Espanha de forma a supervisionar as filiais da Muller, a empresa que representa. É nos escritórios madrilenos que conhece a simpática e sagaz Judith e se perde de desejo.

A atração é recíproca e Judith aceita entrar nos jogos sedutores e apaixonados de Eric, cujos principais ingredientes revelam intensos níveis de fantasioso erotismo onde, submissos e dominantes, têm uma importante função a desempenhar – nem que seja assumindo um papel voyeur. Com o passar do tempo a relação cresce e Eric sente-se ameaçado, pois o seu mais escondido segredo pode ser revelado – o que ditaria o final da apaixonada relação que tem Judith como musa.

Literatura não aconselhada a menores de dezoito anos e de puro entretenimento, “Pede-me o que Quiseres” dá a conhecer a escrita competente e desinibida de Megan Maxwell através da qual já ganhou alguns galardões – ainda que em territórios da literatura apelidada de Chick Lit -, dos quais destacamos o Prémio Internacional Seseña de Novela Romântica, em 2010, o Premio Dama de Clubromantica.com, em 2010, 2011 e 2012, assim como o Aura Galardão de Encuentro Yo Leo Ra, já neste ano que se aproxima do fim.

Ainda que esta seja a primeira aventura de Maxwell por páginas onde o sexo e o erotismo andam de mão dadas, “Pede-me o que Quiseres” vai com certeza figurar entre os melhores livros do género deste ano e destaca-se das demais obras do género pois, o seu conteúdo “picante”, é um rastilho para os sentidos do leitor, que pode contar com muitas cenas de sexo omnipresentes e deveras explícitas por entre pitadas de um interessante humor.

In Rua de Baixo

Scott Matthew @ CCB

O paraíso existe e tem uma voz

 
 
Faltavam poucos minutos para as dez da noite quando as luzes do Pequeno Auditório do CCB começaram a desvanecer, devagar. Lá fora estava um frio invernoso, cortante, que fazia levantar golas e procurar um lugar quente. Ao lado, no Grande Auditório, fazia-se tributo a Joni Mitchell. Vivia-se em pleno o Misty Fest, evento que, ano após ano, traz a Portugal alguns dos mais interessantes intérpretes e músicos.

E vinha dos antípodas uma das vozes mais aguardadas da edição deste ano. Amigo de Portugal, Scott Matthew, convidado habitual de Rodrigo Leão, deu ontem um dos mais intimistas e maravilhosos concertos que os portugueses já assistiram. Na bagagem trazia o seu mais recente álbum, “Unlearned”, que se assume como uma homenagem sentida a algumas das canções que o acompanharam ao longo da vida e que marcaram indubitavelmente o seu crescimento.

Quando soaram os primeiros sons vindos do órgão de M Eugene Lemcio e Mathew se lançou numa deslumbrante e closy versão de “To Love Sombody”, um original dos Bee Gees, o tempo parou e, durante mais de hora e meia e quase duas dezenas de canções, sentiu-se o paraíso, com o anjo bem-disposto, natural de Queensland, a mostrar que é um dos mais emblemáticos cantores dos nossos dias. Envolto de uma simplicidade única, transformou uma normal noite de outono num hino à beleza.

Dono de uma voz invulgar, sempre à beira de um colapso deslumbrantemente doce, Scott Mathew sente-se em casa, pois, segundo o próprio, está “no melhor sítio do mundo”, que sabe receber quem o visita. Já sem o casaco, atira-se, delicadamente, a “Total Control” e a pérola musical originalmente composta pelos The Motels encarna uma segunda vida com a perspetiva de “Unlearned”. As palmas acontecem apenas quando do palco surge o silêncio, que é novamente quebrado com o afinar do ukelele de Matheew, que simpaticamente pede desculpa pelo facto. Depois, “There’s a Place in Heel for me and my Friends”, uma revisitação à obra de Morrissey, faz Scott levar a audiência para lugares onde o espírito pode e deve descansar.

Mas esta celebração em forma de concerto não era apenas condimentada com canções de outros. Ao longo da atuação, Scott Matheew brindou os presentes com temas do seu próprio reportório e, repleta de dramatismo, “For Dick” foi o primeiro exemplo. A seguir, “The Wonder of Falling in Love”, outro tema em nome próprio, deu origem a um coro de vozes tímidas por parte do público.

O regresso a “Unlearned” foi feito através da invocação de Neil Young e da versão de “Harvest Moon”, que Matheew, em tom de brincadeira, já afirmou ser melhor que o original. A interpretação trouxe ao palco Celina da Piedade que, na companhia do seu acordeão, trouxe mais solenidade e brilhantismo à noite. A maravilhosa rendição foi brindada como uma estrondosa salva de palmas.

Numa noite em que a alma foi repetidamente assaltada pela paz, através de canções maiores que a vida, “Smile”, tema da autoria de Charlie Chaplin, foi sinónimo de um momento desarmante, delicado, profundo, apaixonado. Por mais adjetivos que procuremos, é quase impossível descrever aqueles minutos que tornam a existência num lugar mais bonito e repleto de sentido. Matthew afirma que se trata da "canção mais triste sobre estar feliz" - e não anda longe da verdade.

Ainda com Celina em palco, a improvável “I Wanna Dance with Somebody”, cover de uma das mais emblemáticas canções de Whitney Houston, traz outro toque de magia ao espetáculo e, acredite-se, Scott Matthew consegue dar um cariz tão especial às suas versões que as mesmas se apropriam de alma própria. O público não resiste e acompanha a portuguesa no coro e o encantamento que se sente no Pequeno Auditório do CCB está ao rubro. “In the End” faz o australiano regressar às canções em nome próprio, sendo que “Jesse” traz à memória o “fantasma” de Roberta Flak. Logo a seguir, a curta “L.O.V.E”, de Bert Kaempfert, traz um pouco de “cabaret”.

“Little Bird”, retirada do álbum de estreia de Matthew, continua uma festa que também revela algumas surpresas, e a versão de “Anarchy in the UK” faz o australiano regressar aos seus tempos de membro de uma banda punk. A rebeldia deu lugar a um estado deslumbrante de doçura e da plateia surgem sorrisos. Segue-se “Abandoned”, com um fantástico falsete, e, antes da saída de palco, a brilhante “Annie’s Song” traz a palco John Denver. Matthew e companheiros saiem de cena mas a ovação de pé da plateia faz os músicos regressaram instantes depois.

“White Horse”, do álbum “There is an Ocean…”, é a primeira canção de um encore que traria ao palco todos os músicos que acompanham Scott Matheew, para uma interpretação em forma de trauteio de “Friends and Foes”, que também faz parte do já referido disco de 2009. Mais palmas, muitas, e Matthew aproveita para agradecer ao seu amigo Rodrigo Leão, presente na sala, mas como espetador.

Antes de abandonar por completo o palco, Scott, para os amigos, oferece uma maravilhosa versão de “Love Will Tears Us Apart”, que ousou invocar o fantasma de Ian Curtis. A assombrosa brutalidade da última música bateu forte e o sentimento de emoção total e a sensação de partilha e honra de se fazer parte de um momento sublime como aquele encheu a alma de quem saiu do Pequeno Auditório do CCB com a consciência que assistiu a um concerto deveras maravilhoso.

Antes de Scott Matthew, o palco pertenceu a Valter Lobo que, na companhia de Jorge Moura, ofereceu uma mão cheia de bonitas e “tristes” canções de inverno, nome de batismo do primeiro EP do nortenho. “Eu não tenho Quem me Abrace Neste Inverno”, “Asas”, “Ser de Água” e “Pensei que Fosse Fácil” foram sinónimo de belos e intimistas momentos, onde a qualidade de trovador de Lobo ganha uma assinalável magnitude através dos laivos timidamente sónicos das cordas de Moura. Envolto de uma melancólica moldura, a fotografia musical de Valter Lobo merece, de certeza, maior atenção. A não perder de vista.

Foto: Marta Ribeiro

In Palco Principal