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domingo, 17 de julho de 2016

NOS Alive 16: Dia 3
Em dia de festa, cantam milhares de almas


Mais um dia, mais uma grande viagem, à volta do mundo. O terceiro e último dia da edição do NOS Alive deste ano foi muito intenso e foi possível sentir o habitual ecletismo sonoro. A abrir sentimos o calor mariachi dos Calexico, depois serpenteamos com uma dupla Jibóia, saltámos a galope dos Band of Horses e acabámos a noite com uma beleza em tons de branco e prata com a prestação estrelada dos Arcade Fire. Pelo meio ficamos a saber que a edição do próximo ano já tem data marcada e a busca pelo «melhor cartaz de sempre» já começou.

18.55 – Calexico – Palco Heineken

Quem chegou à tenda Heineken minutos antes do início do espetáculo podia ver o palco já cheio de gente. Ensaiavam-se guitarras, trompetes e bateria. Bem no centro, destaca-se um senhor de camisa vermelha que coordenava as operações. Cá em baixo, no imenso tapete verde, enquanto a música não tomava conta do recinto, havia tempo para conversar, descansar, que isto de andar três dias a viver maratonas sonoras não mata mas mói, e saltar uns gritos por Portugal. O palco teimava em manter-se sobrelotado e, ainda com a “música” ambiente a emanar dos écrans que ladeiam o palco, ouvem-se os primeiros acordes de “Frontera/Trigger”, a faixa que tem aberto os concertos recentes dos Calexico.

Num ápice, o ar é invadido por uma envolvência mariachi e Joey Burns, o tipo da camisa escarlate, John Convertino, Scott Colberg, Jacob Valenzuela, Martin Wenk, Sergio Mendoza e Jairo Zavala, quais sete magníficos, fazem-nos entrar num “filme” cujo argumento remete para os caminhos quentes da Tucson natal da banda que, por quase uma hora, nos fizeram sentir tudo menos os últimos homens (e mulheres) do planeta.

Com a evidente empatia conseguida logo nos primeiros instantes entre banda e público, Burns solta um «Bom dia» com um sotaque quase perfeito, e ataca “Falling From the Sky”, um dos exercícios mais pop do veterano coletivo. Mas a festa atingia sempre um especial pico com a aventura por territórios de ritmo mexicali e "Cumbia de Donde" fez dançar e aplaudir. Um dos momentos mais intensos da atuação, com Burns a assumir o papel de o contador de serviço, foi a dramática “Maybe on Monday”, o mesmo acontecendo com a lindíssima “Black Heart”.

Os corpos voltaram a agitar-se com “Soledad (Cumbia en la Mar)", uma versão do colombiano Enrique Bonfante, e “Inspiración”, com o microfone a ser assumido por Jacob Valenzuela que ainda assim não abandonou por completo o trompete.

O ambiente estava ao rubro e ninguém resistia a abanar corpo e alma. A fiesta seguiu-se com o clássico de coração destroçado que é “Alone Again”e o hino à redenção de nome “All Systems Red”, cujo pujante e brilhante final arrancou uma merecida ovação.

Também ele rendido, Joey Burns, confessava que se sentia na sua Arizona natal e agradecia a paciência que tínhamos em estar ali. Modéstias e simpatias à parte, a melhor recompensa que todos sentimos ao assistir a tudo isto assumia a forma de uma música sem fronteiras, feita e pensada numa espécie de crossover de todo o continente americano. As derradeiras balas sonoras disparadas pelos pistoleiros Calexico atingiram-nos em cheio no coração (derretido) e “Bullets & Rocks”, “Crystal Frontier”, vénia dividida para Burns e Convertino, e “Guero Canelo”, um original de Manu Chao, fecharam uma prestação que dificilmente se esquecerá. E porque isto do amor com o mesmo se paga, Burns despediu-se com um voto especial: «amanhã, vamos fazer força por Portugal na final do Euro!». A bola já rola?

Serpentes ecléticas e novidades, das boas

Ainda com os sons da latina América na cabeça, seguimos para outras latitudes sonoras. Ali mesmo à beira do palco Heineken, o espaço Raw Coreto estava muito bem composto e o ar, era invadido por sons que nos remetem para o Médio Oriente. Voamos até lá e ao descer do tapete aterramos no concerto de Jibóia, projeto português da dupla Óscar Silva (guitarras, eletrónicas e beat) e Ricardo Martins (bateria). O concerto teve como ponto de partida (e chegada) “Massala”, o recente álbum da banda que é, nas palavras de Óscar Silva, «uma mistura de especiarias», e nele se amalgamam sons da América do Sul, África, Europa e Ásia.

A internacionalização musical dos Jibóia, também apanágio de um festival como cada vez mais se assume o Alive, serviu como uma espécie de ponte para aquilo que foi dito por Álvaro Covões, diretor da Everything is New, numa conferência de imprensa em forma de balanço e que contou ainda com a presença de Paulo Vistas, presidente da Câmara de Oeiras, e Rita Torres Baptista, diretora de marketing da NOS. Numa breve e agradável conversa, salientou-se a segurança de um festival que tem tido o mérito de conquistar considerável reputação por esse mundo fora, integrando mesmo a lista dos 10 melhores festivais do planeta difundida pela insuspeita cadeia de televisão norte-americana CNN. Entre sorrisos e sentimentos de dever cumprido, ficamos a saber que esta edição do Alive contou com festivaleiros de 88 nações diferentes, num total de quase 32 mil almas de outros quadrantes, e que foram acreditados perto de 500 jornalistas, dos quais uma centena eram estrangeiros. No final, somos também informados que a edição do NOS Alive 17 já está em marcha e tem data marcada: 6, 7 e 8 julho.

21.00 – Band of Horses – Palco NOS

Na memória de quem esteve no Passeio Marítimo de Algés na edição do Alive de 2013, então ainda Optimus, e teve a sorte de estar no palco Heineken a assistir ao concerto dos Band of Horses, estão recordações de um excelente espetáculo da banda liderada por Bred Bridwell. Passados três anos, e face ao crescimento, a pulso, da banda, os Band of Horses subiram de divisão e estão agora entre os eleitos que pisam o palco NOS já sem a luz do sol.

Na ressaca da estreia de “Why Are You Ok?”, o quinteto de Seatlle tinha a difícil tarefa de subir a palco antes dos muito esperados Arcade Fire e sofreram um pouco a ansiedade que espelhava a cara dos milhares que tinham à sua frente. Independentemente disso, os Band of Horses estavam decididos a entreter os convivas e o começo do concerto deu-se com a fantástica “Is there a Ghost” que, noutros tempos, seria escolha mais que esperada para fechar a prestação. “Casual Party”, com um assumido perfil radiofrendly, foi o primeiro mergulho no refrescante rio que é “Why Are You Ok?”, bem secundado pela etérea e melancólica “The Snow Fall”, pérola retirada de “Everything All the Time”, registo de estreia da banda.

Seguiram-se “The Great Salt Lake”, a luminosa “Solemn Oath” e “In A Drawer”, as duas últimas safra do registo de 2016. A receção do público alternava entre a momentânea excitação e um aparente alheamento e as razões, dizemos nós, estariam associadas a algum desconhecimento em relação às novas canções e ao aproximar da presença dos Arcade Fire. Ainda assim, o jogo de guitarras de “Laredo” não deixou ninguém indiferente e o espírito texano da nova “Throw My Mess” fez abanar alguns esqueletos, enquanto a doce e aveludada “Hag” aqueceu e protegeu muitos corações do vento.

Perto do final, a emocionada declaração “No One's Gonna Love You” provocou muitos beijos no perímetro e “Cigarettes, Wedding Bands” abriu caminho para a música que todos esperavam e “Funeral” fez, pela primeira vez, todos olharem o palco.

Ainda que tivéssemos assistido a um bom concerto, os Band of Horses acabaram por ser “vítimas” dos senhores que se seguiam e, objetivamente, o coletivo liderado por Bridwell merece mais atenção e um espaço mais íntimo aumenta o sentido à sua música.

22.45 – Arcade Fire – Palco NOS

Que atire a primeira pedra quem tinha bilhete para o derradeiro dia de Alive e não sonhava com o concerto da banda do casal Win Butler e Regine Chassagne. À medida que o dia avançava a pergunta mais frequente era quanto tempo faltava para começar o concerto de Arcade Fire. Muita coisa mudou desde o lançamento de “Funeral”, em 2004, e, hoje, a banda canadiana atingiu um estatuto maior do que aquele que certamente esperariam. Cada disco do sexteto, que em palco se transforma numa espécie de plantel futeboleiro tal a quantidade de craques em campo, é uma esperada obra-prima cujas epifanias agradam uns e fazem outros questionar as direções tomadas.

Com um palco cuidado, digno de um estrelato que, literalmente, marcava esse espaço, os Arcade Fire entraram com o jogo ganho à partida mas cuja mestria tinha de ser provada, e ao longo de mais de hora e meia deixaram sangue, prateado, suor e provocaram algumas lágrimas, das boas.

“Ready to Start” abriu o caminho de uma estrada cujo destino nos fez chegar a uns deliciosos “The Suburbs. A viagem fazia-se ao ritmo de um passeio agradável. Ao volante, Butler, vestido de branco, mostrava-nos as direções e alguma dúvida sobre o trajeto facilmente era esclarecido por uma Regine, prateada, e que chegou mesmo a assumir o papel de decidida cheerleader.

Com o depósito cheio de um inesgotável combustível, subimos a um céu repleto de estrelas com “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, num ritmo naife e psicadélico, e ousamos não ofuscar pelo brilho de “Reflektor” e dos espelhos que invadiam o palco. Desafiando a gravidade e não podendo deixar de sentir, ao longe, os saudosos New Order, saltamos com “Afterlife”, e para não perder o ritmo, recebemos, de braços e ouvidos abertos, “We Exist” e a rockeira “Normal Person”.

Com a congregação rendida ao seu pastor, ainda que sem bíblias de néons, as palmas sublinhavam o andamento de “Keep the Car Running”, havendo condições para dar seguimento à liturgia de “Intervencion”(com uma breve revisitação aos Sex Pistols no final), com direito ao exorcismo negro que é “My Body is a Cage”. De novo à conta de uma luz nascida nos subúrbios, “We Used to Wait” empurra aos almas até ao céu, faz Win Butler correr desenfreadamente pelas laterais do palco, e não é de estranhar que cheguemos a um sítio como “No Cars Go”, um dos momentos mais bonitos da noite.

A celebração não parava, ainda que por vezes fosse necessário reduzir o andamento e “Ocean of Noise” conseguiu recuperar o fôlego para chegar a um bons portos de abrigo como são “Neighborhood #1 (Tunnels)”, cujo riff inicial desperta qualquer coração, e “Neighborhood #3 (Power out)”, que nos fizeram recuar até ao disco de estreia da banda. Mas se “Rebellion” nos manteve em “Funeral”, “Here Comes The Night Time” teve o condão de nos avançar no tempo e transportar para outras reflexões com o palco a ser invadido não por aliens mas pelos cabeçudos que ficaram conhecidos no videoclip de “Reflektor”, obra do mestre Anton Cornijn. O final do concerto, depois de Butler se aventurar junto do público, entretanto premiado com uma chuva de confetti, e receber como recompensa um cachecol de Portugal, fez-se ao som do esperado “Wake Up”, canção que faz disparar uma espécie de orgasmo auditivo e leva-nos a entoar a canção durante, minutos, horas, dias. De alma cheia, resta-nos, portanto, dizer obrigado, pois, bolas, valeu mesmo a pena!

Fotografia: João Lambelho

NOS Alive 16 - Dia 2
Gente comum, pregadores e sacanas à procura do paraíso



A corrida aos bilhetes para o segundo dia desta edição de Alive fez com que o mesmo esgotasse rapidamente. Olhando para o cartaz, diríamos que essa sofreguidão se deveria aos Radiohead mas o dia de ontem teve muito muito para oferecer, especialmente no universo mais indie. Logo nas primeiras horas, a australiana Courtney Barnett chegou, viu, tocou e venceu. O mesmo pode dizer-se de Josh Tillman, aka, Father John Misty que deixou a assistência rendida ao primeiro round e os Radiohead deram um concerto maravilhoso. Pelo meio ainda espreitamos a loucura ora psicadélica, ora stooner, dos Tame Impala e sentimos um breve cheirinho a Foals.

19.20 – Courtney Barnett – Palco Heineken

Ainda longe das 55 mil almas que assistiram ao concerto de Thom Yorke e comparsas, foi com um espaço do NOS Alive ainda respirável que tivemos a honra de ver os primeiros passos da australiana Courtney Barnett por terras lusas. Sem grandes pressões e com uma entrega do tamanho das suas (grandes) canções, Barnett, entre a timidez e o descaramento de carregar e espalhar riffs diretos ao coração de quem a ouve, deu um excelente concerto demonstrando como o quotidiano, dirão alguns, banal, pode ser a inspiração para contar histórias sonoras.

Notava-se que a grande maioria do público que encheu a tenda do palco Heineken não estava lá por acaso. As letras das músicas estavam na ponta da língua e alguns fãs (não é exagero, acredite-se) exibiam cartazes com frases, ou adaptações, das letras da autora de “Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit”, o muito bom álbum de estreia.

“Dead Fox” abriu o concerto de forma tranquila e decidida que subiu alguns degraus na intensidade com “Debbie Dower”, depois de Courtney afinar a guitarra e deixar-nos a salivar por mais das suas confissões suburbanas.

“An Illustration of Loneliness (Sleepless in New York)” foi a senhora que se seguiu e o ritmo algo dolente deu lugar a uma micro jam session que mostra que a miúda de Melbourne, com um estilo entre o (sacrilégio!) grunge e o garage sabe da poda. Já “Small Poppies”, um tour de force sensual com lampejos sónicos, transcende o habitual formato canção da australiana, reclama, «olho por olho, dente por dente», e faz-nos entrar, mais uma vez, numa história, banal, crua, pessoal, à conta de uma bateria, um baixo e uma guitarra que destilam acordes espartanos.

O cortejo foi celebrado com um tímido “Hey, how are you doing?” e respondido com um poderoso aplauso. A comunhão entre quem estava em cima do palco e a assistência atingiu o pico com “Depreston” e “Pedestrian at Best” e os muitos curiosos que passavam junto da tenda do Heineken assentavam arraiais. Seguiram-se “Elevator Operator”, gingona e com direito a momentos de crowd surf, “Avant Gardener” com Barnett a explorar um solo delicioso e, já a apontar para o final da prestação, “Lance Jr.”, uma das faixas mais antigas e solenes da australiana, fez o elogio à subestimação pessoal. O derradeiro suspiro do concerto chegou com a mensagem algo contraditória de “Nobody Really Cares If You Don't Go To The Party” pois todos os que assistiram à prestação de Courtney Barnett sentiram tudo menos indiferença e podem sentir-se felizes por terem decidido sair de casa e ficar ancorados neste mundo privado sublinhado com eletricidade (e paixão) e dedicação à causa “rock”.

Vento, psicadelismo e alguns tropeções

Com sete espaços culturais distintos, o NOS Alive cresceu e esta, que é a sua décima edição, prova que o evento pode, orgulhosamente, ombrear com os maiores festivais do mundo. A organização estimava a presença de mais de 30 mil estrangeiros durante os três dias de festival e isso é facilmente comprovado a cada “esquina”. Enquanto se passeia, olha para o cardápio e se escolhe o próximo concerto, empurrados pelo já habitual vento que teima em visitar o Passeio Marítimo de Algés todos os anos, os choques culturais rasgam-nos o sorriso e ao pedido de um esclarecimento vindo de terras de Sua Majestade paramos junto ao Raw Coreto. Na altura atuavam os The Loafing Heroes, uma aventura joint venture internacional que junta um irlandês, uma italiana, um norte-americana e um português (não, não é o começo de uma anedota…) cujo ambiente se situa entre o hippie e o folk, e ficamos à conversa com um casal de Manchester, adeptos do City, que nos confidenciava que o NOS Alive estava ao nível de, por exemplo, Coachella.

Feitas as despedidas, e quando os Foals faziam ecoar “Inhaler” e se preparavam para despedir da multidão que se tinha juntado no palco NOS, tivemos ainda tempo para assistir a um par de quedas que deixariam muitos futebolistas roídos de inveja mas que dificilmente arrancariam uma grande penalidade. A culpa não é do árbitro mas sim dos enormes tapetes verdes, sem linhas, que já começam a enrolar nas pontas e a apanhar os mais distraídos.

Felizmente que as lesões não foram impeditivas de continuar em jogo e podemos mesmo afiançar a forma destes jogadores pois quem os viu a saltar, cantar e vibrar com os Tame Impala nem sequer se lembraria de tais acidentes. Os australianos foram mesmo como uma espécie de analgésico pois o seu psicadelismo sintético, cruzado com momentos stooner, encheu de euforia os muitos milhares que tiveram oportunidade de assistir a canções como “Let It Happen”, com direito a uma primeira chuva de papelinhos coloridos, “The Moment”, a proporcionar um incauto strip feminino, ou “Elephant”. O ambiente estava bom, o público delirante e entregue, mas tínhamos um compromisso “litúrgico” e o mestre de cerimónias é merecedor de ver a sua congregação reunida a horas.

21.40 – Father John Misty – Palco Heineken

Com a tenda do Palco Heineken muito vazia, situação rara e da qual a prestação dos Tame Impala parecia ser a principal responsável, aguardávamos a prestação de Father John Misty, o mais recente alter-ego de Joshua Tillman, que já nos havia visitado no mesmo espaço, em 2011, mas no papel de baterista dos (grandes) Fleet Foxes. O palco, preparado com uma cortina em tom escarlate, rapidamente se encheu com a presença do esguio Tillman que, sem demoras e desde o primeiro momento do concerto, agarrou o público e o seduziu com mestria e como bem o quis.

Qual pregador, Tillman, de fato trajado, dono de uma voz que vagueia entre o doce e o “gutural”, agarrou-se a “Hollywood Forever Cemetery Sings” como se fosse a última prestação da sua vida, tal a notória dedicação. Dramático e num mundo só dele, mas no qual tivemos a honra de entrar, o norte-americano parte a loiça toda com “When You're Smiling and Astride Me”, tema do álbum “I Love You Heneybear” e do qual foi retirada a maioria das canções da noite. Tal como diz o poema cantado, vemos Tillman como ele é, uma alma apaixonada, que dança, seduz, e se ajoelha perante a música e o público. Uma toada calma ajuda o artista a entrar no papel de crooner e “Only Son of the Ladiesman” leva-nos para ambientes mais indie folk a lembrar uma certas raposas enquanto “Nothing Good Ever Happens at the Goddamn Thirsty Crow” molda a atmosfera com pinceladas mais blusy.

De coração partido, e com o público rendido total e incondicionalmente a um grande concerto, “Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins)” volta a trazer fantasmas dos Fleet Foxes e a seguir, apenas na companhia de um piano, “Bored in the Usa” é responsável por um dos momentos de maior partilha entre público e banda através de um coro “certinho”. Entretanto, a tenda vazia deu espaço a uma bem composta assistência ainda que alguns olhassem para o relógio, pois os Radiohead tocavam daqui a pouco.

Mas a coisa estava tão boa que abandoná-la seria, lá está, um pecado capital. Indiferente a essa hesitação, e confessando a sua pouca habilidade para comunicar com o público, Joshua Tillman destilava ódios e deceções com “Holy Shit” e, depois, “True Affection”, de arranque levemente eletrónico, demostraria uma faceta mais pop coroada com uma descida do homem, cujo espírito lembra aqui e ali Nick Cave, não ao inferno mais sim perto de um público que o agarrou, abraçou e agradeceu. O final do concerto aproximava-se e em ritmo country afolkalhado “I'm Writing a Novel” abriu caminho para o dramático “I Love You, Honeybear”. O final do espetáculo fez-se com a mais agitada “The Ideal Husband”, e podemos dizer que muitos corações femininos não desdenhariam esposar o rapaz Tillman, espelho do desalinho barbudo, responsável por um dos momentos mais intensos do segundo dia do festival.

22.45 – Radiohead – Palco NOS

A recente edição de “A Moon Shaped Pool” deixou muitos dos fãs dos Radiohead surpreendidos. Ainda que a banda de Thom Yorke, Jonny Greenwood, Colin Greenwood, Ed O'Brien e Philip Selway nos tenha habituado a surpresas e a algumas manobras de mercado que ousam desafiar os seus normais cânones, é sempre com muita ansiedade que se recebe um disco criado pelo quinteto que assinou alguns dos trabalhos mais importantes das últimas décadas e que ousam desafiar e reconstruir o seu som destruindo barreias e fronteiras (sabiamente) por si criadas.

De forma apaixonada, por vezes até matemática mas nunca alvo de facilitismo, os Radiohead construíram uma história especial e lograram reunir um séquito de seguidores acérrimos, e foi isso que se sentiu ao longo de mais de duas horas de um extraordinário concerto cujo palco transformado e decorado com espírito cinematográfico seria poiso de um dos melhores filmes da história de todas as edições do festival Alive.

A viagem começou inteiramente dedicada ao já referido “A Moon Shaped Pool” com a banda a respeitar inclusive a ordem de apresentação do disco. Assim, a pujante “Burn the Witch”, e as seminais “Daydreaming” e “Decks Dark” faziam crescer uma entrega e comunhão entre banda e público que nunca se desfez, e logrou mesmo momentos de puro êxtase lá mais para o final da atuação. A colheita do álbum de 2016 continuou com o puro exorcismo que é “Desert Island Disk”, numa apresentação acústica a apelar a momentos de acalmia anterior a fazer a nossa mente recuar até aos momentos mais reflexivos de Jim Morrison e companhia. “Full Stop” continuaria essa demanda mas agora com sinais mais sónicos a mostrar que o caminho da evolução se faz com quebras e ruturas evitando assim o marasmo da monotonia.

Em territórios mais pop, “My Iron Lung” fez despertar sentimentos mais letárgicos e recuou até aos momentos mais próximos de casamento perfeito de que as guitarras já foram sinónimo quando falamos de Radiohead. “Talk Show Host” faz regressar um certo sentimento quebrante e ligeiramente swingante carregando de batidas que aliam na perfeição baixo, bateria e elementos eletrónicos, situação semelhante acontecendo com a muito bem acolhida “LotusFlower”, retirada de “The King of Limbs”.

A música soa límpida, direta ao coração, e para isso é decisiva a entrega dos músicos e especialmente do frontman Yorke, hoje a personificação de um comunicador bem na sua pele, que ousa “dançar” e desafiar o público com algumas interjeições em detrimento de uma qualquer tentativa de diálogo.

Alvo de muitas versões mix, “The Gloaming”, safra de “Hail to the Thief”, traz uma tensão crescente carregada de dub que se viu atenuada com “Exit Music (To a Film)”, uma das pérolas de “Ok Computador”. O público agradeceu, fez silêncio e cantou de si para si, o mesmo acontecendo com “The Numbers” e “Identikit”, novas entradas em “A Moon Shaped Pool” e dois dos seus exemplos mais doces, ternos e cheios de alma. “Reckoner” traz “In Rainbows” à praça pública e “Everything in its Right Places”, recebida em delírio, anuncia “Kid A” e “Idioteque” que fazem os corações disparar. Canta-se, grita-se, vibra-se, chora-se. A música entra em nós e fica. E porque não saltar ainda mais alto? É isso que se faz à conta de “Bodysnatchers”. Antes da primeira paragem para abastecer energias, “Street Spirit (Fade Out)” faz-nos ir a um baú chamado “The Bends” que voltaria a ser aberto um pouco depois.

Sob uma estrondosa ovação, a banda sai de palco para entrar pouco depois. Tínhamos direito a encore, coisa rara nestes dias de Alive. O regresso foi sinónimo da ensimesmada e eletrónica “Bloom” - que algures no meio do público motivou um especial pedido de casamento com direito a anel -, logo seguido de “Paranoid Android”, “Nude”, da errónea soma de “2 + 2 = 5” e “There There”, ambas de “Hail to the Thief”.

Depois de duas horas de concerto, os Radiohead saíram mas voltariam com duas enormíssimas surpresas. Se se dissesse que se ouviria “Creep” e “Karma Police” na noite de ontem poucos acreditariam, principalmente Sharon, a inglesa que ao nosso lado, emocionada, afirmava que já tinha visto os Radiohead uma mão-cheia de vezes e nunca tinha ouvido o tema retirado de “Pablo Honey”. Estes dois últimos momentos, cantados apenas e a uma só voz, figuras angelicais incluídas, arrepiam, marcam e deixam sequelas, das boas, pois todos, mas todos os que assistiram a este concerto, pertenciam ou partilharam um mesmo lugar: o paraíso.

Fotografia: João Lambelho

In Palco Principal

NOS Alive 16
Dia 1 Há química entre nós


Quando no início da semana as informações meteorológicas avançavam com a possibilidade de chuvas e trovoada para o dia que abria a 10ª edição do Festival NOS Alive, tememos que os deuses estariam de costas voltadas para com as dezenas de milhar de almas que invadiram o espaço, renovado e agora em tons verdes, do Passeio Marítimo de Algés. Mas não, o sol tomou conta do dia e, à boleia do astro-rei, vivemos mais um dia memorável no que a concertos diz respeito.

A única tempestade sentida foi a da emoção pura com a energia rock dos Biffy Clyro, a abordagem ora intimista ora eletrónica de John Grant, a boa surpresa em tons teen dos Wolf Alice, a habitual e despachada mestria dos Pixies, e a festa em forma de rave dos The Chemical Brothers. Tivemos ainda tempo para ver sósias geek de Cristiano Ronaldo, elementos de uma boémia claque belga, alguns alemães cabisbaixos e a amizade crescente entre o Wally e uma galinha. Afinal, tudo, ou quase, pode acontecer no NOS Alive.

19.25 – Biffy Clyro – Palco NOS

Na véspera de estrearem “Ellipsis”, o seu sétimo álbum, o trio escocês Biffy Clyro deu um (esperado) bom concerto, misturando aceleradas doses de um rock rasgadinho com momentos mais calmos, havendo espaço para reviver “velhos” clássicos e mergulhar de caras em novas canções. E foi mesmo com o primeiro single de “Ellipsis”, “Wolves of Winter”, que Simon Neil, James Johnston e Ben Johnston abriram um espetáculo que durou pouco mais de uma hora. Como habitualmente, Neil, exibindo um tronco nu e coberto de tatuagens, puxava por um público ainda contagiado pela luz do dia e algo contido, e mostrava como três velhos amigos podem fazer um bom rock and roll.

Aos poucos a energia da guitarra, baixo e bateria foi afastando a letargia que se vivia no enorme tapete verde instalado à frente do palco NOS com canções como “Victory Over the Sun”, retirado de “Opposites”, ou o clássico “Bubbles”, de “Only Revolutions”. Explorando, e bem, toda a sua discografia, os Biffy Clyro lançaram-se às feras com momentos de acalmia como “Mountains” ou a mais operática e orelhuda “The Captain”. A sintonia e simpatia que emanava no palco encontrava eco na multidão que se avolumava em frente ao palco e não foi com espanto que se cantaram, em uníssono, temas como “Black Chandelier”, “Machines” ou “Living is a Problem Because Everythings Dies”, e já no final do concerto, “Sounds Like Ballons” ou “Many of Honour”. Não que tivessem de o provar, os Biffy Clyro são um trio coeso, fundado na amizade mútua e no prazer de tocar e dar concertos e deixar a sua marca, não sendo por isso de estranhar que Simon Neil, orgulhoso, tenha acabado o espetáculo a agradecer e a gritar bem alto: «We are Biffy fucking Clyro!»

20.45 – John Grant – Palco Heineken

Ainda com os riffs dos Biffy Clyro na corrente sanguínea, corremos até a um Palco Heineken muito bem preenchido, e não foi preciso esperar muito para ver John Grant a assumir os comandos da tenda com o seu som misto de batidas eletrónicas com momentos mais introspetivos e baladeiros. De calções e t-shirt, foi um descontraído e bem-disposto Grant que “atacou” o público com um agitado “You and Me” para, logo de seguida, acalmar o ritmo, mas não a emoção, com duas canções mais negras como o são “Sigourney Weaver”, a dedicatória sentida à atriz que protagonizou a saga “Alien”, tema retirado de “Queen of Denmark”, e “Grey Tickles, Black Pressure” do disco homónimo lançado em 2015.

Já num ritmo mais próximo daquilo que David Bowie fazia nos anos 90, misturando beats eletrónicos com um rock espacial e algum espírito funk, “Voodoll Doll” devolvia a agitação ao palco Heineken. A sempre épica e doce “Glacier” encheu o público de uma emoção transbordante, o mesmo acontecendo, já perto do final da prestação do norte-americano, com “GMF”, de “Pale Green Ghosts”. A atuação terminaria com o público a dançar ao som de “Disappointing”, sem Tracy Thorn, infelizmente, mas cheio de alma, ou devemos dizer soul?

Escolhas e algum descanso

Como se de uma prova de obstáculos de tratasse, um festival exige sacrifícios e opções. Seguimos um caminho longo ou procuramos um atalho? Independentemente do trilho precisamos de algum tempo para recuperar forças. Foi isso que fizemos entre os concertos de John Grant e Pixies e, felizmente, tivemos o bom senso, e a sorte, de assistir aos momentos iniciais do concerto dos Wolf Alice que genuinamente surpresos com tamanha e calorosa receção não perderam tempo e dispararam “Your Love’s Whore” e “You’re a Germ”, dois exercícios pejados de guitarras bem secundadas por um coeso duo entre bateria e baixo e uma voz deliciosamente frágil.

Com pena nossa já só ouvimos os primeiros acordes de “Bros”, pois já estávamos a caminho do palco NOS mas fica a promessa que a próxima visita dos Wolf Alice terá honras de especial atenção.

22.45 – Pixies – Palco NOS

Entretanto era tempo de ver, mais uma vez, o regresso dos Pixies a terras Lusas. Longe vão os tempos da sua fantástica e esperada estreia no Coliseu dos Recreios no raiar da década de 90, mas é sempre um prazer sentir a energia do quarteto agora formado por Black Francis, Joey Santiago, David Lovering e, por enquanto, Paz Lenchantin. E tal como na noite memorável de 13 de junho de 1991, aquilo que ontem ouvimos e sentimos do Passeio Marítimo de Algés foi um verdadeiro desfile de adrenalina cuja empatia se faz única e exclusivamente através da música pois a verbalização dos Pixies é feita via guitarras, bateria e baixo, remetendo as palavras para as poesias das canções. Sem demoras “Bone Machine” irrompe do palco NOS e a multidão acolhe com fervor todos os acordes possíveis. Seguem-se, sem interrupções, “Head On”, habitual versão dos The Jesus and the Mary Chain, e “Wave of Mutilation”, esta última cantada com um coro de milhares de vozes, o mesmo acontecendo com a deliciosa e pejada de baixo, “Subbacultcha”.

Houve tempo para percorrer toda a discografia da banda mas os momentos com maior frieza por parte do público aconteciam quando o quarteto abordava as canções mais recentes como “Baal’s Back”, “Snakes” ou “Greens and Blues”. Exceção a essa momentânea apatia foram “Indie Cindy” ou a novíssima e algo mariachi “Um Chagga Lagga”. Para reaquecer as turninas, “Velouria”, “Monkey Gone to Heaven”, “Levitate Me”, “Tame” e “Gouge Away” não davam descanso a uma audiência composta por velhos e novos fãs da banda.

Empenhados, como habitualmente, os Pixies aumentaram a fasquia emotiva na parte final do concerto com Joey Santiago a atacar a guitarra de forma tão veemente que nem um pequeno contratempo técnico em “I Bleed”, que levou a uma rápida troca de instrumento, estragou o momento. Na derradeira parte do concerto, o quarteto ofereceu clássicos como “Tame” ou “Vamos” (com Santiago a sacar sons e feedbacks da sua guitarra de várias formas, pedindo mesmo emprestada uma baqueta a Lovering) mas foram “Where is My Mind” ou “Here Comes Your Man” que deixaram em êxtase todos os que estavam no palco NOS. A festa terminou com mais três grandes canções: “Caribou”, “Debaser”e “Rock Music”.

01.00– The Chemical Brothers – Palco NOS

Quando “Hey Boy Hey Girl” ecoou, sublinhado pelos néons verdes que emanavam do palco, muitos foram os que correram para ver e ouvir melhor o chamamento de Tom Rowlands e Ed Simons. Com um misto de admiração e satisfação dizia quem assistia ao concerto dos britânicos: «bolas, se começam assim isto vai bombar!”». E assim foi, sem paragens para respirar pois a britânica e maquinal dupla fechou a noite do palco principal com um concerto excelente. Ao longo de cerca de hora e meia, dançou-se ao som de clássicos como “Go”, “Do it Again”, “Galvanize”, “Star Guitar” ou “Setting Sun”.

Certos de que o casamento entre a imagem e o som é o caminho para a conquista da audiência, os milhares que ousaram ficar até ao início da madrugada no NOS Alive viram a mente invadida por criações que ganhavam vida podendo mesmo transformar-se, num ato de eletrónica magia, em balões. O (grande) final do concerto fez-se ao som do hit “Block Rocking Beats” e todos puderam seguir o caminho de casa com a alma cheia. Os mesmos que tanto se espantaram com o início do concerto confessavam que, finalmente, cumpriram a promessa de ver os The Chemical Brothers depois de uma inesperada situação que os impediu de abraçar a edição de 2011 do Alive que ainda se denominava Optimus. Vemo-nos daqui a cinco anos?

Fotografias: João Lambelho

In Palco Principal

segunda-feira, 13 de julho de 2015

NOS Alive'15, dia 3

Dia de sotaque britânico


No derradeiro capítulo de NOS Alive'15, foram muitos e bons os concertos que aconteceram no Passeio Marítimo de Algés, que tiveram como denominador comum o sotaque britânico, com algumas honrosas exceções vindas dos Estados Unidos da América e Austrália. Se, logo no início, os irreverentes Sleaford Mods gritaram que o punk está bem vivo e recomenda-se, os portugueses Dead Combo mostraram como é fácil golear a jogar em casa e Azealia Banks não teve pudores: arrebatou e fez dançar. Pelo meio, os Mogwai deram um espetáculo cheio de força, Sam Smith encantou muitos milhares, os The Jesus and The Mary Chain recuperaram “Psychocandy”, Chet Faker entreteve as massas durante uma horita e os Disclosure, em formato live, demonstraram que estão em grande forma.

Sleaford Mods | 18h30, Palco Heineken

Vamos tentar explicar. Imaginemos um cruzamento entre Jello Biafra, Paul Gascoigne, spoken word, hip-hop minimalista e eletrónico, hardcore, um microfone, um computador, uma cerveja e uma garrafa de água. O resultado é, mais coisa menos coisa, os britânicos Sleaford Mods, uma dupla de Notthingham composta por Jameson Williamson (voz) e pelo “maestro” Andrew Fearn (programações), que trouxe ao palco Heineken a mais radical experiência punk da história do Alive.

Fruto de uma conjugação hipnótica de elevadas porções de niilismo, uma forte contestação social e uma descontração muito britânica, Jameson e Andrew chegaram ao palco como desconhecidos e saíram dele como um projeto que faz sentido, que primeiro se estranha, depois entranha, faz dançar e dizer cheers.

Entre “Silly Me” e “Tweet Tweet Tweet” passou pouco mais de meia hora e, desde que Fearn tocou no computador (nota de rodapé: Fearn, de cerveja na mão, passa o concerto a olhar para o público, a cantar para si e raramente toca na sua “máquina de ritmos”) e Jameson se fez ao microfone, é impossível resistir ao carrossel punk e “hooligan” dos Sleaford Mods, bem doseado pela rodopiante dança do vocalista, que encontra força e fôlego numa garrafa de água e numas bastas sacudidelas de cabelo com a mão, ingredientes principais num intenso ritual “autista” em forma de discurso contestatário.

Pelo caminho ficaram momentos como “Bunch of Counts”, “Live Tonight”, “Middle Men”, “Jolly Fucker”, “Tied Up in Nottz”, “Fizzy” (com dedicatória especial ao governo britânico) e “Jobseecker”, havendo também tempo para o novo single, “Tarantula Deadly Cargo”.

Rebeldes com causa, os Sleaford Mods são, mais do que uma banda, uma expressão urbana, um grito urgente e político, e um fenómeno a ter em conta. Afinal, punk’s not dead!

Dead Combo | 19h40, Palco Heineken

Neste último dia de NOS Alive 2015, olhando para o cartaz e respetivos palcos, os cardápios estavam delineados sem mácula, pois se, por exemplo, houvesse quem procurasse uma jornada mais “indie”, não precisava de sair do Palco Heineken. E, tal como há dois anos, neste mesmo lugar, os Dead Combo voltaram a dar um concerto inspiradíssimo, percorrendo um pouco de toda a sua discografia, mas com uma aproximação mais rock, pois Tó Trips e Pedro Gonçalves tinham como convidados, na bateria e precursões várias, respetivamente, Sérgio Nascimento e Isaac Achega.

Como habitual, sentada junto ao seu “fúnebre” altar decorado com flores, caveiras, e artefactos vários, a dupla iniciou hostilidades com o agitado “Cacto”, seguiu trajeto com o dolente “Rumbero”, fez abanar mentes e corpos com “Rodada”, num piscar de olhos ao universo do western spaghetti, e não perdeu oportunidade de revisitar “Bunch of Meninos” através de uma excelente versão de “Waits”, um elogio à parcimónia blusy do ontem quarteto, que libertava uma energia que contagiou as felizes almas que estavam no palco Heineken.

Enquanto uma tela nas costas do coletivo exibia imagens que contextualizavam os acordes, a viagem continuou com mais uma pérola retirada do último álbum de originais, a tropical “Hawai em Chelas”, que antecedeu dois dos mais brilhantes momentos da atuação: os já clássicos, alguns com dedicatória às "nossas miúdas", “A Menina Dança” e, talvez a melhor peça de filigrana nascida das mentes de Trips e Gonçalves, “Povo que Cais Descalço”, um exercício lindíssimo de um fado especial, tocante e maravilhosamente oferecido.

Numa apresentação que apenas pecou pela escassez de tempo (não ultrapassou os 50 minutos), tivemos a felicidade de ainda ouvir “Elétrica Cadente”, dançar com “Lisboa Mulata” e, para o final, com a bandeira grega em fundo e os ecos de um certo “oxi!” na memória recente, “Zorba the Greek” encerrou um grande concerto.

A moda dos calções, os calções da moda e outras indumentárias do NOS Alive 2015

Os festivais de música também são exímias passarelas de moda. Aqui criam-se tendências, absorvem-se tendências, marcam-se tendências, sendo as principais marcas presentes as principais responsáveis das direções tomadas. Se num ano optam por oferecer aos visitantes lenços para colocarem à volta do pescoço, toda a minha gente vai andar de lenço ao pescoço. Se no ano a seguir optarem por oferecer chapéus de palha aos visitantes, toda a minha gente vai andar de chapéu de palha. E por aí em diante.

Porém, a questão consegue ser bem mais complexa do que isso. A tendência vai ao ponto de – à imagem do rebanho que segue o seu pastor sem saber bem porquê – obrigar ao uso de indumentária x ou y porque está na moda, sob pena de, no caso de não obedecerem à norma estabelecida no Decreto-Lei para festivais nº42/2015, serem para sempre banidos da comunidade festivaleira. Os mini-calções da moda são um bom exemplo disso. Mesmo não ficando bem em toda a gente, toda a gente os usa, deixando à mostra partes do corpo que, por um lado já extravasam o conceito de sensualidade, por outro mostram ao mundo que não foi feita a devida pré-época estival no ginásio.

Mas, como nem tudo é um mar de espinhos, ainda há quem tenha conseguido imprimir um cunho pessoal nos trajes que escolheu para o festival. Para além das habituais t-shirts alusivas às bandas (há umas de Muse, com toda a digressão detalhada nas costas; outras de Prodigy e ainda umas de Disclosure, para além dos habituais clássicos de Nirvana, Metallica, AC-DC, Faith No More e até Run-DMC), há aquelas célebres t-shirts que distorcem os nomes das marcas (o resultado final está, normalmente, relacionado com drogas, comas alcoólicos ou frases de engate à trolha). Um pouco para todos os gostos.

Por outro lado, há quem exagere na excentricidade das indumentárias, marcando, por isso mesmo, a diferença. Há quem se vista à punk, parecendo ter saído de um concerto no CBGB, há quem se vista à hippie, parecendo ter viajado no tempo de 1969 para os dias de hoje e há quem exiba umas dreadlocks de fazer inveja ao mais dedicado rastafari. Vimos ainda um conjunto de rapazes com uns fatos de patinho de borracha (a dada altura, fazem uma espécie de centopeia humana na plateia no palco principal – WTF??!!), uma super-mulher (super-homem, ou lá o que era aquilo), umas vaquinhas malhadas, uns dinossauros e outros pormenores capazes de chamar à atenção pelas melhores razões. Há que saber distinguir o original do banal.

Sam Smith | 21h00, Palco NOS

A lição que Sam Smith trouxe ao NOS Alive foi simples: é possível servir bons concertos sem ter que transformar o recinto numa pista do Pacha ou numa festa de reveillon madeirense. Basta fazer uso daquilo que realmente vale e que, até ver, ainda é o mais importante nestas andanças: a música ter uma boa dose de carisma, ser bom comunicador (não basta pendurar a bandeira do país que visita ao pescoço e passear-se em palco como forma de homenagem local), ter uma boa banda de suporte já é meio caminho andado para o sucesso. Os outros 50% ficam na mão do público. Se este estiver para aí virado, tudo bem. Se não estiver, paciência.

No caso de Sam Smith, a empatia foi imediata. A sua entrada em palco, de sorriso rasgado, visivelmente satisfeito com o facto de estar de volta a um dos seus “festivais preferidos” (no ano passado tinha atuado no palco secundário; este ano, saltou para o principal – não há músico que não se sinta realizado ao inteirar-se destes progressos na carreira), quebrou, juntamente com as histórias de amores e desamores que fez questão de partilhar com o público (as suas inspirações para o álbum), a barreira que frequentemente se ergue entre palco e plateia, criando um laço de cumplicidade que durou até ao final da atuação.

“I’m Not The Only One” é a primeira do alinhamento. Há pessoas que arrancam a correr em direção ao palco de forma desenfreada, para não perderem uma letra que seja da música. Há muitas raparigas – mas também muitos rapazes – a quererem garantir a proximidade de Sam Smith, afinal de contas, estamos perante uma estrela internacional, vencedora de um Grammy para Melhor Música (“Stay With Me”, uma das mais celebradas do alinhamento) e Artista Revelação do Ano, entre outros. Entenda-se a loucura.

À medida que vai interpretando temas do seu álbum de estreia, “In The Lonely Hour”, Sam Smith vai introduzindo as músicas e explicando como surgiram e a importância que tiveram em certas fases da sua vida. Diz que “Leave Your Lover” é umas das suas favoritas do álbum, que “Lay Me Down” é dedicada a um rapaz que lhe partiu o coração por completo e que “Money on My Mind”, tema de abertura de “In The Lonely Hour”, é a única canção que não fala de amor. A dada altura, partilha com o público os problemas que teve de identidade, em assumir quem realmente era (a referir-se, certamente, à descriminação que ainda existe em torno da homossexualidade). É um concerto, mas podia muito bem ser uma conversa ou um desabafo. Um relato de vida.

Há tempo ainda para uma homenagem à falecida Amy Winehouse (uma baixa insubstituível na história da música), com "Tears Dry On Their Own”, e uma passagem por “Le Freak (Freak Out)”, dos Chic, e “Ain’t No Mountain High Enough”, de Marvin Gaye e Tammi Terrell. Por esta altura, Sam Smith já tem o público completamente na mão, o que faz com que “La La La”, tema de Naughty Boy ao qual o vocalista empresta a voz, seja apenas de consolidação junto dos milhares que assistem atentos e participativos na plateia. Todos cantam. Todos dançam. Todos aplaudem.

Mas a apoteose acabaria por vir em “Stay With Me”, tema cantado a plenos pulmões em todo o recinto, levando o próprio Sam Smith a emocionar-se, de lágrimas nos olhos, perante tamanha adesão. É que não houve vivalma que não soubesse a letra de cor e não participasse neste magnânimo coro. De arrepiar.

Mogwai | 21.10h, Palco Heineken

É preciso recuar até à já longínqua edição de 1999 do Festival Paredes de Coura para recordar a primeira vez que os escoceses Mogwai pisaram o território luso. Na memória ficou um concerto quente, cujo alinhamento explorou com grande avidez dois dos maiores símbolos discográficos da história do movimento post-rock: “Young Team” e “Come On Die Young”.

No ano em que comemora 20 anos de estrada, música e muitos palcos, a banda de Stuart Braithwaite e companhia chegou a este NOS Alive 2015 com uma vontade de dar a conhecer o seu riquíssimo catálogo musical, unindo passado e presente, guitarras ao desalinho com laivos recentes de eletrónica, e um carisma sonoro que nos transporta para um Olimpo repleto de pedais distorcidos, feedbacks em espiral melódica e outros desvarios típicos do ADN post-rock.

Os primeiros acordes surgiram com “White Noise”, faixa retirada de “Hardcore Will Never Die, But You Will”, mas, lamentavelmente, o som não ajudou muito na fase inicial do concerto. Ainda assim, essa questão foi sendo revolvida gradualmente e pudemos assistir a uma boa performance dos Mogwai, agora versão sexteto, devido à inclusão de Luke Sutherland, escritor e músico inglês, que tem acompanhado a banda.

Envolto de um misterioso ambiente sónico, “Summer” fez recuar até aos iniciáticos tempos de “Young Team”, com os cortantes riffs a contrastarem com momentos mais contemplativos, numa espécie de montanha-russa auditiva, plena de emoção, que nos faz subir e descer a pulsação a um ritmo frenético - sentimento esse que encontrou eco na muito aplaudida versão de “I’m Jim Morrison I’m Dead”, um exercício que inicia com um piano quase onírico mas que acaba por terminar num saudável e melódico frenesim. Mais agressivo, “Rano Pano”, um regresso a “Hardcore Will Never Die, But You Will”, fez sobressair a bateria de Martin Bulloch, ainda que nunca retirasse espaço ao espetro sónico, agora assombrado por salpicos eletrónicos, característica essa que teve expoente máximo com “Mexican Grand Prix”, a lembrar os ritmos mais dançáveis de uns Joy Division.

“Hunted By Freak”, faixa que abre “Happy Songs for Happy People”, tornou a atmosfera mais negra e a esta penumbra sónica juntou-se o violino de John Cummings, que momentaneamente abandonou a guitarra. O público reagiu com muitas palmas, que se adensariam com os primeiros acordes de momento épico que é “Mogwai Fear Satan”, uma das maiores e melhores composições da banda escocesa. O resultado é um longo caleidoscópio que provoca calafrios, acelerações cardíacas, espasmos de energia, um desejo de explodir num qualquer céu estrelado.

Até ao final, ainda ouvimos “Teenage Exorcist”, com Braithwaite ao microfone, “Remurdered”, sacada do alinhamento de “Rave Tapes”, e, como remate final, a deliciosa “Batcat”, com direito a repetição devido a problemas técnicos com uma das guitarras, mas que, resolvida a situação, funcionou com um epílogo hardcore exuberante.

Feitas as contas, analisados os prós e contras (técnicos), o saldo é muito positivo - nada que se estranhe da assinalável mestria desta banda, pois eles são os "Mogwai, from Glasgow, Scotland".

The Jesus and Mary Chain | 22h35, Palco Heineken

Quem gosta realmente de música, aprendeu a crescer com ela, com os seus ensinamentos, histórias, heranças e raízes. Com o passar dos anos surgem novas bandas, movimentos, são criados estilos mas não é todos os dias que temos a oportunidade de ver ao vivo quem está na génese de um estigma criativo, de uma imagem única que inspirou gerações a pegar em guitarras, baixos e bateria, e ter o pretensiosismo de formar uma banda.

É por isso um prazer (re)ver os agora grisalhos irmãos Jim e William Reid, que ousaram, no início da década de 1980, formar uma banda que, também ela, se inspirou nos universos de gente como os The Stooges, The Velvet Underground ou The Beach Boys e fez alguns dos melhores discos da rica história da música alternativa. E foi para apresentar, na íntegra, um desses brilhantes tomos, que os The Jesus and The Mary Chain subiram ao palco Heineken e abriram a caixa de Pandora que foi, é e será, sempre, “Psychocandy”, um disco de 1985 mas que continua a soar a novidade.

Para dar as boas-vindas aos escoceses, reuniu-se um palco Heineken bem composto, sem estar cheio, com gente que seguramente abraça e ultrapassa a ternura dos quarenta e está de alma aberta para receber o negrume dos feedbacks de William e o sussurro vocal de Jim.

De uma maneira que afastou fantasmas de anteriores concertos em formato vamos-lá-despachar-isto-rápido, os The Jesus and Mary Chain exploraram literalmente o filão de “Psychocandy” e, com muito fumo à mistura, o palco transformou-se num santuário sónico de melodias que cruzam mel e fel, saudade e sorrisos tímidos.

Logo a abrir, “Just Like Honey” fez com que não fosse preciso beliscarem-nos, pois, mais do que um sonho, era um concerto de The Jesus and Mary Chain e, ao longo de mais de uma hora (oxalá fosse mais…), sentimos batidas seguras, guitarras em louvor de pedais abençoados pelas divindades feedbackianas e uma atitude expressiva (ou não) q.b. por parte dos principais protagonistas.

Depois foi abrir ouvidos e alma e deixar entrar o som trashy de “The Living End”, “In a Hole” ou “Never Understand”, a densidade de “Taste the Floor”, o espectro sónico da belíssima “Taste of Cindy”, a urgência surf de “The Hardest Walk”, o elogio ao baixo que são “Inside Me” e “Something’s Wrong”, as mais doces “Sowing Seeds” e “Cut End”, a melodia de “You Trip Me Up” e o longo e denso suspiro que é “It’s so Hard”. Tudo isto embrulhado com assinalável entrega (é preciso dizer também mestria?), reconhecida harmonia vocal, muito fumo e um jogo de luzes que transformou o palco num altar de tons cinzentos, onde a luminosidade era, acima de tudo, sonora.

Depois de “Psychocandy”, tivemos ainda o privilégio de ouvir mais três peças da história da banda. A saber: “Head On”, “Some Candy Talking” e, por fim, “Reverence”.

Chet Faker vs Azealia Banks: um verdadeiro choque térmico

Não há nada que se possa dizer do concerto de ontem de Chet Faker que possa acrescentar alguma coisa ao que foi dito e escrito relativamente às duas datas no Coliseu dos Recreios. É um músico talentoso, um verdadeiro sonoplasta multifacetado: constrói canções, manipula-as à sua maneira, mete efeitos, sobe faders, roda botões. E, quando é altura de cantar, não falha. Servem de exemplo temas como “I’m Into You”, “Talk Is Cheap” e a cover de Blackstreet, “No Diggity”. Até aqui tudo bem.

Porém - e desculpem-nos os fãs mais afincados, ou mesmo aqueles que não tiveram hipótese de o ver nos Coliseu e encontraram nesta passagem pelo festival uma bomba de oxigénio -, este não era o concerto indicado para esta hora, para este ambiente, para este palco. A música de Chet Faker é perfeita para sunsets nos bares de praia da Costa da Caparica ou fins de tarde nas esplanadas dos cafés das docas lisboetas - não é para ser encaixada com calçadeira entre Sam Smith e Disclosure. Nem tão cedo perdoaremos esta falha de Stromae...

A passagem do concerto de Chet Faker para o de Azealia Banks equiparou-se àquelas alturas em que entramos dentro de uma banheira de água quente sem preparação prévia. Por esta altura, Azealia Banks levava a tenda Heineken ao rubro com os seus temas vibrantes, carregados de subgraves (sub, sub, sub e mais sub), ao bom estilo de Missy Elliot, e com a sua presença contagiante em palco – bem como a dos seus bailarinos. Estão a ver aquelas festas nos clubes nova iorquinos carregados de pessoal até não poder mais e com um ambiente de cortar à faca? Nada a ver. Este é o ambiente perfeito para quem gosta de rap pelos contornos meramente musicais, ainda que as letras de Azealia Banks não tenham muito sumo para espremer - veja-se o caso de temas como “Yung Rapunxel”, “Bbd (Bad Bitches Do It)” e “Desperado”. O concerto ideal para a hora, espaço e público em questão.

Disclosure | 01:00, Palco NOS

Já vimos neste palco muitos espetáculos de música electrónica, como Chemical Brothers, The Prodigy, Duck Sauce, Steve Aoki (a cantar desde 1919....), LCD Soundsystem, e outros que a memória já não consegue alcançar, e garantimos: este foi, de longe, um dos melhores.

Luz e vídeo sóbrios, sem grandes extravagâncias e sem, voltamos a repetir, transformar o recinto numa discoteca parola (não há tartes nem confetis, nem serpentinas, nem vuvuzelas, nem pirotecnia pacóvia, nem bolas, nem o raio que o parta). Há linhas de luz robotizada que sobem e descem consoante as músicas, há todo um cenário de leds que vai ilustrando a atuação do duo (houve mesmo um gato a atravessar o ecrã de um lado ao outro, ou foi mera alucinação?), e, claro, há todo um conjunto de canções orelhudas, dentro do limite do aceitável, capazes de levar multidões ao êxtase.

Iria este concerto dos Disclosure aproveitar a presença de Sam Smith para uma participação no tema “Latch” e, quem sabe, para estrear ao vivo a nova música que o coletivo se prepara para tornar pública? Esta era uma das maiores incógnitas de todo o festival. Incógnita essa que se evaporou no momento em que o coletivo se atirou a “Latch”, já no encore, sem que Sam Smith tivesse entrado em cena (vem, não vem, no verso, no refrão – nada....). Foi pena, mas não evitou que a festa se fizesse na plateia, até porque foi o próprio público a tomar as rédeas da canção e mostrar que ainda havia energias de reserva para garantir que o duo britânico voltasse a sair de Portugal com boa impressão - umas juras de amor entre palco e plateia acabaram por garantir que o sentimento era recíproco.

Kwabs, o homem de “Walk”, acabou por ser o único convidado da atuação, tendo-se juntado ao duo para dar voz a “Willing & Able”, um dos temas novos que o coletivo trouxe para o concerto.

Ver DJs ou produtores atuarem em formato live deixa sempre uma incógnita no ar: mas estarão eles realmente a fazer alguma coisa? Ou será apenas um excelente exercício de coordenação e mímica? Se muitas vezes desconfiamos das rainhas (e reis) da pop quando sobem ao palco e protagonizam concertos irrepreensíveis a nível vocal, porque não desconfiar do pessoal que se esconde atrás de um deck de CDs ou de um móvel recheado de samplers, computadores, sintetizadores e mais uma data de aparelhos dignos de um cockpit dos mais avançados Boeings? Será sempre um gigantesco ponto de interrogação. Na atuação dos Disclosure houve coisas tocadas; outras pré-gravadas, não sabemos ao certo o quê, mas também não é assim tão relevante.

Do alinhamento do duo fizeram parte temas como “White Noise” (a primeira de todas, a estender a passadeira vermelha a “F for You”), “You and Me”, “When a Fire Starts to Burn”, “Help Me Loose My Mind” (uma das mais belas de “Settle”) e “Grab Her”. Houve espaço para outros temas novos, como “Bang That” e “Holding On”, pastilhas efervescentes para a pista de dança, a seguirem a mesma fórmula e a resultarem ao mesmo nível das mais antigas. No final da atuação, depois de uma celebradíssima “Latch”, que não deixou ninguém indiferente (visto aqui de baixo, até na zona VIP há pessoas atentas e a dançar, por mais incrível que pareça), a expressão de satisfação era geral. Estava assim concluída mais uma edição do NOS Alive, pelo menos para nós, pois as tendas Clubbing e Heineken ainda propunham música até às tantas.

Com Manuel Rodrigues

Fotografias: Marta Ribeiro e Rita Bernardo

In Palco Principal

domingo, 12 de julho de 2015

NOS Alive'15, dia 2

Foi você que pediu um dia eclético? 


Fusão, noise, rave versão hardcore, hip-hop, dance, soul, pop e alguns silêncios. Eis aquilo que muito se ouviu no segundo dia de NOS Alive, data que ficou marcada pelo apelo excêntrico dos Blasted Mechanism, pelo punk urgente dos meninos Marmozets, pelo elogio da palavra da senhora Capicua, pelo desvario dançante dos The Ting Tings e Róisín Murphy, pela irreverência synthpop dos Future Islands, passando pela dicotomia caos/silêncio de The Prodigy e James Blake.

Blasted Mechanism | 18h00, Palco NOS

Uma das bandas que faz parte do imaginário coletivo dos portugueses, os Blasted Mechanism são a prova de que vale a pena subir aos palcos e distribuir magia em forma de música, tenho ganhado, merecidamente e há muito, um especial culto.

No ano em que completa duas décadas de existência, o coletivo de Valdiju, Guitshu e companhia continua a ser responsável por um rock de fusão que tem as principais referências na World Music e nos filões alternativos e eletrónicos, não sendo estranha a convivência entre guitarras elétricas de duplos braços, bambulecos, um didgeridoo, tambores e aquilo que a imaginação propuser.

Visualmente (e, por vezes, também sonoramente) herdeiros da excentricidade de uns Sigue Sigue Sputnik, ainda que sem ramificações cyber-punk, os Blasted Mechanism voltaram a ocupar lugar no palco principal no Alive, depois do concerto memorável que deram na edição do Alive Oeiras 2007. E, tal como nesse dia, ontem os Blasted voltaram à carga com mais um espetáculo carregado de energia, que teve como um dos principais atrativos “Egotronic”, o mais recente álbum da banda.

E seria mesmo “Really Happen”, canção retirada do novo disco, a abrir a contenda e a espalhar brilho, excentricidade e um ritmo forte à base de riffs pujantes, batidas certeiras e uma eletrónica bem latente, alicerçada na habitual e competente componente cénica, desta vez com os membros da banda “vestidos” em tons de negro e branco.

Ao longo de perto de uma hora bem passada, os Blasted Mechanism fizeram o já muito público dançar, bater palmas e sentir o seu espólio criativo com clássicos como a galáctica “Blasted Generation”, a descaradamente dançante “Karkov (Nadabrovitchka)”, o interventivo “Puxa Para Cima a Tua Energia”, o também recente “Liberation” e, a fechar, o instrumental “The Atom Bride Theme”, composição que colocou definitivamente o coletivo no radar da música nacional.

Marmozets | 19:20, Palco NOS

Energia, garra e entrega. O concerto de Marmozets incendiou por completo o palco NOS, numa hora em que ainda poucas pessoas se concentravam na plateia e em que o sol começava timidamente a caminhar em direção ao horizonte do atlântico. Amplificadores de guitarra no máximo (nível 11), baixo possante e distorcido, bateria agitada e uma voz feminina que consegue ir do registo dito normal à berraria. A ficha técnica dos Marmozets sublinha que estes são afiliados à editora Roadrunner, casa-mãe de bandas como Slipknot, Caliban, Hatebreed e Lamb of God. Isto explica muito daquilo que se passou em palco.

São miúdos, é verdade – a média de idades deverá rondar os 25 anos (se tanto), sendo que a vocalista, Becca Macintyre, tem 19 anos. Mas isso não lhes impede de se comportarem em palco com a mesma postura dos trintões e quarentões que exercitam o mesmo género. Becca, irmã de Josh (bateria) e Sam (guitarrista), vai apresentando as músicas ao público à medida que as interpreta, gingando pelo palco ao bom estilo de Jagger e aumentando a concentração de testosterona na plateia. Os seus irmãos, bem como Jack e Will Bottomley (guitarra e baixo, respetivamente), vão assegurando a parte instrumental, e, sempre que podem, vão puxando pelo público - numa das pausas, um dos guitarristas consegue bater o recorde de “fucks” numa frase, rematando com um “you’re fucking amazing” e levando a plateia ao delírio.

Por este palco já passaram bandas como Paramore, verdadeiras desilusões no que toca à performance ao vivo. Estes miúdos, com apenas um álbum editado, de onde retiraram temas como “Love You Good”, “Captivate You”, “Born Young And Free” e “Hit The Wave”, conseguiram chegar e vencer. Ainda para mais depois de se terem atirado a uma versão de “Iron Man”, dos Black Sabbath, para regozijo dos publico mais velho. Há que ser inteligente...

Capicua | 20.50h, Palco NOS Clubbing

O circular constante num espaço como é o festival NOS Alive proporciona assistir a fenómenos curiosos. Muitos são os que aproveitam as tendas dos palcos temporariamente vazios para descansar, comer ou simplesmente conversar. À medida que os artistas chegam ao palco, alguns vão à procura de melhor destino.

Mas também há casos em as pessoas acampam para esperar pelo seu artista preferido, para ter o melhor lugar, para ver bem de perto tudo o que se passa e é transmitido no palco. E foi isso que aconteceu com o (muito aguardado) concerto de Ana Matos Fernandes, conhecida no meio musical como Capicua.

Com a tenda do NOS Clubbing a abarrotar pelas costuras, Capicua, M7, Virtus na programação, DJ D-One no scratch e Dário na arte desenhada em forma de grafitti informático, ofereceram um dos momentos mais memoráveis deste segundo dia de NOS Alive, com a habitual mestria de um Hip-Hop que tem como especial encanto a descarada métrica da língua portuguesa e a genialidade das letras de Capicua, mulher que não vira a cara à luta e que é, hoje, um dos nomes maiores da cultura musical nacional.

Ainda que lesionada, Capicua não deixou de saltar, timidamente, pedir braços no ar e dar, de mão beijada, música com sentido, palavras cujo fado versa sobre causas sociais, medos diversos, injustiças, ódios, política, amor, desejos e uma liberdade que, nas suas palavras, "é feita e conquistada todos os dias".

Depois de uma entrada à capela em que Capicua, qual mulher do Norte, reforça que todos podemos ser "o fruto da cultura", “Mão Pesada” foi o primeiro capítulo musicado, seguindo-se de “Jugular”, um dos temas incluídos no coletivo de remisturas intitulado “Medusa”, o swingante “Sereia Louca” e “Maria Capaz”, tema a que nem um “prego” de Capicua retirou o brilhantismo.

Com toda a gente de braços de ar, Capicua não deu tréguas e desfilava, com distinção e um delicioso fôlego “tripeiro”, temas como “Tabu”, “Casa de Campo” e “Medusa”, momento que contou com a presença de Valete.

O concerto terminaria com “Barulho”, não sem antes o muito público presente ter direito a fazer uma viagem até “Vayorken”, tema que torna impossível não dançar, vibrar, sentir Capicua, ou, por que não dizer, "a Ana da bronca, sempre do contra".

Um passeio pela cobiçada zona VIP, ao som de Sheppard

A avaliar pela quantidade de pessoas que se aglomeram na entrada da zona VIP do festival, esta é uma das zonas mais concorridas do recinto. Há quem tente intrujar os seguranças à porta. “Mas a minha amiga entrou”, “mas o outro disse-me que podia”, “mas eu sou filho ou sobrinho de fulano tal” - todos os argumentos são válidos para aceder ao terraço do espaço, que fica mesmo de frente para o palco principal, mas a uma distância generosa. Mas, afinal de contas, o que haverá de tão aliciante nesta zona? Vamos averiguar.

No piso térreo podemos dar de caras com um ambiente digno de uma festa da discoteca Lux. Há miúdas giras, de sorriso rasgado, a garantirem que vale a pena permanecer algum tempo dentro do espaço e não ir já embora. Há um DJ a tocar num prestigiado Funktion-One e algumas pessoas a conversar aqui e ali. Há quem se cruze connosco de nariz empinado, transparecendo um enorme sentimento de superioridade. Afinal de contas, VIP é a sigla para “Very Important People”. Mas também há quem olhe para nós e pense que somos importantes, filhos de algum músico, primos de algum elemento da organização, ou, até, quem sabe, um dos artistas que vai pisar um dos palcos secundários. Este é o quem é quem versão festival, um poker face ao nível da mais profissional liga de poker.

No piso superior, o ambiente é similar. Não há DJ nem nenhuma atividade aliciante, salvo uma projeção vídeo alusiva à cidade de Lisboa (Ponte 25 de abril, Rio Tejo, etc.), mas há um bar que serve um gin tónico à maneira. Neste patamar, quem toma as rédeas da música ambiente são os Sheppard, coletivo australiano responsável pelo êxito radiofónico “Geronimo”. Está-se tudo nas tintas para o que a banda faz ou deixa de fazer em palco. Desde que garantam uma música de fundo para que as pessoas possam falar à vontade, sem recear que o vizinho do lado possa perceber que, na verdade, estão a falar mal dele. Sim, os VIPs são como nós, comuns mortais - também cortam na casaca uns dos outros.

Ouvem-se as primeiras notas de “Geronimo”. Algumas pessoas deixam a conversa ao meio e correm em direção ao parapeito desta gigantesca varanda e.... sacam do telemóvel para filmar o momento. Cantam o refrão um par de vezes e regressam ao grupinho onde estavam com a sensação de dever cumprido. A música chega ao fim, ouvem-se uns aplausos eufóricos como se este estivesse a ser o melhor concerto do mundo, e a coisa continua, com a apatia normal de quem está a ouvir música de fundo. O gin está bom, o sorriso das raparigas giras é cativante, mas vamos pregar para outra freguesia.

The Ting Tings | 22.10h, Palco Heineken

Inquilinos privilegiados de um luxuoso edifício musical alicerçado numa mistura de rock indie, new wave e elevadas doses de um descarado punk dançável e sintético, a dupla britânica The Ting Tings, composta pelos multi-instrumentalistas e cantores Katie White e Jules de Martino deu, sem dúvida, um enorme e vibrante espetáculo, tornando, durante uma hora, o palco Heineken numa gigante pista de dança.

Depois da introdução excitante que foi “Jim Morrison Speaks” e do gingão “This is What you Want”, com toda a tenda a saltar ao movimento da deambulação frenética de White, a menina dos The Ting Tings não perdeu a oportunidade de exercitar o seu português através de uma cábula, ao qual não faltou um ou outro requintado palavrão, mas que tinha como mensagem primordial um elogio à celebração da música. E foi, religiosamente, dizemos nós, cumprida a missão.

Mais orgânicos e “pesados” ao vivo, Katie e Jules, na companhia de um DJ, atacaram, numa primeira fase, temas como “Great DJ” e “Hang it Up”, retirados respetivamente de “We Started Nothing” e “Sounds from Nowheresville”, os dois primeiros discos da banda, e faziam crescer as expectativas, pois é difícil entender quais os limites que os The Ting Tings conseguem estabelecer em palco.

Enquanto Katie White troca de guitarra, Jules de Martino, divide a atenção entre bateria e também guitarra, e “Hang it Up”, com muito scratch à mistura, é o trampolim perfeito para a chegada de uma das estreias da noite. Falamos de “Green Poison”, tema incluído no recente “Super Critical”, que foi apresentado com especial pedido de coloração em palco e cujo estonteante groove atinge os nossos ouvidos, e corrente sanguínea, de forma certeira. A celebração seguiu-se com “Shut Up & Let Me Go”, um irresistível apelo à dança onde os esparsos acordes da guitarra de Katie White são como um sentido obrigatório numa estrada sem limites de velocidade.

Mas nem só de guitarras e bateria se faz a dupla Katie & Jules, pois, em vários momentos do espetáculo, foram seis as mãos a manobrar os efeitos sonoros, samples e afins, que trouxeram ao Palco Heineken, por exemplo, ecos dos desconcertantes Talking Heads, através de excertos de “Once in a Lifetime”.

Já de regresso ao set habitual, seguiram-se “Fruit Machine”, em ritmo descaradamente clubbing, o punky “This is Not My Name” e, envolto num saudável caos sonoro, “Hands” seria a apoteose de um magnífico concerto que levou mesmo, nos instantes finais, Jules de Martino a gravar o momento no telemóvel.

Mumford & Sons | 22:20, Palco NOS

Há em Mumford & Sons dois tipos de Mumford & Sons: o acústico e o elétrico. O primeiro de todos – menos interessante, no nosso entender – tem como epicentro o banjo e a viola, indo buscar inspiração à folk pastoral, responsável pelas sonoridades presentes em “Sigh No More” e “Babel”, os dois primeiros álbuns do coletivo. O segundo – mais atrativo para os nossos ouvidos – liga-se à corrente elétrica e vai buscar nos amplificadores a energia necessária (com conta, peso e medida) para explodir ao vivo. Se funcionaram os dois em concerto? É óbvio que não, até porque é a própria banda a primeira a afirmar que já não se indentifica assim tanto com o banjo e os campos verdejantes da folk, sendo este último álbum, “Wilder Mind”, um excelente exemplo disso.

É de admirar a coragem que Marcus Mumford teve para redesenhar a sua sonoridade, arriscando perder alguns fãs e reconstruir o seu batalhão de seguidores. Porém, tal afastamento parece não ter acontecido. As pessoas que cantaram e aplaudiram “I Will Wait”, single do álbum “Babel”, despachado nos primeiros momentos do concerto, foram as mesmas que acenderam isqueiros em “Believe”, belíssimo single do mais recente disco, que conta com um magnetizante crescendo, desembocando numa explosão controlada de instrumentos. Ainda assim, é de salientar que foi maior a entrega do público em temas como “Tompkins Square Park”, “Snake Eyes” e “Ditmas” do que em canções como “Below My Feet”, “Thistle & Weeds” e “The Cave”. E falamos do público em geral, não só dos fãs. É tudo uma questão de décibeis debitados.

Future Islands | 23:30, Palco Heineken

Provavelmente, um dos melhores concertos desta edição do NOS Alive (não façamos juízos precipitados, para não corrermos o risco de sermos apedrejados em praça pública pela falta de coerência das nossas afirmações). A banda de Samuel Herring voltou a repetir a proeza alcançada no Musicbox, desta vez num espaço maior, com mais público e mais condições a nível sonoro, levando o público ao êxtase com um concerto altamente competente, combinando todas as energias e mais algumas que é possível encontrar no cerne do seu vocalista e frontman: elétrica, atómica, sub-atómica, nuclear, térmica. Todas e mais algumas, capazes de nos deixar a refletir se é humanamente possível atingir tal patamar de entrega.

Samuel Herring devorou todos os manuais sobre como ser um bom frontman. Nem precisava cantar. A sua expressão corporal é tão eficaz que consegue substituir de forma fidedigna o uso da palavra. Pura linguagem gestual. Ele abana-se, contorce-se ao bom estilo de Ian Curtis, dança o kalinka, movimenta-se que nem um verdadeiro Cassius Clay (flutua como uma borboleta e pica como uma abelha), esbofeteia-se, dá murros no ar, no peito, esquiva-se de balas perdidas, arremessa objetos invisíveis, ergue taças de líquido imaginário, brinda com o público e bebe de golada, e, ao mesmo tempo, por mais incrível que pareça, canta. E grita. E grunhe. Cada palavra, perdão, cada letra daquilo que diz é sentida, desde a unha dos pés à ponta do cabelo suado. Aqui está um frontman como deve ser. Louco e visceral.

“I don’t wanna talk, lets make some music”, diz-nos no início do concerto. “A Dream of You and Me” é a primeira do alinhamento, uma verdadeira aula de aeróbica para quem quer perder uns gramas para a atual época estival, seguindo-se outras músicas do repertório da banda, como “Walking Through That Door”, “Before the Bridge”, “Doves”, “A Song for Our Grandfathers”, “Light House” e, claro, para satisfação de muitos, “Seasons (Waiting on You)”, um regresso àquele mítico episódio do programa Late Night Show with David Letterman que os catapultou para a ribalta. O público canta, dança, aplaude, tenta acompanhar alguns dos movimentos protagonizados em palco por Herring, e sai do concerto visivelmente satisfeito, com um sorriso que só se equipara à própria qualidade musical dos Future Islands. Sem espinhas.

The Prodigy | 00:30, Palco NOS

O que se quer de um concerto dos The Prodigy? Certamente não serão os solos de guitarra e muito menos momentos melodiosos protagonizados por algum piano ou violino. Também não são as qualidades vocais dos seus vocalistas (neste caso, mestres de cerimónia), muito menos a inteligibilidade das suas letras. O que se pede num concerto dos The Prodigy é força e potência. Quer-se que as músicas nos cheguem aos ouvidos e corpo como paredes intransponíveis de décibeis, capazes de nos atropelar os sentidos e contaminar o corpo com uma espécie de vitamina para dançar.

Este teria sido um concerto perfeito se o som para o público estivesse bem mais alto. O desempenho em palco do coletivo foi tremendo, com Keith Flint e Maxim incansáveis no incentivo e nas juras de amor ao nosso país, mas a amplificação mostrou-se insuficiente na altura de injetar no público o soro produzido em palco. E, desta vez, a culpa é completamente alheia à banda. Culpe-se o técnico de som. Fogueira com ele.
A abertura do concerto é feita com “Breathe”, um trunfo forte para agarrar o público no primeiro momento.

Os comentários sobre o volume são imediatos e quase unânimes: por esta altura qualquer aparelhagem caseira ou mesmo o rádio a pilhas do nosso avô é capaz de tocar mais alto do que os altifalantes pendurados à esquerda e à direita de cena. A guitarra ouve-se mal, os sintetizadores também, o que nos chega é uma mistura mal amanhada de frequência graves. A história repete-se em “Nasty”, “Omen” e “Firestarter”. Primeiras músicas estragadas. Ainda assim, não há quem se prive de fazer a festa e dançar. Que isto não seja impedimento para a diversão. A purga é fundamental.

Só em “Voodoo People” é que as coisas melhoram – entretanto, pelo caminho, ficaram canções como “Roadblox”. Por esta altura, os instrumentos estão mais audíveis e o técnico parece ter subido ligeiramente os faders da mesa de mistura. “Invaders Must Die” já nos chega em condições, apesar da versão quase irreconhecível servida pela banda, e “Smack My Bitch Up” já nos entra pelos ouvidos qual tsunami devastador, acompanhada por um jogo de luzes quase psicadélico que, ao longo do concerto, foi pintando palco e plateia de forma irrepreensível. “Take Me To The Hospital” é o grito final da banda britânica, um tema carregado de energia, perfeito para rematar em grande a atuação.

James Blake | 01.00h, Palco Heineken

Ainda com muitas convivas a trocarem palavras sobre os concertos dos The Tings Tings e Future Islands naquele mesmo espaço, era impossível ficar indiferente às descargas incendiárias que chegavam do Palco NOS, por via da energia dos The Prodigy.

Alguns estavam mesmo apreensivos sobre como poderia James Blake sobrepor o seu “silêncio” ao referido ambiente, mas, aos primeiros acordes de “CMYK”, o perfil dolente, quebrante e lânguido do universo do músico britânico abafou tudo à sua volta. Estávamos, assim, prontos para uma viagem que iria percorrer "um pouco de tudo", por isso, aconselhava o músico, a tarefa do público era, foi, "divertir-se".

“I Never Learnt to Share”, numa atmosfera quase cerimonial, como de resto é toda a música de Blake, libertava impulsos térmicos, quentes, como os espasmos de uma particular pulsação. Essa matemática sonora encontrou na perfeita equação que é “Limit to Your Love”, um original de Feist, a prova do inquestionável desafio ao silêncio que são as criações presentes em discos como “Overgrown”. Nem mesmo a insatisfação de James Blake com a sua performance – que o levou a repetir o início desta canção – arrefeceu o ambiente. O público respondia afrmativamente e as palmas, tímidas de início, acompanhavam o coro que ganhou ainda mais corpo com o desalinho mais “agressivo” de sublinhado trip-hop.

O desfile seguiu-se entre as marés mais calmas de “I Am Sold”, a mais eletrónica “Life Round Here” e o sussurro que é “Lindisfarne II”. Pelo meio, em alguns pontos da assistência, muitos não conseguiam disfarçar a excitação do dia, tentando elevar a voz acima da música para se fazerem ouvidos, criando um indesejado ruído, mas que se combatia ao fechar os olhos e deixar os sentidos absorver a magia que provinha do palco.
Os agradecimentos de James Blake a tão devota assistência eram transformados em forma de canção e os mais expressivos “Digital Lion” e, principalmente, “Voyeur”, escondiam a fragilidade, timidez e solidão da alma do artista britânico, que encontram verdadeiro sinónimo em composições como a muito aplaudida “Retrograde” e o tomo final que foi “The Wilhelm Scream”.

Ainda que uns furos abaixo da magnífica atuação da edição do Optimus Alive de 2011, James Blake deu um bom concerto, com casa cheia, e que pede um reprise numa sala mais intimista e perto de nós.

Com: Manuel Rodrigues

Fotografias: Marta Ribeiro e Rita Bernardo

In Palco Principal

sábado, 11 de julho de 2015

NOS Alive'15, dia 1

Noite de drones e alguns satélites




Esgotado há muito, o primeiro dia de NOS Alive'15 ficou definitivamente marcado desde que foi anunciado o nome dos Muse como cabeças de cartaz. Mas, além da banda de Matthew Bellamy, havia muito e mais para ver no Passeio Marítimo de Algés, ainda que o inesperado cancelamento de Jessie Ware tenha sido um verdadeiro balde de água fria para milhares de festivaleiros. Ainda assim, numa noite com bons concertos, tivemos o prazer de rever os mais crescidos Alt-j, de dançarmos a valer com Metronomy e Django Django, de sentirmos as boas vibrações de James Bay e Ben Harper, e de viajarmos no carrossel dos Muse.

James Bay | 19h10, Palco NOS

São poucos os que se podem orgulhar de conquistar um lugar no palco principal de um grande festival internacional (narcisismos à parte) logo ao primeiro álbum, mas James Bay conseguiu-o.

O sucesso de “Chaos and the Calm”, um disco que navega entre o indie e um rock que mescla ensinamentos pop e raízes alternativas, foi sinónimo de uma ascensão meteórica para este simpático britânico de 24 anos, que não esconde um certo fascínio pelo legado de Jeff Buckley, tanto em termos vocais como nas cordas das suas (várias) guitarras.

Entre trocas de guitarras, afinações e algumas palavras de agradecimento ao público, James Bay não se escondeu atrás dos raios de sol que inundavam o Passeio Marítimo de Algés e deu um bom concerto. De figura esguia e sempre acompanhado com o habitual chapéu, Bay manteve a audiência sempre debaixo de olho e a reação geral ao muito cool “Craving”, logo nos primeiros momentos do concerto, mostrou que são muitos os que conhecem “Chaos and the Calm”.

De tendências mais blusy e a fazer lembrar, pontualmente, Bruce Springsteen, “When we Were on Fire” levou a já considerável multidão a bater palmas, de braços bem levantados, postura que se estendeu a “If you Ever Want to Be in Love”, um tema em que as cordas e o teclado partilham um estado de graça apenas secundado pela voz.

Os agradecimentos de James Bay, num português bastante aceitável, mostravam uma certa admiração do cantor pela entrega do público e, em forma de celebração desse sentimento mútuo, o dolente e intimista “Move Together” como que selou um namoro que, um dia, noutros palcos e com menos luz do sol, pode dar em duradouro matrimónio. Uma chama que pode arder muito, principalmente quando ouvimos temas como “Let it Go”, um dos momentos mais bonitos do concerto e, certamente, um dos momentos em que os ecos do já referido e genial Buckley foram mais percetíveis.

Depois, “Scars”, uma das canções mais quentes do álbum de James Bay, mostrou como o britânico consegue tornar uns espartanos acordes numa grande canção, que ganha ainda mais corpo quando o resto da banda toma o palco de assalto.

A interação com o público atinge o auge antes do gingão “Best Fake Smile”, depois de uma afinação de guitarra mais demorada. Pouco depois, “Hold Back the River”, cantado em uníssono e de olhos nos olhos com o vizinho Tejo enquanto espectador atento, terminaria uma atuação segura, que leva a pensar que, ainda assim, James Bay pode oferecer ainda mais ao vivo.

Ben Harper | 20h40, Palco NOS

Com pouca dinâmica e ausência de canções capazes de incendiar o recinto do festival, o concerto de Ben Harper e dos seus Innocent Criminals adormeceu meio mundo e colocou a outra metade a bocejar, não obstante as canções orelhudas, repletas de talento, servidas de forma irrepreensível por Ben Harper, que demonstrou, em certas alturas, os seus dotes na slide guitar e os seus capangas de digressão – destaque para o carisma e constante ginga do seu baixista.

Ainda ficámos para ouvir “Steal My Kisses” e “Diamonds on the Inside”, mas, como o momento pedia mais energia do que aquela que estava a ser servida no palco principal, fomos até ao espaço Heineken para ver e ouvir Metronomy.

Metronomy | 21:25, Palco Heineken

Os concertos dos Metronomy em festivais portugueses já não são novidade nenhuma. Só os mais distraídos é que se podem queixar da falta de oportunidade de verem ao vivo esta magnífica banda, que lançou, há coisa de um ano, um novo álbum, intitulado “Love Letters”, em torno do qual girou grande parte do concerto (“The Upsetter”, “I’m Aquarius”, “Love Letters” e “Boy Racers” foram algumas das presenças no alinhamento).

Os seus sintetizadores já nos soam familiares, o seu rigor e vigor também. A presença em palco de Joseph Mount já não nos é estranha, bem como a energia magnetizante de Olugbenga Adeleka (não é parecido com o nosso Alex D’Alva Teixeira?) e o sorriso contagiante de Anna Prior. A familiaridade é tanta que parece que foi há meia dúzia de dias que os vimos interpretar temas como “The Look”, “The Bay” e “Resevoir” num festival da concorrência lá para os lados do Meco.

E, apesar de ontem se terem despedido de uma tenda Heineken completamente à pinha com um “até à próxima”, estamos certos que será, certamente, um até amanhã, pois não tardará muito até que o coletivo britânico volte a pisar solo nacional para voltar a colocar centenas de pessoas a dançar ao ritmo das suas músicas.

Alt-j | 22h25, Palco NOS

Quem teve a oportunidade de estar presente na edição de 2013 do NOS Alive, na altura ainda Optimus, lembra-se, de certeza, da agitação que provocou a atuação dos britânicos Alt-j, com um palco Heineken a abarrotar. Sentia-se na pele o impacto de “An Awsome Wave”, um disco carregado de sentimentos indie, embrulhados em consideráveis doses de um experimentalismo que convive com elementos rock e eletrónicos, que arrebatou o Mercury Prize em 2012.

Hoje, a banda formada em Leeds está maior, mais madura, e sinónimo desse crescimento foi a mudança de palco, com a responsabilidade acrescida de anteceder aos também ingleses Muse, monstros consagrados de um outro campeonato cuja ansiedade geral podia atrapalhar a cerimónia dos Alt-j.

Mas, felizmente, tal não aconteceu. Embora a música da banda de Gwil Sainsbury, Joe Newman, Gus Unger-Hamilton e Thom Green não seja “fácil”, e a grandiosidade do palco NOS pudesse colocar algumas dúvidas na sua expressividade, quem assistiu ao espetáculo de ontem deu por bem entregue o seu tempo. Misturando universos orgânicos com outros mais maquinais, e ousando, diversas vezes, desafiar o silêncio, os Alt-j começaram o concerto com o já habitual início de cerimónias que é “Hunger of the Pine” - uma atmosfera densa, interior, que foi muito bem secundada pelo mais tribal “Fitzpleasure”.

“Something Good”, uma das mais suaves e hipnóticas canções dos Alt-j, mostra o que pode ser a música da banda ao vivo, num registo sem rede e desprotegido da dinâmica do estúdio. Os instrumentos unem-se em torno de um só propósito e o silêncio, por vezes apenas conspurcado pelas notas do baixo, relevam o domínio musical do quarteto.

Ainda que se diga que é melhor não voltar ao lugar onde já se abraçou a felicidade, os Alt-j mandaram esse conselho às urtigas e, não só foram muito bem recebidos, como agradeceram, bastas vezes, ao público português e ao festival em causa que está, segundo os britânicos, cravado nos seus corações e memória. E a melhor forma de agradecimento é através da música, e a roqueira “Left Hand Free”, e a mais tropical “Dissolve Me” foram os dois atos seguintes e que antecederam a cerimonial e mais intimista “Matilda”, que teve honras de participação coletiva.

As luzes do palco davam um efeito contextual à atuação da banda e foi em tons escarlate que o público recebeu “Bloodflood” e “Bloddflood Pt. 2”, dupla harmonia de inspiração shoegaze, cuja sensualidade lírica nos leva até ao fundo de uma qualquer maré emotiva, algo que “Ripe & Ruin”, depois, perseguiu em ritmo à capela.

De regresso a momentos mais maquinais, “Tesselatte” quebra a letargia e leva o público para um gigante quarto escuro, cuja densidade está na fronteira entre o som e o silêncio devocional, elementos que fazem parte, por exemplo, de nomes como os Massive Attack e que “Every Other Freckle” explora de forma competente.

Com a área do recinto já com dezenas de milhares de pessoas, e quando circular nos espaços adjacentes ao palco começava a ser uma tarefa hercúlea, os Alt-j lançaram-se de cabeça ao introspetivo “Taro”, para depois oferecerem “Warm Foothills”, um dos momentos mais calmos de “This is All Yours”, o mais recente disco da banda, que esteve na origem de um tímido e algo envergonhado assobio de Joe Newman.

O final da contenda chegaria depois de “Nara”, “Leaving Nara” e “Breezeblocks”, o habitual derradeiro tomo dos espetáculos dos Alt-j, que fazem questão de terminar as hostilidades com ritmos mais rock e, porque não dizer, dançáveis, ao som de uma declaração como «please don´t go, i love you so».

Além de um bom concerto, os Alt-j mostraram que atingiram um patamar sólido, respeitável, estando apenas a um nível “abaixo” do mais alto lugar do pódio festivaleiro. O futuro (próximo) pode ditar, definitivamente, a grandeza destes rapazes de Leeds.

No recinto do festival, são muitos os que aproveitam para gastar algum tempo e dinheiro nas atividades paralelas à música. Os brindes continuam a ser uma oferta concorrida, (parece, no entanto, que este ano a euforia não é tão acentuada, ou é só impressão nossa?) e a febre das selfies continua a ser um mal incontornável neste tipo de ambiente (bendita seja a pessoa que se lembrou de proibir o uso de selfie sticks neste certame), mas, ainda assim, é no campo da gastronomia (e ainda bem) que o visitante mais investe.

Das célebres sandes de leitão, às pizzas, kebabs, hamburgueres (gourmet e não gourmet), waffles e, claro, as bebidas (este ano, há cidra com vários sabores, uma boa alternativa para quem não gosta de cerveja), as ofertas continuam a ser vastas e satisfazem o desejo do requinte (pedimos desculpa à Ferrero Rocher pelo plágio).

Por esta altura, Tiga leva a tenda do Optimus Clubbing ao êxtase com o seu live set, onde se pode ouvir o hit “You Gonna Want Me”. Porém, já se ultimam os pormenores no palco principal para as estrelas da noite. Vamos lá.

Muse | 00:10, Palco NOS

Uma verdadeira montanha russa musical. Talvez seja esta a melhor forma de descrever o concerto dos Muse, no palco NOS.

A banda de Bellamy não foi capaz de servir um concerto linear, homogéneo e coeso, e isso deve-se única e exclusivamente à fraca qualidade das músicas mais recentes, quer do álbum “The 2nd Law”, quer de “Drones” - um decréscimo de qualidade para com os episódios discográficos anteriores que, como seria de esperar, acabou por se refletir no exercício ao vivo.

Os Muse parecem ter caído num fosso criativo, numa espiral de falta de ideias. E tal condição começa a afastá-los, lentamente, do estatuto de banda épica, capaz de incendiar um estádio com as suas canções. Atualmente, preocupam-se mais com os néons das suas guitarras e com os tunings de pianos e baterias do que propriamente em construir músicas que encham o ouvido, ao invés de encherem o olho. Mas passemos aos exemplos concretos.

A primeira sequência de todas a denunciar uma queda substancial na qualidade musical e na própria aceitação por parte do público aconteceu logo no início do concerto. “Plug In Baby” roubou os primeiros coros uníssonos da noite – depois de uma partida morna ao som de “Psycho” (provavelmente, a melhor do último álbum, a repescar uma cena clássica de “Full Metal Jacket”, de Stanley Kubrick), “Supermassive” e “The Handler” –, deixando o recinto em euforia, para, logo de seguida, “Dead Inside” mergulhar o público numa profunda apatia. São poucos os que cantam, são ainda menos os que saltam. Há quem vire as costas ao palco para retomar a conversa deixada a meio aquando da subida do trio (ou do quarteto, visto trazerem um elemento a mais para tomar conta dos teclados e percussão), ignorando por completo a vocalização e o solo a la Brian May de Bellamy.

De seguida, “Hysteria”, do álbum “Absolution”, volta a reconquistar o público com o seu refrão inteligentemente endereçado às multidões, para depois “Drones”, do último álbum, e “Madness”, do penúltimo, protagonizarem nova quebra no espetáculo – apesar desta última ainda ter resgatado um coro ou outro aqui e ali, todo o espetáculo visual, com letras rechonchudas e coloridas nos ecrãs, e Bellamy a pedir ao público para acenar da esquerda para a direita (ou da direita para a esquerda, como preferirem), foi digno de um concerto da Violetta ou dos One Direction, e não Muse.

Não obstante o constante carrossel em que se transformaram os concertos de Matt e companhia, há que ressalvar as suas qualidades enquanto performers – não há uma nota que falhe na voz e guitarra de Bellamy, um tempo ao lado na bateria de Howard e uma harmonia desencontrada no baixo de Wolstenholme. Mas a grande arma dos Muse ao vivo nem é essa. É a experiência que têm nestas andanças, pois sabem exatamente como agir em palco, quando devem ou não adereçar palavras ao público (em português, claro, para combinar com a bandeira que têm sobre o estrado da bateria; bandeira essa que Bellamy coloca sobre os ombros, perto do final do concerto), quando devem ter uma atitude mais rebelde para acordar os mais adormecidos (no final de “Reapers”, o vocalista e guitarrista atira a sua guitarra contra o amplificador, provocando um gigantesco estrondo) e quando têm que transformar as suas atuações em verdadeiras festas de Ibiza, com jatos de fumo, confetis, serpentinas e bolas gigantescas. E fazem-no, curiosamente, em músicas menos interessantes, como foi o exemplo de “Reapers” e “Mercy”.

Ainda assim, apraz-nos sublinhar que o concerto acabou em grande. “Uprising” e “Knights Of Cydonia” fizeram a festa junto de um recinto esgotadíssimo, com dezenas de milhares a cantarem e a aplaudirem duas canções que ainda podem ser consideradas dos anos de ouro da banda britânica. Faltaram temas como “Bliss” e “New Born” à chamada, mas ficarão certamente para outras núpcias. Que a próxima passagem do coletivo por Portugal aconteça em momento de maior inspiração, de forma a que possam servir um espetáculo sólido, sem altos e baixos.

Django Django | 01h40, Palco Heineken 

Enquanto os Muse iniciavam o encore, alguns convivas optaram por percorrer outros caminhos. Ainda que os decibéis libertados pela banda de Matthew Bellamy se fizessem ouvir num raio de quilómetros, o relógio indicava que, tanto no NOS Clubbing como no palco Heineken, havia mais música para ouvir.

Ainda que o destino estivesse parcas centenas de metros mais adiante, o gosto pela música dos portugueses X-Wife fez-nos deliciar uns breves instantes, como que a fazer a “purga” auditiva entre os Muse e os senhores que se seguiam no Palco Heineken, nem mais nem menos do que os britânicos Django Django, um dos projetos musicais mais interessantes que surgiram nos últimos anos.

O interesse residia em saber como é, ao vivo, o recente “Born Under Saturn”, o fresquinho segundo álbum do coletivo que em 2013 apresentou o debutante e homónimo disco neste mesmo local. Tal como nesse concerto, ontem, os Django Django puseram toda a gente a saltar, naquela que talvez tenha sido a melhor atuação do dia/noite.

Visivelmente bem-dispostos e com vontade de aquecer as almas presentes, os Django Django não perderam tempo e lançaram-se de cabeça, com o psicadélico “Introduction” a revelar umas boas vibrações que se prolongaram durante cerca de uma hora, non-stop.

Vincent Neff liderava a nau hipnótica, experimentalista e psicadélica que são os Django Django com peças irresistíveis como “Storm” e “Shake and Tremble”. Coincidentemente (ou não), com o final da atuação dos Muse o espaço do Palco Heineken trasvestiu-se de simpaticamente preenchido para lotação esgotada em poucos minutos e, quando “First Light” já soava, a loucura era saudavelmente coletiva.

O céu, ou Saturno, pareciam (não) ser o limite e composições como a desafiante “Waveforms”, a egípcia “Skies Over Cairo” e, principalmente, a robótica “Default” tornaram um simples concerto em algo deveras especial, onde guitarra, teclas, bateria e sintetizadores soavam como partes de uma doce e oleada máquina.
O relógio galopava para as três da manhã, mas o corpo dos presentes manteve-se fiel ao clima festivo dos Django Django e “Life’s a Beach” e “WOR” terminaram a cerimónia da melhor forma possível, com uma alegre sensação de cansaço e de dever cumprido. Amanhã, hoje, há mais.

In Palco Principal

Com Manuel Rodrigues

Fotografias: Marta Ribeiro e Rita Bernardo

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Wim Mertens @ CCB

Ondas clássicas em noite perfeita


Na década de 1990, foi com o britânico Michael Nyman que muitos melómanos fizeram as primeiras incursões no universo clássico de tendências mais ou menos minimalistas. O sucesso da banda sonora de “O Piano”, filme de Jane Campion, teve o condão de despertar muitas mentes para uma matemática musical que poucas tangentes cruzava com outros géneros. A curiosidade fez com que muitos explorassem outras músicas e “novos” nomes começavam a fazer sentido auditivo. Entre eles, destacavam-se Philip Glass, John Adams ou Wim Mertens. E foi da genialidade deste último que saiu um dos discos mais emblemáticos da década de 1990. Falamos de “Jardin Clos”, disco editado em 1996, que transportava o ouvinte numa viagem nostálgica, romântica e clássica, especialmente em momentos como “Pierced Heart” ou “Not Me”, exercícios musicais com cerca de dez minutos que mostravam a capacidade de Mertens em comunicar por via das emoções e da melodia, que expressa momentos de excitação, paixão, conflito.

Mas a música de Wim Mertens é, também, uma forma de reflexão filosófica, de contar uma estória, e é isso que (também) está na génese de “Charaktersketch”, álbum que inicia uma trilogia que, nas palavras do compositor, musicólogo, contratenor, vocalista, regente e pianista belga, "serve para pensar os novos desafios da Europa depois de uma crise que vai além do aspeto financeiro". Ainda sem datas de edição, sabemos que o segundo tomo desta trilogia será um disco a solo, com piano e voz, e que o derradeiro capítulo terá alma sinfónica.

E é sob este cenário que chegamos, ansiosamente, a este concerto no CCB. Um espetáculo em formato duo que se dividiu, tal como Mertens já tinha anunciado, em duas partes. Primeiro, “Charaktersketch” teve honras de apresentação na íntegra, e depois recuámos ao passado, quer longínquo quer mais recente, fazendo o cruzamento entre o início da década de 1980, com o belga a explorar temas de discos como “Not At Home” ou “Struggle for Pleasure”, e algumas peças mais contemporâneas, como “No Testament”, “According to the Real” ou “Tactitilly”.

Já com a sala a respeitar o silêncio imposto pelas poucas luzes que compunham o palco, ontem espartano, do grande auditório do CCB, o saxofonista Dirk Descheemaeker e, segundos depois, Wim Mertens invadem o cenário naquela que foi a primeira salva de palmas, ainda que um pouco tímida, da noite. Num ápice, soam os primeiros acordes de “Wegzuwunschen” e a simbiose entre teclas e sopro iniciam uma equação que se manteria intacta, bela e coerente, ao longo de cerca de duas horas. O piano de Mertens e o saxofone de Descheemaeker soam como dois amantes que se respeitam, complementam, valorizam a paixão que os une. Não existem espaços por preencher e os silêncios que surgem são, também eles, notas musicais de excelência, independentemente de falarmos em momentos mais “marciais”, como “Unwillen-nichtwollen”, ou nostálgicos, que encontram eco nas belíssimas “Reihengewebe”, “Uberhandnehmend” ou “According to the One”.

A melancolia de “Wie Mich Dunckt”, por exemplo, foi um dos primeiros momentos de especial cumplicidade, com o público a embarcar numa viagem sonora que o levou a sentir a tranquilidade do fundo de um mar calmo, aqui e ali agitado pela voz tímida mas assertiva de Mertens que, a espaços, conferia uma maior profundidade ao todo emotivo.

Ao fim de cada composição, o público intensificava as palmas. Mertens levantava-se, apontava para a plateia e nunca esquecia a reverência a um Descheemaeker mais reservado nos agradecimentos.
Enquanto a apresentação de “Charaktersketch” evoluía, apoderava-se de quem a ouvia e sentia, a (boa) sensação de um regresso a um lugar onde já se sentiu a felicidade. Ainda que se trate de um disco recente, a empatia entre música e ouvinte é de tal forma intensa que composições como “Earmarked”, “Post and Postures” ou “The Place of Gap” soam a velhos companheiros de luta, a parceiros de uma amizade de décadas que encontram ordem no caos emocional que emana do cimo do palco.

Depois de um curto intervalo, em que deu para ver que o CCB estava praticamente cheio, Mertens e Descheemaeker regressam. Wim Mertens abandona o piano clássico em favor da sua versão elétrica e o exemplar “According to the Real” dá o mote. Logo a seguir, “Gentelmen of Leisure”, recebido com muitas palmas, faz a primeira incursão ao icónico “Struggle for Pleasure”, enquanto “At Home”, outra grande referência musical da década de 1980, mostra a sintonia omnipresente entre os senhores que dividem o palco.

Outro dos momentos que ficará, por certo, mais marcado na memória dos que ontem tiveram o privilégio de estar no grande auditório do CCB foi “Salernes”, apresentado numa versão mais intimista, com o piano de Mertens a fluir, a respirar e transpirar uma harmonia bem sublinhada pelo minimalismo do saxofone. Ainda com o eco dos aplausos em fundo, “Not at Home” inicia em tom de trágica “valsa” em ambiente mais clássico e longe da versão maquinal do original. Mertens não esquece o microfone e, a espaços, enriquece a prestação com a sua voz. A cumplicidade entre músicos e público está agora no auge e, no fim de cada prestação, Mertens abandona o piano, agradece, aponta para a plateia. Antes de uma parca tentativa de abandonar o palco, Mertens e Descheemaeker oferecem “Tactillity” e “No Testament”.

Depois disso, com algum do público a, incompreensivelmente, abandonar a sala, Mertens regressa em formato solo e toca “Watch!” e “4 Mains”, dois momentos de mestria que são uma espécie de reflexo sonoro da alma melódica do belga, que vagueia entre o ambiental e um espartano semblante “sci-fi”.

Já com Descheemaeker em palco, Mertens oferece-nos mais três temas: “Close Cover” e, em puro êxtase, “The Personell Changes” e “Struggle for Pleasure”, duas peças do mais fino quilate que levaram a audiência a presentar os senhores que ocupavam o palco com uma dupla ovação de pé - uma justa homenagem a um dos mais importantes e geniais compositores da música contemporânea.

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