"A música salva-nos a alma - e de que maneira!"
No ano em que comemoram três décadas de existência, os Mão Morta lançaram “Pelo Meu Relógios são Horas de Matar”, um registo pesado e lento, que nos traz de volta o peculiar universo musical da banda de Adolfo Luxúria Canibal. E foi o vocalista da banda que nos revelou alguns dos pormenores que levaram à génese deste disco, cujo perfil metafórico e acutilante apela à transformação e renovação de uma sociedade entre a crise e a parede, castrada de alternativas.
Palco Principal – Tal como prometido, “Pelo Meu Relógio são Horas de Matar” é um disco mais pesado e niilista, comparativamente aos últimos trabalhos dos Mão Morta. Podemos assumir o mesmo como um álbum conceptual, como um exercício simbólico de pensar a crise que nos assola?
Adolfo Luxúria Canibal - Estou de acordo que é um álbum mais pesado, sobretudo tendo em conta o disco anterior, mas de maneira nenhuma é mais niilista – bem pelo contrário, é um registo cheio de energia redentora, que a partir de uma situação negativa traça possibilidades para a sua superação. Não chega a ser um álbum conceptual – conceptual era o “Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável” –, mas sim um disco temático, como o são grande parte dos discos dos Mão Morta. E é efetivamente um exercício de pensamento sobre a realidade portuguesa, sobre o quotidiano que nos destrói.
PP – Ao longo do disco, está presente um sentimento de vertigem associado ao Homem enquanto ser social, que perdeu a sua individualidade, a capacidade de pensar, sendo subjugado a interesses conjunturais. “Hipótese de Suicídio” espelha, por exemplo, essa ideia. Qual será a solução para sair desse labirinto? Hoje, “viver é arrastar este morrer”?
ALC - A sociedade pós-industrial atomizou o indivíduo e transformou essa atomização num valor desejado e num símbolo de liberdade e autonomia – na realidade, essa atomização apenas serviu para melhor o subjugar, ao cortar-lhe os laços sociais e, com isso, afastá-lo do contacto com o real, para o substituir pelas imagens mediatizadas desse real. As soluções são sempre muitas e longe de mim querer apontar uma, mas o “Hipótese do Suicídio” serve exatamente para levantar a questão, para abrir a porta da superação desta escravatura contrária à vida em que se transformou o quotidiano dos produtores-consumidores, não através da morte – que essa, simbolicamente, já aí está presente –, mas pelo vencer do medo que os impede de dizer não à desdita e avançar pela aventura do desconhecido.
PP – No vídeo promocional do vosso disco, o privilégio de abertura cabe a Marcelo Caetano, figura devidamente homenageada, musicalmente, no minimal “Os Ossos de Marcelo Caetano”. Sentem que, politicamente, Portugal regrediu?
ALC - Aquilo que é a essência de uma democracia, que é a possibilidade de escolha e de alternativa, foi profundamente esvaziado com a desculpa da crise financeira e com a culpabilização dos cidadãos por essa crise, acusados de viverem acima das suas possibilidades, e por isso merecedores de castigo e, como tal, condenados num processo arbitrário e sem garantias mínimas de defesa. Agora, que o mal está feito, sabemos que a crise foi consequência da especulação financeira e da atividade bancária à base de produtos fictícios a que os Estados, dominados ideologicamente por posturas desreguladoras, vieram dar o seu aval, transformando o que era financeiro em soberano. Agora, vai ganhando forma e, a custo, rasgando a cortina do pensamento único, a noção de que poderá haver outra maneira de gerir a crise instalada e a economia destroçada. Agora, titubeante, começa a despontar um desígnio democrático. Mas, até agora – e hoje ainda com predomínio acentuado –, o que imperou foi o despotismo da falta de alternativa, numa equivalência da chamada Primavera Marcelista que, nos anos finais do fascismo, quis fazer vingar a ideia de que estava a acontecer uma abertura democrática quando o Estado continuava profundamente mergulhado no atavismo do pensamento único. Isto é, claramente, uma regressão, não só política mas também civilizacional, à essência dessa época funesta.
PP – Ainda a respeito desse vídeo, colocaram o mesmo no ar no dia 13 de maio, uma data forte do calendário religioso nacional. Queriam que o mesmo funcionasse como uma forma de manifesto?
ALC - Não, foi um mero acaso. Somos tão pouco beatos que nem reparamos na data. E acredito que tenha sido a um 13 de maio porque o diz, já que, de facto, não faço a mínima ideia em que dia concreto o vídeo foi tornado público.
PP – No que toca à musicalidade, “Pelo Meu Relógio…” traz à tona composições como “Hipótese de Suicídio” e, principalmente, “Nuvens Bárbaras”, dois tour de force intensos que relembram o ambiente de clássicos como o “O Divino Marquês”. Essa forma de narrativa combina um discurso acutilante como uma exploração musical onde o piano e as guitarras dão especial envolvência. Sentem que a mensagem passa melhor dessa forma ou através de canções mais “diretas”, como “Horas de Matar” ou “Mulher Clitóris Morango”?
ALC - A nós não nos preocupa a comunicação de mensagens nem sequer equacionamos qualquer mensagem a ser transmitida. Gostamos de pensar um disco como um todo, em que cada uma das canções que o compõem têm uma relação com cada uma das outras, tal como gostamos de pensar cada canção como uma obra única, composta por diversos elementos, é certo, nomeadamente letra e música, mas ainda assim única, em que os diversos componentes em que pode ser decomposta concorrem em igualdade de importância para a sua unidade. Assim, não se trata de tentar encontrar a maneira mais eficaz de passar uma mensagem – palavra que me arrepia –, mas de perceber o que faz sentido para que a fusão entre letra e música aconteça.
PP – “Pelo Meu Relógio…” é o vosso álbum mais político. Como acham que a comunidade artística portuguesa está a digerir a profanada crise? Existe um caminho para a salvação da alma através da música?
ALC - Não faço a mínima ideia de como é que a comunidade artística portuguesa está a digerir a crise, nem me interessa muito saber. Os ecos do que a comunidade artística portuguesa, supondo que tal monstro existe, está a fazer ou a não fazer não chegam ao recôndito Minho… Para nós, Mão Morta, a música é o nosso recreio, o lugar onde nos evadimos do mundo, pensando sobre ele e sobre nós, e sobretudo onde nos divertimos - e muito! Nesse sentido, salva-nos a alma – e de que maneira!
PP – O disco abre com “Irmão da Solidão”, uma canção que faz o apelo à catarse mas que reforça a noção da perda do sentido opinativo. Estará o Homem moderno condenado a uma felicidade segmentada?
ALC - A felicidade não é sempre segmentada? O discurso mediático cria a ilusão de que a felicidade é uma espécie de nirvana permanente, mais da ordem do ser do que do estar, e – já agora – que está intrinsecamente associada à posse dos mais díspares produtos e objetos. Mas isso não passa de falácia de vendedor de carros usados…
PP – O disco, no seu todo, é muito coeso, e música e mensagem apresentam uma grande coerência. Como se realizou o processo de composição? Primeiro pensaram a música, as letras ou no conceito?
ALC - Tudo partiu de uma vontade de experimentar como ficaria a música, uma qualquer composição rock, se o seu tempo fosse desacelerado. Fizemos uma primeira experiência usando uma letra antiga, de uma canção que pertencera aos Auaufeiomau e, a partir do resultado obtido e da impressão positiva que nos causou, tudo o resto foi mais ou menos em simultâneo e em catadupa: o tema, a ideia da narrativa geral para o disco, a composição das músicas, em sucessivas declinações da ideia original de desaceleração do tempo, e as letras concretas para cada uma dessas composições. Foi um processo muito homogéneo e daí, talvez, essa coesão final que conseguimos atingir.
PP – A metáfora é uma das formas de poesia mais utilizadas para a composição dos Mão Morta. Pelo vosso relógio é mesmo hora de matar?
ALC - São sempre horas de matar, entendendo-se aqui matar no sentido que as cartas do Tarot dão à morte – que é um momento de transformação e de renovação –, sobretudo quando, como atualmente, o presente se mostra tão negativo.
In Palco Principal
“Don’t think about making art, just get it done. Let everyone else decide if it’s good or bad, whether they love it or hate it. While they are deciding, make even more art.” Andy Warhol
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terça-feira, 28 de outubro de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Susana Nobre em entrevista
“Os RVCC resolviam, ou ajudavam a resolver, um problema administrativo que advém da obrigatoriedade de ter o 9ª ano de escolaridade para ter acesso a uma grande parte dos empregos. Não há neste momento nenhuma resposta tão eficaz como foi o caso dos RVCC”
País de brandos costumes e de gente trabalhadora, Portugal procura sair da crise económica e pessoal. Através do documentário “Vida Activa” Susana Nobre traça o perfil orgulhoso de gente que não desiste mas sente-se encurralada numa conjuntura que transforma a existência numa vivência interrompida. O desemprego, a precaridade e a requalificação estão na base dos testemunhos que compõem o fio condutor desta brilhante experiência cinematográfica. Para a devida contextualização deste projeto estivemos à conversa com Susana Nobre
RDB – Como surgiu a ideia de fazer um filme deste género?
Susana Nobre – Partiu do conhecimento prévio das metodologias dos processos de Reconhecimento e Validação e Certificação de Competências (RVCC). Estas metodologias implicavam a enunciação da história de vida a partir de instrumentos formais. Interessava-me ver como a história de vida particular, na sua enunciação, resistia a um processo institucional e formatado como era o RVCC.
RDB – A conjuntura social e económica em Portugal tende a tecer uma diferença cada vez maior entre o desempregado e quem tem emprego. Até que ponto acha que programas como o RVCC podem estimular quem se encontra inscrito num centro de emprego?
SN – Os RVCC resolviam, ou ajudavam a resolver, um problema administrativo que advém da obrigatoriedade de ter o 9ª ano de escolaridade para ter acesso a uma grande parte dos empregos. Não há neste momento nenhuma resposta tão eficaz como foi o caso dos RVCC. Nesse sentido, estimulam porque regulam o acesso. Podemos questionar essa formatação do mercado de trabalho para o 9º ano. Foi ela que tornou premente a criação destes processos que têm uma lógica integradora e não de exclusão. No caso português fazia todo o sentido, pois temos uma população pouco qualificada do ponto de vista académico e com percursos profissionais muito determinados e desenvolvidos pela experiência de vida.
RDB – Das muitas entrevistas que realizou como se processou a escolha daquelas que figuram em “Vida Activa”? Obedeceu a algum critério predefinido?
SN – Penso que talvez haja um traço comum que é o extravasar para além do guião técnico e das respostas formatadas. Era muito frequente os candidatos terem um discurso orientado para o pressuposto do que deveria ser correto responder. Isto tem a ver com uma dimensão opressiva que as instituições produzem, ou podem produzir, no confronto com elas. Também é dessa tensão entre o indivíduo e a sua história particular e a instituição, que a todos obriga e a todos trata por igual, que o filme vive.
RDB – Dos rostos que se dão a conhecer no documentário é notória uma certa sensação de tranquilidade dando a entender que a câmara não intimidava. Como se realizava o processo de filmagem?
SN – A câmara não intimidava mas penso que o guião técnico das entrevistas sim. O filme pode ser estruturado em dois momentos: um primeiro momento de seriação de entrevistas, conduzidas pelo guião técnico de entrevista, e um segundo momento em que intervenho mais, ao procurar outras questões que já não faziam parte dos instrumentos do RVCC. Esta segunda parte decorre principalmente em sessões de grupo onde já havia uma relação estabelecida com os protagonistas.
RDB – Invariavelmente os testemunhos refletem vidas que estão de certa forma interrompidas. Ainda assim, o orgulho é um dos sentimentos mais presentes no discurso dos entrevistados. Entende esse orgulho como uma reação face às adversidades vividas por estas pessoas?
SN – Talvez seja um orgulho pela lucidez, pelo conhecimento do lugar em que se está. Mas há diferentes tipos de orgulho. Há o brio profissional de se ter cumprido as tarefas propostas, mas também o orgulho pelo conhecimento construído. O conhecimento profissional construído ao longo dos anos funciona como uma catedral que permite assumir com segurança uma perspetiva crítica sobre o lugar em que se está. No caso do filme isto é bastante evidente nos relatos masculinos.
RDB – Ao longo do filme somos presenteados com inúmero material fotográfico que serve de contextualização ideal. Foi difícil obter esse material?
SN – Esses materiais faziam parte dos portefólios que os candidatos tinham de construir ao longo do processo. Uma das funções que tinha, era dar orientação na construção dos mesmos.
RBD – Tendo em conta a sua experiência na génese de “Vida Activa”, como definiria o perfil do português? Será que o facto de se registar uma elevada taxa de desemprego e uma situação laboral precária pode tornar-nos num povo definitivamente depressivo?
SN – Não sei se é uma característica do povo português, penso que não, mas está muito enraizada a ideia de que a dignificação pessoal só advém do trabalho enquanto emprego. Quando esse lugar deixa de existir, instala-se uma crise de participação que desvincula politicamente as pessoas do mundo à sua volta.
RDB – Ainda que falemos em termos documentais, sentimos que “Vida Activa” tende a centrar-se no depoimento evitando sempre qualquer tipo de julgamento. Nunca sentiu a tentação de deixar cair a cortina da imparcialidade?
SN – A subjetividade não se dá apenas em comentários na primeira pessoa. A estrutura do filme não é imparcial. Há uma montagem de problemas que tem uma orientação muita clara. A cena final é disso emblemática. A destruição dos papéis ressoa por todo o filme, como o facilitismo dominante em destruir o que levou anos a construir. Não se trata da destruição da memória pessoal mas sim de estruturas produtivas irreparáveis.
RDB – De que forma motivaria o espetador a ver o seu documentário?
SN – O ato de ver um filme em sala transforma o filme numa experiência, o que nem sempre acontece numa televisão ou num computador.
In Rua de Baixo
País de brandos costumes e de gente trabalhadora, Portugal procura sair da crise económica e pessoal. Através do documentário “Vida Activa” Susana Nobre traça o perfil orgulhoso de gente que não desiste mas sente-se encurralada numa conjuntura que transforma a existência numa vivência interrompida. O desemprego, a precaridade e a requalificação estão na base dos testemunhos que compõem o fio condutor desta brilhante experiência cinematográfica. Para a devida contextualização deste projeto estivemos à conversa com Susana Nobre
RDB – Como surgiu a ideia de fazer um filme deste género?
Susana Nobre – Partiu do conhecimento prévio das metodologias dos processos de Reconhecimento e Validação e Certificação de Competências (RVCC). Estas metodologias implicavam a enunciação da história de vida a partir de instrumentos formais. Interessava-me ver como a história de vida particular, na sua enunciação, resistia a um processo institucional e formatado como era o RVCC.
RDB – A conjuntura social e económica em Portugal tende a tecer uma diferença cada vez maior entre o desempregado e quem tem emprego. Até que ponto acha que programas como o RVCC podem estimular quem se encontra inscrito num centro de emprego?
SN – Os RVCC resolviam, ou ajudavam a resolver, um problema administrativo que advém da obrigatoriedade de ter o 9ª ano de escolaridade para ter acesso a uma grande parte dos empregos. Não há neste momento nenhuma resposta tão eficaz como foi o caso dos RVCC. Nesse sentido, estimulam porque regulam o acesso. Podemos questionar essa formatação do mercado de trabalho para o 9º ano. Foi ela que tornou premente a criação destes processos que têm uma lógica integradora e não de exclusão. No caso português fazia todo o sentido, pois temos uma população pouco qualificada do ponto de vista académico e com percursos profissionais muito determinados e desenvolvidos pela experiência de vida.
RDB – Das muitas entrevistas que realizou como se processou a escolha daquelas que figuram em “Vida Activa”? Obedeceu a algum critério predefinido?
SN – Penso que talvez haja um traço comum que é o extravasar para além do guião técnico e das respostas formatadas. Era muito frequente os candidatos terem um discurso orientado para o pressuposto do que deveria ser correto responder. Isto tem a ver com uma dimensão opressiva que as instituições produzem, ou podem produzir, no confronto com elas. Também é dessa tensão entre o indivíduo e a sua história particular e a instituição, que a todos obriga e a todos trata por igual, que o filme vive.
RDB – Dos rostos que se dão a conhecer no documentário é notória uma certa sensação de tranquilidade dando a entender que a câmara não intimidava. Como se realizava o processo de filmagem?
SN – A câmara não intimidava mas penso que o guião técnico das entrevistas sim. O filme pode ser estruturado em dois momentos: um primeiro momento de seriação de entrevistas, conduzidas pelo guião técnico de entrevista, e um segundo momento em que intervenho mais, ao procurar outras questões que já não faziam parte dos instrumentos do RVCC. Esta segunda parte decorre principalmente em sessões de grupo onde já havia uma relação estabelecida com os protagonistas.
RDB – Invariavelmente os testemunhos refletem vidas que estão de certa forma interrompidas. Ainda assim, o orgulho é um dos sentimentos mais presentes no discurso dos entrevistados. Entende esse orgulho como uma reação face às adversidades vividas por estas pessoas?
SN – Talvez seja um orgulho pela lucidez, pelo conhecimento do lugar em que se está. Mas há diferentes tipos de orgulho. Há o brio profissional de se ter cumprido as tarefas propostas, mas também o orgulho pelo conhecimento construído. O conhecimento profissional construído ao longo dos anos funciona como uma catedral que permite assumir com segurança uma perspetiva crítica sobre o lugar em que se está. No caso do filme isto é bastante evidente nos relatos masculinos.
RDB – Ao longo do filme somos presenteados com inúmero material fotográfico que serve de contextualização ideal. Foi difícil obter esse material?
SN – Esses materiais faziam parte dos portefólios que os candidatos tinham de construir ao longo do processo. Uma das funções que tinha, era dar orientação na construção dos mesmos.
RBD – Tendo em conta a sua experiência na génese de “Vida Activa”, como definiria o perfil do português? Será que o facto de se registar uma elevada taxa de desemprego e uma situação laboral precária pode tornar-nos num povo definitivamente depressivo?
SN – Não sei se é uma característica do povo português, penso que não, mas está muito enraizada a ideia de que a dignificação pessoal só advém do trabalho enquanto emprego. Quando esse lugar deixa de existir, instala-se uma crise de participação que desvincula politicamente as pessoas do mundo à sua volta.
RDB – Ainda que falemos em termos documentais, sentimos que “Vida Activa” tende a centrar-se no depoimento evitando sempre qualquer tipo de julgamento. Nunca sentiu a tentação de deixar cair a cortina da imparcialidade?
SN – A subjetividade não se dá apenas em comentários na primeira pessoa. A estrutura do filme não é imparcial. Há uma montagem de problemas que tem uma orientação muita clara. A cena final é disso emblemática. A destruição dos papéis ressoa por todo o filme, como o facilitismo dominante em destruir o que levou anos a construir. Não se trata da destruição da memória pessoal mas sim de estruturas produtivas irreparáveis.
RDB – De que forma motivaria o espetador a ver o seu documentário?
SN – O ato de ver um filme em sala transforma o filme numa experiência, o que nem sempre acontece numa televisão ou num computador.
In Rua de Baixo
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Guta Naki em entrevista
"A vida faz a ficção e vice-versa"
Cerca de três anos depois de lançarem o primeiro álbum, os Guta Naki voltaram com “Perto Como”. A vocalista, e agora guitarrista, Cátia Sá Pereira abriu o coração e falou-nos do processo de realização do segundo tomo da carreira da banda, das diferenças concetuais face a "Guta Naki" e sobre o que inspira o grupo.
PP – A primeira faixa de “Perto Como”, "Ikari”, resulta de um sample retirado do filme “A Guerra do Fogo”, de Jean Jacques Annaud - um exercício que nos reporta aos primeiros tempos da era humana e da pura descoberta. A esta ideia pode aplicar-se algum tipo de paralelismo com a vossa música? Estão os Guta Naki em constante pesquisa (musical)?
Cátia Sá Pereira - Só não chamo paralelismo porque há uma tangência, queremos tocar no que nos toca, a descoberta dá-se no toque. Como fazer o fogo, como mantê-lo, como cuidá-lo. É o deslumbramento pela chama, o nosso processo é esse: chamamos a chama.
PP – Uma das maiores diferenças de “Perto Como” em relação ao vosso primeiro disco é a presença mais assídua da bateria, em detrimento da eletrónica. A Cátia também toca agora guitarra… Estas questões foram pensadas ou surgiram naturalmente?
CSP - Pensar é deixar surgir naturalmente, ir pensando, ir fazendo, vamos tendo desejos e concretizando as vontades. A parte rítmica foi sendo composta a partir de samples de bateria e beats programados, não houve propriamente uma intenção de substituição. A segunda guitarra surgiu como mais um processo de composição. Algumas canções nasceram assim, o esqueleto delas, voz e guitarra, mais como base para compor as melodias de voz e as letras.
PP – Ainda no que toca à “nova” sonoridade dos Guta Naki, notam-se alguns tiques “tropicais”, como por exemplo em “Onde Ela Mora”. Notam que evoluíram enquanto músicos e intérpretes, comparativamente ao vosso primeiro registo?
CSP - Notamos que tudo se desenrola, foi uma evolução no sentido da transformação se dar de forma gradual e progressiva, contínua.
PP – Depois de ouvir “Perto Como” sente-se que este é um disco de corpo inteiro, pensado e trabalhado meticulosamente. Em que e como basearam o seu processo criativo?
CSP - Um dos processos foi gravar todos os ensaios, fazíamos vídeos, temos registo de quase todos os começos das músicas.
PP – Não há dúvida que a internet é uma das formas mais imediatas e financeiramente mais atrativas de promover um trabalho. No final de janeiro deram um concerto através do vosso site. Como surgiu essa ideia? Pensam repetir a mesma?
CSP - Não me lembro como surgiu, tínhamos tido a ideia de um concerto online antes de lançarmos o primeiro disco, concretizámos agora. Repetir é uma hipótese, sim, gostámos da experiência, íamos conversando com o público pelo chat, foi interessante.
PP – De volta à vossa musicalidade... Os Guta Naki emanam uma atmosfera que mistura desejo e ingenuidade, através de uma poesia “literária” e complexa. Onde vão buscar a vossa inspiração?
CSP - Não sei se percebo bem em que sentido é que consideras ingénua, a arte é sempre uma construção. A inspiração vem de todo o lado, dos livros, dos sonhos, da música, das conversas, das pessoas, a vida faz a ficção e vice-versa.
PP – Sentem algum carinho particular por alguma das vossas composições?
CSP - Todas elas têm o seu lugar. Dependendo do dia, podemos ter alguma que preferimos ouvir... Hoje estou em dia de “Onde Ela Mora”.
PP – Ainda que estejamos sob o efeito de um novo lançamento, tivemos de esperar quase quatro anos para voltarmos a ter novidades dos Guta Naki. Não vos pareceu demasiado tempo?
CSP - Na verdade, foram três anos e pouco: o primeiro disco saiu em novembro de 2010, e este em fevereiro de 2014. Foi o tempo necessário para fazer o disco que queríamos fazer, não achámos muito. Em alguns momentos sentimos a pressão do tempo, mais pela ansiedade de mostrar as coisas novas, mas isso não interferiu para acelerar o processo.
PP – Têm certamente preparada uma série de eventos para apresentarem “Perto Como”...
CSP - Temos algumas datas em agenda, vamos anunciando na nossa página do facebook. Passem lá!
In Palco Principal
Cerca de três anos depois de lançarem o primeiro álbum, os Guta Naki voltaram com “Perto Como”. A vocalista, e agora guitarrista, Cátia Sá Pereira abriu o coração e falou-nos do processo de realização do segundo tomo da carreira da banda, das diferenças concetuais face a "Guta Naki" e sobre o que inspira o grupo.
PP – A primeira faixa de “Perto Como”, "Ikari”, resulta de um sample retirado do filme “A Guerra do Fogo”, de Jean Jacques Annaud - um exercício que nos reporta aos primeiros tempos da era humana e da pura descoberta. A esta ideia pode aplicar-se algum tipo de paralelismo com a vossa música? Estão os Guta Naki em constante pesquisa (musical)?
Cátia Sá Pereira - Só não chamo paralelismo porque há uma tangência, queremos tocar no que nos toca, a descoberta dá-se no toque. Como fazer o fogo, como mantê-lo, como cuidá-lo. É o deslumbramento pela chama, o nosso processo é esse: chamamos a chama.
PP – Uma das maiores diferenças de “Perto Como” em relação ao vosso primeiro disco é a presença mais assídua da bateria, em detrimento da eletrónica. A Cátia também toca agora guitarra… Estas questões foram pensadas ou surgiram naturalmente?
CSP - Pensar é deixar surgir naturalmente, ir pensando, ir fazendo, vamos tendo desejos e concretizando as vontades. A parte rítmica foi sendo composta a partir de samples de bateria e beats programados, não houve propriamente uma intenção de substituição. A segunda guitarra surgiu como mais um processo de composição. Algumas canções nasceram assim, o esqueleto delas, voz e guitarra, mais como base para compor as melodias de voz e as letras.
PP – Ainda no que toca à “nova” sonoridade dos Guta Naki, notam-se alguns tiques “tropicais”, como por exemplo em “Onde Ela Mora”. Notam que evoluíram enquanto músicos e intérpretes, comparativamente ao vosso primeiro registo?
CSP - Notamos que tudo se desenrola, foi uma evolução no sentido da transformação se dar de forma gradual e progressiva, contínua.
PP – Depois de ouvir “Perto Como” sente-se que este é um disco de corpo inteiro, pensado e trabalhado meticulosamente. Em que e como basearam o seu processo criativo?
CSP - Um dos processos foi gravar todos os ensaios, fazíamos vídeos, temos registo de quase todos os começos das músicas.
PP – Não há dúvida que a internet é uma das formas mais imediatas e financeiramente mais atrativas de promover um trabalho. No final de janeiro deram um concerto através do vosso site. Como surgiu essa ideia? Pensam repetir a mesma?
CSP - Não me lembro como surgiu, tínhamos tido a ideia de um concerto online antes de lançarmos o primeiro disco, concretizámos agora. Repetir é uma hipótese, sim, gostámos da experiência, íamos conversando com o público pelo chat, foi interessante.
PP – De volta à vossa musicalidade... Os Guta Naki emanam uma atmosfera que mistura desejo e ingenuidade, através de uma poesia “literária” e complexa. Onde vão buscar a vossa inspiração?
CSP - Não sei se percebo bem em que sentido é que consideras ingénua, a arte é sempre uma construção. A inspiração vem de todo o lado, dos livros, dos sonhos, da música, das conversas, das pessoas, a vida faz a ficção e vice-versa.
PP – Sentem algum carinho particular por alguma das vossas composições?
CSP - Todas elas têm o seu lugar. Dependendo do dia, podemos ter alguma que preferimos ouvir... Hoje estou em dia de “Onde Ela Mora”.
PP – Ainda que estejamos sob o efeito de um novo lançamento, tivemos de esperar quase quatro anos para voltarmos a ter novidades dos Guta Naki. Não vos pareceu demasiado tempo?
CSP - Na verdade, foram três anos e pouco: o primeiro disco saiu em novembro de 2010, e este em fevereiro de 2014. Foi o tempo necessário para fazer o disco que queríamos fazer, não achámos muito. Em alguns momentos sentimos a pressão do tempo, mais pela ansiedade de mostrar as coisas novas, mas isso não interferiu para acelerar o processo.
PP – Têm certamente preparada uma série de eventos para apresentarem “Perto Como”...
CSP - Temos algumas datas em agenda, vamos anunciando na nossa página do facebook. Passem lá!
In Palco Principal
segunda-feira, 10 de março de 2014
Cristina Branco em entrevista
"A minha voz habita facilmente vários espaços no mapa da música”
Uma das mais marcantes vozes da sua geração, Cristina Branco relembra os 17 anos de carreira em “Idealist”, uma caixa com três discos que evocam o passado, sentem o presente e apontam ao futuro. Assumidamente eclética e, hoje, longe dos idealismos de outrora, Cristina Branco fala-nos um pouco sobre a génese desta edição tripla, do papel da música na sua vida, da nova geração de fadistas e da possibilidade de um pequena tour por terras nacionais.
Palco Principal – Desde sempre pautou a sua carreira de forma dissidente, tendo em conta aquilo que se entende como o perfil do fadista. Pisou o palco pela primeira vez no estrangeiro (na Holanda) e conseguiu, como poucos, crescer com o Fado. Esta coletânea reflete todo esse percurso ou serve como um qualquer ponto de viragem?
Cristina Branco - A antologia reflete simplesmente o caminho, desde os primórdios envergonhados até uma interpretação mais consistente.
PP – É sabido que fazer um “melhor de…” é tarefa complicada. Como surgiu a ideia para a criação de “Idealist” e qual o critério para chegar a estas quase seis dezenas de canções?
CB - Sim, foi complicado. Devo dizer que a ideia não partiu de mim - foi a editora que o sugeriu, numa primeira instância. Aliás, dificilmente me imaginava a realizar esta tarefa tão cedo, sendo que, na verdade, já lá vão 13 discos! O critério foi intuitivo e, mais do que outra coisa, um exercício de memória. Foram os temas eleitos do público e os que me marcaram por esta ou aquela razão, pessoal, profissional. Costumo dizer que os meus discos refletem a minha evolução como indivíduo, dão-me sempre a antevisão do momento seguinte.
PP – Depois de ouvirmos os três discos de “Idealist” (“Fado”, “Poemas” e “Ideal”), sentimos a complexidade da sua obra, assim como o seu lado eclético. Em que território é que a Cristina Branco se sente “melhor”? Enquanto recria clássicos fadistas, como “Gaivota” ou “Trago um fado nos sentidos”, quando interpreta temas como “A case of you” ou “Construção”, ou quanto canta originais seus?
CB - Se não me sentisse confortável em todos esses territórios, seriam experiências falhadas por esta ou aquela razão. A verdade é que a minha voz habita facilmente vários espaços no mapa da música. Eu sou todos eles, porque os interiorizo antes de cantar e dou-lhes um cunho muito pessoal. Claro que os originais não têm passado, foram feitos para mim e tudo o que lhes imprima é novo e, logo, um desafio ainda maior.
PP – Sendo que a grande maioria dos temas de “Idealist” são Fado, como fazer coexistir a canção portuguesa por excelência com outras peças cantadas em francês, inglês ou castelhano? Deixa-se de ser “fadista” ao cantar numa língua que não o português?
CB - Acredito que sim. Ser fadista é estado de alma, diz-se. Não renego essa também minha condição, mas não creio que, quando me atiro a outros géneros musicais, a expressão fadista coexista. Fecho os olhos e vou buscar a minha orelha eclética, curiosa.
PP – Tem por hábito afirmar que é uma mulher privilegiada, pois sempre “cantou o que quis cantar”. Depois de 17 anos de carreira, 13 discos lançados e muitos concertos dados ainda sente esse privilégio? É uma idealista por natureza?
CB - Tenho esse privilégio e outros, como partilhar o palco e os discos sempre com grandes músicos! Idealista já fui mais, apesar de, na música, ainda ter algumas reservas de convicção!
PP – Para além dos muitos temas já anteriormente editados, “Idealist” traz três surpresas: os inéditos “Fado de partilha”, “Se fores, não chores por mim” e “Na rua do silêncio” - dois originais e uma reinterpretação. Qual a razão da sua inclusão nesta coletânea?
CB - Porque pedi para regravar alguns dos temas mais antigos, mas pouco depois percebi que não seria justo para com o público (isso surgirá em palco apenas), e a proposta passou a ser de criar novas músicas. Foi muito justo e muito mais estimulante! Assim percebemos todos que o caminho continua!
PP – O Fado é, hoje, um género com enorme aceitação e são muitos os novos e bons intérpretes que têm surgido ultimamente. Como encara esta “nova geração” de fadistas?
CB - Têm uma grande vontade e um desprendimento do passado que lhes permite ousar e ainda assim defender o bastião! Com eles, também chegou um público jovem, seja pela nova atitude, seja pela qualidade, seja pela curiosidade que veio de fora e entrou de rompante, mostrando a todos, finalmente, que se podem orgulhar de algumas coisas que se fazem em português e para portugueses. Bem hajam!
PP – Para promover “Idealist” tem agendados dezenas de concertos em países como Israel, Rússia, Bélgica, Holanda, Alemanha, Espanha, Suécia, França…e Portugal. O que a motivou a colocar o concerto marcado para o dia 11 de dezembro no CCB – único agendado para terras lusas – como última data?
CB - Foi mero acaso e fruto de um encontro de agendas entre o CCB e nós. Além disso, como há ainda alguma liberdade de movimentos, resolvemos considerar a construção de uma pequena tour à volta dessa data.
In Palco Principal
Uma das mais marcantes vozes da sua geração, Cristina Branco relembra os 17 anos de carreira em “Idealist”, uma caixa com três discos que evocam o passado, sentem o presente e apontam ao futuro. Assumidamente eclética e, hoje, longe dos idealismos de outrora, Cristina Branco fala-nos um pouco sobre a génese desta edição tripla, do papel da música na sua vida, da nova geração de fadistas e da possibilidade de um pequena tour por terras nacionais.
Palco Principal – Desde sempre pautou a sua carreira de forma dissidente, tendo em conta aquilo que se entende como o perfil do fadista. Pisou o palco pela primeira vez no estrangeiro (na Holanda) e conseguiu, como poucos, crescer com o Fado. Esta coletânea reflete todo esse percurso ou serve como um qualquer ponto de viragem?
Cristina Branco - A antologia reflete simplesmente o caminho, desde os primórdios envergonhados até uma interpretação mais consistente.
PP – É sabido que fazer um “melhor de…” é tarefa complicada. Como surgiu a ideia para a criação de “Idealist” e qual o critério para chegar a estas quase seis dezenas de canções?
CB - Sim, foi complicado. Devo dizer que a ideia não partiu de mim - foi a editora que o sugeriu, numa primeira instância. Aliás, dificilmente me imaginava a realizar esta tarefa tão cedo, sendo que, na verdade, já lá vão 13 discos! O critério foi intuitivo e, mais do que outra coisa, um exercício de memória. Foram os temas eleitos do público e os que me marcaram por esta ou aquela razão, pessoal, profissional. Costumo dizer que os meus discos refletem a minha evolução como indivíduo, dão-me sempre a antevisão do momento seguinte.
PP – Depois de ouvirmos os três discos de “Idealist” (“Fado”, “Poemas” e “Ideal”), sentimos a complexidade da sua obra, assim como o seu lado eclético. Em que território é que a Cristina Branco se sente “melhor”? Enquanto recria clássicos fadistas, como “Gaivota” ou “Trago um fado nos sentidos”, quando interpreta temas como “A case of you” ou “Construção”, ou quanto canta originais seus?
CB - Se não me sentisse confortável em todos esses territórios, seriam experiências falhadas por esta ou aquela razão. A verdade é que a minha voz habita facilmente vários espaços no mapa da música. Eu sou todos eles, porque os interiorizo antes de cantar e dou-lhes um cunho muito pessoal. Claro que os originais não têm passado, foram feitos para mim e tudo o que lhes imprima é novo e, logo, um desafio ainda maior.
PP – Sendo que a grande maioria dos temas de “Idealist” são Fado, como fazer coexistir a canção portuguesa por excelência com outras peças cantadas em francês, inglês ou castelhano? Deixa-se de ser “fadista” ao cantar numa língua que não o português?
CB - Acredito que sim. Ser fadista é estado de alma, diz-se. Não renego essa também minha condição, mas não creio que, quando me atiro a outros géneros musicais, a expressão fadista coexista. Fecho os olhos e vou buscar a minha orelha eclética, curiosa.
PP – Tem por hábito afirmar que é uma mulher privilegiada, pois sempre “cantou o que quis cantar”. Depois de 17 anos de carreira, 13 discos lançados e muitos concertos dados ainda sente esse privilégio? É uma idealista por natureza?
CB - Tenho esse privilégio e outros, como partilhar o palco e os discos sempre com grandes músicos! Idealista já fui mais, apesar de, na música, ainda ter algumas reservas de convicção!
PP – Para além dos muitos temas já anteriormente editados, “Idealist” traz três surpresas: os inéditos “Fado de partilha”, “Se fores, não chores por mim” e “Na rua do silêncio” - dois originais e uma reinterpretação. Qual a razão da sua inclusão nesta coletânea?
CB - Porque pedi para regravar alguns dos temas mais antigos, mas pouco depois percebi que não seria justo para com o público (isso surgirá em palco apenas), e a proposta passou a ser de criar novas músicas. Foi muito justo e muito mais estimulante! Assim percebemos todos que o caminho continua!
PP – O Fado é, hoje, um género com enorme aceitação e são muitos os novos e bons intérpretes que têm surgido ultimamente. Como encara esta “nova geração” de fadistas?
CB - Têm uma grande vontade e um desprendimento do passado que lhes permite ousar e ainda assim defender o bastião! Com eles, também chegou um público jovem, seja pela nova atitude, seja pela qualidade, seja pela curiosidade que veio de fora e entrou de rompante, mostrando a todos, finalmente, que se podem orgulhar de algumas coisas que se fazem em português e para portugueses. Bem hajam!
PP – Para promover “Idealist” tem agendados dezenas de concertos em países como Israel, Rússia, Bélgica, Holanda, Alemanha, Espanha, Suécia, França…e Portugal. O que a motivou a colocar o concerto marcado para o dia 11 de dezembro no CCB – único agendado para terras lusas – como última data?
CB - Foi mero acaso e fruto de um encontro de agendas entre o CCB e nós. Além disso, como há ainda alguma liberdade de movimentos, resolvemos considerar a construção de uma pequena tour à volta dessa data.
In Palco Principal
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Mler if dada em entrevista:
“Os Mler Ife Dada eram um laboratório de composição pop, uma forma de aprendizagem pessoal do ato de compor”
São uma das mais interessantes e inovadoras bandas portuguesas nascidas nos anos 80 e regressam aos palcos nacionais no dia 14 de fevereiro. Falámos com Nuno Rebelo e Anabela Duarte sobre o concerto no CCB, a recente revisitação de “Valete (de copas)”, sobre aquilo que motivou a dissolução da banda e, claro, sobre a possível existência de um futuro para os Mler if dada.
Palco Principal – Os Mler If Dada estão de regresso às atuações ao vivo, em jeito de comemoração dos 30 anos de carreira da banda. O que vos motivou a voltarem a pisar o palco? O facto de o Nuno Rebelo viver em Barcelona dificultou, de certa forma, um tão desejado - dizemos nós - reencontro?
Nuno Rebelo - Acho que a principal motivação foi a vontade de voltar a tocar aquelas músicas que, passados estes 30 anos, continuam a dar um grande prazer. E, também, a possibilidade de agora fazermos um concerto dos Mler Ife Dada com meios de que não dispúnhamos naquela época.
Anabela Duarte - Não, não dificultou, até porque já nos tínhamos encontrado antes. Apenas se proporcionou nesta altura reunirmo-nos e fazermos a montagem do concerto e das músicas que, também eu, já não ouvia há muito tempo, e as quais tenho muito gosto em reinventar e comemorar.
PP – Sendo um dos mais importantes e inovadores nomes do universo pop da música nacional da década de 80, acham que deixaram alguma espécie de legado? A par dos Pop Dell’Arte, os Mler Ife Dada conseguiram «surrealizar» o espetro musical português…
NR - Sinceramente, não sei.
AD - Ouvi alguns rumores de possíveis influências em outros músicos e grupos, e até há um trabalho científico sobre os Mler ife, apresentado em universidades, o que, até certo ponto, é algo desconcertante. Mas eu também já apresentei comunicações sobre a Diamanda Galàs ou o Lou Reed... Fazemos parte, creio, de um contexto cultural a que não podemos escapar.
PP – Dois anos depois de lançarem “Coisas que fascinam”, os Mler Ife Dada terminaram devido a desentendimentos entre o Nuno Rebelo e a Anabela Duarte, por altura da edição de "Espírito Invisível". Hoje, décadas depois, já pensaram como teria sido o sucessor do disco editado em 1989, se tivessem continuado a compor juntos?
NR - É-me muito difícil imaginar isso. Não foram apenas os desentendimentos que levaram ao fim do grupo. Eu também sentia que a minha passagem pela pop estava a esgotar-se e sentia necessidade de aprofundar a minha viagem na música por outras paragens, que foi o que fiz.
AD - Teria sido bom, imagino, mas provavelmente com outros músicos. Aquele casting é que se tinha esgotado, na minha opinião, mas, na altura, era difícil compreender isso. Cada um seguiu o seu caminho e somos os únicos sobreviventes com um percurso significativo na música, entre outras coisas.
PP – Desde a génese da banda que procuraram transgredir e extravasar o conceito pop. “Nu Ar”, a vossa primeira mostra musical, pautava-se pelo corte com o som vigente. Acreditavam que podiam reeducar o ouvido e a mente das pessoas?
NR - Para mim, os Mler Ife eram, entre outras coisas, um laboratório de composição pop, uma forma de aprendizagem pessoal do ato de compor. Usando as suas palavras, eram os meus ouvidos e a minha mente que estavam a ser reeducados e isso refletia-se naquilo que eu compunha para o grupo. Modestamente, não creio que tenha pensado alguma vez que estava a reeducar as pessoas.
AD - Foi, também, um meio de aprendizagem e desenvolvimento do meu potencial enquanto cantora e performer. Os concertos eram uma espécie de catarse musical e visual, e eu experimentava muitas coisas em palco. Levava sequências coreográficas, usava terapias chinesas, objetos inspiradores ou pequenos motivos vocais e teatrais que ensaiava ao vivo. Mas, de certa forma, éramos muito curiosos e pretendíamos dar a conhecer outras coisas, fazendo-as. E a dance music, por exemplo, apela a outra músicas e a outras linguagens, a uma audição mais ativa na pop, além dos costumeiros charts e playlists.
PP – De regresso ao presente e, mais propriamente, ao espetáculo a decorrer no CCB: sabemos que vão ter a companhia em palco de mais músicos, nomeadamente de um trio de cordas e sopros. A ideia é fazer a vossa música «crescer»?
NR - Sim, de alguma maneira é isso: trazer aos Mler Ife uma certa maturidade, ao mesmo tempo que revisitamos músicas do nosso passado.
AD - É dar maior intensidade e apurar com mais meios o trabalho anterior.
PP – Regravaram recentemente “Valete (de Copas)”. Essa revitalização - e revisitação - do vosso som teve em vista a apresentação no CCB ou outro objetivo?
NR - A revitalização atual do som dos Mler ife - e refiro-me a todas as canções que iremos tocar - está a ser feita com o objetivo de as apresentar no concerto. A gravação do “Valete (de copas)”, em concreto, fez-se com objetivos promocionais, para que na rádio pudessem passar material que exemplificasse como soam os Mler Ife Dada de agora.
AD - Exato. É natural que as pessoas fiquem com curiosidade sobre a música de «agora», passados 30 anos. Nós, a bem dizer, também estávamos com muita curiosidade e nada melhor que regravar uma canção como a "Valete". Só tenho pena de não regravarmos mais, mas quem sabe...
PP - Esse regresso a estúdio, ainda que breve, não vos deu vontade de voltarem a gravar temas originais? Tendo em conta o atual panorama musical português, acham que os Mler Ife Dada (ainda) faziam sentido musicalmente?
NR - De momento, estou apenas concentrado na preparação deste concerto. O facto de estar a escrever os arranjos para cordas e metais não me deixa espaço mental para pensar em temas originais. Por outro lado, não sei até que ponto gostaria, ou näo, de me envolver, de novo, tão intensamente com o universo da música pop.
AD - O Nuno já falou disso algumas vezes. Neste momento, contudo, temos de nos concentrar no que nos propusemos fazer e depois logo se verá. O facto de ele estar em Barcelona também dificulta um pouco as coisas.
PP – O concerto de 14 de fevereiro será um ato isolado ou já têm mais datas agendadas? Vamos ter os Mler Ife Dada na estrada?
NR - Se houver possibilidade, creio que sim. Um número limitado de concertos.
AD - Claro, também gostaríamos e já nos têm pedido para irmos a vários pontos do país. Em princípio, faremos mais, mas o futuro o dirá.
In Palco Principal
São uma das mais interessantes e inovadoras bandas portuguesas nascidas nos anos 80 e regressam aos palcos nacionais no dia 14 de fevereiro. Falámos com Nuno Rebelo e Anabela Duarte sobre o concerto no CCB, a recente revisitação de “Valete (de copas)”, sobre aquilo que motivou a dissolução da banda e, claro, sobre a possível existência de um futuro para os Mler if dada.
Palco Principal – Os Mler If Dada estão de regresso às atuações ao vivo, em jeito de comemoração dos 30 anos de carreira da banda. O que vos motivou a voltarem a pisar o palco? O facto de o Nuno Rebelo viver em Barcelona dificultou, de certa forma, um tão desejado - dizemos nós - reencontro?
Nuno Rebelo - Acho que a principal motivação foi a vontade de voltar a tocar aquelas músicas que, passados estes 30 anos, continuam a dar um grande prazer. E, também, a possibilidade de agora fazermos um concerto dos Mler Ife Dada com meios de que não dispúnhamos naquela época.
Anabela Duarte - Não, não dificultou, até porque já nos tínhamos encontrado antes. Apenas se proporcionou nesta altura reunirmo-nos e fazermos a montagem do concerto e das músicas que, também eu, já não ouvia há muito tempo, e as quais tenho muito gosto em reinventar e comemorar.
PP – Sendo um dos mais importantes e inovadores nomes do universo pop da música nacional da década de 80, acham que deixaram alguma espécie de legado? A par dos Pop Dell’Arte, os Mler Ife Dada conseguiram «surrealizar» o espetro musical português…
NR - Sinceramente, não sei.
AD - Ouvi alguns rumores de possíveis influências em outros músicos e grupos, e até há um trabalho científico sobre os Mler ife, apresentado em universidades, o que, até certo ponto, é algo desconcertante. Mas eu também já apresentei comunicações sobre a Diamanda Galàs ou o Lou Reed... Fazemos parte, creio, de um contexto cultural a que não podemos escapar.
PP – Dois anos depois de lançarem “Coisas que fascinam”, os Mler Ife Dada terminaram devido a desentendimentos entre o Nuno Rebelo e a Anabela Duarte, por altura da edição de "Espírito Invisível". Hoje, décadas depois, já pensaram como teria sido o sucessor do disco editado em 1989, se tivessem continuado a compor juntos?
NR - É-me muito difícil imaginar isso. Não foram apenas os desentendimentos que levaram ao fim do grupo. Eu também sentia que a minha passagem pela pop estava a esgotar-se e sentia necessidade de aprofundar a minha viagem na música por outras paragens, que foi o que fiz.
AD - Teria sido bom, imagino, mas provavelmente com outros músicos. Aquele casting é que se tinha esgotado, na minha opinião, mas, na altura, era difícil compreender isso. Cada um seguiu o seu caminho e somos os únicos sobreviventes com um percurso significativo na música, entre outras coisas.
PP – Desde a génese da banda que procuraram transgredir e extravasar o conceito pop. “Nu Ar”, a vossa primeira mostra musical, pautava-se pelo corte com o som vigente. Acreditavam que podiam reeducar o ouvido e a mente das pessoas?
NR - Para mim, os Mler Ife eram, entre outras coisas, um laboratório de composição pop, uma forma de aprendizagem pessoal do ato de compor. Usando as suas palavras, eram os meus ouvidos e a minha mente que estavam a ser reeducados e isso refletia-se naquilo que eu compunha para o grupo. Modestamente, não creio que tenha pensado alguma vez que estava a reeducar as pessoas.
AD - Foi, também, um meio de aprendizagem e desenvolvimento do meu potencial enquanto cantora e performer. Os concertos eram uma espécie de catarse musical e visual, e eu experimentava muitas coisas em palco. Levava sequências coreográficas, usava terapias chinesas, objetos inspiradores ou pequenos motivos vocais e teatrais que ensaiava ao vivo. Mas, de certa forma, éramos muito curiosos e pretendíamos dar a conhecer outras coisas, fazendo-as. E a dance music, por exemplo, apela a outra músicas e a outras linguagens, a uma audição mais ativa na pop, além dos costumeiros charts e playlists.
PP – De regresso ao presente e, mais propriamente, ao espetáculo a decorrer no CCB: sabemos que vão ter a companhia em palco de mais músicos, nomeadamente de um trio de cordas e sopros. A ideia é fazer a vossa música «crescer»?
NR - Sim, de alguma maneira é isso: trazer aos Mler Ife uma certa maturidade, ao mesmo tempo que revisitamos músicas do nosso passado.
AD - É dar maior intensidade e apurar com mais meios o trabalho anterior.
PP – Regravaram recentemente “Valete (de Copas)”. Essa revitalização - e revisitação - do vosso som teve em vista a apresentação no CCB ou outro objetivo?
NR - A revitalização atual do som dos Mler ife - e refiro-me a todas as canções que iremos tocar - está a ser feita com o objetivo de as apresentar no concerto. A gravação do “Valete (de copas)”, em concreto, fez-se com objetivos promocionais, para que na rádio pudessem passar material que exemplificasse como soam os Mler Ife Dada de agora.
AD - Exato. É natural que as pessoas fiquem com curiosidade sobre a música de «agora», passados 30 anos. Nós, a bem dizer, também estávamos com muita curiosidade e nada melhor que regravar uma canção como a "Valete". Só tenho pena de não regravarmos mais, mas quem sabe...
PP - Esse regresso a estúdio, ainda que breve, não vos deu vontade de voltarem a gravar temas originais? Tendo em conta o atual panorama musical português, acham que os Mler Ife Dada (ainda) faziam sentido musicalmente?
NR - De momento, estou apenas concentrado na preparação deste concerto. O facto de estar a escrever os arranjos para cordas e metais não me deixa espaço mental para pensar em temas originais. Por outro lado, não sei até que ponto gostaria, ou näo, de me envolver, de novo, tão intensamente com o universo da música pop.
AD - O Nuno já falou disso algumas vezes. Neste momento, contudo, temos de nos concentrar no que nos propusemos fazer e depois logo se verá. O facto de ele estar em Barcelona também dificulta um pouco as coisas.
PP – O concerto de 14 de fevereiro será um ato isolado ou já têm mais datas agendadas? Vamos ter os Mler Ife Dada na estrada?
NR - Se houver possibilidade, creio que sim. Um número limitado de concertos.
AD - Claro, também gostaríamos e já nos têm pedido para irmos a vários pontos do país. Em princípio, faremos mais, mas o futuro o dirá.
In Palco Principal
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Trêsporcento em entrevista
"Não faz sentido cobrar um valor fixo por um álbum quando, no site ao lado, o mesmo produto se encontra disponível gratuitamente"
Esperam encerrar um ciclo com “Lotação 136”, disco ao vivo recentemente editado, numa altura em que, pela primeira vez desde a sua génese, têm um elemento novo, na bateria. Falamos dos Trêsporcento, uma banda fiel aos seus princípios e que tem sabido crescer de forma ponderada e consciente. Ainda que tenham segredos que não possam revelar, aproveitámos para falar com a banda sobre os seus oito anos de história, o negócio da música na internet e outras questões.
Palco Principal – Estão juntos há cerca de oito anos e, entre 2009 e 2014, lançaram um EP e três álbuns, incluindo o novíssimo “Lotação 136”. A vossa evolução enquanto banda tem sido aquilo que esperavam?
Trêsporcento - Quando nos juntámos, fizemo-lo apenas pela paixão que tínhamos por música e pelo gozo de tocarmos juntos enquanto amigos. Nunca tivemos quaisquer expetativas nem nunca estabelecemos metas enquanto banda. Provavelmente, essa é a razão de ainda estarmos juntos: não temos pressões internas ou externas sobre o caminho a tomar ou sobre o objetivo a atingir. Isso dá-nos uma liberdade enorme para deixarmos as coisas fluir normalmente e crescermos de forma natural, definindo o nosso próprio caminho, sem o perigo de eventuais expetativas não serem atingidas.
PP – Ainda que tenham muita experiência de palco, álbuns gravados e uma dedicada legião de seguidores, os Trêsporcento continuam envoltos de algum mistério. Faz parte da vossa filosofia manter este espetro de culto?
TPC - Não, não faz, mas não é uma coisa em que pensemos muito. Sabemos o que faz parte da nossa filosofia, para usar as tuas palavras: é estarmos concentrados na música que fazemos, e não na imagem que projetamos. Isto tem a ver com a nossa história: nós não começámos com nenhuma ideia formada sobre o que queríamos ser ou parecer. E a nossa experiência era zero. Hoje sabemos o que deve ser feito para “comunicar” uma banda, para fazer com que os media prestem atenção, mas ainda bem que não sabíamos quando começámos. Olhando para trás, foi uma sorte que as coisas tenham acontecido dessa maneira. Estar envolto nalgum mistério não nos parece mal.
PP – Com um som assumidamente indie, os Trêsporcento fazem canções envoltas de um grau de intimidade muito grande, nomeadamente no que toca à poesia cantada. Podemos dizer que a vossa maior inspiração deriva da vivência pessoal de cada um de vós?
TPC - Sim, é verdade. Muitas das músicas estão relacionadas com experiências, sejam pessoais, sejam das pessoas que nos envolvem. A vida e as experiências são bons temas para se cantar.
PP – Já disseram em entrevistas que gostam muito da música dos anos 2000 e de bandas como os The Strokes, Radiohead e Bloc Party. Que músicos vos têm atraído mais a atenção nos últimos tempos?
TPC - Gostamos muito de bandas como Queens of The Stone Age, We Were Promissed Jetpacks (que vão lançar um álbum ao vivo em fevereiro), Alt-J, Daughter, Gisela João ou Explosions in The Sky.
PP – Lançaram recentemente “Lotação 136”, um disco ao vivo gravado na Sala Vermelha do Teatro Aberto, e que é uma espécie de tributo a quem vos acarinhou e vos seguiu na estrada. Encaram este disco com um final de um ciclo?
TPC - Sim, é, claramente, um final de ciclo, ao mesmo tempo que é o princípio de outro, apesar de não ter sido pensado dessa maneira. O disco surgiu pela vontade que tínhamos em registar as versões ao vivo destas canções, que, quer por falta de habilidade nossa, quer pela energia natural que está associada ao palco, acabam por ser uma coisa diferente da que está em disco. Por outro lado, esta gravação coincide com a primeira alteração à nossa formação em sete anos, com a entrada do António para a bateria. A isto juntou-se também a sensação de que o “Quadro” representa uma espécie de segunda parte para o “Hora Extraordinária”, fechando assim esse ciclo. Não sabemos o que vamos fazer daqui para a frente, porque ainda não escrevemos nada, mas estamos convencidos de que aquilo que fizemos até aqui está esgotado, num certo sentido.
PP – Na apresentação de “Lotação 136” confessaram que músicas como “Espero” refletem um pouco a vossa evolução enquanto banda, enquanto um conjunto de músicos que luta, tendo em conta a superação. Sentem que são hoje melhores músicos do que aquando da edição do EP de 2009?
TPC - Na altura em que gravámos o EP éramos apenas um grupo de amigos que se iniciava na música e no processo de fazer e gravar musica. Não sabíamos muito bem o que fazer nem como fazer, apenas sentimos a vontade de fechar um ciclo com aquelas gravações. Hoje, passados cerca de oito anos de ensaios, palcos, e estúdios, sentimos claramente que somos, não só melhores músicos enquanto executantes, mas também enquanto banda que pensa na música como expressão daquilo que quer fazer. Foi obviamente um processo gradual, e fomos sentimos que cada nova edição ia sendo melhor e mais Trêsporcento que a anterior, o que nos fez sempre avançar para uma próxima edição.
PP – Para além de, corajosamente, já terem feito edições de autor noutras ocasiões, “Lotação 136” está à disposição para download em troca daquilo que o “consumidor” achar justo. A internet alterou, na vossa perspetiva, a “comercialização” da música enquanto objeto de consumo?
TPC - A internet alterou a comercialização global, isso é um facto. A música inclui-se neste bolo de comercialização e sofreu, obviamente, alterações na forma como é passada para o público. A oferta multiplicou-se, o valor da música diluiu-se e isso obrigou a novas estratégias Para nós, atualmente, não faz muito sentido estar a cobrar um valor fixo por um álbum ou música quando, no site ao lado, o mesmo produto se encontra disponível gratuitamente.
PP- Em termos de divulgação, o que acham mais importante: ter airplay na rádio, fazer (muitos) concertos, apostar numa boa máquina de promoção via internet…
TPC - Como divulgação, a internet tem uma força extraordinária e deverá ser, há já bastante tempo, a melhor forma de fazer chegar a música ao público em geral (o caso dos Arctic Monkeys). No nosso caso, a rádio teve também uma importância vital para dar conhecimento da nossa música, não só ao público, mas também aos “players” que atuam no mundo da música. Os concertos, apesar de serem aquilo que nos dá mais gozo fazer, não foram, até à data, a melhor forma de divulgar a banda.
PP – O que podemos esperar dos Trêsporcento em 2014?
TPC - Temos uma grande notícia a divulgar, mas ainda não podemos falar dela, para grande pena nossa…
In Palco Principal
Esperam encerrar um ciclo com “Lotação 136”, disco ao vivo recentemente editado, numa altura em que, pela primeira vez desde a sua génese, têm um elemento novo, na bateria. Falamos dos Trêsporcento, uma banda fiel aos seus princípios e que tem sabido crescer de forma ponderada e consciente. Ainda que tenham segredos que não possam revelar, aproveitámos para falar com a banda sobre os seus oito anos de história, o negócio da música na internet e outras questões.
Palco Principal – Estão juntos há cerca de oito anos e, entre 2009 e 2014, lançaram um EP e três álbuns, incluindo o novíssimo “Lotação 136”. A vossa evolução enquanto banda tem sido aquilo que esperavam?
Trêsporcento - Quando nos juntámos, fizemo-lo apenas pela paixão que tínhamos por música e pelo gozo de tocarmos juntos enquanto amigos. Nunca tivemos quaisquer expetativas nem nunca estabelecemos metas enquanto banda. Provavelmente, essa é a razão de ainda estarmos juntos: não temos pressões internas ou externas sobre o caminho a tomar ou sobre o objetivo a atingir. Isso dá-nos uma liberdade enorme para deixarmos as coisas fluir normalmente e crescermos de forma natural, definindo o nosso próprio caminho, sem o perigo de eventuais expetativas não serem atingidas.
PP – Ainda que tenham muita experiência de palco, álbuns gravados e uma dedicada legião de seguidores, os Trêsporcento continuam envoltos de algum mistério. Faz parte da vossa filosofia manter este espetro de culto?
TPC - Não, não faz, mas não é uma coisa em que pensemos muito. Sabemos o que faz parte da nossa filosofia, para usar as tuas palavras: é estarmos concentrados na música que fazemos, e não na imagem que projetamos. Isto tem a ver com a nossa história: nós não começámos com nenhuma ideia formada sobre o que queríamos ser ou parecer. E a nossa experiência era zero. Hoje sabemos o que deve ser feito para “comunicar” uma banda, para fazer com que os media prestem atenção, mas ainda bem que não sabíamos quando começámos. Olhando para trás, foi uma sorte que as coisas tenham acontecido dessa maneira. Estar envolto nalgum mistério não nos parece mal.
PP – Com um som assumidamente indie, os Trêsporcento fazem canções envoltas de um grau de intimidade muito grande, nomeadamente no que toca à poesia cantada. Podemos dizer que a vossa maior inspiração deriva da vivência pessoal de cada um de vós?
TPC - Sim, é verdade. Muitas das músicas estão relacionadas com experiências, sejam pessoais, sejam das pessoas que nos envolvem. A vida e as experiências são bons temas para se cantar.
PP – Já disseram em entrevistas que gostam muito da música dos anos 2000 e de bandas como os The Strokes, Radiohead e Bloc Party. Que músicos vos têm atraído mais a atenção nos últimos tempos?
TPC - Gostamos muito de bandas como Queens of The Stone Age, We Were Promissed Jetpacks (que vão lançar um álbum ao vivo em fevereiro), Alt-J, Daughter, Gisela João ou Explosions in The Sky.
PP – Lançaram recentemente “Lotação 136”, um disco ao vivo gravado na Sala Vermelha do Teatro Aberto, e que é uma espécie de tributo a quem vos acarinhou e vos seguiu na estrada. Encaram este disco com um final de um ciclo?
TPC - Sim, é, claramente, um final de ciclo, ao mesmo tempo que é o princípio de outro, apesar de não ter sido pensado dessa maneira. O disco surgiu pela vontade que tínhamos em registar as versões ao vivo destas canções, que, quer por falta de habilidade nossa, quer pela energia natural que está associada ao palco, acabam por ser uma coisa diferente da que está em disco. Por outro lado, esta gravação coincide com a primeira alteração à nossa formação em sete anos, com a entrada do António para a bateria. A isto juntou-se também a sensação de que o “Quadro” representa uma espécie de segunda parte para o “Hora Extraordinária”, fechando assim esse ciclo. Não sabemos o que vamos fazer daqui para a frente, porque ainda não escrevemos nada, mas estamos convencidos de que aquilo que fizemos até aqui está esgotado, num certo sentido.
PP – Na apresentação de “Lotação 136” confessaram que músicas como “Espero” refletem um pouco a vossa evolução enquanto banda, enquanto um conjunto de músicos que luta, tendo em conta a superação. Sentem que são hoje melhores músicos do que aquando da edição do EP de 2009?
TPC - Na altura em que gravámos o EP éramos apenas um grupo de amigos que se iniciava na música e no processo de fazer e gravar musica. Não sabíamos muito bem o que fazer nem como fazer, apenas sentimos a vontade de fechar um ciclo com aquelas gravações. Hoje, passados cerca de oito anos de ensaios, palcos, e estúdios, sentimos claramente que somos, não só melhores músicos enquanto executantes, mas também enquanto banda que pensa na música como expressão daquilo que quer fazer. Foi obviamente um processo gradual, e fomos sentimos que cada nova edição ia sendo melhor e mais Trêsporcento que a anterior, o que nos fez sempre avançar para uma próxima edição.
PP – Para além de, corajosamente, já terem feito edições de autor noutras ocasiões, “Lotação 136” está à disposição para download em troca daquilo que o “consumidor” achar justo. A internet alterou, na vossa perspetiva, a “comercialização” da música enquanto objeto de consumo?
TPC - A internet alterou a comercialização global, isso é um facto. A música inclui-se neste bolo de comercialização e sofreu, obviamente, alterações na forma como é passada para o público. A oferta multiplicou-se, o valor da música diluiu-se e isso obrigou a novas estratégias Para nós, atualmente, não faz muito sentido estar a cobrar um valor fixo por um álbum ou música quando, no site ao lado, o mesmo produto se encontra disponível gratuitamente.
PP- Em termos de divulgação, o que acham mais importante: ter airplay na rádio, fazer (muitos) concertos, apostar numa boa máquina de promoção via internet…
TPC - Como divulgação, a internet tem uma força extraordinária e deverá ser, há já bastante tempo, a melhor forma de fazer chegar a música ao público em geral (o caso dos Arctic Monkeys). No nosso caso, a rádio teve também uma importância vital para dar conhecimento da nossa música, não só ao público, mas também aos “players” que atuam no mundo da música. Os concertos, apesar de serem aquilo que nos dá mais gozo fazer, não foram, até à data, a melhor forma de divulgar a banda.
PP – O que podemos esperar dos Trêsporcento em 2014?
TPC - Temos uma grande notícia a divulgar, mas ainda não podemos falar dela, para grande pena nossa…
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quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Maria João Lopo de Carvalho em entrevista
«Não sendo eu feminista acredito que a mulher portuguesa é singular e, para mim, o símbolo máximo da resiliência e coragem. Somos metade de Portugal e mães da outra metade»
Com o pretexto do lançamento de “Padeira de Aljubarrota” estivemos à conversa com Maria João Lopo de Carvalho, ficando a conhecer um pouco do esquema de trabalho da autora, as suas fontes de inspiração e mestres, assim como o porquê de fazer um livro que se assume como um exercício metafórico sobre um Portugal que faz das fraquezas forças e encontra heróis improváveis que se superaram a si mesmos.
Em “A Marquesa de Alorna” explorou a vida de uma mulher rebelde e fez um elogio à liberdade e ao amor que sente por Portugal. Em a “Padeira de Aljubarrota”, a esse amor à pátria junta uma noção metafórica de resistência e coragem. Serão estes dois romances uma reflexão muito própria sobre o Portugal recente?
Os meus livros refletem sobretudo um eco do amor a Portugal por parte dos portugueses. É uma voz intemporal que cruza a sociedade de ontem e de hoje baseada na esperança de que «amanhã» haja também esta mesma resiliência e capacidade de lutar pelo país com a habitual coragem de uma nação que se diz «valente e imortal».
Explora a lenda da Padeira e os acontecimentos de 1385 de uma forma bastante pertinente e apaixonada. Quais foram as maiores fontes de inspiração para fazer um romance como a “Padeira de Aljubarrota”?
Antes e primeiro que tudo o meu amor a Portugal e à nossa Historia. Depois, o meu mestre: Fernão Lopes; e a minha maior luz: Nuno Alvares Pereira.
No livro cruza as vidas de D. Beatriz de Portugal, rainha-infanta, e Brites de Almeida, uma das maiores lendas nacionais. Se de um lado temos a “causadora” da Batalha de Aljubarrota, do outro está a maior heroína do conflito. Como foi trabalhar esses intrincados extremos?
Sempre desconfio da História quando é contada a uma só voz. Na batalha de Aljubarrota havia os dois lados da «moeda» Ao descobrir Beatriz de Portugal tive de fazer um exercício para não me deixar ir atrás dos acontecimentos, mas sim de analisar as causas da batalha de Aljubarrota, Atoleiros e Valverde pelo lado de Castela. Quem tinha razão? Haveria uma só «razão?» Estaria certa a causa de Beatriz, símbolo da nobreza e dos filhos primeiros? Ou de Brites, metáfora do povo e dos filhos segundos que estavam pelo mestre de Avis. Penso que não há, na crise de 1383-85, uma só versão da História. Há sim as várias «estórias» da histórias que ajudarão o leitor a tomar um ou outro partido. E isso é que pode ser mais interessante neste livro.
Este livro resulta num elogio ao género feminino. Sente que a mulher portuguesa tem dentro de si “uma costela” de Brites de Almeida?
Sinto e mais: tenho a certeza. Não sendo eu feminista acredito que a mulher portuguesa é singular e para mim o símbolo máximo da resiliência e coragem. Somos metade de Portugal e mães da outra metade.
Os seus romances históricos são muito ricos em pormenores e patenteiam a noção de uma forte investigação. Por norma, como realiza o processo e quanto tempo demora a preparar uma obra deste género?
Nada nesta vida se faz sem trabalho. Neste caso seria impossível deitar mãos à obra sem muito estudo e investigação. Passo pelo menos seis meses só a ler, a estudar e a investigar. Como costumo dizer, preciso de viajar 600 anos para trás e deixar-me lá ficar. Só quando tenho a época em questão como presente do indicativo, é que ouso começar a escrever. Depois são outros seis, sete meses isolada do mundo. Dias e dias inteiros a escrever, a corrigir a verificar fontes e a pintar o «quadro»!
De certa forma, o resultado dos acontecimentos ocorridos no final do século XIV foram um forte incentivo para Portugal começar a investir nos Descobrimentos e a formar um forte império. Tendo em conta a conjuntura atual, que tipo de “abanão” deveria Portugal sentir para dar a volta por cima?
Esta crise de austeridade que vivemos já é um forte abalo para não voltarmos a cometer os erros do passado. Temos de aprender todos a viver de outra forma e lá está, tal como no século XIV, a não desprezarmos a nosso força interior e a nossa capacidade de nos lançarmos a novos desafios. Ontem desvendamos o mar e conquistamos o mundo; hoje o incentivo é precisamente esse: superarmo-nos a nós próprios e conquistarmos o futuro.
Tem perto de 50 obras publicadas. Da literatura infantil aos títulos históricos, passando pelo romance ou a elaboração de manuais escolares, a Maria João Lopo de Carvalho é uma referência da literatura nacional. Dos géneros que referimos qual lhe dá mais prazer?
Completam-se. São desafios diferentes. Não posso dizer que me dá menos gozo ir buscar-me a mim própria aos doze anos e escrever de acordo com essa voz interior que ainda cá mora; como também não posso deixar de sentir um enorme gosto em tornar simples uma história complexa e com ela levar os leitores a refletirem sobre o nosso passado coletivo. Ao fim ao cabo, sou apenas uma cantadora de histórias. E é esse o meu maior prazer!
O que podemos esperar de Maria João Lopo de Carvalho no futuro próximo? Mais incursões históricas, aventuras no espetro infanto-juvenil, um romance…?
Tudo se conjuga. Para já o que posso dizer é que a ultima palavra deste romance «Padeira de Aljubarrota» é «mar».Talvez seja um presságio do futuro…
In Rua de Baixo
Com o pretexto do lançamento de “Padeira de Aljubarrota” estivemos à conversa com Maria João Lopo de Carvalho, ficando a conhecer um pouco do esquema de trabalho da autora, as suas fontes de inspiração e mestres, assim como o porquê de fazer um livro que se assume como um exercício metafórico sobre um Portugal que faz das fraquezas forças e encontra heróis improváveis que se superaram a si mesmos.
Em “A Marquesa de Alorna” explorou a vida de uma mulher rebelde e fez um elogio à liberdade e ao amor que sente por Portugal. Em a “Padeira de Aljubarrota”, a esse amor à pátria junta uma noção metafórica de resistência e coragem. Serão estes dois romances uma reflexão muito própria sobre o Portugal recente?
Os meus livros refletem sobretudo um eco do amor a Portugal por parte dos portugueses. É uma voz intemporal que cruza a sociedade de ontem e de hoje baseada na esperança de que «amanhã» haja também esta mesma resiliência e capacidade de lutar pelo país com a habitual coragem de uma nação que se diz «valente e imortal».
Explora a lenda da Padeira e os acontecimentos de 1385 de uma forma bastante pertinente e apaixonada. Quais foram as maiores fontes de inspiração para fazer um romance como a “Padeira de Aljubarrota”?
Antes e primeiro que tudo o meu amor a Portugal e à nossa Historia. Depois, o meu mestre: Fernão Lopes; e a minha maior luz: Nuno Alvares Pereira.
No livro cruza as vidas de D. Beatriz de Portugal, rainha-infanta, e Brites de Almeida, uma das maiores lendas nacionais. Se de um lado temos a “causadora” da Batalha de Aljubarrota, do outro está a maior heroína do conflito. Como foi trabalhar esses intrincados extremos?
Sempre desconfio da História quando é contada a uma só voz. Na batalha de Aljubarrota havia os dois lados da «moeda» Ao descobrir Beatriz de Portugal tive de fazer um exercício para não me deixar ir atrás dos acontecimentos, mas sim de analisar as causas da batalha de Aljubarrota, Atoleiros e Valverde pelo lado de Castela. Quem tinha razão? Haveria uma só «razão?» Estaria certa a causa de Beatriz, símbolo da nobreza e dos filhos primeiros? Ou de Brites, metáfora do povo e dos filhos segundos que estavam pelo mestre de Avis. Penso que não há, na crise de 1383-85, uma só versão da História. Há sim as várias «estórias» da histórias que ajudarão o leitor a tomar um ou outro partido. E isso é que pode ser mais interessante neste livro.
Este livro resulta num elogio ao género feminino. Sente que a mulher portuguesa tem dentro de si “uma costela” de Brites de Almeida?
Sinto e mais: tenho a certeza. Não sendo eu feminista acredito que a mulher portuguesa é singular e para mim o símbolo máximo da resiliência e coragem. Somos metade de Portugal e mães da outra metade.
Os seus romances históricos são muito ricos em pormenores e patenteiam a noção de uma forte investigação. Por norma, como realiza o processo e quanto tempo demora a preparar uma obra deste género?
Nada nesta vida se faz sem trabalho. Neste caso seria impossível deitar mãos à obra sem muito estudo e investigação. Passo pelo menos seis meses só a ler, a estudar e a investigar. Como costumo dizer, preciso de viajar 600 anos para trás e deixar-me lá ficar. Só quando tenho a época em questão como presente do indicativo, é que ouso começar a escrever. Depois são outros seis, sete meses isolada do mundo. Dias e dias inteiros a escrever, a corrigir a verificar fontes e a pintar o «quadro»!
De certa forma, o resultado dos acontecimentos ocorridos no final do século XIV foram um forte incentivo para Portugal começar a investir nos Descobrimentos e a formar um forte império. Tendo em conta a conjuntura atual, que tipo de “abanão” deveria Portugal sentir para dar a volta por cima?
Esta crise de austeridade que vivemos já é um forte abalo para não voltarmos a cometer os erros do passado. Temos de aprender todos a viver de outra forma e lá está, tal como no século XIV, a não desprezarmos a nosso força interior e a nossa capacidade de nos lançarmos a novos desafios. Ontem desvendamos o mar e conquistamos o mundo; hoje o incentivo é precisamente esse: superarmo-nos a nós próprios e conquistarmos o futuro.
Tem perto de 50 obras publicadas. Da literatura infantil aos títulos históricos, passando pelo romance ou a elaboração de manuais escolares, a Maria João Lopo de Carvalho é uma referência da literatura nacional. Dos géneros que referimos qual lhe dá mais prazer?
Completam-se. São desafios diferentes. Não posso dizer que me dá menos gozo ir buscar-me a mim própria aos doze anos e escrever de acordo com essa voz interior que ainda cá mora; como também não posso deixar de sentir um enorme gosto em tornar simples uma história complexa e com ela levar os leitores a refletirem sobre o nosso passado coletivo. Ao fim ao cabo, sou apenas uma cantadora de histórias. E é esse o meu maior prazer!
O que podemos esperar de Maria João Lopo de Carvalho no futuro próximo? Mais incursões históricas, aventuras no espetro infanto-juvenil, um romance…?
Tudo se conjuga. Para já o que posso dizer é que a ultima palavra deste romance «Padeira de Aljubarrota» é «mar».Talvez seja um presságio do futuro…
In Rua de Baixo
sábado, 2 de novembro de 2013
Scott Matthew em entrevista:
"Gosto de atribuir honestidade à música"
Dono de uma voz maravilhosa, o australiano Scott Matthew regressa a Portugal nos próximos dias 14, 15 e 16 de novembro para concertos em Lisboa, Coimbra e Porto, espetáculos esses que integram o cartaz da edição deste ano do Misty Fest. Na bagagem, o cantor traz “Unlearned”, um disco de versões envolto numa simplicidade única. A propósito deste álbum estivemos à conversa com um homem que faz da honestidade da sua música a sua maior arma e característica.
Palco Principal – Para este álbum decidiu fazer um tributo àquelas que são algumas das suas canções favoritas. Como procedeu à escolha dos temas?
Scott Matthew – Sempre tive o sonho de fazer um disco de versões. Tenho por hábito tocar versões nos concertos e a ideia era, se possível, colocar as mesmas em disco. Para além destas canções serem muito especiais para mim, elas representam aquilo que defino como uma “boa composição”. Ao longo da vida tenho criado uma banda sonora particular e estas canções têm um grande impacto na minha pessoa.
PP – “Unlearned” revela uma grande heterogeneidade de gostos. Como consegue albergar no mesmo coração canções de gente tão diferente como os Bee Gees, Joy Division ou Neil young?
SM - Tenho um gosto bastante eclético no que toca à música. Todas estas fantásticas canções fazem parte da minha forma de ser como cantor e, de uma forma consciente ou não, foram uma grande influência. Ainda que na sua forma original sejam canções pouco “compatíveis” entre si, são temas confessionais e muito honestos, e revelam muito da minha personalidade.
PP- Ao longo do disco a sua voz tem a companhia de instrumentos à base de cordas e o piano. É nesta companhia espartana que o Scott Mathew sê revê nesta fase da sua carreira?
SM - Gosto de manter uma certa instrumentalização na minha música. Alguns instrumentos podem parecer “cliché”, mas fazem parte da minha maneira de ser, sejam eles de perfil mais clássico ou folk. Há já muito tempo que descobri que este é o ambiente que mais aprecio e aquele que me faz sentir confortável. Com isto, não digo que esta instrumentalização possa resultar sempre, apenas refiro que é o que me parece mais certo neste momento. Sempre adorei, por exemplo, o som do violoncelo e do piano e tal sonoridade confere emoção no seu estado mais puro.
PP- Esta revisitação confere às músicas de “Unlearned” uma nova vida, em alguns casos muito longe da original. Acredita que as canções podem ter várias encarnações?
SM - Conservando a sua estrutura base, resolvi dar camadas diferentes a estas canções. O conceito continua lá, intacto. Os acordes, a poesia e a melodia continuam presentes e eu apenas conferi uma visão mais subjetiva ao seu conjunto, não querendo com isso abalar o seu todo.
PP – A simplicidade é uma das imagens mais marcantes deste disco. Acredita que as composições mais nuas de instrumentalização revelam uma alma mais pessoal, intimista?
SM - Sim, acredito. Para mim, a simplicidade é uma ferramenta que permite chegar ao coração da própria canção. Costuma dizer-se que uma grande composição pode ser tocada de formas várias e continua a revelar-se formidável. Gosto de atribuir honestidade à música. Arranjos deste género permitem ao ouvinte sentir, de imediato, uma ligação com a canção, seja através da voz, seja do som. O meu objetivo é permitir que as pessoas consigam um porto de abrigo em cada canção, que se descubram e entendam através da música. É, no fundo, a dádiva de um local de entendimento puro, um ombro amigo. Acho que os arranjos minimais têm esse condão.
PP- Ao ouvir este disco sente-se, de certa forma, o espírito de um concerto ao vivo. Tal intenção foi declarada?
SM - Sim, de certa forma. Nunca fui grande admirador de grandes produções. Apenas procuro ser honesto e oferecer esse sentimento. Os espetáculos ao vivo são muito importantes e estar em digressão é conseguir dar vida a um registo, a um disco. Se não me sentisse capaz de as interpretar ao vivo, a maioria das canções soaria a falso, faltaria honestidade e perder-se-ia a magia única que a performance ao vivo proporciona.
PP – Já que falamos de atuações ao vivo, integra o cartaz do Misty Fest. Que pode o público português esperar deste concerto? Um espetáculo apenas com base em “Unlearned” ou algo mais vasto?
SM – Vamos andar em digressão com o “Unlearned”, que é o meu quarto álbum de estúdio, como base. Os outros três, originais, podem também contribuir para estes espetáculos. Espero que sejam momentos simples e bonitos. Estou muito ansioso por voltar aos palcos.
PP- Conseguiu um culto invejável entre as gentes portuguesas. Qual a sua relação com Portugal?
SM – A minhas primeiras experiências em Portugal foram das mais intensas que tive. Sinto-me um privilegiado com o que tenho feito por terras portuguesas. Tenho alguns amigos por aí e tenho desenvolvido trabalhos com o Rodrigo (Leão) e os seus músicos. Sinto também grande afinidade pela vossa maravilhosa cultura. A música, as pessoas, são puras, simpáticas e muito abertas. Penso que existem muitas similaridades com a cultura australiana, há algumas coisas que me fazem sentir em “casa”.
In Palco Principal
Palco Principal – Para este álbum decidiu fazer um tributo àquelas que são algumas das suas canções favoritas. Como procedeu à escolha dos temas?
Scott Matthew – Sempre tive o sonho de fazer um disco de versões. Tenho por hábito tocar versões nos concertos e a ideia era, se possível, colocar as mesmas em disco. Para além destas canções serem muito especiais para mim, elas representam aquilo que defino como uma “boa composição”. Ao longo da vida tenho criado uma banda sonora particular e estas canções têm um grande impacto na minha pessoa.
PP – “Unlearned” revela uma grande heterogeneidade de gostos. Como consegue albergar no mesmo coração canções de gente tão diferente como os Bee Gees, Joy Division ou Neil young?
SM - Tenho um gosto bastante eclético no que toca à música. Todas estas fantásticas canções fazem parte da minha forma de ser como cantor e, de uma forma consciente ou não, foram uma grande influência. Ainda que na sua forma original sejam canções pouco “compatíveis” entre si, são temas confessionais e muito honestos, e revelam muito da minha personalidade.
PP- Ao longo do disco a sua voz tem a companhia de instrumentos à base de cordas e o piano. É nesta companhia espartana que o Scott Mathew sê revê nesta fase da sua carreira?
SM - Gosto de manter uma certa instrumentalização na minha música. Alguns instrumentos podem parecer “cliché”, mas fazem parte da minha maneira de ser, sejam eles de perfil mais clássico ou folk. Há já muito tempo que descobri que este é o ambiente que mais aprecio e aquele que me faz sentir confortável. Com isto, não digo que esta instrumentalização possa resultar sempre, apenas refiro que é o que me parece mais certo neste momento. Sempre adorei, por exemplo, o som do violoncelo e do piano e tal sonoridade confere emoção no seu estado mais puro.
PP- Esta revisitação confere às músicas de “Unlearned” uma nova vida, em alguns casos muito longe da original. Acredita que as canções podem ter várias encarnações?
SM - Conservando a sua estrutura base, resolvi dar camadas diferentes a estas canções. O conceito continua lá, intacto. Os acordes, a poesia e a melodia continuam presentes e eu apenas conferi uma visão mais subjetiva ao seu conjunto, não querendo com isso abalar o seu todo.
PP – A simplicidade é uma das imagens mais marcantes deste disco. Acredita que as composições mais nuas de instrumentalização revelam uma alma mais pessoal, intimista?
SM - Sim, acredito. Para mim, a simplicidade é uma ferramenta que permite chegar ao coração da própria canção. Costuma dizer-se que uma grande composição pode ser tocada de formas várias e continua a revelar-se formidável. Gosto de atribuir honestidade à música. Arranjos deste género permitem ao ouvinte sentir, de imediato, uma ligação com a canção, seja através da voz, seja do som. O meu objetivo é permitir que as pessoas consigam um porto de abrigo em cada canção, que se descubram e entendam através da música. É, no fundo, a dádiva de um local de entendimento puro, um ombro amigo. Acho que os arranjos minimais têm esse condão.
PP- Ao ouvir este disco sente-se, de certa forma, o espírito de um concerto ao vivo. Tal intenção foi declarada?
SM - Sim, de certa forma. Nunca fui grande admirador de grandes produções. Apenas procuro ser honesto e oferecer esse sentimento. Os espetáculos ao vivo são muito importantes e estar em digressão é conseguir dar vida a um registo, a um disco. Se não me sentisse capaz de as interpretar ao vivo, a maioria das canções soaria a falso, faltaria honestidade e perder-se-ia a magia única que a performance ao vivo proporciona.
PP – Já que falamos de atuações ao vivo, integra o cartaz do Misty Fest. Que pode o público português esperar deste concerto? Um espetáculo apenas com base em “Unlearned” ou algo mais vasto?
SM – Vamos andar em digressão com o “Unlearned”, que é o meu quarto álbum de estúdio, como base. Os outros três, originais, podem também contribuir para estes espetáculos. Espero que sejam momentos simples e bonitos. Estou muito ansioso por voltar aos palcos.
PP- Conseguiu um culto invejável entre as gentes portuguesas. Qual a sua relação com Portugal?
SM – A minhas primeiras experiências em Portugal foram das mais intensas que tive. Sinto-me um privilegiado com o que tenho feito por terras portuguesas. Tenho alguns amigos por aí e tenho desenvolvido trabalhos com o Rodrigo (Leão) e os seus músicos. Sinto também grande afinidade pela vossa maravilhosa cultura. A música, as pessoas, são puras, simpáticas e muito abertas. Penso que existem muitas similaridades com a cultura australiana, há algumas coisas que me fazem sentir em “casa”.
In Palco Principal
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
David Machado em entrevista
«Cada pessoa terá a sua forma de olhar, pensar e viver a sua felicidade. Confesso que, nesse aspeto, sou muito parecido com o Xavier, para mim os números são importantes e tendo a tentar quantificar tudo»
Romancista, excelente contador de estórias e ex-economista, David Machado é uma das mais promissoras e emergentes vozes literárias da sua geração. Com livros editados em vários países, o autor de “Deixem Falar as Pedras” ou “O tubarão na Banheira” traz até nós “Índice Médio de Felicidade”, uma obra otimista sobre a amizade e o companheirismo que reflete a capacidade transcendente de acreditar na felicidade, nem que seja através de uma equação matemática. Para nos falar sobre este novo romance, crises, absurdos e outros assuntos, eis David Machado em discurso direto.
No teu livro anterior – “Deixem Falar as Pedras” – fizeste um exercício sobre a memória, assim como da herança geracional. Em “Índice Médio de Felicidade” é o presente que alicerça a narrativa. Esta “diferença cronológica” foi propositada?
Eu diria que não é tanto o presente, mas o futuro, a ideia que fazemos do futuro, que traz consigo conceitos como o otimismo e a esperança. E isso, sim, foi propositado. Mesmo antes de começar a escrever o “Índice Médio de Felicidade”, quando a história ainda só existia na minha cabeça, já então era claro para mim que os dois romances se complementariam: um voltado para o passado, o outro para o futuro. Nenhum é mais verdadeiro do que o outro. As duas coisas, passado e futuro, fazem parte do nosso presente.
Nas páginas iniciais deste teu novo romance fala-se de encontrar a hipotética satisfação de viver através de uma fórmula matemática. Achas possível ler a própria felicidade através de uma equação?
Cada pessoa terá a sua forma de olhar, pensar e viver a sua felicidade. Confesso que, nesse aspeto, sou muito parecido com o Xavier, para mim os números são importantes e tendo a tentar quantificar tudo. Por isso mesmo, nunca quis responder à questão do inquérito sobre a satisfação com a vida. A minha inclinação seria imediatamente começar a atribuir valores a tudo. No entanto, esse é um processo pelo qual não quero passar, até porque se trata de uma tarefa infinita.
A personagem principal de “Índice Médio de Felicidade”, Daniel, revela que ao longo da vida desenvolveu um diário que tinha o futuro escrito. Acreditas que é possível traçar um futuro ainda que o mesmo seja alterado consoante as dificuldades da vida?
Não é muito fácil fugir a uma ideia de futuro. Ela está sempre lá, na nossa cabeça, e cruza-se com todos os pensamentos que temos, ainda que, por vezes, não nos demos conta. Essa é uma das coisas que nos diferencia dos outros animais. Penso que, em certos casos, teríamos a ganhar estando mais atentos ao futuro, àquilo que esperamos dele, por exemplo, projetando esse futuro através de um plano. Por outro lado, temos de estar conscientes que esse plano, esse futuro, é apenas uma linha para nos orientarmos e que, muito dificilmente, se tornará realidade. O que não é necessariamente uma coisa má: é apenas assim que a vida é.
O desemprego e a falência social – situações que refletem o Portugal de hoje – são temas fortes neste livro. A conjuntura económica é um bom filão para a inspiração de um escritor?
Nem sempre. Neste romance, como noutros livros que já publiquei, fui ao encontro do absurdo. E a nossa época, sobretudo por causa da crise que estamos a viver, parece-me cheia de absurdos. E eu tentei usá-los de uma forma literária que favorecesse a narrativa e não necessariamente como crítica social e política.
O triângulo “Daniel-Xavier-Almodôvar” é a base de “Índice Médio de Felicidade”. Estamos perante três pessoas diferentes ou três faces de uma mesma moeda? Serão estes três personagens, no fundo, um só?
Na minha cabeça sempre me pareceu que eles em conjunto representam bem cada um de nós. Pelo menos, eu sempre me identifiquei muito com os três; mais com o Daniel, é certo, mas também com os outros. Claro que há exceções, mas ninguém é absolutamente otimista, da mesma forma que ninguém é absolutamente egoísta ou triste ou só.
Daniel é um otimista e lutador por natureza e mesmo à beira do colapso encara o futuro com esperança. De alguma forma estamos perante um qualquer perfil do Homem português?
Não sei se os portugueses são particularmente dados à esperança. Acho que temos uma capacidade surpreendente de nos adaptarmos e encontrarmos caminhos alternativos para continuarmosem frente. Essaé uma das nossas melhores qualidades. E que é muito diferente de nos resignarmos à situação. Algo que, por outro lado, começa a acontecer com demasiada frequência.
Numa das passagens do livro refere-se que Portugal conseguiu ultrapassar com distinção o período social e economicamente estagnado que derivou de décadas de ditadura. Sendo formado em economia, achas possível um sorriso risonho para o Portugal pós-troika?
As crises vêm e vão. A seguir a esta virá outra e depois outra e depois outra e depois…. Após o fim da ditadura, nasceu a ideia, ingénua mas natural, de que, morto o dragão, a felicidade e a prosperidade existiriam para sempre no reino. É uma ideia falsa, claro. A possibilidade de as coisas piorarem está sempre presente. Há, obviamente, direitos e vitórias que deveríamos tentar preservar a qualquer custo e nos últimos trinta anos cometeram-se muitos erros. Aquilo que quero dizer, sem entrar muito pelo campo da política, é que, apesar de tudo e mesmo durante esta época má da nossa história, nós podemos rir e podemos acreditar que continuaremos a rir e que, mais importante ainda, podemos lutar por isso.
Daquilo que tens conhecimento do Portugal de hoje, qual o Índice Médio de Felicidade que atribuirias ao nosso país?
O valor que descobri enquanto escrevia o livro é de 5,7. E há umas semanas li no jornal que esse valor caiu três ou quatro décimas. A minha relação com esse valor muda diariamente. Por vezes parece-me baixíssimo, saio à rua e os portugueses não parecem assim tão mal, sorriem e falam e abraçam-se. Noutros dias, considero-o justo, as coisas não estão nada bem e, claro, isso pesa muito na equação da nossa felicidade, é normal as pessoas perderem ânimo.
Ao longo da carreira já fizeste tradução, escreveste contos, livros infantis e vários romances. O que podemos esperar do David Machado nos próximos tempos?
Mais do mesmo, como se diz por aí. E se for assim, ficarei muito feliz.
Romancista, excelente contador de estórias e ex-economista, David Machado é uma das mais promissoras e emergentes vozes literárias da sua geração. Com livros editados em vários países, o autor de “Deixem Falar as Pedras” ou “O tubarão na Banheira” traz até nós “Índice Médio de Felicidade”, uma obra otimista sobre a amizade e o companheirismo que reflete a capacidade transcendente de acreditar na felicidade, nem que seja através de uma equação matemática. Para nos falar sobre este novo romance, crises, absurdos e outros assuntos, eis David Machado em discurso direto.
No teu livro anterior – “Deixem Falar as Pedras” – fizeste um exercício sobre a memória, assim como da herança geracional. Em “Índice Médio de Felicidade” é o presente que alicerça a narrativa. Esta “diferença cronológica” foi propositada?
Eu diria que não é tanto o presente, mas o futuro, a ideia que fazemos do futuro, que traz consigo conceitos como o otimismo e a esperança. E isso, sim, foi propositado. Mesmo antes de começar a escrever o “Índice Médio de Felicidade”, quando a história ainda só existia na minha cabeça, já então era claro para mim que os dois romances se complementariam: um voltado para o passado, o outro para o futuro. Nenhum é mais verdadeiro do que o outro. As duas coisas, passado e futuro, fazem parte do nosso presente.
Nas páginas iniciais deste teu novo romance fala-se de encontrar a hipotética satisfação de viver através de uma fórmula matemática. Achas possível ler a própria felicidade através de uma equação?
Cada pessoa terá a sua forma de olhar, pensar e viver a sua felicidade. Confesso que, nesse aspeto, sou muito parecido com o Xavier, para mim os números são importantes e tendo a tentar quantificar tudo. Por isso mesmo, nunca quis responder à questão do inquérito sobre a satisfação com a vida. A minha inclinação seria imediatamente começar a atribuir valores a tudo. No entanto, esse é um processo pelo qual não quero passar, até porque se trata de uma tarefa infinita.
A personagem principal de “Índice Médio de Felicidade”, Daniel, revela que ao longo da vida desenvolveu um diário que tinha o futuro escrito. Acreditas que é possível traçar um futuro ainda que o mesmo seja alterado consoante as dificuldades da vida?
Não é muito fácil fugir a uma ideia de futuro. Ela está sempre lá, na nossa cabeça, e cruza-se com todos os pensamentos que temos, ainda que, por vezes, não nos demos conta. Essa é uma das coisas que nos diferencia dos outros animais. Penso que, em certos casos, teríamos a ganhar estando mais atentos ao futuro, àquilo que esperamos dele, por exemplo, projetando esse futuro através de um plano. Por outro lado, temos de estar conscientes que esse plano, esse futuro, é apenas uma linha para nos orientarmos e que, muito dificilmente, se tornará realidade. O que não é necessariamente uma coisa má: é apenas assim que a vida é.
O desemprego e a falência social – situações que refletem o Portugal de hoje – são temas fortes neste livro. A conjuntura económica é um bom filão para a inspiração de um escritor?
Nem sempre. Neste romance, como noutros livros que já publiquei, fui ao encontro do absurdo. E a nossa época, sobretudo por causa da crise que estamos a viver, parece-me cheia de absurdos. E eu tentei usá-los de uma forma literária que favorecesse a narrativa e não necessariamente como crítica social e política.
O triângulo “Daniel-Xavier-Almodôvar” é a base de “Índice Médio de Felicidade”. Estamos perante três pessoas diferentes ou três faces de uma mesma moeda? Serão estes três personagens, no fundo, um só?
Na minha cabeça sempre me pareceu que eles em conjunto representam bem cada um de nós. Pelo menos, eu sempre me identifiquei muito com os três; mais com o Daniel, é certo, mas também com os outros. Claro que há exceções, mas ninguém é absolutamente otimista, da mesma forma que ninguém é absolutamente egoísta ou triste ou só.
Daniel é um otimista e lutador por natureza e mesmo à beira do colapso encara o futuro com esperança. De alguma forma estamos perante um qualquer perfil do Homem português?
Não sei se os portugueses são particularmente dados à esperança. Acho que temos uma capacidade surpreendente de nos adaptarmos e encontrarmos caminhos alternativos para continuarmosem frente. Essaé uma das nossas melhores qualidades. E que é muito diferente de nos resignarmos à situação. Algo que, por outro lado, começa a acontecer com demasiada frequência.
Numa das passagens do livro refere-se que Portugal conseguiu ultrapassar com distinção o período social e economicamente estagnado que derivou de décadas de ditadura. Sendo formado em economia, achas possível um sorriso risonho para o Portugal pós-troika?
As crises vêm e vão. A seguir a esta virá outra e depois outra e depois outra e depois…. Após o fim da ditadura, nasceu a ideia, ingénua mas natural, de que, morto o dragão, a felicidade e a prosperidade existiriam para sempre no reino. É uma ideia falsa, claro. A possibilidade de as coisas piorarem está sempre presente. Há, obviamente, direitos e vitórias que deveríamos tentar preservar a qualquer custo e nos últimos trinta anos cometeram-se muitos erros. Aquilo que quero dizer, sem entrar muito pelo campo da política, é que, apesar de tudo e mesmo durante esta época má da nossa história, nós podemos rir e podemos acreditar que continuaremos a rir e que, mais importante ainda, podemos lutar por isso.
Daquilo que tens conhecimento do Portugal de hoje, qual o Índice Médio de Felicidade que atribuirias ao nosso país?
O valor que descobri enquanto escrevia o livro é de 5,7. E há umas semanas li no jornal que esse valor caiu três ou quatro décimas. A minha relação com esse valor muda diariamente. Por vezes parece-me baixíssimo, saio à rua e os portugueses não parecem assim tão mal, sorriem e falam e abraçam-se. Noutros dias, considero-o justo, as coisas não estão nada bem e, claro, isso pesa muito na equação da nossa felicidade, é normal as pessoas perderem ânimo.
Ao longo da carreira já fizeste tradução, escreveste contos, livros infantis e vários romances. O que podemos esperar do David Machado nos próximos tempos?
Mais do mesmo, como se diz por aí. E se for assim, ficarei muito feliz.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Entrevista a Guillaume de Fondaumière
De forma a conhecer mais pormenores acerca deste novo jogo tivemos a oportunidade de falar com Guillaume de Fondaumière, diretor executivo da Quantic Dream e um dos maiores entusiastas da aventura protagonizada por Jodie e Aiden.
RDB: Mantendo a tradição de lançar novos e revolucionários jogos, a Quantic Dream inventou um inovador conceito de jogabilidade e sensação com “Beyond: Duas Almas”. De certa forma aquilo que procuravam era mais que uma “sequela” de “Heavy Rain”?
Guillaume de Fondaumière: A Filosofia adjacente a ambos os títulos é idêntica: ambos têm uma narrativa forte, personagens credíveis, um gameplay contextual, uma ação repleta de surpresas, não existe o conceito de gameover, etc….; no entanto existem muitas diferenças que tornam “Betond: Duas Almas” numa experiência verdadeiramente única comparativamente ao seu antecessor: A estória prolonga-se ao longo de 15 anos e é apresentada de uma forma não-cronológica, o ambiente do jogo foi totalmente revisitado e tem ainda a possibilidade de se jogar com uma entidade invisível, existem mais QTE’s (Quick Time Events), oferecemos uma maior exploração dos ambientes e temos um elenco de luxo! “Beyond: Duas Almas” representa, a meu ver e neste sentido, uma evolução face a “Heavy Rain”.
RDB: Já tivemos o privilégio de jogar algumas partes do jogo e adorámos, entre outros pormenores, as cenas de ação. “Beyond: Duas Almas” tem um novo motor gráfico e explora novas ideias de movimento. Nas cenas de Jodie filmaram sempre com a presença da atriz Ellen Page?
GdF: Tivemos a sorte e privilégio de ter a Ellen em estúdio durante quatro semanas e ela esteve envolvida em todas as sessões de captura de movimentos para a personagem Jodie Holmes enquanto adolescente e adulta. Ela trabalhava 10 horas por dia sem grandes pausas. Para além de ser um grande esforço, a Ellen mostrou-se completamente empenhada.
Mas tal como nos filmes reais os atores não fazem grande parte das cenas mais movimentadas e para isso usam duplos para os substituírem nas ações mais espetaculares e perigosas e foi o que aconteceu também com a Ellen em “Beyond: Duas Almas”.
RDB: No futuro os jogos de vídeo vão aproximar-se cada vez mais da realidade. Acha que, tal como vemos neste jogo, o jogador deve concentrar uma participação mais orgânica no decorrer da narrativa?
GdF: A criação de uma experiência interativa que consiga misturar e envolver a própria narrativa e a sua interatividade é uma tarefa muito atraente. Mas se pensarmos bem nisso, essa questão é um dos fatores mais revolucionários que os jogos de consola têm para oferecer. A capacidade de assistirmos às consequências que as nossas ações ou decisões têm em determinando contexto narrativo é algo que não está apenas ao alcance do cinema, do teatro e dos livros, tal é algo que também faz parte da natureza comunicativa do nosso meio.
Penso que “Heavy Rain” ajudou a popularizar a noção de “narrativa interativa” e agora existem mais jogos que explorar essa possibilidade (“Walking Dead”, “The Last of Us”, etc.). Eu espero, sinceramente, que mais jogos evoluam nesta direção principalmente através de narrativas fortes e consistentes por forma a atrair ainda mais gente e grupos etários mais velhos.
RDB: Apesar de todas inovações tecnológicas e gráficas deste jogo, a narrativa de “Beyond: Duas Almas” é um dos aspetos que mais impressiona. Quando tempo demoraram a pensar na estória de Jodie?
GdF: O David (Cage) desenvolveu o script durante 15 meses mas ele tinha a estória de Jodie dentro da cabeça há muitos anos. Escrever este guião foi um verdadeiro desafio para o David para mais quando a narrativa tem uma duração tão longa e consistente.
RDB: Sem dúvida que as participações de Ellen Page e Willem Dafoe tornam este jogo ainda mais autêntico. Quem teve a ideia de convidar atores famosos? Como é trabalhar com estrelas de cinema?
GdF: Quando o David começa a delinear os seus argumentos ele gosta de associar atores de carne e osso aos seus protagonistas. Quando começamos a escolher o elenco, naturalmente, oferecemos os papéis a Page e Dafoe e para nossa surpresa e satisfação eles aceitaram o trabalho quase de imediato.
Trabalhar com com a Ellen e o Willem foi extremamente fácil. Ambos chegaram ao estúdio muito bem preparados; notava-se que estavam de fato a encarnar os personagens.
Ambos trouxeram consigo o talento e a experiência de atuar. Tal como o David diz: “É como conduzir um Ferrari”. A adaptação e cooperação entre deles foi fantástica e todas as tarefas eram feitas com subtileza e competência.
Foi para todos, e principalmente para o David, uma experiência única e bastante valiosa.
RDB: A relação entre Jodie e Aiden funciona muito bem e a possibilidade de se jogar de forma cooperativa e multiplayer são ideias muito sólidas e bem conseguidas. Pensa que o jogador se sente mais confortável a jogar sozinho ou com colaboração? Acha que o ato de jogar deixou de ser uma ação solitária?
GdF: Quando lançamos “Heavy Rain” as pessoas diziam que o jogo permitiu uma das raras experiências de podermos partilhar a ação de jogar em casa com um parceiro, particularmente quando esses companheiros eram “não-jogadores” habituais. Combinando com o facto de “Beyond: Duas Almas” está sempre a alterar o protagonismo entre Jodie e Aiden precisávamos de trabalhar um modo cooperativo e pareceu natural oferecer a possibilidade de se jogar em dueto.
Pensamos ainda na pequena revolução que é a possibilidade de se jogar em “touch mode”. Graças ao “Beyond Touch”, disponível para os serviços IOS e Android, os jogadores ocasionais podem agora utilizar os seus telefones ou tablets para participar na aventura de “Beyond: Duas Almas” com controlos simplificados. Esta é outra das caraterísticas que torna a experiência de vestir a “pele” de Jodie e Aiden ainda mais atraente.
RDB: “Heavy Rain” foi um grande sucesso e “Beyond: Duas Almas” é um dos jogos mais aguardados até hoje. O que podemos esperar da Quantic Dream no que toca ao futuro dos videojogos?
GdF: Ainda é cedo para revelar novos projetos. No início deste ano apresentamos um protótipo de uma plataforma que vai rodar na PS4 chamada “The Dark Sorcerer”. Com isso mostramos um pouco em termos daquilo que pensamos ser o futuro próximo no que toca aquilo que temos explorado nas áreas gráficas e técnicas.
Aquilo que posso adiantar é que vamos, de certeza, continuar a inovar e a surpreender as pessoas. Faz parte do nosso ADN (risos).
In Rua de Baixo
RDB: Mantendo a tradição de lançar novos e revolucionários jogos, a Quantic Dream inventou um inovador conceito de jogabilidade e sensação com “Beyond: Duas Almas”. De certa forma aquilo que procuravam era mais que uma “sequela” de “Heavy Rain”?
Guillaume de Fondaumière: A Filosofia adjacente a ambos os títulos é idêntica: ambos têm uma narrativa forte, personagens credíveis, um gameplay contextual, uma ação repleta de surpresas, não existe o conceito de gameover, etc….; no entanto existem muitas diferenças que tornam “Betond: Duas Almas” numa experiência verdadeiramente única comparativamente ao seu antecessor: A estória prolonga-se ao longo de 15 anos e é apresentada de uma forma não-cronológica, o ambiente do jogo foi totalmente revisitado e tem ainda a possibilidade de se jogar com uma entidade invisível, existem mais QTE’s (Quick Time Events), oferecemos uma maior exploração dos ambientes e temos um elenco de luxo! “Beyond: Duas Almas” representa, a meu ver e neste sentido, uma evolução face a “Heavy Rain”.
RDB: Já tivemos o privilégio de jogar algumas partes do jogo e adorámos, entre outros pormenores, as cenas de ação. “Beyond: Duas Almas” tem um novo motor gráfico e explora novas ideias de movimento. Nas cenas de Jodie filmaram sempre com a presença da atriz Ellen Page?
GdF: Tivemos a sorte e privilégio de ter a Ellen em estúdio durante quatro semanas e ela esteve envolvida em todas as sessões de captura de movimentos para a personagem Jodie Holmes enquanto adolescente e adulta. Ela trabalhava 10 horas por dia sem grandes pausas. Para além de ser um grande esforço, a Ellen mostrou-se completamente empenhada.
Mas tal como nos filmes reais os atores não fazem grande parte das cenas mais movimentadas e para isso usam duplos para os substituírem nas ações mais espetaculares e perigosas e foi o que aconteceu também com a Ellen em “Beyond: Duas Almas”.
RDB: No futuro os jogos de vídeo vão aproximar-se cada vez mais da realidade. Acha que, tal como vemos neste jogo, o jogador deve concentrar uma participação mais orgânica no decorrer da narrativa?
GdF: A criação de uma experiência interativa que consiga misturar e envolver a própria narrativa e a sua interatividade é uma tarefa muito atraente. Mas se pensarmos bem nisso, essa questão é um dos fatores mais revolucionários que os jogos de consola têm para oferecer. A capacidade de assistirmos às consequências que as nossas ações ou decisões têm em determinando contexto narrativo é algo que não está apenas ao alcance do cinema, do teatro e dos livros, tal é algo que também faz parte da natureza comunicativa do nosso meio.
Penso que “Heavy Rain” ajudou a popularizar a noção de “narrativa interativa” e agora existem mais jogos que explorar essa possibilidade (“Walking Dead”, “The Last of Us”, etc.). Eu espero, sinceramente, que mais jogos evoluam nesta direção principalmente através de narrativas fortes e consistentes por forma a atrair ainda mais gente e grupos etários mais velhos.
RDB: Apesar de todas inovações tecnológicas e gráficas deste jogo, a narrativa de “Beyond: Duas Almas” é um dos aspetos que mais impressiona. Quando tempo demoraram a pensar na estória de Jodie?
GdF: O David (Cage) desenvolveu o script durante 15 meses mas ele tinha a estória de Jodie dentro da cabeça há muitos anos. Escrever este guião foi um verdadeiro desafio para o David para mais quando a narrativa tem uma duração tão longa e consistente.
RDB: Sem dúvida que as participações de Ellen Page e Willem Dafoe tornam este jogo ainda mais autêntico. Quem teve a ideia de convidar atores famosos? Como é trabalhar com estrelas de cinema?
GdF: Quando o David começa a delinear os seus argumentos ele gosta de associar atores de carne e osso aos seus protagonistas. Quando começamos a escolher o elenco, naturalmente, oferecemos os papéis a Page e Dafoe e para nossa surpresa e satisfação eles aceitaram o trabalho quase de imediato.
Trabalhar com com a Ellen e o Willem foi extremamente fácil. Ambos chegaram ao estúdio muito bem preparados; notava-se que estavam de fato a encarnar os personagens.
Ambos trouxeram consigo o talento e a experiência de atuar. Tal como o David diz: “É como conduzir um Ferrari”. A adaptação e cooperação entre deles foi fantástica e todas as tarefas eram feitas com subtileza e competência.
Foi para todos, e principalmente para o David, uma experiência única e bastante valiosa.
RDB: A relação entre Jodie e Aiden funciona muito bem e a possibilidade de se jogar de forma cooperativa e multiplayer são ideias muito sólidas e bem conseguidas. Pensa que o jogador se sente mais confortável a jogar sozinho ou com colaboração? Acha que o ato de jogar deixou de ser uma ação solitária?
GdF: Quando lançamos “Heavy Rain” as pessoas diziam que o jogo permitiu uma das raras experiências de podermos partilhar a ação de jogar em casa com um parceiro, particularmente quando esses companheiros eram “não-jogadores” habituais. Combinando com o facto de “Beyond: Duas Almas” está sempre a alterar o protagonismo entre Jodie e Aiden precisávamos de trabalhar um modo cooperativo e pareceu natural oferecer a possibilidade de se jogar em dueto.
Pensamos ainda na pequena revolução que é a possibilidade de se jogar em “touch mode”. Graças ao “Beyond Touch”, disponível para os serviços IOS e Android, os jogadores ocasionais podem agora utilizar os seus telefones ou tablets para participar na aventura de “Beyond: Duas Almas” com controlos simplificados. Esta é outra das caraterísticas que torna a experiência de vestir a “pele” de Jodie e Aiden ainda mais atraente.
RDB: “Heavy Rain” foi um grande sucesso e “Beyond: Duas Almas” é um dos jogos mais aguardados até hoje. O que podemos esperar da Quantic Dream no que toca ao futuro dos videojogos?
GdF: Ainda é cedo para revelar novos projetos. No início deste ano apresentamos um protótipo de uma plataforma que vai rodar na PS4 chamada “The Dark Sorcerer”. Com isso mostramos um pouco em termos daquilo que pensamos ser o futuro próximo no que toca aquilo que temos explorado nas áreas gráficas e técnicas.
Aquilo que posso adiantar é que vamos, de certeza, continuar a inovar e a surpreender as pessoas. Faz parte do nosso ADN (risos).
In Rua de Baixo
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Valter Hugo Mãe em entrevista
«O desafio de se chegar a uma arte com outra é constante. Fazer da literatura pintura ou da pintura literatura é um dos grandes pontos da expressão, desde sempre»
Um dos mais carismáticos e sensíveis escritores da sua geração, Valter Hugo Mãe volta aos escaparates com “A Desumanização”, um livro sensível e extremamente tocante sobre a natureza que nos rodeia e o revelo da alma perante a solidão e a dor. A propósito desta obra que marca a estreia do autor na Porto Editora, trocámos algumas palavras com um Homem que afirma que os livros podem ajudar a desenvolver o íntimo de quem os lê.
Na apresentação de “A Desumanização”, uma das definições que mais e melhor caracterizam esta obra é o facto de estarmos perante um “livro de ver”. Acha que muitos dos sentimentos que nos assaltam a alma ficam aquém daquilo que palavra escrita ou falada consegue descrever? É a imagem uma forma superior de comunicação?
O desafio de se chegar a uma arte com outra é constante. Fazer da literatura pintura ou da pintura literatura é um dos grandes pontos da expressão, desde sempre. Interessa-me muito levar adiante todos os limites que consiga. É certamente uma utopia querer que um texto seja explícito e virtuoso o suficiente para suprimir a necessidade de ver, mas pelas utopias corre a arte. Não quero correr por nada menor.
Os desenhos (da autoria de Cristina Valadas) que acompanham o livro servem para, de alguma forma, contextualizar a narrativa?
Adoro o trabalho da Cristina Valadas e quero muito estar sempre misturado com artistas plásticos. A ideia de a convidar para criar um conjunto de ilustrações passou por achar que ela seria perfeita para interpretar a candura e o susto de que se faz este livro. Acho que foi uma aposta maravilhosa. Ela fez um trabalho lindo de mais. O leitor prepara os olhos para o que o texto dá a ver.
Pela primeira vez entrega a função de narrador ou personagem principal a alguém no feminino. O que torna a personagem de “Halla” tão especial para merecer tamanha responsabilidade?
Acho a Halla uma figura impressionante. É merecedora de todos os riscos e eu não saberia escrever livros sem me colocar em perigo. Repetir receitas declaradamente não me interessa.
“A Desumanização” é um livro onde a solidão, a perda e a desesperança são sentimentos intimamente ligados à natureza das pessoas e do meio ambiente. Pensou em fazer um paralelismo metafórico entre os personagens e o cenário envolvente?
Sim. A Islândia é um símbolo de solidão. A perda da irmã gémea serve de cúmulo da solidão. Todo o livro conspira para a meditação profunda acerca de ficar só, saber ficar só, até se ser independente, livre.
“Halla” sente a morte da irmã gémea (Sigridur) como a perda da própria identidade. Acredita que um gémeo é a imagem refletida do próprio “Eu”?
Acredito que um gémeo poderá ser, ao menos na idade em que Halla nos conta a história, o extremo da companhia. A companhia absoluta. Perder um gémeo, nessa altura, tem de ser como ficar a meio na identidade.
Sabemos que teve a infelicidade de ter perdido um irmão à nascença. Será “este livro uma forma de exorcizar esse “fantasma”, de superar a perda?
O meu irmão faleceu com um ano de idade. Já havia falecido quando nasci. Nunca o vi. Não há sequer uma fotografia sua. Não há nada. E creio que escrevi o livro não para me apaziguar, mas a natureza do livro, a dado ponto, coincidiu com algumas questões minhas, como acho natural que aconteça. Não quero negar aos livros o que eles solicitam de mim. Mas é importante que os romances não se tornem exactamente súmulas da nossa vida.
O que significa para si, no fundo, “desumanizar”?
Não poder exercer em liberdade a identidade que nos corresponde. Precisar de reduzir as pulsões benignas, ingénuas, espontâneas, para não ser triturado pelo cruel que o mundo das pessoas é.
A sua escrita revela uma sensibilidade urgente e atinge um elevado patamar poético neste novo romance. Será a Islândia a musa ideal?
Para este texto foi. Este livro não poderia ser assim sem ela. Outros lugares já me terão inspirado a mesma grandeza ou ternura. Não sei pensar sem me sensibilizar, não sei sensibilizar-me sem querer explicar e escrever.
Numa das passagens do livro escreve: «As pessoas que não liam não tinham sentidos». Acha que os livros podem ser dicionários abertos da alma? Pode a leitura ser uma forma de relacionamento com o divino?
Sim. Acho que os livros são reduto do que temos de melhor. Podem cumprir todas as funções, sobretudo a de nos desenvolver intimamente, favorecendo o pensamento e as convicções. Quem não lê anda como que vazio. É apenas uma versão fraca do que poderia ser.
Sente-se, aos 42 anos, um escritor mais completo do que quando publicou, por exemplo, “O Nosso Reino”?
Sim. Sinto, sim. O tempo traz alguma paz. Não nos retira angústia nenhuma, mas permite que sejamos mais espertos a lidar com o que nos faz mal. E permite que pensemos melhor no que nos interessa, no que nos pode redimir nisto de estarmos vivos.
Foto: Miguel Gonçalves Mendes
In Rua de Baixo
Um dos mais carismáticos e sensíveis escritores da sua geração, Valter Hugo Mãe volta aos escaparates com “A Desumanização”, um livro sensível e extremamente tocante sobre a natureza que nos rodeia e o revelo da alma perante a solidão e a dor. A propósito desta obra que marca a estreia do autor na Porto Editora, trocámos algumas palavras com um Homem que afirma que os livros podem ajudar a desenvolver o íntimo de quem os lê.
Na apresentação de “A Desumanização”, uma das definições que mais e melhor caracterizam esta obra é o facto de estarmos perante um “livro de ver”. Acha que muitos dos sentimentos que nos assaltam a alma ficam aquém daquilo que palavra escrita ou falada consegue descrever? É a imagem uma forma superior de comunicação?
O desafio de se chegar a uma arte com outra é constante. Fazer da literatura pintura ou da pintura literatura é um dos grandes pontos da expressão, desde sempre. Interessa-me muito levar adiante todos os limites que consiga. É certamente uma utopia querer que um texto seja explícito e virtuoso o suficiente para suprimir a necessidade de ver, mas pelas utopias corre a arte. Não quero correr por nada menor.
Os desenhos (da autoria de Cristina Valadas) que acompanham o livro servem para, de alguma forma, contextualizar a narrativa?
Adoro o trabalho da Cristina Valadas e quero muito estar sempre misturado com artistas plásticos. A ideia de a convidar para criar um conjunto de ilustrações passou por achar que ela seria perfeita para interpretar a candura e o susto de que se faz este livro. Acho que foi uma aposta maravilhosa. Ela fez um trabalho lindo de mais. O leitor prepara os olhos para o que o texto dá a ver.
Pela primeira vez entrega a função de narrador ou personagem principal a alguém no feminino. O que torna a personagem de “Halla” tão especial para merecer tamanha responsabilidade?
Acho a Halla uma figura impressionante. É merecedora de todos os riscos e eu não saberia escrever livros sem me colocar em perigo. Repetir receitas declaradamente não me interessa.
“A Desumanização” é um livro onde a solidão, a perda e a desesperança são sentimentos intimamente ligados à natureza das pessoas e do meio ambiente. Pensou em fazer um paralelismo metafórico entre os personagens e o cenário envolvente?
Sim. A Islândia é um símbolo de solidão. A perda da irmã gémea serve de cúmulo da solidão. Todo o livro conspira para a meditação profunda acerca de ficar só, saber ficar só, até se ser independente, livre.
“Halla” sente a morte da irmã gémea (Sigridur) como a perda da própria identidade. Acredita que um gémeo é a imagem refletida do próprio “Eu”?
Acredito que um gémeo poderá ser, ao menos na idade em que Halla nos conta a história, o extremo da companhia. A companhia absoluta. Perder um gémeo, nessa altura, tem de ser como ficar a meio na identidade.
Sabemos que teve a infelicidade de ter perdido um irmão à nascença. Será “este livro uma forma de exorcizar esse “fantasma”, de superar a perda?
O meu irmão faleceu com um ano de idade. Já havia falecido quando nasci. Nunca o vi. Não há sequer uma fotografia sua. Não há nada. E creio que escrevi o livro não para me apaziguar, mas a natureza do livro, a dado ponto, coincidiu com algumas questões minhas, como acho natural que aconteça. Não quero negar aos livros o que eles solicitam de mim. Mas é importante que os romances não se tornem exactamente súmulas da nossa vida.
O que significa para si, no fundo, “desumanizar”?
Não poder exercer em liberdade a identidade que nos corresponde. Precisar de reduzir as pulsões benignas, ingénuas, espontâneas, para não ser triturado pelo cruel que o mundo das pessoas é.
A sua escrita revela uma sensibilidade urgente e atinge um elevado patamar poético neste novo romance. Será a Islândia a musa ideal?
Para este texto foi. Este livro não poderia ser assim sem ela. Outros lugares já me terão inspirado a mesma grandeza ou ternura. Não sei pensar sem me sensibilizar, não sei sensibilizar-me sem querer explicar e escrever.
Numa das passagens do livro escreve: «As pessoas que não liam não tinham sentidos». Acha que os livros podem ser dicionários abertos da alma? Pode a leitura ser uma forma de relacionamento com o divino?
Sim. Acho que os livros são reduto do que temos de melhor. Podem cumprir todas as funções, sobretudo a de nos desenvolver intimamente, favorecendo o pensamento e as convicções. Quem não lê anda como que vazio. É apenas uma versão fraca do que poderia ser.
Sente-se, aos 42 anos, um escritor mais completo do que quando publicou, por exemplo, “O Nosso Reino”?
Sim. Sinto, sim. O tempo traz alguma paz. Não nos retira angústia nenhuma, mas permite que sejamos mais espertos a lidar com o que nos faz mal. E permite que pensemos melhor no que nos interessa, no que nos pode redimir nisto de estarmos vivos.
Foto: Miguel Gonçalves Mendes
In Rua de Baixo
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Peixe:avião em entrevista
"Não definimos aquilo que queríamos fazer, mas antes aquilo de que queríamos fugir"
Numa altura em que os peixe:avião preparam alguns concertos que vão servir de apresentação e promoção ao seu mais recente álbum, quisemos saber mais sobre a génese e produção deste terceiro disco de originais da banda bracarense. A conversa, democrática, revelou alguns dos tiques de uma banda que sabe o que quer, e que encontrou um novo método de composição.
Palco Principal - Ao terceiro álbum, os peixe:avião soam mais adultos e revelam um som que funciona como uma identidade própria. O que mudou desde 2007?
Peixe:avião - Obrigado! Muita coisa mudou desde 2007: aquilo que seria normal mudar, como crescermos enquanto indivíduos e termos contacto com outros projetos, conhecermo-nos melhor no contexto da banda, termos a experiência acumulada de dois discos editados, etc., etc. Mas a principal alteração, uma que foi muito significativa em relação ao “Madrugada”, foi o nosso método de composição, que deixou de ser tão individualista e cerebral e passou a ser mais comunitário, com mais espaço para o instinto e menos para o pensar demasiado nas composições.
PP - A produção deste álbum parece mais sólida e segura e, com isso, ganham as músicas enquanto resultado final. A criação das vossas composições tem mais “trabalho de casa” ou é no estúdio que as coisas acontecem?
PA - Diria que 80% do disco surgiu em Braga. Quando fomos para Lisboa gravar com o Nélson Carvalho, já tínhamos uma ideia bastante sólida daquilo que queríamos fazer, e tanto nós como o próprio Nelson estávamos todos perfeitamente alinhados. Ainda assim, houve uma música que foi totalmente composta e gravada nos três dias em que estivemos nos estúdios da Valentim de Carvalho, e as sugestões e nuances preciosas que o Nélson implementou potenciaram a obra no seu todo.
PP - Neste disco ficamos a conhecer músicas com diferentes «almas». Foi propositada esta heterogeneidade ou é fruto de um acaso sonoro?
PA - Este disco foi muito balizado, tanto ao nível estético como na sua composição. Não definimos aquilo que queríamos fazer, mas antes aquilo de que queríamos fugir. Tínhamos algumas premissas bem definidas, como a utilização de esquemas de acordes simples e curtos, a utilização de uma paleta de sons muito contida e a quase ausência de over-dubs.Dentro deste universo tentámos navegar pelo maior número de sítios possível, indo buscar as referências que fizessem sentido à composição. De facto, acabou por ser um disco bastante heterogéneo, e ainda bem!
PP - Sabemos que as letras são, por princípio, da responsabilidade do Ronaldo. Como nasce a música nos peixe:avião? São um quinteto democrático?
PA - Somos um quinteto bastante democrático na composição dos temas, e a vantagem de sermos cinco elementos é que nunca há empates. Já as letras são criadas num regime de ditadura militar encabeçado pelo Ronaldo. Opinamos as letras, claro, mas confiamo-las a ele com toda a evidência.
PP - Ao idealizarem este novo trabalho tiveram alguma vontade de quebrar com o passado recente? Sentem que este é um disco de continuidade ou rutura?
PA - Quando começámos a pensar este disco, há cerca de dois anos, foi precisamente naquilo que queríamos mudar em relação ao “Madrugada” que nos focámos mais. Não que o “Madrugada” tivesse sido uma experiência traumática, longe disso. Simplesmente não queremos fazer dois discos iguais. A vontade de evoluir e redescobrir é constante.
PP - Nascidos e criados em Braga, os peixe:avião sentem a responsabilidade de carregar a herança de bandas como, por exemplo, os “Mão Morta”?
PA - Não pensamos muito nisso. Claro que estamos conscientes dessa herança, nem que seja por nos lembrarem dela recorrentemente. Mas estamos alguns patamares a baixo de bandas como os Mão Morta, com direito a um capítulo inteiro na história da música portuguesa.
PP - O que se respira em particular na vossa cidade que tão boas bandas revela?
PA - É mais o que não se respira que faz com que haja vontade de criar. Mas, apesar de haver poucas plataformas para a divulgação de música em Braga, houve a criação de uma plataforma importantíssima para a criação, que foram as salas de ensaio do estádio “Primeiro de Maio”. Fizeram com que muitos músicos se conhecessem e muitas bandas surgissem desse convívio. Nós somos um desses casos, de uma banda composta por elementos de outras bandas do estádio.
PP - Em termos de promoção do álbum, o que podemos esperar no que toca a atuações ao vivo?
PA - Explorámos muito a componente visual do concerto. Tentámos traduzir a estética do disco também através do cenário, da disposição e das luzes em palco. Musicalmente, como o disco é muito mais simples do que os anteriores, é mais imediatamente transponível para palco, o que faz com que tenhamos mais margem para explorarmos a interpretação, as dinâmicas, a expressão, etc. Isto faz com que o disco ganhe outra vida em concerto.Estamos agora a mostrá-lo o mais possível e vamos andar pela estrada nos próximos tempos: Trofa (4 de outubro), Lisboa (5 de outubro), Espinho (19 de outubro), Vale de Cambra (1 de novembro) e Barcelos (2 de novembro).
In Palco Principal
Numa altura em que os peixe:avião preparam alguns concertos que vão servir de apresentação e promoção ao seu mais recente álbum, quisemos saber mais sobre a génese e produção deste terceiro disco de originais da banda bracarense. A conversa, democrática, revelou alguns dos tiques de uma banda que sabe o que quer, e que encontrou um novo método de composição.
Palco Principal - Ao terceiro álbum, os peixe:avião soam mais adultos e revelam um som que funciona como uma identidade própria. O que mudou desde 2007?
Peixe:avião - Obrigado! Muita coisa mudou desde 2007: aquilo que seria normal mudar, como crescermos enquanto indivíduos e termos contacto com outros projetos, conhecermo-nos melhor no contexto da banda, termos a experiência acumulada de dois discos editados, etc., etc. Mas a principal alteração, uma que foi muito significativa em relação ao “Madrugada”, foi o nosso método de composição, que deixou de ser tão individualista e cerebral e passou a ser mais comunitário, com mais espaço para o instinto e menos para o pensar demasiado nas composições.
PP - A produção deste álbum parece mais sólida e segura e, com isso, ganham as músicas enquanto resultado final. A criação das vossas composições tem mais “trabalho de casa” ou é no estúdio que as coisas acontecem?
PA - Diria que 80% do disco surgiu em Braga. Quando fomos para Lisboa gravar com o Nélson Carvalho, já tínhamos uma ideia bastante sólida daquilo que queríamos fazer, e tanto nós como o próprio Nelson estávamos todos perfeitamente alinhados. Ainda assim, houve uma música que foi totalmente composta e gravada nos três dias em que estivemos nos estúdios da Valentim de Carvalho, e as sugestões e nuances preciosas que o Nélson implementou potenciaram a obra no seu todo.
PP - Neste disco ficamos a conhecer músicas com diferentes «almas». Foi propositada esta heterogeneidade ou é fruto de um acaso sonoro?
PA - Este disco foi muito balizado, tanto ao nível estético como na sua composição. Não definimos aquilo que queríamos fazer, mas antes aquilo de que queríamos fugir. Tínhamos algumas premissas bem definidas, como a utilização de esquemas de acordes simples e curtos, a utilização de uma paleta de sons muito contida e a quase ausência de over-dubs.Dentro deste universo tentámos navegar pelo maior número de sítios possível, indo buscar as referências que fizessem sentido à composição. De facto, acabou por ser um disco bastante heterogéneo, e ainda bem!
PP - Sabemos que as letras são, por princípio, da responsabilidade do Ronaldo. Como nasce a música nos peixe:avião? São um quinteto democrático?
PA - Somos um quinteto bastante democrático na composição dos temas, e a vantagem de sermos cinco elementos é que nunca há empates. Já as letras são criadas num regime de ditadura militar encabeçado pelo Ronaldo. Opinamos as letras, claro, mas confiamo-las a ele com toda a evidência.
PP - Ao idealizarem este novo trabalho tiveram alguma vontade de quebrar com o passado recente? Sentem que este é um disco de continuidade ou rutura?
PA - Quando começámos a pensar este disco, há cerca de dois anos, foi precisamente naquilo que queríamos mudar em relação ao “Madrugada” que nos focámos mais. Não que o “Madrugada” tivesse sido uma experiência traumática, longe disso. Simplesmente não queremos fazer dois discos iguais. A vontade de evoluir e redescobrir é constante.
PP - Nascidos e criados em Braga, os peixe:avião sentem a responsabilidade de carregar a herança de bandas como, por exemplo, os “Mão Morta”?
PA - Não pensamos muito nisso. Claro que estamos conscientes dessa herança, nem que seja por nos lembrarem dela recorrentemente. Mas estamos alguns patamares a baixo de bandas como os Mão Morta, com direito a um capítulo inteiro na história da música portuguesa.
PP - O que se respira em particular na vossa cidade que tão boas bandas revela?
PA - É mais o que não se respira que faz com que haja vontade de criar. Mas, apesar de haver poucas plataformas para a divulgação de música em Braga, houve a criação de uma plataforma importantíssima para a criação, que foram as salas de ensaio do estádio “Primeiro de Maio”. Fizeram com que muitos músicos se conhecessem e muitas bandas surgissem desse convívio. Nós somos um desses casos, de uma banda composta por elementos de outras bandas do estádio.
PP - Em termos de promoção do álbum, o que podemos esperar no que toca a atuações ao vivo?
PA - Explorámos muito a componente visual do concerto. Tentámos traduzir a estética do disco também através do cenário, da disposição e das luzes em palco. Musicalmente, como o disco é muito mais simples do que os anteriores, é mais imediatamente transponível para palco, o que faz com que tenhamos mais margem para explorarmos a interpretação, as dinâmicas, a expressão, etc. Isto faz com que o disco ganhe outra vida em concerto.Estamos agora a mostrá-lo o mais possível e vamos andar pela estrada nos próximos tempos: Trofa (4 de outubro), Lisboa (5 de outubro), Espinho (19 de outubro), Vale de Cambra (1 de novembro) e Barcelos (2 de novembro).
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quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Linda Martini em entrevista
"Turbo Lento não é um corte propositado com o passado recente"
A propósito do lançamento de “Turbo Lento”, terceiro álbum da banda, o Palco Principal esteve à conversa com três quartos dos Linda Martini. Assim, Cláudia Guerreiro, Hélio Morais e Pedro Geraldes falaram, com orgulho, da génese do álbum, da nova editora, da atual conjuntura social e de felicidade. A conversa, muito agradável - diga-se -, teve como palco a Casa Independente, no Intendente.
Palco Principal: “Turbo Lento” é um disco que mostra as duas almas dos Linda Martini. Por um lado, temos músicas enérgicas, de raiz punk; por outro, melodias mais planantes. Foi vosso objetivo fazer um disco que, de alguma forma, servisse de “rutura” relativamente à filosofia de “Casa Ocupada”? Estamos perante um trabalho menos “óbvio”?
Hélio Morais: Este disco difere do “Olhos de Mongol” e do “Casa Ocupada”, pois, se no primeiro caso, tínhamos músicas mais encorpadas e tranquilas, com o antecessor de “Turbo Lento” encurtámos o tempo das canções e demos-lhe uma alma mais pop. “Turbo Lento” mostra esses dois lados, mas não acho que tal seja um sinónimo de rutura.
Pedro Geraldes: Cada um tem as suas expetativas. Não continuamos na onda do “Casa Ocupada”, mas concordo com o Hélio quando ele diz que “Turbo Lento” não é um corte propositado com o passado recente.
PP: Alguma vez pensaramem fazer um disco que reunisse características de “Olhos de Mongol” e “Casa Ocupada”?
Cláudia Guerreiro: Se nós pensássemos nesses termos, talvez todo este processo tivesse sido mais fácil, porque tínhamos objetivos. A única coisa que queríamos era fazer um disco com dez músicas de que nós gostássemos. Se calhar falta-nos ser mais organizados, mas as coisas acabam sempre por encontrar o rumo certo, o que torna a nossa tarefa ainda mais bonita.
Pedro Geraldes: À medida que vais fazendo uma, duas ou três músicas também vais pensando que já tens uma base de trabalho e vais construindo o álbum a partir das composições que vão surgindo. Se, por exemplo, estamos a trabalhar numa música mais contemplativa, somos levados a fazer outra mais direta…
Cláudia Guerreiro: Por vezes, tentamos fazer algo que seja o oposto do que acabámos de fazer, para variar, para fazermos coisas diferentes, para nos divertirmos.
PP: Quais foram as primeiras músicas que começaram a trabalhar no processo de conceção de “Turbo Lento”?
Cláudia Guerreiro: “Panteão” e “Sapatos Bravos”. Ainda assim, no caso de “Sapatos Bravos” só terminámos a letra há pouco tempo, mas o teor musical foi definido muito cedo.
Pedro Geraldes: Sim, em termos de estrutura, “Sapatos Bravos” foi definitivamente a primeira música deste disco a estar pronta. A “Juárez” também foi das primeiras faixas que trabalhámos, mas ficamos sensivelmente a meio numa primeira abordagem, pois não estávamos a conseguir encaixar o riff correto. Por vezes acontece trabalharmos numa determinada melodia e só passado algum tempo voltarmos à mesma, e, como alterámos um ou outro pormenor, temos uma música nova.
PP: Estamos perante o vosso primeiro disco editado por uma major, neste caso a Universal. Foi algo que tinham pensado, surgiu por “acaso”…
Hélio Morais: Foi algo que aconteceu. Já tínhamos quase o disco todo preparado e estávamos em contactos com outra editora, mas a Universal surgiu e, antes do disco estar totalmente pronto, acabámos por chegar a acordo. Isto numa fase em que os seus responsáveis nem tinham ouvido o álbum…
PP: Notam algumas diferenças no que respeita a própria produção do disco e no que toca à promoção do mesmo?
Pedro Geraldes: O disco em si foi produzido por nós, não houve qualquer interferência, mas em termos de promoção é claro que notamos diferenças. Há uma maior organização.
Cláudia Guerreiro: A Universal tem uma equipa bastante organizada que faz tudo com tempo e com a antecedência certa. Por exemplo, não vai haver atrasos na colocação do disco nas lojas pois está toda a gente focada nesse sentido. Por mais que queiras fazer esse tipo de coisas com uma estrutura muito pequena, com uma ou duas pessoas a trabalhar, as coisas vão acabar por não resultar tão bem ou chegam mesmo a não acontecer. Dou-te até o exemplo do agendamento de entrevistas. É mais fácil agora, está tudo organizadinho. Dantes chegávamos a ter uma entrevista às duas da tarde e depois a próxima era às oito da noite. Perdíamos tempo para fazer outras coisas, entendes? Não conseguíamos rentabilizar o tempo.
PP: Este passo é também sinónimo do vosso crescimento enquanto banda. Tal como cantam em “Tremor Essencial”: “Não queiras ser como toda a gente, não queiras crescer de repente"...
Pedro Geraldes: (risos) Sim, nós temos seguido esse caminho, temos crescido devagar, passo a passo. Editámos o primeiro EP às nossas custas, em casa, e agora estamos numa major…
Cláudia Guerreiro: Esse é o processo normal de toda a gente.
Hélio Morais: Tirando o início, por volta de 2005/2006, quando conseguimos ganhar algum espaço muito rapidamente, tudo tem sido muito calmo e gradual e isso dá-nos tranquilidade. Tentamos nunca estar super excitados com o que está a acontecer. Ficamos contentes se as coisas correm bem, óbvio, mas aceitamos as coisas no tempo delas.
PP: A ideia de colocarem três teasers no Youtube foi vossa ou da editora?
Cláudia Guerreiro: Um Teaser é uma das coisas que pensas quando queres divulgar algo e não queres que o interesse esmoreça. Nós temos outras bandas, outros projetos, e contámos com um amigo (Ricardo Tabosa) para fazer esses teasers. Nós gostamos daquilo que ele faz e pensamos logo nisso. Agora, a coisa foi desenvolvida em conjunto com a Universal e tem servido para despertar curiosidade, aproximar a banda do público e vice-versa.
PP: Acreditam que uma boa promoção está diretamente ligada ao sucesso de um disco?
Hélio Morais: Temos sempre de utilizar a promoção. Mas podes promover muito bem uma coisa e ter muito impacto num determinado período e depois não sobrevivermos e permanecermos…
Cláudia Guerreiro: Acho que, se pensarmos ao contrário, as coisas ficam mais claras. Um bom disco sem promoção consegue alguma visibilidade? Existem muitos bons discos que ninguém ouve falar deles porque não existe trabalho de promoção.
PP: Escolheram “Ratos” como o primeiro single do álbum. Esta é uma das vossas faixas mais políticas de sempre…
Hélio Morais: Convém vincar que a responsabilidade da escolha foi inteiramente nossa. A editora deu-nos liberdade completa para o fazermos e o facto de ser uma major nada alterou o nosso poder de decisão. É bom desmistificar estas coisas. As pessoas estão ali para te ajudar, para te apoiar.
Cláudia Guerreiro: Eu não concordo com o fato de “Ratos” ter conotações políticas e, de facto, o André (Henriques) não a escreveu com esse sentido, mas entendo que seja essa uma das leituras possíveis.
Pedro Geraldes: Eu até concordo que “Ratos” tenha essa conotação mas, na verdade, é uma visão mais interior, mais pessoal, mas acabou por ter um impacto mais politizado, mais social.
PP: Fazendo uma brincadeira com a letra do vosso primeiro single, acham que temos tido, enquanto portugueses, a habilidade de transformar a “merda em ouro” ou vamos acabar por ser devorados pelos ratos?
Hélio Morais: Nós (portugueses) temos a capacidade de conseguir fazer “milagres”. É uma das nossas características enquanto povo. Repara, a nível administrativo temos transformado “ouro em merda”, mas a nível criativo e individual temos a capacidade de conseguir criar muito com o pouco que temos e transformamos “merda em ouro”…
Cláudia Guerreiro: Sinto, por exemplo, uma grande diferença entre Portugal e Espanha, que é a experiência que tenho. Fiz Erasmus em Barcelona e, comparativamente, não senti uma grande diferença em termos de resultados, apesar de estarmos a falar de realidades distintas. Em Belas Artes os espanhóis tinham muitos meios, mas em termos de resultados finais não são superiores a nós. Nós temos a capacidade de fazer coisas extraordinárias com poucos meios, por isso, sim, temos a capacidade de transformar “merda em ouro”. No que toca aos ratos nos irem devorar, não é o que já acontece?
PP: Em “Turbo Lento” voltam a utilizar um sample (“Partir para Ficar", de “Olhos de Mongol”, tinha a voz de José Mário Branco), com “Febril” a trazer consigo um pouco de “Tanto Mar”, de Chico Buarque. Como surgiu essa ideia?
Pedro Geraldes: O André baseou-se na letra do “Tanto Mar” para o “Febril” e sentiu o crescimento dos versos da canção. Se, quando foi editada, a canção de Buarque tinha um objetivo mais socialmente interventivo, com o passar dos anos a letra passou a ter um contexto mais pessoal, interior. No fundo, se quiseres, funciona de forma inversa ao que se passa com “Ratos”.
PP: No fundo, estas músicas tocam, de certa forma, no lado mais social. Acreditam que a música pode simbolizar a liberdade (de pensamento)? Poderá o rock ajudar a “salvar o mundo”?
Cláudia Guerreiro: Não, de todo. Ainda assim, concordo que, se todos pudessem fazer o que gostam e viver disso, aí sim, o mundo seria mais feliz.
Pedro Geraldes: A música pode ajudar as pessoas, pois tem um forte impacto sobre elas, mas duvido que seja suficiente para salvar o quer que seja.
Hélio Morais: O que pode salvar o mundo são as pessoas, embora a música possa servir de inspiração. O “We Are The World”, por exemplo, salvou muita gente em África…
PP: Então vocês, enquanto músicos, fazem aquilo que gostam e são pessoas felizes…
Cláudia Guerreiro: Completamente, caso contrário não o faríamos (risos).
Hélio Morais: Ainda há poucos dias falávamos disso. Estávamos cansados, pois tínhamos passado o dia inteiro em entrevistas, mas depois pensámos: “Mas é isto mesmo que queremos fazer, não é estar a trabalhar num banco” (risos). Ficamos cansados, mas felizes, entendes? Se, por exemplo, ficas cansado devido a um trabalho que não gostas, esse sentimento pode transformar-se em depressão.
Pedro Geraldes: É fantástico chegares ao final de um disco e ficares com a sensação que fizeste algo bom. Trabalhar num conceito que gostas e acreditas. Não interessa se passas muito tempo a ensaiar ou em estúdio, é um investimento pessoal e altamente gratificante, ainda que dê bastante trabalho.
PP: E estão satisfeitos com “Turbo Lento”?
Cláudia Guerreiro: Sim, sem dúvida!
Pedro Geraldes: Existe sempre um pormenor ou outro que faria diferente, mas estamos bastante orgulhosos deste disco.
In Palco Principal
A propósito do lançamento de “Turbo Lento”, terceiro álbum da banda, o Palco Principal esteve à conversa com três quartos dos Linda Martini. Assim, Cláudia Guerreiro, Hélio Morais e Pedro Geraldes falaram, com orgulho, da génese do álbum, da nova editora, da atual conjuntura social e de felicidade. A conversa, muito agradável - diga-se -, teve como palco a Casa Independente, no Intendente.
Palco Principal: “Turbo Lento” é um disco que mostra as duas almas dos Linda Martini. Por um lado, temos músicas enérgicas, de raiz punk; por outro, melodias mais planantes. Foi vosso objetivo fazer um disco que, de alguma forma, servisse de “rutura” relativamente à filosofia de “Casa Ocupada”? Estamos perante um trabalho menos “óbvio”?
Hélio Morais: Este disco difere do “Olhos de Mongol” e do “Casa Ocupada”, pois, se no primeiro caso, tínhamos músicas mais encorpadas e tranquilas, com o antecessor de “Turbo Lento” encurtámos o tempo das canções e demos-lhe uma alma mais pop. “Turbo Lento” mostra esses dois lados, mas não acho que tal seja um sinónimo de rutura.
Pedro Geraldes: Cada um tem as suas expetativas. Não continuamos na onda do “Casa Ocupada”, mas concordo com o Hélio quando ele diz que “Turbo Lento” não é um corte propositado com o passado recente.
PP: Alguma vez pensaramem fazer um disco que reunisse características de “Olhos de Mongol” e “Casa Ocupada”?
Cláudia Guerreiro: Se nós pensássemos nesses termos, talvez todo este processo tivesse sido mais fácil, porque tínhamos objetivos. A única coisa que queríamos era fazer um disco com dez músicas de que nós gostássemos. Se calhar falta-nos ser mais organizados, mas as coisas acabam sempre por encontrar o rumo certo, o que torna a nossa tarefa ainda mais bonita.
Pedro Geraldes: À medida que vais fazendo uma, duas ou três músicas também vais pensando que já tens uma base de trabalho e vais construindo o álbum a partir das composições que vão surgindo. Se, por exemplo, estamos a trabalhar numa música mais contemplativa, somos levados a fazer outra mais direta…
Cláudia Guerreiro: Por vezes, tentamos fazer algo que seja o oposto do que acabámos de fazer, para variar, para fazermos coisas diferentes, para nos divertirmos.
PP: Quais foram as primeiras músicas que começaram a trabalhar no processo de conceção de “Turbo Lento”?
Cláudia Guerreiro: “Panteão” e “Sapatos Bravos”. Ainda assim, no caso de “Sapatos Bravos” só terminámos a letra há pouco tempo, mas o teor musical foi definido muito cedo.
Pedro Geraldes: Sim, em termos de estrutura, “Sapatos Bravos” foi definitivamente a primeira música deste disco a estar pronta. A “Juárez” também foi das primeiras faixas que trabalhámos, mas ficamos sensivelmente a meio numa primeira abordagem, pois não estávamos a conseguir encaixar o riff correto. Por vezes acontece trabalharmos numa determinada melodia e só passado algum tempo voltarmos à mesma, e, como alterámos um ou outro pormenor, temos uma música nova.
PP: Estamos perante o vosso primeiro disco editado por uma major, neste caso a Universal. Foi algo que tinham pensado, surgiu por “acaso”…
Hélio Morais: Foi algo que aconteceu. Já tínhamos quase o disco todo preparado e estávamos em contactos com outra editora, mas a Universal surgiu e, antes do disco estar totalmente pronto, acabámos por chegar a acordo. Isto numa fase em que os seus responsáveis nem tinham ouvido o álbum…
PP: Notam algumas diferenças no que respeita a própria produção do disco e no que toca à promoção do mesmo?
Pedro Geraldes: O disco em si foi produzido por nós, não houve qualquer interferência, mas em termos de promoção é claro que notamos diferenças. Há uma maior organização.
Cláudia Guerreiro: A Universal tem uma equipa bastante organizada que faz tudo com tempo e com a antecedência certa. Por exemplo, não vai haver atrasos na colocação do disco nas lojas pois está toda a gente focada nesse sentido. Por mais que queiras fazer esse tipo de coisas com uma estrutura muito pequena, com uma ou duas pessoas a trabalhar, as coisas vão acabar por não resultar tão bem ou chegam mesmo a não acontecer. Dou-te até o exemplo do agendamento de entrevistas. É mais fácil agora, está tudo organizadinho. Dantes chegávamos a ter uma entrevista às duas da tarde e depois a próxima era às oito da noite. Perdíamos tempo para fazer outras coisas, entendes? Não conseguíamos rentabilizar o tempo.
PP: Este passo é também sinónimo do vosso crescimento enquanto banda. Tal como cantam em “Tremor Essencial”: “Não queiras ser como toda a gente, não queiras crescer de repente"...
Pedro Geraldes: (risos) Sim, nós temos seguido esse caminho, temos crescido devagar, passo a passo. Editámos o primeiro EP às nossas custas, em casa, e agora estamos numa major…
Cláudia Guerreiro: Esse é o processo normal de toda a gente.
Hélio Morais: Tirando o início, por volta de 2005/2006, quando conseguimos ganhar algum espaço muito rapidamente, tudo tem sido muito calmo e gradual e isso dá-nos tranquilidade. Tentamos nunca estar super excitados com o que está a acontecer. Ficamos contentes se as coisas correm bem, óbvio, mas aceitamos as coisas no tempo delas.
PP: A ideia de colocarem três teasers no Youtube foi vossa ou da editora?
Cláudia Guerreiro: Um Teaser é uma das coisas que pensas quando queres divulgar algo e não queres que o interesse esmoreça. Nós temos outras bandas, outros projetos, e contámos com um amigo (Ricardo Tabosa) para fazer esses teasers. Nós gostamos daquilo que ele faz e pensamos logo nisso. Agora, a coisa foi desenvolvida em conjunto com a Universal e tem servido para despertar curiosidade, aproximar a banda do público e vice-versa.
PP: Acreditam que uma boa promoção está diretamente ligada ao sucesso de um disco?
Hélio Morais: Temos sempre de utilizar a promoção. Mas podes promover muito bem uma coisa e ter muito impacto num determinado período e depois não sobrevivermos e permanecermos…
Cláudia Guerreiro: Acho que, se pensarmos ao contrário, as coisas ficam mais claras. Um bom disco sem promoção consegue alguma visibilidade? Existem muitos bons discos que ninguém ouve falar deles porque não existe trabalho de promoção.
PP: Escolheram “Ratos” como o primeiro single do álbum. Esta é uma das vossas faixas mais políticas de sempre…
Hélio Morais: Convém vincar que a responsabilidade da escolha foi inteiramente nossa. A editora deu-nos liberdade completa para o fazermos e o facto de ser uma major nada alterou o nosso poder de decisão. É bom desmistificar estas coisas. As pessoas estão ali para te ajudar, para te apoiar.
Cláudia Guerreiro: Eu não concordo com o fato de “Ratos” ter conotações políticas e, de facto, o André (Henriques) não a escreveu com esse sentido, mas entendo que seja essa uma das leituras possíveis.
Pedro Geraldes: Eu até concordo que “Ratos” tenha essa conotação mas, na verdade, é uma visão mais interior, mais pessoal, mas acabou por ter um impacto mais politizado, mais social.
PP: Fazendo uma brincadeira com a letra do vosso primeiro single, acham que temos tido, enquanto portugueses, a habilidade de transformar a “merda em ouro” ou vamos acabar por ser devorados pelos ratos?
Hélio Morais: Nós (portugueses) temos a capacidade de conseguir fazer “milagres”. É uma das nossas características enquanto povo. Repara, a nível administrativo temos transformado “ouro em merda”, mas a nível criativo e individual temos a capacidade de conseguir criar muito com o pouco que temos e transformamos “merda em ouro”…
Cláudia Guerreiro: Sinto, por exemplo, uma grande diferença entre Portugal e Espanha, que é a experiência que tenho. Fiz Erasmus em Barcelona e, comparativamente, não senti uma grande diferença em termos de resultados, apesar de estarmos a falar de realidades distintas. Em Belas Artes os espanhóis tinham muitos meios, mas em termos de resultados finais não são superiores a nós. Nós temos a capacidade de fazer coisas extraordinárias com poucos meios, por isso, sim, temos a capacidade de transformar “merda em ouro”. No que toca aos ratos nos irem devorar, não é o que já acontece?
PP: Em “Turbo Lento” voltam a utilizar um sample (“Partir para Ficar", de “Olhos de Mongol”, tinha a voz de José Mário Branco), com “Febril” a trazer consigo um pouco de “Tanto Mar”, de Chico Buarque. Como surgiu essa ideia?
Pedro Geraldes: O André baseou-se na letra do “Tanto Mar” para o “Febril” e sentiu o crescimento dos versos da canção. Se, quando foi editada, a canção de Buarque tinha um objetivo mais socialmente interventivo, com o passar dos anos a letra passou a ter um contexto mais pessoal, interior. No fundo, se quiseres, funciona de forma inversa ao que se passa com “Ratos”.
PP: No fundo, estas músicas tocam, de certa forma, no lado mais social. Acreditam que a música pode simbolizar a liberdade (de pensamento)? Poderá o rock ajudar a “salvar o mundo”?
Cláudia Guerreiro: Não, de todo. Ainda assim, concordo que, se todos pudessem fazer o que gostam e viver disso, aí sim, o mundo seria mais feliz.
Pedro Geraldes: A música pode ajudar as pessoas, pois tem um forte impacto sobre elas, mas duvido que seja suficiente para salvar o quer que seja.
Hélio Morais: O que pode salvar o mundo são as pessoas, embora a música possa servir de inspiração. O “We Are The World”, por exemplo, salvou muita gente em África…
PP: Então vocês, enquanto músicos, fazem aquilo que gostam e são pessoas felizes…
Cláudia Guerreiro: Completamente, caso contrário não o faríamos (risos).
Hélio Morais: Ainda há poucos dias falávamos disso. Estávamos cansados, pois tínhamos passado o dia inteiro em entrevistas, mas depois pensámos: “Mas é isto mesmo que queremos fazer, não é estar a trabalhar num banco” (risos). Ficamos cansados, mas felizes, entendes? Se, por exemplo, ficas cansado devido a um trabalho que não gostas, esse sentimento pode transformar-se em depressão.
Pedro Geraldes: É fantástico chegares ao final de um disco e ficares com a sensação que fizeste algo bom. Trabalhar num conceito que gostas e acreditas. Não interessa se passas muito tempo a ensaiar ou em estúdio, é um investimento pessoal e altamente gratificante, ainda que dê bastante trabalho.
PP: E estão satisfeitos com “Turbo Lento”?
Cláudia Guerreiro: Sim, sem dúvida!
Pedro Geraldes: Existe sempre um pormenor ou outro que faria diferente, mas estamos bastante orgulhosos deste disco.
In Palco Principal
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Raquel Varela
em Entrevista
“A história mostra, claramente, que a economia não é algo natural, e sim o resultado contraditório da cooperação entre os homens”. Entrevista a Raquel Varela, autora de “A Segurança Social é Sustentável».
A crise económica é também um vazio de valores sociais. Esta é um das ideias que fica ao falarmos com Raquel Varela a propósito da edição de “A Segurança Social é Sustentável”. Sem “papas na língua”, a autora deste pertinente livro e coordenadora do grupo de estudos de trabalho e dos conflitos sociais do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa faz uma análise profunda à atual situação económica e lança algumas questões pertinentes. Que a aula de economia comece!
Numa época verdadeiramente niilista face ao crescimento da economia global foi, de certa forma, a esperança da recuperação financeira que a fez pensar este livro?
A propaganda governativa tem difundido ideias falsas, sem sustentabilidade nem seriedade, os políticos fingem ignorar os trabalhos feitos na academia sobre a realidade social – há centenas de investigadores nas nossas universidades todos os dias no país a trabalhar sobre economia e sociedade, mas ouvimos os media dizer sempre o mesmo e ouvir sempre os mesmos. Havia que trazer os académicos para este debate em termos públicos, com mais presença. Essa era uma urgência, trazer a ciência e sair do senso comum.
Trata-se de expor um conjunto de logros e mistificações que têm sido usados como verdade absoluta e inquestionável – não é verdade que haja idosos a mais para o número de trabalhadores, o país não deixou de produzir (há mais produção e mais concentração de riqueza; o número de trabalhadores no sector secundário quase não caiu desde o 25 de abril, o rendimento mínimo, o RSI, é uma benesse mas também é um conselho do Banco Mundial para evitar situações revolucionárias ou disruptivas do processo de acumulação). Estes são alguns exemplos do retrato que damos do país para além do senso comum.
Pretendia-se reflectir sobre as políticas sociais, económicas e financeiras, que prejudicam a grande maioria das pessoas, e mobilizar os académicos que têm um trabalho amplo sobre estes temas, sério e reflectido.
Mas não se tratou, nem se trata, de esperança na recuperação de um modelo económico que só traz desesperança. O trauma dos horrores estalinistas não me fez em nada acreditar que o capitalismo é o fim da história. Há história para além do gulag e de Guantánamo! Não há recuperação económica no moderno modo de produção capitalista sem barbárie social. E isso é independente de termos gestores mais ou menos corruptos.
Creio que estamos a viver uma crise de 29 adiada. Creio que esta crise não é uma crise financeira nem de subprime, mas uma crise cíclica que começa na produção industrial norte-americana e tem o seu sintoma mais evidente ao nível financeiro. Não confundo a pneumonia com a febre. A pneumonia é a contradição entre a produção para as necessidades e o lucro; a febre, o colapso bolsista que significa a desvalorização da propriedade, em virtude da deflação dos preços na produção. Vou dizê-lo sem diplomacia, quem não percebe a lei do valor enunciada n’ O Capital de Marx não percebe nada da sociedade onde vive. Pode tentar, mas nunca vai dizer nada que não seja superficial. E a prova disso é que 99% dos economistas acha que o dinheiro produz dinheiro. Falam como se as bolsas tivessem vida própria, e mesmo os críticos daquilo a que chama neoliberalismo acham que vivemos numa economia de casino. E a minha pergunta é: se vivemos numa economia dominada pelo sector financeiro, de casino, por que é que as ajudas financeiras não valem nada sem o salário das pessoas? O que aconteceu em 2008 foi uma ajuda maciça ao sector financeiro e 3 meses depois olharam para as populações e disseram: agora são vocês, com as vossas reformas e salários, a pagar! Porque o que provou esta crise é que a produção, o salário e o trabalho são determinantes, o resto, os títulos e as acções, sem isto, sem trabalho, são apenas papel.
Explorámos esta hipótese, de uma crise de 29 em gestação, no livro Quem Paga o Estado Social em Portugal? (Bertrand, 2012). É uma crise do capitalismo, como haverá outra (maior ou não) daqui a 18, 20 meses? São crises cíclicas.
E das quais «sair da crise», nos marcos do modo de acumulação baseado em relações mercantis (capitalista), só é possível diminuindo o salário, aumentando a jornada de trabalho, intensificando as tarefas, numa palavra, colocar 1 trabalhador a fazer o trabalho de 2 ou 3 e despedir os restantes. O que vulgarmente se chama na televisão «descer o custo unitário do trabalho», que tem como contrapartida, nunca dita, «aumentar a rentabilidade do capital investido».
Por outro lado, este livro também surge de uma pergunta que me inquieta e inquieta os autores, embora não tenhamos todos a mesma resposta. Por que é que, numa fase de regressão social, uma população tão escolarizada e urbanizada, e sem a válvula de escape da emigração a funcionar como nos anos 60, como é que com estas condições não há uma revolta social, uma situação revolucionária? A minha primeira resposta é porque há quase 1 milhão de pessoas que está a receber algum tipo de assistência social, uma generalização da «sopa dos pobres» que tem um efeito amortecedor dos conflitos sociais. E quem paga isso é a segurança social. Quem gere isso é o Estado.
Quando digo que estamos em algo mais próximo a uma crise de 29 do que por exemplo a uma crise como foi a de 1973 (chamada vulgarmente por crise do choque petrolífero) digo-o porque creio que apesar de toda a destruição de capital (fecho de empresas, com recessão e aumento do desemprego) as taxas de lucro não se recuperam facilmente e as taxas de crescimento são anémicas. Isto é, podemos estar numa bifurcação histórica, em que não é mais possível o capital crescer sem espalhar a miséria e a barbárie social agora mesmo entre os sectores médios dos países centrais, isto é, na Europa. Na Alemanha e na França já se fala dos working poor, pessoas cujo único trabalho não lhes permite viver, precisam de acumular com outro trabalho ou parcialmente depender da assistência social (caridade organizada pelo Estado).
Será a análise histórica uma das melhores formas de compreender a evolução da própria economia? O Estado é, por norma, um bom aluno?
Essa é uma pergunta para dias (risos).
Desde logo quero dizer-lhe que acho a metáfora do bom aluno perigosa. Tenta fazer crer que os governantes não têm responsabilidade política nem poder decisório, como se fossem entidades passivas e subservientes, quase como se os infantilizassem.
A história mostra, claramente, que a economia não é algo natural, e sim o resultado contraditório da cooperação entre os homens. O capitalismo, portanto, foi o resultado, entre outros factores, da própria acção do Estado que, pela força e pelas leis, criou as condições de uma sociedade de mercado, como Marx bem demonstrou no capítulo XXIV d’ O Capital. Assim, pode-se dizer que o Estado foi, desde os primórdios do capitalismo, um sujeito importante na trama do mercado, o que expõe claramente o facto de que a ideia de um Estado não-interventor na economia (liberalismo e neoliberalismo) sempre foi uma falácia, uma ideologia pueril.
Quando comecei a escrever o artigo que relaciona a gestão da força de trabalho com a segurança social fui ao século XIX à procura da origem da segurança social. Nunca tento compreender um assunto sem procurar o seu, chamemos-lhe assim, antepassado. O que eu queria perceber era a origem da segurança social, mas acabei a perceber que a segurança social tem sido o fundo para precarizar os trabalhadores e que esse papel tem sido levado a cabo pelo Estado que não deixa de intervir na economia, pelo contrário, é cada vez menos neoliberal (conceito por isso errado) e mais interventivo (diria algo como um keynesianismo conservador).
O que encontrei foi desde logo a distinção entre assistência, protecção e segurança social. No século XIX existe, para a maior parte da população, uma assistência e não uma protecção social, nem sequer uma segurança social. A segurança social, isto é, segurança para todos, universal, com base na ideia da riqueza colectiva, nasce em 1974.
Mas também me apercebi como a assistência social surge já como gestora dos efeitos da proletarização – os asilos, mais tarde a «sopa dos pobres» do XIX são, de uma forma diferente, o passado das actuais cantinas sociais. É quando o Estado actua para atenuar os efeitos da hoje dir-se-ia precarização – ou seja, quando o trabalhador não recebe do patrão o suficiente para viver ou quando vai para o desemprego em épocas de redução de lucros, é o Estado que mantém o trabalhador vivo, digamos assim. Isto cresceu brutalmente em toda a Europa nos últimos vinte anos! Na Dinamarca e na Suécia um trabalhador precário tem até algo como 80 dias sem trabalho pagos pela segurança social, na Alemanha há centenas de milhares de pessoas que recebem o Hartz IV, por cá chama-se RSI (Rendimento Social de Inserção). Mas quem paga isto? O fundo da segurança social, que é dinheiro dos trabalhadores. E quem gere? O Estado. Para quem? Para manter as taxas de lucro que as empresas consideram apetecíveis.
E assim voltamos à primeira pergunta – crise significa destruir riqueza para manter lucros, significa recessão programada. «Isto não é a crise», como se gritava nas ruas de Espanha, «isto é o capitalismo». Funciona assim, mas funciona assim usando ajudas estatais maciças, é assim desde a II Guerra Mundial e será cada vez pior, na minha opinião…
A análise histórica é o único ponto de partida seguro para construir uma compreensão de qualquer aspecto da sociedade. Não o digo porque sou historiadora. É o contrário. Sou historiadora porque acredito que é a forma mais próxima de compreender a sociedade.
Portugal encontra-se numa posição de fragilidade extrema no contexto europeu. Acha possível uma eventual perda de autonomia do Estado face à dívida crescente?
O Estado é o instrumento usado para pagar a dívida, isto é, a dívida é paga com a precarização das leis laborais, feitas pelo Estado, com a privatização dos serviços públicos, com os cortes dos salários e com os aumentos dos impostos. Tudo é feito pelo Estado.
Sobre a autonomia é relativo, creio. Como devemos chamar ao fenómeno de os governantes portugueses acordarem políticas com Bruxelas e Berlim antes de as discutirem com os portugueses? Há algo de perda de autonomia, mas as empresas portuguesas que estão representadas neste governo – exportadoras, EDP, Grupo Mello, BES, etc – têm muito a ganhar e definem com a troika as políticas. Não creio que haja uma colonização do país, diria mais uma joint venture. Quem é o parceiro do Grupo Mello nos hospitais privados, hospitais cuja metade do financiamento vem dos subsistemas públicos? A Siemens alemã!
O esforço pedido pela Troika é muito exigente. No seu entender existe alguma legitimidade na aplicação das recentes e recorrentes medidas de austeridade por parte do executivo português?
Os interesses das populações, tal como estão definidos nos diplomas internacionais, são de carácter social, económico e cultural – incluindo a saúde, a educação, a protecção dos carenciados e mais fracos e um nível mínimo de bem-estar definido em diversos diplomas internacionais. Uma vez que todas as medidas de austeridade têm sido aplicadas em nome dos interesses dos credores (sumariamente representados na Troika), com prejuízo flagrante dos direitos e necessidades fundamentais da população, elas são claramente ilegítimas.
O Governo, neste momento, representa o interesse dos cidadãos?
É evidente que não. Este Governo tem defendido os interesses patrimoniais de uma ínfima minoria e dos seus grandes grupos económicos; curiosamente, essa ínfima minoria pertence, em parte, à mesma linhagem de gente que foi defendida no tempo do Salazar, como ilustra, e bem, o livro Os Donos de Portugal (Afrontamento).
Para pegar apenas na questão do pagamento da dívida pública, que é o argumento com que este governo (e os outros que se têm apresentado como opções, em teoria) justifica toda a política económica. Um Estado que promove despedimentos, corta salários e pensões com o argumento de que há uma dívida pública para pagar, enquanto permite a Ricardo Salgado fazer lucros com a dívida pública (825 milhões de euros em 2012), não representa o interesse dos cidadãos, claramente representa o interesse de apenas alguns deles. A quem duplamente protege, quando amnistia dívidas fiscais, enquanto ao cidadão comum cobra multas pelo mesmo motivo.
Sempre houve corrupção, mesmo em sociedades pré-capitalistas, como é óbvio. Mas hoje o capitalismo precisa do Estado para sobreviver e de um Estado cada vez mais forte. O BPN e talvez toda a banca teriam ido à falência sem ajudas estatais. Que arrecada cada vez mais impostos e que transfere cada vez uma maior fatia do orçamento para o sector privado. Isto eleva a corrupção e a promiscuidade entre a produção, a finança e o poder político, a níveis, diria, sem paralelo na história. Quando se fala de financiamento a campanhas fala-se de milhões! Aliás em certos países, nos mais ricos e desenvolvidos, onde há maior acumulação de capital e a competição entre empresas é maior, não há menos corrupção; pelo contrário, atingiu níveis em que o próprio Estado teve que intervir, regular e arbitrar – chama-se lobbying. Qualquer chorudo maço de notas que se passa em Angola debaixo da mesa são cêntimos comparado com o que a indústria de guerra ou farmacêutica transferem para os partidos Democrata e Republicano nos EUA.
O Memorando de Entendimento põe em causa o direito dos trabalhadores e traz à tona o fim da ideia de emprego de longa duração e traz em definitivo a precariedade. Onde fica o pleno emprego?
O pleno emprego só pode ser assegurado na repartição do trabalho, mais gente a trabalhar menos tempo. Aliás, o aumento da produtividade (mais produtos em menos tempo de trabalho, permitido pela utilização de máquinas) logicamente deveria conduzir a este resultado. Tal como nas nossas casas: pomos a roupa a lavar numa máquina para ficarmos com mais tempo livre (para o dedicarmos a coisas preciosas, como cuidar de nós e dos outros). O que impede que isto aconteça nas nossas vidas profissionais é que esta poupança de tempo reverte, sob a forma de lucros, para o capital. Ora o capitalista não investe para suprir necessidades sociais. Investe se acha que poderá obter uma taxa de lucro que ele considere apetecível. O aumento da produtividade significa que se pode fazer o necessário para a vida da sociedade em muito menos tempo. Se a sociedade trabalhasse para suprir as suas necessidades, isso significaria que todos nós precisaríamos de trabalhar menos. Mas com o capitalismo isso significa o quê? Mais desemprego. A precariedade e a insegurança não têm como objectivo tornar as pessoas mais eficazes no seu trabalho, mas baixar os salários e permitir despedi-las mais facilmente.
Quanto aos efeitos que a precarização tem na segurança social: mais gente a trabalhar com contratos de trabalho dignos significa mais gente a descontar para a Segurança Social, o que é a chave da sustentabilidade, tanto da própria segurança social como das receitas do Estado – o que, nunca é demais lembrar, não são a mesma coisa. Mais gente precária e mais trabalhadores desempregados significa um atentado à sustentabilidade da Segurança Social, isto é à sobrevivência futura das pessoas que estão hoje em idade adulta e capazes para o trabalho. O capitalismo hoje não promove o progresso, mas a barbárie. E a barbárie não é uma abstracção: já a sentem todos aqueles que hoje são atirados para a sarjeta, privados de trabalho e de meios de subsistência. Mas poderá assumir a forma de uma nova guerra, tal como a II Guerra Mundial foi o factor determinante para o capitalismo superar a sua crise de 1929 que se arrastou pelos anos 30, com o seu cortejo de miséria e regimes dominados por associações de criminosos, como os fascismos.
Afirmou ser a favor da greve dos professores. Numa época em que a agitação social se vê com tanta frequência nas ruas não teme que a banalização destes actos seja uma realidade premente?
Temos que reflectir sobre isto. A última greve geral foi para fazer cair o Governo e o Governo não caiu, por isso não houve nenhuma vitória nem foi um sucesso, ainda que os transportes tenham paralisado e muita gente tenha perdido um dia de salário. Mas mostrou que esta política não tem apoio social entre quem vive do salário. Aliás até agora salvo, creio, o caso dos médicos (que conseguiram proibir a subcontratação nos termos em que estava, evitando assim uma precarização maior) e dos feirantes (que acamparam na AR) e tirando algo pontual, nenhuma categoria profissional obteve vitórias, somam-se as derrotas. Creio que o método de fazer manifestações ou greves e a seguir ir trabalhar e sentar-se à mesa de negociações – que é o que tem acontecido ao longo de 40 anos de pacto social – está a revelar as suas limitações para impedir a presente regressão social. Isto é: não chega. E pode ser desmobilizador: manifestações gigantes sem qualquer resultado podem fazer as pessoas pensar: «Afinal para que vou manifestar-me?»
Confesso que fico surpreendida por plataformas chamarem manifestações e não haver plenários, convocação para organização, ou outros métodos que dêem continuidade àquela força social. Na verdade, as plataformas que chamam manifestações limitam-se a ter como saída para a crise eleições, o que não mobiliza, ou mobiliza cada vez menos pessoas – a abstenção cresce, o número de votos brancos e nulos cresce, os partidos de esquerda não aumentam significativamente, apesar do lamaçal em que estão os três partidos do regime, e na minha opinião isso deve-se ao facto de que os partidos de esquerda (BE e PCP) procuram uma saída, eleições, na qual uma parte acredita (a ideia do Governo de esquerda) mas uma outra parte, substancial, e porventura a mais jovem (força de trabalho precária e desempregada e, que por isso esta fora do pacto social) não se revê nisso.
As grandes manifestações ou greves só terão sucesso, na minha opinião, e olhando os exemplos que temos do passado em Portugal, nomeadamente o período de 1974-1975, que conheço bem porque é a minha área de estudo, se houver organização democrática associada à acção colectiva (greves, manifestações, etc.). Isto é, colocar as pessoas não a depositar o voto e delegar poderes, não a desfilar numa manifestação que acaba ao fim de hora e meia e ao fim de uns minutos 1 milhão de pessoas desaparecem, mas desafia-las a gerirem as suas próprias vidas. Essa é a arte da política. Isto é, as pessoas passarem a funcionar de forma democrática, com dirigentes revogáveis (que possam ser imediatamente demitidos se não respeitam a vontade das bases) e funcionarem assim tomando as decisões importantes, nas escolas, nos bairros, nos hospitais, nos transportes, na produção e na circulação da produção e, claro, no sector bancário e financeiro.
Acha possível, de facto, a recuperação económica de Portugal?
Para responder a essa questão é necessário dizermos de que Portugal estamos a falar. Se é do Portugal de Soares dos Santos, Mello, Espírito Santo, Mota Engil, sim, eles até já voltaram aos lucros, já saíram da crise. O capitalismo não morre de colapso final, como era afirmado pelo dogmatismo pró-soviético e pelas leituras estalinistas (leia-se mecanicistas) do marxismo. O capitalismo pode sempre recorrer à barbárie, em última análise à guerra, como fez na II Guerra Mundial em resposta à crise de 1929. Criar uma «economia da destruição». Mas se é do Portugal dos trabalhadores que estamos a falar, ou seja, daqueles que dependem inteiramente da venda da sua força de trabalho para subsistir, eu diria que a crise está longe de ser resolvida e que terá de se encontrada uma força social semelhante a 1974-1975 para mudar o rumo do país.
In Rua de Baixo
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