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domingo, 14 de agosto de 2016

“Um Copo de Cólera”
de Raduan Nassar

Manual de instruções para relações marginais 


Não sendo um autor muito prolífero, o brasileiro Raduan Nassar conseguiu a proeza de marcar a literatura de língua portuguesa através de duas obras fundamentais como “Lavoura Arcaica” e este “Um Copo de Cólera” (Companhia das Letras, 2016), títulos que valeram recentemente ao autor paulista o devido reconhecimento através do Prémio Camões 2016.

Polémico em toda a sua amplitude, “Um Copo de Cólera” foi escrito em 1970, em plena repressão da ditadura militar no Brasil, e apenas viu a luz do dia cerca de oito anos depois. Um livro descrito por muitos como «difícil», é uma novela pós-modernista que versa, e extravasa, a simples ideia de humanidade.

No epicentro de toda a convulsão que é este livro está um casal, uma dupla de amantes que entra num decisivo confronto cujo final parece ser a aniquilação alheia. E como em guerra quase todas as armas são válidas, nas páginas deste (pequeno) livro são vulgares os insultos, a crueldade, o (próprio) sexo ou a vontade de dominar ou ser dominado.

Os espaços de confronto são a cama, a banheira ou a mesa onde se come o pequeno-almoço e é neles, e através deles, que se libertam egos, se oprime o adversário e se diaboliza sobre a própria sociedade e os seus limites, pois não é a catarse que Nassar procura mas sim um puro e deleitoso exorcismo recheado de falsos moralismos.

Além de uma guerra (sexual) sem quartel, os sete capítulos de “Um Copo de Cólera” – escritos de um só pulsar onde apenas existe um parágrafo e o ponto final adquire a forma de preciosa e contextualizadora pausa – cauterizam através de citações, opressões, contradições desabafos, por via de uma linguagem ora poética, ora teatral, mesclando o absurdo com o surreal.

Sem o recurso a perfis de vencedores ou vencidos, Raduan Nassar apela a um desalinho romântico nascido no coração de uma ditadura que marcou não apenas social e politicamente mas também o coletivo emocional de um povo constantemente oprimido, e só através de uma linguagem nua e sem qualquer traço de censura pode chegar-se a um patamar onde o marginal pode desafiar o absolutismo bacoco.

Mais que uma tensa narrativa que se lê num fôlego sobre um arrogante e rude homem mais velho e uma liberal mulher mais nova, este livro, metafórico, mostra a rutura, a raiva, as fronteiras das relações humanas, do próprio machismo ou do maternalismo estéril, de classe e género, através de uma intensidade física, desgastante e complexa.

In Rua de Baixo

“A Rapariga da Banda” de Kim Gordon | “M Train” de Patti Smith

O rock e a vida

Numa altura em que os festivais de música atingem o seu auge por terras lusas, a música transcende a sua forma auditiva e pode assumir o formato livro, nomeadamente através da fusão entre o género biográfico e a crónica.

Dois exemplos disso são “A Rapariga da Banda”, de Kim Gordon (Bertrand, 2016), e “M Train”, de Patti Smith (Quetzal, 2016), livros recentemente editados e que mostram um pouco mais da vida da ex-baixista dos Sonic Youth e da mítica cantora e poeta Patti Smith.

Em ambos os casos, a emoção é o fio condutor para confissões, mais ou menos filosóficas e urbanas, ou pedaços biográficos de uma vida que colocou estas mulheres entre a elite da história do Rock.

Sem índices ou resumos capitulares, onde a forma de compreensão assume-se por via de um crescente sentimento dos números que abrem os seus pensamentos, “A Rapariga da Banda” é um exercício deveras interessante, e muitas vezes emotivo, com Kim Gordon a vestir o fato de (auto)biografa mas que curiosamente inicia as páginas deste livro com um fim, no caso, o último concerto dos Sonic Youth e o processo de luta interior que isso a conduziu.

Pelo meio, conhecemos várias etapas do seu crescimento, a história da sua família, as aventuras nas artes visuais, a sua mudança para Nova Iorque, os homens que lhe assaltaram as emoções, a relação com Coco Hayley, sua filha e, claro está, a música e o seu casamento e divórcio com Thurston Moore e os Sonic Youth.

Esta viagem em forma de livro leva-nos a destinos mais ou menos caros a Gordon, alguns deles quase em piloto-automático. Existem pontas soltas, memórias boas, outras nem tanto, mas no centro de tudo está uma mulher que sabe o que quer, emocional e criativamente, e tem noção das suas escolhas e faz um excelente relato daquilo que é o amor de estar em palco e tocar música.


 Já “M Train” de Patti Smith rege-se por uma abordagem mais experimental, com a autora a definir este livro como «um mapa de estradas» da sua vida cuja narrativa parte do presente, nomeadamente através dos exercícios reflexivos que nascem no “Greenwich Village”, um pequeno café que serve de poiso reflexivo da autora de discos como “Radio Ethiopia” e do nascimento da estética punk.

As 19 estórias, ou estações como lhe chama Patti Smith, fluem entre o onírico e o real, sem uma linha cronológica assinalável mas com o lado mais criativo sempre em destaque, seja o motivo da escrita o simples ato de beber café, assistir a séries policiais ou visitar túmulos de gente conhecida das artes.

O prazer de ler Patti Smith, ou de contemplar os seus retratos polaroid, reside do mais puro sentido nostálgico, e por vezes minimalista, onde se exploram, e dilaceram, obsessões literárias, gostos boémios, viagens quixotescas ou moleskines. Tudo motivos essenciais para uma mulher que confessa não gostar de «nada supérfluo», definindo assim uma rara estética pessoal e (in)transmissível.


In Rua de Baixo

domingo, 17 de julho de 2016

“Numa Floresta Muito Escura”
de Ruth Ware

Os Segredos da Casa de Vidro


Aquando da apresentação de “Numa Floresta Muito Escura” (Clube do Livro, 2016), a autora e escritora britânica Ruth Ware afirmou que ganhou inspiração para escrever este livro com universo de Agatha Christie e também com o filme “Scream”.

E é definitivamente essa a sensação que nos invade logo desde as primeiras páginas de um livro que se move num sentimento de suspense constante com laivos de terror, onde um grupo dinâmico de personagens, cujas intenções nos surpreendem e põem em causa, comandam todo o exercício narrativo.

Tudo começa quando Nora, uma escritora de policiais, recebe um inesperado apelo via email ao ser convidada para a despedida de solteira de Clare, uma amiga que o tempo acabou por separar. Ainda que a medo e mergulhada na surpresa, Nora, dona de um perfil pouco social, aceita o convite e decide integrar o grupo de seis pessoas convocadas para essa reunião marcada para uma casa isolada numa floresta recôndita, e essa decisão vai marcar a sua vida para sempre.

Nora vê-se assim forçada a um peculiar convívio no meio de estranhos, à exceção de Clare e Nina, ambas colegas de uma distante infância, e a sensação de que deveria ter recusado o convite ganha cada vez mais contornos, principalmente por ver-se obrigada a responder a questões ligadas a um período que, definitivamente, quer esquecer.

Cerca de quarenta e oito horas depois dessa estranha reunião, Nora acorda no hospital. Desorientada e ferida, não se recorda de nada mas sabe que algo muito grave aconteceu. Sente a morte de alguém, mas não sabe de quem. Pergunta-se o que terá acontecido naquela casa envidraçada perdida na muito escura floresta. Encarcerada num mundo de dúvidas, vai recuperando a memória e sente que o pesadelo está apenas a começar.

O enredo, claustrofóbico e tenso, de “Numa Floresta Muito Escura” prende eficazmente o leitor e o pequeno elenco envolve-nos à medida que segredos são revelados, ainda que à superfície não seja demonstrada toda a sua negra imensidão.

Outro dos trunfos deste livro é o desenho individual de cada personagem que se vai assumindo como essencial na globalidade da narrativa dando a sensação de uma intrincada relação global (bem) definida por Ruth Ware, e que serve de elemento contextualizador para as diferentes peças do cativante puzzle que é este livro.

Ainda que com alguns tiques algo previsíveis, Ruth Ware faz-nos chegar um thriller bem contado e construído que leva o leitor a mergulhar numa viagem extrema onde o medo e o perigo escondem-se atrás daquilo que de mais assustador existe: a mente humana.

In Rua de Baixo

“As Raparigas Esquecidas”
de Sara Blaedel

Floresta de Sombras

 
A chegada de mais um autor de romances policiais oriundo do Norte da Europa é sempre uma excelente notícia. Desta vez a honra cabe à dinamarquesa Sara Blaedel, uma ilustre desconhecida por terras lusas mas que tem uma acérrima horda de fãs espalhada por todos os países que já editaram os seus livros. A sua estreia em Portugal faz-se com “As Raparigas Esquecidas” (Topseller, 2016), sétimo volume da série Louise Rick e primeiro tomo da trilogia homónima.

No centro da trama está, obviamente, Louise Rick, agente policial recentemente transferida para o Departamento das Pessoas Desaparecidas e que fará parelha com Eik Nordstrom, um homem sempre trajado de negro, viciado em tabaco, à beira de um qualquer limite pessoal, que faz do bar local sua casa.
Apesar do início da parceria se revelar conturbado, Louise e Eik acabam por conseguir ultrapassar as diferenças e quando um terrível crime acontece, juntam forças. O caso é complicado e tudo começa quando uma mulher aparece morta numa floresta e o crime é revelado quando o guarda-florestal encontra o maltratado corpo.

Profundamente marcada por uma cicatriz que lhe envolve grande parte do rosto, a mulher morta parece ser facilmente reconhecível, mas essa tarefa revela-se mais complicada pois ninguém relatou o seu desaparecimento e dos registos não constam os seus dados.

Luise e Eik procuram pistas mas estas teimam em não existir. Na esperança que alguém identifique aquele rosto tão marcado, é publicada uma fotografia da mulher no jornal local e os resultados são quase imediatos. Louise recebe um telefonema de Agnete Eskildsen e fica a saber que o corpo pertence a Lismette, uma das «raparigas esquecidas» de Eliselund, antiga instituição estatal para doentes mentais onde Agnete trabalhara anos antes e cujas memórias assombram a sua vida desde então.

A descoberta leva a dupla do Departamento de Pessoas Esquecidas a investigar os arquivos da instituição e acabam por descobrir terríveis segredos que colocam toda a comunidade em cheque, e choque. A desconfiança cresce à medida que mais se sabe sobre o caso e as mortes continuam a acontecer na floresta…

Sara Blaedel consegue construir uma narrativa envolvente, emocional e emotiva, misteriosa, com alguns requintes de malvadez e cenas onde o ódio e a violência desafiam os limites da mente humana. A par da investigação policial, existe espaço, e cuidado, para uma breve apresentação do elenco com particular destaque para o personagem de Louise, uma mulher encurralada num passado tortuoso onde os maiores fantasma assumem a forma do suicídio de Klaus, seu antigo namorado, e a relação fugidia com a sua família, exceção feita a Jonas, seu filho, e Melvin, seu paternal vizinho. Também Camilla, uma das melhores amigas de Louise, e a braços com uma situação pessoal instável, tem uma presença determinante na trama, principalmente a partir do momento que decide investigar o estranho caso das raparigas desaparecidas, mortas ou violadas que assombram a comunidade.

“As Raparigas Esquecidas” é, no seu todo, um bom livro, cru e com boas doses de suspense, reviravoltas e um assassino cuja forma de atuação nos faz devorar as páginas com voracidade deixando a dúvida sobre a sua identidade até aos suspiros finais, mas que, a espaços peca por deixar o leitor um pouco perdido face ao natural desconhecimento do passado de alguns personagens.

Este livro revela ainda uma outra dimensão, levando-nos para um território que transcende o próprio cenário ficcionado e que remete para as situações de maus tratos em instituições para pessoas com deficiências e os abandonos, forçados ou não, que são alvo e que demonstra que a sociedade, infelizmente, ainda está muito longe da plenitude solidaria e humana que tanto se apregoa, e espera, e que muitas vezes é moldado por dramas pessoais.

 In Rua de Baixo

terça-feira, 5 de julho de 2016

“Ouve a Canção do Vento / Flíper”
de Haruki Murakami

Senhoras e senhores, eis o Rato


Os primeiros passos de Murakami enquanto escritor ou aspirante a tal, aconteceram no final da década de 1970, ainda o jovem Haruki centrava quase todas as suas energias ao serviço do clube de jazz que geriu com a sua companheira. O bichinho da escrita já assaltava a alma do japonês e, nas horas vagas, à mesa da cozinha e de esferográfica em punho, atacava maços de folhas em branco.

A medo, e depois de muita hesitação, lá nasceram os primeiros rebentos literários de Murakami que (só) agora chegam às nossas livrarias. Reunidas num mesmo livro, “Ouve a Canção do Vento” / “Flíper, 1973” (Casa das Letras, 2016), são duas singelas fábulas, a resvalar para um território surreal e intimo, que centram as suas narrativas no quotidiano de dois jovens que se conhecem num bar. Tanto o narrador sem nome como Rato vivem fases algo niilistas e sentem a vida a escapar-lhes pela ausência de um sentido inequívoco.

Nestes dois romances – que serviram como génese da tetralogia do Rato, que além destes títulos junta “Em Busca do Carneiro Selvagem” e “Dança, Dança, Dança” – são servidos de bandeja personagens como escritores nascidos de uma fértil imaginação, uma rapariga com quatro dedos na mão esquerda, o dono de um bar que abre o seu espaço, e coração, para as mais diversas confissões, um par de misteriosas gémeas, obsessivos especialistas em máquinas de flipers, gente que come panquecas com refrigerantes, DJ’s com soluços, sem nunca esquecer um universo musical tão caro à pessoa de Murakami.

No caso de “Ouve a Canção do Vento”, Murakami oferece-nos uma quase narrativa linear cujo espaço temporal não se estende além das três semanas, algures no verão de 1970, onde dois jovens se conhecem no bar de Jay, um chinês de semblante tranquilo. O nosso narrador, sem nome, um leitor compulsivo de romances ocidentais, armado com tiradas intelectuais nonsense, trava conhecimento com Rato, um playboy, rico, que se refugia no consumo de cerveja para encontrar o seu caminho. Pelo caminho surge uma rapariga que trabalha numa loja de discos e é fã de Beach Boys. A narrativa, tem como pontos em comum uma certa interação entre estas três figuras explorando, em ritmo de cruzeiro, as dúvidas de uma juventude inquieta.

Ainda que nenhum destes personagens seja esculpido de forma irrepreensível, têm adjacente uma existência unidimensional que pode, a espaços, situar-se no limbo entre a plenitude e um sentimento vago pois “Ouve a Canção do Vento” é pensado como uma abordagem livre face à ideia de romance. Apesar disso, as páginas fluem e existe uma sensação de etéreo desejo que torna o seu todo elegante, com diálogos espartanos e casuais e o recurso a manobras musicais que sublinham uma certa tendência da sobreposição do estilo face à substância.

Sob o mesmo contexto e filosofia, “Flíper” volta a trazer a palco o narrador sem nome e Rato mas a sua contextualização parece estar mais próxima da esfera literária com que Murakami nos conquistou nos romances seguintes. Lançadas as sementes, temos duas estórias paralelas, personagens movidos a cerveja e tabaco, cuja apatia é combatida de fronte de uma máquina de flipers, metáfora para uma certa noção de solidão travada à custa de luzes néon, bolas extras e recordes imbatíveis.

Existe também um ser feminino à procura das frases certas, gatos, referências a cozinhados, música e discos pedidos e perdidos, livros, perseguições a máquinas de jogos desaparecidas (a velha Space-ship…) como descrições da Natureza e dos desejos humanos, figuras tão caras aos (magníficos) romances assinados por Murakami.

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segunda-feira, 4 de julho de 2016

“Dominus”
de Tom Fox

Rápido, intrigante e certeiro


É possível escrever um livro, um enredo, com os mesmos ingredientes de tantos outros e mesmo assim tornar o seu resultado bem acima das expectativas? Sim, é possível e é isso que o britânico Tom Fox conseguiu com “Dominus” (Topseller, 2016), a sua primeira aventura enquanto escritor e que resulta da soma de um profundo conhecimento académico dos meandros do Cristianismo com os predicados de um bom (e rápido) policial.

Tudo começa quando um estranho, «com calças de ganga gastas e uma camisa cinzenta, ligeiramente amarrotada», rompe pela apinhada Catedral do Vaticano num dia em que o Papa Gregório XVII celebra uma missa e pede ao sumo pontífice que se levante da sua cadeira de rodas que o prendia a um debilitante calvário assombrado pela doença de uma vida inteira.

A medo, e com todos de olhos postos neste peculiar acontecimento, o Papa levanta-se e dá-se o inesperado. Roma fica em polvorosa e as opiniões dividem-se sobre a veracidade do milagroso acontecimento que poderá colocar em causa toda a legitimidade de Igreja Cristã. A par disso, surgem cabalas entre homens do capital e clérigos cujo único objetivo é desacreditar o Papa.

É então que entram em cena a dupla Alexander Trecchio, um ex-padre que se tornou jornalista, e a detetive Gabriella Fierro, dando início a uma destemida e perigosa investigação que tem como objetivo encontrar uma explicação que acalme um país à beira de um ataque de nervos.

À medida que a dupla se embrenha na sua demanda, surgem verdades inesperadas e segredos que podem colocar, definitivamente, em causa o próprio o catolicismo, uma religião cada vez mais cercada por uma crescente horda de inimigos.

Com uma narrativa acelerada e com todos os predicados para manter o leitor agarrado à trama, “Dominus” é um thriller inteligente, e convincente, que coloca o dedo numa das maiores feridas da Igreja Católica: a gestão dos chamados “milagres de conveniência” que ajudam a manter a estrutura da instituição viva e que alguns reclamam não ser mais do que um jogo de interesses essencialmente económicos.

Vivamente aconselhado a fãs de Dan Brown, Simon Toyne ou José Rodrigues dos Santos, “Dominus” leva-nos para o interior dos corredores privados do Vaticano abrindo os horizontes da nossa imaginação enquanto leitores de um universo “mágico” e construído à base de uma mistura de factos e observações que encontram um crescendo à medida que as páginas avançam.

Com uma fórmula de sucesso, Tom Fox consegue no seu romance de estreia agarrar por completo o leitor que vai salivar por mais aventuras da dupla Alexander e Gabriella.

In Rua de Baixo

Mania da Bola

“Eusébio, o Romance” de Sónia Louro /
“Relato – Histórias de Futebol” de Hugo Vinagre e Tiago Beato

Todos os anos a história repete-se. Termina o campeonato, contam-se os títulos, as frustrações e as invejas, sentimento tão caro aos portugueses, e, tudo somado, as conversas sobre futebol ocupam a ordem do dia de muitos de nós.

Em ano de Campeonato da Europa, e Jogos Olímpicos, esse sentimento cresce e o desporto, direta ou indiretamente, invade-nos de várias formas. E um pouco à boleia dessa tendência, surgem nos escaparates livros que espelham essa paixão.


“Eusébio, o Romance”, de Sónia Louro, e “Relato – Histórias de Futebol” da autoria de Hugo Vinagre e Tiago Beato, ambos com selo Saída de Emergência, são dois (bons) exemplos dessa aposta.

No primeiro caso, Sónia Louro, conta, de forma romanceada, a vida desportiva do Eusébio, desde os tempos do Mufalala, em Moçambique, até à sua última aventura nos Estados Unidos da América ao serviço dos Buffalo Stalions, além de, obviamente, versar bastante sobre o percurso do “Pantera Negra” com a camisola do Benfica.

Somos assim convidados a testemunhar todas as emoções sentidas por Eusébio e a pesquisa realizada por Sónia Louro levou a autora a vasculhar memórias diversas por entre artigos, livros e vídeos, além das indispensáveis conversas com antigos companheiros de campo do moçambicano como, por exemplo, António Simões e Toni, ambos jogadores do Benfica e que testemunharam a magia do craque, e ainda com os familiares do “King”. Apesar disso, Sónia Louro opta por nunca entrar em demasia na esfera privado de Eusébio mantendo um registo dinâmico que tona a narrativa muito atraente não só para quem gosto da figura em causa mas também de um bom livro.


Já em “Relato – Histórias de Futebol”, a dupla de jornalistas Hugo Vinagre e Tiago Beato convidam o leitor a ver os dois lados da barricada: os heróis do relvado e os fervorosos adeptos de bancada.

Ao todo, Vinagre e Beato apresentam-nos mais de 100 histórias nascidas de momentos caricatos, atos de verdadeira coragem ou situações dignas de um filme de Hollywood. Do lado das estrelas da bola, Futre lembra os dias com a camisola do dragão ao peito e da incontornável figura de Pinto da Costa, João Vieira Pinto confessa o caricato ato negocial que foi a sua transferência do Boavista para o Benfica, Balakov brinca com a confusão que a equipa técnica do Sporting sentia sobre a sua posição em campo e António Veloso recua ao passado e fala de um certo camarada guarda-redes que sonhava ser como Julio Iglesias.

Na “equipa” dos treinadores de bancada, ou de banco mesmo, e de “loucos” por futebol, o plantel também está rodeado de vedetas. Assim, saiba como foi a primeira experiência enquanto jogador de Carlos Vidal, o eterno Avô Cantigas, quando pisou Alvalade, que memórias tem Jorge Gabriel dos seus primeiros passos enquanto treinador adjunto do Arouca, a paixão que a seleção nacional desperta em Luís Freitas Lobo ou um pedacinho das atribuladas, e perigosas, aventuras de Rui Miguel Tovar com o seu pai pelos campos de Portugal.

In Rua de Baixo

terça-feira, 28 de junho de 2016

“O Livro dos Baltimore”
de Joël Dicker

O regresso (auspicioso) de Marcus


A sensação que fica depois de ler “O Livro dos Baltimore” (Alfaguara, 2016), do suíço Joël Dicker, é idêntica à de um atleta que termina uma maratona, sem fôlego mas satisfeito, com o dever comprido, não importa a posição.

Exatamente três anos depois da edição de “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” eis que somos novamente convidados a entrar em mais uma corrida literária com o escritor Marcus Goldman e, ainda que a sensação do seu todo e processo criativo seja de um constante deja vu e algo fundado por camadas mais ou menos estereotipadas, o resultado final é muito, muito interessante.

Antes de mais, prepara-se o leitor, ávido conhecedor, ou não, da ainda curta obra de Dicker, que depois de começar a ler “O Livro dos Baltimore” é impossível parar. Desta vez, Marcus, agora um escritor de sucesso no epicentro de um bloqueio criativo, mergulha de cabeça na história da sua família e do Drama que a abalou definitiva e eternamente, tendo como protagonistas os Goldman, nomeadamente os bem-sucedidos Baltimore e os suburbanos Montclair, estes últimos diretamente ligados a Marcus.

Não querendo levantar qualquer spoiler, podemos afiançar que Joël Dicker volta em “O Livro dos Baltimore” ao muito eficaz e construído território narrativo dos flashbacks através de vários segmentos temporais que condensam os principais anos de Marcus, Hillel e Woody, os três primos que componham o núcleo duro do “Gangue dos Goldman”.

Centrando o corpo da estória na adolescência e juventude do trio, Dicker revela o crescimento dessa fraternidade tripla (que mais tarde passa a acolher um desafiador quarto elemento) cujos amores, sonhos, ambições e desejos tinham muitos traços em comum, mesmo que a inveja, por vezes, assombrasse, ainda que de forma mais ou menos tímida, esse universo. Tudo era partilhado, vivido em formato mosqueteiro, até à chegada de Alexandra, a musa inspiradora do trio que lutava, em surdina, pela sua atenção e, claro está, paixão.

Todo o romance centra-se na perspetiva de Marcus, pelo seu relato e particular visão. À medida que as páginas avançam, leitor e Marcus estabelecem uma relação de confiança e somos levados a pensar que estamos lá, no palco imagino por Joël Dicker, à semelhança de um personagem como Leo, vizinho de Marcus, uma espécie de grilo falante que alerta, de forma sui generis, a consciência do protagonista.

Não é por isso difícil, sentir o mundo dos Goldman bem perto de nós, entrar e nele ficar, até ao fim, e interiorizar os seus elementos: Hillel, filho de Saul e Anita, tios adorados de Marcus, inteligente mas de débil constituição física; Woody, quase-órfão e criança disfuncional, adotado pelo clã de Baltimore, atlético, com um apurado sentido de justiça (muitas vezes aplicada com os punhos) e um promissor futuro no mundo do Futebol Americano; Marcus, o primo suburbano, maduro e objetivo, cujo único desejo é prolongar, ad eternum, o “Gangue dos Goldman” e fervoroso crente na redenção por via da amizade.

É também Marcus que vai tomar as rédeas da narrativa e que vai desenhar-nos o intrincado puzzle que é a vida dos Goldman, procurando conhecer os segredos mais obscuros, assim como as intrigas e mentiras da sua família para conseguir, finalmente, entender o que sucedeu antes e depois do Drama, naquele fatídico Dia de Ação de Graças de 2004 e que vai revelar que, afinal, os nossos heróis podem ter “pés de barro” e o que é, ou parece, verdade é uma profunda mentira, transformada por Joël Dicker num livro sedutor e que será um companheiro ideal para os dias de verão que, feliz e finalmente, chegaram.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 27 de junho de 2016

“O Universo Concentracionário”
de David Rousset

Os escravos só dão o seu corpo


Entre os nomes que mais refletiram o flagelo do terrorismo nazi, tanto por via de experiências in loco como através de uma assaltante e terrível herança social, saltam-nos à memória Primo Levi, Robert Antelme ou Hannah Arendt.

Mas muitas outras personalidades lutaram com todas as suas forças contra a máquina montada pelos homens comandados por Hitler. David Rousset, filósofo francês, perfila-se nessa honrosa lista e o facto de ter sido capturado pela Gestapo em 1943 e deportado para os campos de trabalho de Buchenwald e Neuengamme, gravou-lhe no corpo e alma vivências dilacerantes.

Rousset foi o primeiro que ousou introduzir a palavra “Gulag” (campo de trabalho soviético) no léxico dos franceses revelando assim aos seus compatriotas o sistema desumano levado a cabo pelas políticas de Estaline.

A sua libertação das amarras nazis, em 1945, fez crescer dentro de Rousset o sentimento, determinado, de contar ao mundo o que se passava dentro do arame farpado. Assim, ainda física e psicologicamente debilitado, e com o precioso auxílio de Sue, sua esposa, durante cerca de três semanas dita um texto que versava sobre uma visita guiada ao campo de extermínio de Buchenwald.

Esse trabalho, registado em forma de visita guiada, seria publicado em La Revue Internationale em três partes: a primeira em dezembro de 1945, e as duas restantes em janeiro e fevereiro do ano seguinte. O interesse gerado pelos referidos relatos leva a que os mesmos sejam editados em forma de livro, obra essa que seria galardoada com o Prémio Renaudot e figura ainda hoje como um dos mais poderosos e profundos testemunhos de um sobrevivente dos campos nazis.

Falamos de “O Universo Concentracionário” (Antígona, 2016) um livro que reflete o devastador quotidiano dos presos nos campos de concentração assim como o terrível impacto que essa vida cravava em quem lá passou, sobreviveu ou morreu. Este testemunho criado por David Rousset vagueia entre episódios mais descritivos, uma objetividade distante e factual e momentos em que se questiona as diferenças de natureza da espécie humana.

Com recurso ao glossário que Rousset compilou nas últimas páginas do livro, ao leitor é permitido entender o funcionamento da «máquina de extermínio e de produção de terror concebida por Hitler», bem como refletir o exercício criado por o filósofo francês na tentativa de desmontar, de forma assinaladamente lúcida, a obscena brutalidade nazi.

O sangue-frio com que este livro foi escrito e sentido, leva o leitor a imaginar (e não mais que isso) a humilhação das pancadas recebidas por gente de fatos às riscas azuis e brancas/cinza que viu a sua dignidade destruída em nome de um “política” irreal, criada nas sombras de um líder refém da sua solitária loucura.

Ainda que a morte esteja omnipresente no todo de “O Universo Concentracionário”, nas suas entrelinhas também é possível sentir uma pontinha, racional, de vitória por parte de quem conseguir fintar a dama da foice e é hoje, por direito próprio e devidamente reconhecido por todos que amem a paz, um herói. E é por isso que livros como este são obrigatórios para que todos pensemos nos erros do passado, evitando-os, veemente, no presente e futuro preservando assim a memória de quem perdeu a vida por ter nascido com uma fé própria cujo corpo foi escravizado mas nunca o seu crer e alma.

In Rua de Baixo

terça-feira, 21 de junho de 2016

“Francamente, Frank”
de Richard Ford

Depois do Furacão


Passaram trinta anos desde que o norte-americano Richard Ford, recentemente distinguido com o prestigiante prémio literário Princesa das Astúrias, escreveu “O Jornalista Desportivo”, o primeiro tomo da conhecida série que tem como protagonista o peculiar Frank Bascombe. Nas últimas páginas desse livro, Ford fazia um, muito particular diga-se, elogio à vida que, segundo o escritor, se situava no limbo entre «uma doença ou uma síndrome».

Essa busca pelo sentido, sofrido e cínico, da existência, Ford continuou a sua saga através de “O Dia da Independência”, “A Gordura da Terra” e, mais recentemente este “Francamente, Frank (Porto Editora, 2016).

De escritor sem grande sucesso, passando por jornalista desportivo ou agente imobiliário, Frank Bascombe tem agora setenta anos (idade bem próximo do seu mentor que conta agora com 72 primaveras), está reformado e é com um enorme prazer que reencontramos um dos personagens mais emblemáticos, e bem construídos, das últimas décadas da literatura norte-americana (e não só) cujo perfil mantém elevadas doses de ceticismo e cinismo ainda que se assuma mais reflexivo e, espante-se, em modo carpe diem.

Em “Francamente, Frank”, damos de cara com este septuagenário a viver em Haddam, um subúrbio de New Jersey, no rescaldo do furacão Sandy. A ironia e o politicamente incorreto continuam a ser algumas das suas mais distintas marcas e, como se de uma viagem sem retorno se tratasse, leva o leitor a mergulhar no quotidiano norte-americano, muitas vezes pejado de sucessos, fracassos ou sonhos perdidos, carregando estigmas sociais e económicos como o racismo, a crise financeira e a inveja pura.

Dividido em quatro capítulos, ou novelas, “Francamente, Frank” traça alguns pertinentes retratos de uma América ferida. Num primeiro momento (“Estou Aqui”), Frank é forçado a recuar ao passado enquanto agente imobiliário uma vez que Arne, um antigo conhecido a quem vendeu a sua antiga casa, lhe pede conselhos para tentar vender da melhor maneira, entenda-se lucrativa, as ruínas que hoje são sinónimo desse imóvel agora devastado pelo furacão.

O segundo “episódio” (“Tudo Podia ser Pior”) explora os resquícios de racismo da sociedade norte-americana e leva-nos a conhecer Charlotte Pines, uma «bem vestida negra de meia-idade», que esperava no alpendre do lar de Frank que, outrora, havia pertencido à sua família.

À medida que Pines revela as suas intenções, percebemos que algo de terrível aconteceu entre aquelas paredes e, de forma algo inesperada, procura algum conforto na pessoa de Frank depois de revelar a tragédia que a sua família foi alvo. Assumindo, mais uma vez, o papel de confessor e “amigo” do desconhecido, o ex-agente imobiliário aceita e entende o conflito interior de Charlotte, alguém que consegue resgatar sentimentos de honestidade e nostalgia do âmago de Frank.

Marcado também pelas suas relações pessoais e atribulada relação com os filhos, uns ainda vivos e outro há muito falecido, Frank mostra a sua faceta (forçada mas firme) solidária com Ann, a sua ex-mulher da qual se divorciou há trinta anos e que agora reside num lar, descrito por Ford como «um plano de laboratório vivo para americanos grisalhos», perto de Haddam.

Entre laivos agridoces, Richard Ford revela neste terceiro momento (“A nova norma”) um Bascombe observador, e algo condescendente, face a Ann, uma mulher sempre pronta a magoar o ex-marido, amarga e que a Doença de Parkinson parece fazer adensar o fel que carrega e que nem a presença “ortopédica” de Frank consegue amenizar, mesmo que a época natalícia seja o cenário.

Na derradeira parte deste livro (“Mortes dos Outros”), Frank é assaltado por um estranho e anónimo telefonema que o leva a assistir aos últimos dias de Eddie, alguém que conheceu em tempos e ganhou a alcunha de Olive, e que está às portas da morte devido a um cancro. No seio desta inesperada chamada está um segredo que pode provocar algum abalo na vida de Frank mas que, acima de tudo, expõe a relação de um homem face à morte, a um fim anunciado.

Seja em qualquer das referidas quatro perspetivas, Richard Ford consegue, de forma natural e desarmante, ligar-nos à “pessoa” de Frank e coloca em jogo memórias trágicas, partilhas de fantasmas inesperados, discursos paliativos, contextualizações ora cínicas, melancólicas ou irritantes e irritadas ou até lições de vida sobre a parentalidade, ainda que fugidia. O resultado é um excelente livro, ainda que curto, e que leva a pensar se alguma vez mais teremos a sorte de voltar a ter como companheiro de cabeceira o “velho” Bascombe, fugidio ser que nos assombra a alma a cada década.

In Rua de Baixo

domingo, 12 de junho de 2016

“A Filha de Estaline”
de Rosemary Sullivan

A triste sina da Princesa do Kremlin


Durante cerca de três décadas, enquanto secretário-geral do Partido Comunista Soviético e do seu Comité Central, Josef Estaline purgou e puniu milhões de pessoas, das quais incluem-se membros da própria família, nomeadamente Svetlana Alliluyeva, sua filha.

A crueldade e o sentido “político” do ditador russo foi uma das suas imagens de marca e em “A Filha de Estaline” (Temas e Debates, 2016), a canadiana Rosemary Sullivan, biógrafa, poetisa, jornalista, crítica literária e professora emérita da Universidade de Toronto, levanta o véu sobre a vida de Svetlana, uma vítima da estrutura maquinal do poder soviético e ao longo de mais de 600 páginas, algumas delas ilustradas com fotos de variadas proveniência e de irrepreensível validade histórica, e revela um rasto de puro terror com base na estreita colaboração entre autora e biografada assim como nos aquivos do FBI, da CIA e do Estado Russo.

Nas primeiras páginas deste livro, Sullivan conta a trágica e solitária infância da chamada “princesa do Kremlin”, uma menina que viu a morte precoce da sua mãe, por suicídio, marcar-lhe definitivamente uma vida votada ao desprezo do pai, homem que muito cedo revelou um perfil frio e assassino. Ainda assim, apesar deste isolamento forçado, Svetlana conseguiu fazer amizades ainda que alguns tenham pago esse atrevimento com a vida.

Ao avançar no livro, o leitor fica a conhecer mais pormenores da complicada existência da filha do ditador soviético. Desde a sua educação passando pela vida amorosa, casamentos e nascimentos dos seus filhos, até obviamente ao relacionamento tenso com o seu pai, Rosemary Sullivan revela, de forma muitíssimo competente e bem documentada (nas últimas páginas do livro existem listas de personagens que fizeram parte da vida de Svetlana, referências bibliográficas assim como registos de fontes), uma narrativa biográfica de excelência sem nunca resvalar para territórios de mera “coscuvilhice” e com um ritmo narrativo brilhante.

Uma das partes mais interessantes de “A Filha de Estaline” é a complexa passagem de Svetlana pelo território norte-americano, decisão que surgiu quando ainda estava exilada na Índia, fruto de uma aproximação político, social e económica entre as duas potências que durante décadas alimentaram a chamada “Guerra Fria”. Alliluyeva, que mudaria de nome para Lana Peters para assim afastar a curiosidade mórbida dos jornalistas ocidentais, chegou mesmo a conseguir uma estranha “independência” do Kremlin mas nunca se conseguiu libertar do epiteto de fantoche político nas mãos de soviéticos e norte-americanos.

Algo que também transparece neste livro é a continuada tentativa de Svetlana em sentir o amor do próximo, procurar afinidades intelectuais e uma estabilidade que resgatasse, definitivamente, um sentimento de normalidade que foi sempre traído por decisões abruptas e desequilibradas emocionalmente. Ainda que descrita como espirituosa, amável e companheira, acabou por dinamitar muitas amizades pelos sucessivos ataques de raiva que talvez derivassem da sua inabilidade de lidar com a liberdade, o que também levou a que destruísse quatro casamentos dando origem a mudanças sucessivas de país, deixando mesmo um rasto de propriedades em dois continentes, vindo a morrer, aos 85 anos, em 2011, na pobreza, em território norte-americano.

Um dos maiores legados que Svetlana deixou foi a raiva e incredulidade face ao seu pai. Numa das suas últimas entrevistas, afirmou: «Não lhe perdoo nada! Se foi capaz de matar tanta gente, nomeadamente os meus tios e tia, nunca lhe perdoarei. Nunca…. Destruiu-me a vida».

In Rua de Baixo

“Império do Medo – No Interior do Estado Islâmico”
de Andrew Hosken

Políticas de Terror


A história geopolítica das últimas décadas tem sido assombrada por vulgares ataques terroristas, atos que atentam não só contra os ideais do Ocidente mas, acima de tudo, subjugam a vida de inocentes e espalham uma sensação de insegurança e desconfiança.

Nesse sentido, o percurso do ISIS (Estado Islâmico) reflete uma “filosofia” violenta e assassina, frequentemente alvo de destaque nos noticiários de todo o mundo. Somos assim forçados a assistir a histórias reais, de um horror inusitado, cuja assinatura é sinónimo de genocídio, um dos mais vulgares desígnios da cobardia terrorista.

Somos levados a tentar entender as razões para tal, o que motiva os terroristas, quais os seus objetivos, quando irá parar a sangria e qual a real proximidade da mesma. Os recentes ataques que o território Europeu tem vivido tornam a ameaça presente e induz-nos uma sensação de medo permanente pois, afinal, isto não acontece só aos outros.

É com base nestas premissas que Andrew Hosken, jornalista da BBC e uma das principais figuras que cobriram o 11 de setembro e a “Primavera Árabe”, escreveu “Império do Medo” (Planeta, 2016), um livro que versa sobre o Estado Islâmico desde a sua génese, quando era uma célula subsidiária da Al-Qaeda, até hoje, assumindo-se como força dominante de uma vasta área que ocupa territórios entre a Síria e o Iraque e que teima em aterrorizar o resto do mundo.

Ao longo de 15 capítulos, Hosken, profundo conhecedor do perfil do Estado Islâmico, analisa a complexa teia da organização, bem como a sua ascensão, através de uma cronologia de terror crescente. Ficamos assim a saber, por exemplo, que Abu Musab al-Zarqawi, o primeiro líder jordano do ISIS, recebeu o seu batismo radical numa prisão através dos “conselhos” de um extremista islâmico, e como depois conseguiu aliar à causa seguidores com o objetivo de purgar inimigos, especialmente no Iraque, espalhando a morte como uma espécie de obscena assinatura, até conseguir, em 2014, declarar o califado, com uma área semelhante à Grã-Bretanha e governado segundo as leis da Charia, ato que envolveu o domínio de Mosul, no Iraque.

Pelo meio, Hosken opina sobre a (desastrosa) opção norte-americana de dissolver o partido Baath (constituído por maioria sunita, anteriormente liderado por Saddam Hussein até à sua queda em 2003), que levou a que muitos se aliassem à “causa” terrorista, relata a chegada de Abu Bakr al-Baghdadi ao lugar cimeiro do ISIS, depois da morte de al-Zarqawi’s em 2006, e que envolveu uma crescente escalada de terror com a vulgarização de atentados suicidas, massacres, decapitações, raptos e violações de mulheres e crianças, principalmente na província de al-Anbar, uma das maiores do Iraque. Mas talvez um dos principais passos políticos de al-Baghdadi foi a decisão de entrar na Guerra Civil síria em 2011, ato que forneceu ao grupo terrorista um novo ímpeto que acabou com a já referida declaração do califado.

Em “Império do Medo” há ainda tempo e espaço para uma reflexão sobre a reação norte-americana a todo este processo, bem como à ruptura da liderança iraquiana no coração do próprio território, o que possibilitou a homens como Nouri al-Maliki se tornarem donos de uma impensável riqueza, à boleia do lucro proveniente da venda de petróleo, sendo um dos principais mecenas do ISIS na sua abordagem mais global.

Outra das questões mais pertinentes deste livro é a reflexão que o leitor pode fazer de tal manobras de contextualização e questionar o porquê dos desesperados gritos de asilo por parte dos sírios que chegam, desesperados, à Europa com o objetivo de fugir a uma sina de morte e destruição. E enquanto o mundo assiste e ajuda os milhões de refugiados na sequência deste verdadeiro tsunami migratório, outros aproveitam as ondas e espalham marés de terror onde os verdadeiros objetivos são o controlo, o poder e a vingança, a qualquer preço.

Na sua essência, “Império do Medo” é a ferramenta ideal para quem quer entender o contexto político do Médio Oriente (do e no Estado Islâmico) e o seu conteúdo intenso, real e arrepiante, escrito com uma assertividade apenas ao alcance dos grandes jornalistas, faz transparecer a angústia e o medo de um presente envenenado pela violência.

In Rua de Baixo

terça-feira, 31 de maio de 2016

4ª Edição da Noite da Literatura Europeia
DEZ LITERATURAS, DEZ ESPAÇOS, UMA NOITE ÚNICA


A realizar no dia 4 de junho, sábado, em plenas Festas de Lisboa, A Noite da Literatura Europeia apresenta o serão literário mais popular da capital lisboeta. Organizada por vários institutos culturais europeus sediados em Lisboa e pelas embaixadas representativas, este evento decorre, entre as 19h às 24h, em vários espaços emblemáticos da zona do Carmo/Trindade.

Durante este serão, terão lugar leituras, por 14 atores portugueses, de excertos de obras de dez escritores europeus. As sessões, de entrada livre, têm a duração de dez a 15 minutos e repetem­-se de meia em meia hora, para o público poder assistir a todas as sessões nos diversos espaços.

Nesta que é a 4ª edição da noite mais literária de Lisboa, há prosa e poesia para todos os gostos. “Sophia, a morte e eu”, romance de estreia do músico e escritor Thees Uhlmann (Alemanha), aborda as questões da morte, do amor e da amizade através de uma divertida road trip. “O leque arrepiado”, primeiro livro de contos da galardoada escritora Ann Cotten (Áustria), reflete sobre a vida e a arte, um tema transversal à sua obra. “Quando D. Quixote morreu”, do multipremiado escritor Andrés Trapiello (Espanha), é um romance histórico sobre todos os que conheceram D. Quixote em vida e que, por isso, deixaram de ser anónimos, enquanto o romance ficcional “A estação da sombra”, da escritora Léonora Miano (França), expõe com crueza as relações entre África e a Europa.

A Noite da Literatura Europeia viaja de África para o norte da Europa com “O cometa na terra dos Mumins”, de Tove Jansson (Finlândia), numa viagem à fantasia infantil finlandesa, com direito a estrelas cadentes, cometas e trolls. “Morro como país”, o primeiro texto narrativo do célebre dramaturgo Dimitris Dimitriadis (Grécia), aborda temas como a pátria e a identidade do povo grego, num texto simultaneamente doloroso e teatral. “Memoriais sobre o caso Schumann”, de Filippo Tuena (Itália), é um documentário a múltiplas vozes, dos últimos três anos de vida do compositor Robert Schumann, passados num hospital psiquiátrico. Por fim, o romance “As primeiras coisas”, de Bruno Vieira do Amaral (Portugal), encerra a secção de prosa desta noite, com a descoberta do bairro Amélia e dos seus habitantes, um mundo onde cabe toda a humanidade.

Na área da poesia, a antologia “Poetas checos contemporâneos” (República Checa), uma antologia bilingue, em português e checo, dá a conhecer dez poetas checos, sendo o galardoado Jakub Řehák o autor lido neste serão. Já “Seleção de poemas” (fantomateca) de Nicolae Prelipceanu (Roménia), dedica­-se exclusivamente a desvendar a obra do poeta, prosador e jornalista romeno.

As sessões de leitura decorrem em locais como a Sala de Extrações da Lotaria da Santa Casa da Misericórdia, o Teatro da Trindade Inatel, ou ainda o Vertigo Café, entre outros espaços, onde atores como Paulo Pires, Mónica Calle ou Pedro Lima vão dar voz, com alma e inspiração, às palavras dos dez autores europeus.

A Noite da Literatura Europeia é uma iniciativa organizada pela EUNIC Portugal, uma rede de institutos culturais e embaixadas, com o patrocínio da Representação da Comissão Europeia em Portugal.

In Rua de Baixo

sexta-feira, 27 de maio de 2016

“A Poeira que Cai sobre a Terra e outras histórias de Jaime Ramos”
de Francisco José Viegas

HISTÓRIAS NEGRAS COM SABOR AGRIDOCE


Se tivermos em conta o género literário policial made in Portugal, pensamos prontamente em personagens como Gabriel Ponte (criado por Garcia Rosado), Mário França (nascido da imaginação de Miguel Miranda), Peter Maynard (herói de uma trilogia criada por Dennis McShade, aka, Denis Machado) e Jaime Ramos, inspetor da secção de Homicídios da Polícia Judiciária do Porto e, segundo Francisco José Viegas, seu criador, «um solitário, pessimista e ligeiramente conversador, mas que nunca se escandaliza com nada».

Uma visita à página do personagem revela mais pormenores sobre o agente Ramos, nado e criado na Invicta, inveterado leitor e apreciador de charutos, e que comemora em 2016 a entrada na sexta década de existência.

E nada melhor para celebrar a referida data que a edição de “A Poeira que Cai sobre a Terra e outras histórias de Jaime Ramos” (Porto Editora, 2016), uma coleção de cinco histórias independentes no enredo que que observam alguns lugares comuns na suas narrativas, nomeadamente a cidade do Porto, uma melancolia latente e fortes personagens femininas (algumas delas agradáveis surpresas, outras bem-vindas novidades) que nem mesmo a morte apaga o seu brilho e encanto.

Esta mão-cheia de histórias (e não contos pois o seu autor afirma não saber escreve-los pois não tem a noção do seu tamanho e estrutura) escritas entre o ano 2000 e 2014, reunidas num mesmo espaço pela primeira vez, embala-nos através de uma escrita sincopada e deveras inteligente que tanto eleva a esperança como afunda uma breve noção de futuro. Num palco que além de Ramos tem ainda lugar para a pandilha habitual do inspetor composta por Olívia, Isaltino, Corsário, Vasco e Dulce, embrenhamo-nos, sem demoras, em “Um Gosto pela Imperfeição”, o homónimo “A Poeira que Cai sobre a Terra”, “Lágrimas de Sydney”, “A Câmara Invisível” e “Uma Recordação de Dezembro”.

O registo familiar e aconchegante da escrita de Francisco José Viegas faz-nos, felizmente, iniciar mais uma viagem, entre passado, presente e futuro, a bordo da vida de Jaime Ramos que transporta “ora uma jovem em roda livre, entregue à noite do Porto, ou uma mãe condecorada com as divisas e medalhas da aristocracia inglesa que se deslumbra com o Douro. Uma mulher arrebatadora que é um romance rock’n’roll, uma estrada de pó, ou uma atleta olímpica cujo corpo não pede explicações”, e que servem de porto de abrigo ao leitor mais incauto e sedento daquilo a que podemos chamar, sem pudor, requintados momentos de um policial literário.

In Rua de Baixo

quarta-feira, 25 de maio de 2016

“The Empire”
de João Valente

FILHOS DO ROCK


Para os apaixonados pelo complexo universo da música, no ano 2000, o cineasta norte-americano Cameron Crowe, dava a conhecer ao mundo “Quase Famosos” (Almost Famous), um filme que nos transportava para os loucos anos 1970 onde o rock explodia no seu máximo esplendor e colocava no centro da atenção um rapaz de 15 anos que conseguiu o seu primeiro trabalho como jornalista na revista Rolling Stone com o foco de acompanhar a primeira digressão dos Stillwater por terras do Tio Sam.

Durante duas horas ficámos a conhecer os tortuosos, e mais íntimos, caminhos do rock e como tudo pode passar do sonho ao pesadelo num ápice, sendo o sucesso o mais realista e certeiro sinónimo de efemeridade.

E é esse o mundo que João Valente decidiu explorar em “The Empire” (Topseller, 2016), um livro que é uma nostálgica viagem sobre a vida de quarto rapazes, apaixonados por música, que subiram ao mais alto patamar do estrelato musical mas que, à semelhança de muitas outras bandas, experimentou uma queda de estrondo.

Durante 11 anos, os The Empire, ou Mário Andrade na voz e guitarra, Ricardo Gomes na guitarra, Tiago Gomes na bateria e Eddie Steppleton no baixo, venderam milhões de discos, esgotaram salas em todo o planeta e foram reconhecidos pela indústria fonográfica.

Os quatro amigos que se conheceram por um divino acaso viveram mesmo uma realidade alternativa, um sonho invulgar que levou a que uma banda desconhecida em Portugal, que sobrevivia à conta de concertos de covers e trazia na bagagem um “álbum” manhoso, gravado no suspeito estúdio S&M Records, passando a ser uma das maiores referência rock do mundo pelas mãos de tubarões da música como Mike Morris, A&R da Aberdeen Records, ou o guru e manager Jimmy Duncan.

Tudo nasceu da teimosia de uns putos que frequentavam a lojas de discos “Woodstock”, propriedade de Lafitte, um filho do rock que tinha na música a sua razão de viver e cuja casa, que ficou conhecida como o “Dramático”, foi durante uns tempos solo sagrado para o quarteto. Dessa convivência, a banda, ainda como os hard-rockers The Deadly Machine ou Lazy Mayhem Orchestra, deu os primeiros passos e encarou uma realidade complicada onde a família e os amigos podem ser a solução ou o problema.

Quando o percurso da banda conheceu um inesperado ascendente, a tal oportunidade de sucesso que se assemelha a «um comboio que se passa uma vez na estação da vida», os Estados Unidos da América foram a base de um sucesso quase galáctico, também ele construído com alguns dos mais conhecidos ingredientes da receita rock & roll que possibilita um caminho traçado com prazeres proibidos como as drogas, o álcool, a megalomania e paranoia, e outros excessos que inclusive podem resultar da mais dura das faturas: a morte.

Mas quem eram, na verdade por trás da espessa cortina da fama, os elementos deste quarteto fantástico? É esse o maior desafio que João Valente passa para o domínio do leitor ainda que dê pistas para tal ao orientar a narrativa para territórios perto de um puzzle que mistura uma biografia (muito bem) ficcionada de quatro amigos com um exercício bibliográfico que se alimenta de factos reais, e outros testemunhos de gente verdadeira, que levam o leitor, à medida que se acumulam as páginas lidas, a assumir o todo como verdade dada a sua consistência.

Aliado a toda esta estrutura, que vai encantar não só os fãs do mundo da música mas também àqueles que gostam de um romance bem «esgalhado», João Valente tem ainda o discernimento de sugerir uma banda sonora paralela, essa realmente verídica, como também uma referência, esta no reino da boa ficção, aos discos editados pelos The Empire assim como as letras das suas canções e que fecham este livro em forma de perfeito acorde.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 16 de maio de 2016

“Vamos Comprar um Poeta”
de Afonso Cruz

Genial, a mais de 99%


E se vivêssemos numa sociedade em que tudo deveria dar lucro e o afeto e a moralidade se medem em percentagem e estar apaixonado, a mais de 75%, é um acontecimento sério? E se o materialismo controlasse a vida das pessoas? E se os nomes fossem substituídos por números e uma vírgula fosse sinal de estatuto? E se os alimentos fossem contados ao grama e uma metáfora fosse sinónimo de mentira? E se a poesia morresse? E se isto fosse um livro?

Então o resultado seria “Vamos Comprar Um Poeta” (Caminho, 2016) uma pequena história da autoria de Afonso Cruz sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura na nossa existência e, simultaneamente, uma ode à beleza das ideias e dos sentimentos movidos ao mais puro sentido da amizade.

No centro da narrativa está uma menina de 12 anos que queria ter um artista como animal de estimação. A escolha, mais económica e asseada, caiu na figura de um poeta, um ser estranho que dá vida e cor às palavras, faz sonhar, fala uma linguagem impercetível e apela ao devaneio «inutilista» face ao determinismo da economia, do crescimento e da prosperidade.

Para desespero do chefe da família, o poeta trouxe para dentro da sua casa, um reino particular onde o principal mantra era a filosofia da «contenção e do apertar do cinto», a arte de libertar o pensamento, de exercitar a liberdade, de interrogar os dogmas, de abrir e estender a felicidade ao quotidiano, ousando mesmo sugerir um outro tipo de crescimento que não o económico e gerar a eternidade em valores sentidos no âmago humano.

Numa mordaz e assertiva critica ao impulsivo vício consumista puro e duro que gera apenas uma «felicidade momentânea», Afonso Cruz volta a um território que já havido explorado em, por exemplo, “Capital”, um álbum ilustrado que tinha no centro da “narrativa” a relação entre um menino e o seu porquinho-mealheiro que era alimentado com capital.

Entre tiradas inutilistas, lucrativas e situações «exponencialmente parvas», “Vamos Comprar um Poeta” reserva ainda espaço para “supérfluas” tiradas de poesia de gente como Walt Whitman, Herberto Hélder, Dylan Thomas, Robert Frost e Wallace Stevens.

Tida como uma obra para um universo mais juvenil, esta mais-valia em formato de bolso de Afonso Cruz volta a explorar um planeta criativo único e desarma mentes de todas as idades fazendo uso de um poder narrativo que eleva o literário capital nacional, sacode para longe o cenário de queda e aumenta os dividendos da crítica inteligente evitando, definitivamente, a falência do cogito.

In Rua de Baixo

terça-feira, 10 de maio de 2016

“Um Postal de Detroit”
de João Ricardo Pedro

FAZ DE CONTA QUE É NOITE CERRADA NA NOSSA ALMA


Reviver a História, a vida ou a morte, pode ser uma amálgama de sentimentos antagónicos, principalmente se a vamos descobrindo, e reconstruindo, como se de um complicado puzzle emocional se tratasse. A verdade (sinta-se a liberdade de colocar a palavra entre aspas) está repleta de ecos de diferentes quadrantes, podendo o seu somatório não revelar o resultado, supostamente, esperado ou desejado.

É esse exercício da matemática da vida que João Ricardo Pedro, vencedor do Prémio Leya 2011 e autor de “O Teu Rosto Será o Último”, faz por via de “Um Postal de Detroit” (D. Quixote, 2016), romance cuja génese remete para um final de tarde quente de setembro de 1985, fatídico dia 11 (não, não é engano ou gralha) que marca na nossa memória o maior acidente ferroviário ocorrido em território português entre um Sud-Express com destino a Paris, repleto de emigrantes, e um Regional que seguia para Coimbra.

A falha, que se crê humana, deu lugar a um choque frontal em Alcafache, ponto da Linha da Beira entre Magualde e Nelas, e ceifou a vida a dezenas de pessoas (algumas fontes elevam a fasquia até às duas centenas ainda que não existam ainda hoje, trinta anos depois, um número oficial), algumas delas ainda sem a devida identificação.

No dia seguinte a esse trágico acidente, a mãe de Marta, a nossa heroína omnipresente, recebe um inesperado telefonema. Do outro lado da linha informam que a mochila da filha, estudante de Belas-Artes, apareceu nos destroços. Silvana, a empregada da casa e dona de um qualquer sexto, sétimo ou oitavo sentido, previa uma desgraça. João, no seu mundo de índios e cowboys no Oeste distante, assistia à cena.

Trinta anos mais tarde, agora no papel de esquizofrénico narrador, recordaria o miúdo sensível e devoto a uma irmã que desapareceu deixando apenas como rasto alguns cadernos de desenhos que misturavam vidas, realidades e efabulações mas que votavam ao esquecimento a sua vida. Será que para Marta, o seu irmão não existia além da figura de um intrometido que lhe assaltava o quarto?

A partir dessas recordações desenhadas, o (nosso) narrador entra numa viagem sem regresso ou destino e tenta recriar os passos de Marta nos dias que antecederam à tragédia de Alcafache. Pelo caminho, tortuoso, misterioso e onírico, ficamos a conhecer uma miríade de personagens entre prostitutas vesgas, aspirantes a campeões de boxe, polícias, assassinos, médicos, especialistas em futebol (de clara devoção verde e branca), fiéis servidores de rostos semelhantes a personagens de romances clássicos, mestres estrábicos do bilhar às três tabelas ou técnicos bairristas especialistas em (des)arranjos eletrodomésticos.

De Horácio Joaquim Jiménez passando por Ângela, Ahab, Bayarmaa («que antes foi Amanda e que antes de ser Amanda foi Núria e que antes de ser Núria foi Zélia e que antes de ser Zélia foi Fernanda e antes de ser Fernanda já havia sido Nandinha»), Raul, Alcides, Franclim, Hipólito ou Sofia, todos têm um lugar certo, no momento certo, no contexto certo, seja ele um bairro alfacinha, uma prisão no litoral alentejano ou uma breve incursão a Paris ou Detroit.

Independentemente do grau de fragmentação de cada relato, memória ou protagonista, João Ricardo Pedro consegue com que o todo narrativo seja coeso, inteligente assim como quase, quase, divertido e dramático. A marginalidade das ora curtas ora longas frases de “Um Postal de Detroit”, assim como das imagens que recorrentemente nos assaltam, exorcizam e cauterizam a dor da morte, da ausência, das paixões não correspondidas.

Entre a loucura e o discernimento fugaz da realidade, ainda que moldada com base num acentuado negrume, João Ricardo Pedro cruza e apresenta a vida tal como ela é e oferece um livro luminoso, viciante, muito, mas muito bem escrito.

In Rua de Baixo

domingo, 1 de maio de 2016

“Uma Questão Pessoal”
de Lee Child

Ajuste de contas com o passado


O lançamento deste título tem causado alguma celeuma junto dos fãs de Lee Child, pseudónimo do escritor britânico Jim Grant, que ficou conhecido no universo dos thrillers como o criador do personagem Jack Rachter, a figura central de “Uma Questão Pessoal” (Bertrand, 2016).

A controvérsia surgiu pois a narrativa difere um pouco dos restantes títulos com Rachter no epicentro, com a mesma a revelar-se menos dinâmica (algo que no nosso ponto de vista não prejudica a globalidade do livro), sendo que os cenários da trama se concentram maioritariamente no território europeu em vez do tradicional e exclusivo cenário norte-americano.

Tudo começa com um atentado ao presidente francês em Paris, aquando de uma reunião do G8. Na sequência deste acontecimento, Jack Rachter, ex-militar, é contratado pelo Departamento de Estado e pela CIA para descobrir o autor do disparo. Sabendo-se que a bala tinha o selo norte-americano as suspeitos crescem pois são poucos os snipers que conseguem um tiro limpo a mais de um quilómetro de distância.

No topo da curta lista de suspeitos está o dissidente John Kott, um norte-americano que está novamente em liberdade depois de passar 15 anos atrás das grades e que, em tempos, foi uma das “vítimas” da excecional capacidade profissional de Rachter.

Mas, desta vez, e para desagrado do próprio, Jack Rachter não está sozinha na caça ao homem. Por companhia tem a inexperiente Casey Nice, uma analista viciada em Zoloft, um poderoso antidepressivo.

Pelo caminho esta dupla vai enfrentar um raivoso exército de mafiosos e implacáveis sérvios e o sucesso de toda a operação depende exclusivamente deste improvável par. Enquanto se embrenha naquela que é uma das mais perigosas missões da sua vida, Rachter não consegue tirar do pensamento alguém que em tempos não conseguiu salvar. Mas agora tudo deve ser diferente e mais que procurar um assassino, o ex-militar quer ajustar contas com o passado e a salvar a honra é a sua maior arma.

A ação divide-se entre a paisagem rural do Arkansas e, principalmente, Paris e Londres. As manobras de Rachter e Nice vão conseguindo, a custo, debelar obstáculos e, no final da trama as surpresas, ou revelações, vão surpreender os mais acérrimos fãs de Child.

Ainda que não seja o melhor livro do autor britânico, “Uma Questão de Honra” é um livro eficiente, escrito na primeira pessoa, que navega através de uma complexa conspiração recheada por muitos e competentes personagens.

No plano global, a narrativa é bastante real e o foco na capacidade estratégica dos protagonistas, assim como a competência para Lee Child descrever ambientes, afasta qualquer fantasma de tédio ou o perigo de se cair numa filosofia tão querida aos filmes de ação made in Hollywood.

Rachter é, como habitualmente, o elemento mais bem construído da trama, principalmente devido a um perfil duro, descomprometido e pragmático mas também dono de um sentimento de humor assinalável e, uma surpresa ou talvez não, um nobre sentido cavalheiresco.

É certo que um certo “excesso” analítico das personagens não torne a ação tão fluida como alguns por certo gostariam mas esse “travão” não prejudica o resultado final do livro que é altamente recomendável para todos os seguidores de Child assim como fãs de thrillers.

In Rua de Baixo

“O Quinto Evangelho”
de Ian Caldwell

A abençoada arte de fazer um (grande) thriller


Nas derradeiras páginas deste livro, o autor, decide, e muito bem, fazer os devidos agradecimentos a quem o ajudou a transformar uma ideia cuja génese nos remete para uma década antes no romance que hoje aqui dedicamos atenção.

Entre sacerdotes, canonistas, professores ao precioso Google e arquivos do New York Times, muitos foram os contributos decisivos para que “O Quinto Evangelho” (Editorial Presença, 2016) fosse o sucesso que hoje se constata, tendo como principais condimentos consideráveis doses de mistério, política e um interessante balanço entre dogmas e ceticismos da fé.

A trama inicia quando Ugo Nogara, curador responsável de uma exposição de arte nos museus do Vaticano, descobre aquilo que se assemelha com um misterioso “quinto evangelho” que reforça a autenticidade do Sudário de Turim.

Quando Nogara é encontrado morto em Castel Gandolfo, entra em ação a polícia papal mas as suas buscas e investigação revelam-se infrutíferas e o crime fica por resolver. Indignado com a situação e decido a encontrar o(s) culpado(s), o padre ortodoxo grego Alex Andreou, grande amigo de Ugo, decide enveredar por uma busca por conta própria.

As maiores suspeitas caem na pessoa do padre Simon, irmão católico de Alex e colega de Nogara nos trabalhos do museu. Mas Alex está convencido que algo de muito sinistro se esconde por trás do trágico assassinato, que remete para um acontecimento que teve lugar no século XI e que colocou frente a frente ideais ortodoxos gregos e católicos romanos. Mas que acontecimento será esse que terá levado à morte de Nogara?

É isso que Alex, que assume o papel de narrador e protagonista de “O Quinto Evangelho”, nos vai mostrar ao longo de quase 500 páginas e que terá como um dos grandes fios condutores as diferenças religiosas entre o catolicismo romano e o ortodoxo grego, uma luta de memórias que vai trazer também a palco o pai de Alex e Simon, também ele um sacerdote cujo grande o sonho de vida era aproximar as duas referidas visões religiosas e que teve no Santo Sudário uma das maiores questões fraturantes que tem impedido a pretendida união.

À medida que avançamos na narrativa, o mistério adensa-se e o thriller cresce, revela-se mais cerebral e a ação presente assume-se natural e, de certa forma, um elo agregador do todo criado por Ian Caldwell. O assassinato está sempre presente e o contingente de personagens envoltas de mundos sombrios é constante, principalmente no caso de quem usa batina, mas, acima de tudo, é a intriga política que mais faz crescer o suspense global.

O livro oferece também muitos, e interessantes, debates teológicos, em particular aqueles fundados nos evangelhos do Novo Testamento (com alusões a Mateus, Marcos, Lucas e João) e da intrínseca, e suposta, inconsistência destes.

Cadwell tenta condensar esses quatro “episódios” num único documento escrito por alguém que viveu décadas depois da morte de Jesus, sob a forma do referido “quinto evangelho”. Essa sugestão trespassa para Alex que desconfia que o evangelho de João é diferente dos três restantes, nomeadamente em termos históricos e teológicos. E essa é a principal mensagem, sob a forma de revelação, que o “quinto evangelho” traz à tona, algo que poderá ser a ferramenta que falta para a concretização do sonho de pai de Alex e Simon, assim como um importante passo para provar a autenticidade do Sudário de Turim.

Igualmente interessante é a própria história pessoal de Alex, incluindo a dissolução do seu casamento (a sua esposa desapareceu logo após o nascimento de seu filho) e luta para manter a sua identidade grega, enquanto prossegue uma carreira na Igreja Católica Romana.

Pai de Pedro, um menino de cinco anos, Alex revela-se um personagem riquíssimo, extravasando o papel de investigador, sendo um excelente pai, irmão e amigo, e a sua voz é um dos ingredientes decisivos para a complexidade e estrutura do livro.

Em termos globais, é impossível não sentir o fantasma de Dan Brown mas, à semelhança, por exemplo, das obras construídas por José Rodrigues dos Santos, a investigação subjacente à narrativa surge como uma mais-valia à globalidade de um livro que tem a sapiência de fugir à tendência mainstream de colocar a ação como fator decisivo, tornando-se assim mais literário.

Acima de tudo, “O Quinto Evangelho” é um desafio que requer muita concentração, que devora e se deixa devorar, e tem no seu âmago uma estória muito bem estruturada e alicerçada num personagem de excelência que merece, a breve trecho, sequelas.

In Rua de Baixo

sábado, 2 de abril de 2016

“Balbúrdia”
A Pato Lógico está a oferecer livros.

 
“Balbúrdia” é uma das mais recentes novidades da editora Pato Lógico, título que integra a coleção Imagens que Contam. As 32 páginas do livro revelam, sem palavras, as histórias do foguetão do Tintim, um tambor que toca assim-assim, um elefante às riscas, um pião que roda pouco, um robô que parece louco. São brinquedos e mais brinquedos a encher um quarto que faz tempo não é arrumado por inteiro. Até que um dia os brinquedos ganham vida…

A obra de Teresa Cortez, “Balbúrdia” lembra-nos que no peito dos desarrumados também bate um coração que vibra. A par do lançamento do livro, a editora está a organizar um passatempo. Para tal, a Pato Lógico convida-nos a mostrar as nossas balbúrdias, sejam elas compostas por brinquedos, roupa ou demais objetos. O que fazer? É simples, basta expressar esse caos organizado através de uma descrição ou ilustração e enviar o resultado para loja@pato-logico.com até ao próximo dia 11 de abril. As participações serão avaliadas pela autora e equipa do Pato Lógico, e a Balbúrdia mais criativa recebe um exemplar autografado pela autora.

In Rua de Baixo