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domingo, 14 de agosto de 2016

“Um Copo de Cólera”
de Raduan Nassar

Manual de instruções para relações marginais 


Não sendo um autor muito prolífero, o brasileiro Raduan Nassar conseguiu a proeza de marcar a literatura de língua portuguesa através de duas obras fundamentais como “Lavoura Arcaica” e este “Um Copo de Cólera” (Companhia das Letras, 2016), títulos que valeram recentemente ao autor paulista o devido reconhecimento através do Prémio Camões 2016.

Polémico em toda a sua amplitude, “Um Copo de Cólera” foi escrito em 1970, em plena repressão da ditadura militar no Brasil, e apenas viu a luz do dia cerca de oito anos depois. Um livro descrito por muitos como «difícil», é uma novela pós-modernista que versa, e extravasa, a simples ideia de humanidade.

No epicentro de toda a convulsão que é este livro está um casal, uma dupla de amantes que entra num decisivo confronto cujo final parece ser a aniquilação alheia. E como em guerra quase todas as armas são válidas, nas páginas deste (pequeno) livro são vulgares os insultos, a crueldade, o (próprio) sexo ou a vontade de dominar ou ser dominado.

Os espaços de confronto são a cama, a banheira ou a mesa onde se come o pequeno-almoço e é neles, e através deles, que se libertam egos, se oprime o adversário e se diaboliza sobre a própria sociedade e os seus limites, pois não é a catarse que Nassar procura mas sim um puro e deleitoso exorcismo recheado de falsos moralismos.

Além de uma guerra (sexual) sem quartel, os sete capítulos de “Um Copo de Cólera” – escritos de um só pulsar onde apenas existe um parágrafo e o ponto final adquire a forma de preciosa e contextualizadora pausa – cauterizam através de citações, opressões, contradições desabafos, por via de uma linguagem ora poética, ora teatral, mesclando o absurdo com o surreal.

Sem o recurso a perfis de vencedores ou vencidos, Raduan Nassar apela a um desalinho romântico nascido no coração de uma ditadura que marcou não apenas social e politicamente mas também o coletivo emocional de um povo constantemente oprimido, e só através de uma linguagem nua e sem qualquer traço de censura pode chegar-se a um patamar onde o marginal pode desafiar o absolutismo bacoco.

Mais que uma tensa narrativa que se lê num fôlego sobre um arrogante e rude homem mais velho e uma liberal mulher mais nova, este livro, metafórico, mostra a rutura, a raiva, as fronteiras das relações humanas, do próprio machismo ou do maternalismo estéril, de classe e género, através de uma intensidade física, desgastante e complexa.

In Rua de Baixo

“A Rapariga da Banda” de Kim Gordon | “M Train” de Patti Smith

O rock e a vida

Numa altura em que os festivais de música atingem o seu auge por terras lusas, a música transcende a sua forma auditiva e pode assumir o formato livro, nomeadamente através da fusão entre o género biográfico e a crónica.

Dois exemplos disso são “A Rapariga da Banda”, de Kim Gordon (Bertrand, 2016), e “M Train”, de Patti Smith (Quetzal, 2016), livros recentemente editados e que mostram um pouco mais da vida da ex-baixista dos Sonic Youth e da mítica cantora e poeta Patti Smith.

Em ambos os casos, a emoção é o fio condutor para confissões, mais ou menos filosóficas e urbanas, ou pedaços biográficos de uma vida que colocou estas mulheres entre a elite da história do Rock.

Sem índices ou resumos capitulares, onde a forma de compreensão assume-se por via de um crescente sentimento dos números que abrem os seus pensamentos, “A Rapariga da Banda” é um exercício deveras interessante, e muitas vezes emotivo, com Kim Gordon a vestir o fato de (auto)biografa mas que curiosamente inicia as páginas deste livro com um fim, no caso, o último concerto dos Sonic Youth e o processo de luta interior que isso a conduziu.

Pelo meio, conhecemos várias etapas do seu crescimento, a história da sua família, as aventuras nas artes visuais, a sua mudança para Nova Iorque, os homens que lhe assaltaram as emoções, a relação com Coco Hayley, sua filha e, claro está, a música e o seu casamento e divórcio com Thurston Moore e os Sonic Youth.

Esta viagem em forma de livro leva-nos a destinos mais ou menos caros a Gordon, alguns deles quase em piloto-automático. Existem pontas soltas, memórias boas, outras nem tanto, mas no centro de tudo está uma mulher que sabe o que quer, emocional e criativamente, e tem noção das suas escolhas e faz um excelente relato daquilo que é o amor de estar em palco e tocar música.


 Já “M Train” de Patti Smith rege-se por uma abordagem mais experimental, com a autora a definir este livro como «um mapa de estradas» da sua vida cuja narrativa parte do presente, nomeadamente através dos exercícios reflexivos que nascem no “Greenwich Village”, um pequeno café que serve de poiso reflexivo da autora de discos como “Radio Ethiopia” e do nascimento da estética punk.

As 19 estórias, ou estações como lhe chama Patti Smith, fluem entre o onírico e o real, sem uma linha cronológica assinalável mas com o lado mais criativo sempre em destaque, seja o motivo da escrita o simples ato de beber café, assistir a séries policiais ou visitar túmulos de gente conhecida das artes.

O prazer de ler Patti Smith, ou de contemplar os seus retratos polaroid, reside do mais puro sentido nostálgico, e por vezes minimalista, onde se exploram, e dilaceram, obsessões literárias, gostos boémios, viagens quixotescas ou moleskines. Tudo motivos essenciais para uma mulher que confessa não gostar de «nada supérfluo», definindo assim uma rara estética pessoal e (in)transmissível.


In Rua de Baixo

domingo, 17 de julho de 2016

“Numa Floresta Muito Escura”
de Ruth Ware

Os Segredos da Casa de Vidro


Aquando da apresentação de “Numa Floresta Muito Escura” (Clube do Livro, 2016), a autora e escritora britânica Ruth Ware afirmou que ganhou inspiração para escrever este livro com universo de Agatha Christie e também com o filme “Scream”.

E é definitivamente essa a sensação que nos invade logo desde as primeiras páginas de um livro que se move num sentimento de suspense constante com laivos de terror, onde um grupo dinâmico de personagens, cujas intenções nos surpreendem e põem em causa, comandam todo o exercício narrativo.

Tudo começa quando Nora, uma escritora de policiais, recebe um inesperado apelo via email ao ser convidada para a despedida de solteira de Clare, uma amiga que o tempo acabou por separar. Ainda que a medo e mergulhada na surpresa, Nora, dona de um perfil pouco social, aceita o convite e decide integrar o grupo de seis pessoas convocadas para essa reunião marcada para uma casa isolada numa floresta recôndita, e essa decisão vai marcar a sua vida para sempre.

Nora vê-se assim forçada a um peculiar convívio no meio de estranhos, à exceção de Clare e Nina, ambas colegas de uma distante infância, e a sensação de que deveria ter recusado o convite ganha cada vez mais contornos, principalmente por ver-se obrigada a responder a questões ligadas a um período que, definitivamente, quer esquecer.

Cerca de quarenta e oito horas depois dessa estranha reunião, Nora acorda no hospital. Desorientada e ferida, não se recorda de nada mas sabe que algo muito grave aconteceu. Sente a morte de alguém, mas não sabe de quem. Pergunta-se o que terá acontecido naquela casa envidraçada perdida na muito escura floresta. Encarcerada num mundo de dúvidas, vai recuperando a memória e sente que o pesadelo está apenas a começar.

O enredo, claustrofóbico e tenso, de “Numa Floresta Muito Escura” prende eficazmente o leitor e o pequeno elenco envolve-nos à medida que segredos são revelados, ainda que à superfície não seja demonstrada toda a sua negra imensidão.

Outro dos trunfos deste livro é o desenho individual de cada personagem que se vai assumindo como essencial na globalidade da narrativa dando a sensação de uma intrincada relação global (bem) definida por Ruth Ware, e que serve de elemento contextualizador para as diferentes peças do cativante puzzle que é este livro.

Ainda que com alguns tiques algo previsíveis, Ruth Ware faz-nos chegar um thriller bem contado e construído que leva o leitor a mergulhar numa viagem extrema onde o medo e o perigo escondem-se atrás daquilo que de mais assustador existe: a mente humana.

In Rua de Baixo

“As Raparigas Esquecidas”
de Sara Blaedel

Floresta de Sombras

 
A chegada de mais um autor de romances policiais oriundo do Norte da Europa é sempre uma excelente notícia. Desta vez a honra cabe à dinamarquesa Sara Blaedel, uma ilustre desconhecida por terras lusas mas que tem uma acérrima horda de fãs espalhada por todos os países que já editaram os seus livros. A sua estreia em Portugal faz-se com “As Raparigas Esquecidas” (Topseller, 2016), sétimo volume da série Louise Rick e primeiro tomo da trilogia homónima.

No centro da trama está, obviamente, Louise Rick, agente policial recentemente transferida para o Departamento das Pessoas Desaparecidas e que fará parelha com Eik Nordstrom, um homem sempre trajado de negro, viciado em tabaco, à beira de um qualquer limite pessoal, que faz do bar local sua casa.
Apesar do início da parceria se revelar conturbado, Louise e Eik acabam por conseguir ultrapassar as diferenças e quando um terrível crime acontece, juntam forças. O caso é complicado e tudo começa quando uma mulher aparece morta numa floresta e o crime é revelado quando o guarda-florestal encontra o maltratado corpo.

Profundamente marcada por uma cicatriz que lhe envolve grande parte do rosto, a mulher morta parece ser facilmente reconhecível, mas essa tarefa revela-se mais complicada pois ninguém relatou o seu desaparecimento e dos registos não constam os seus dados.

Luise e Eik procuram pistas mas estas teimam em não existir. Na esperança que alguém identifique aquele rosto tão marcado, é publicada uma fotografia da mulher no jornal local e os resultados são quase imediatos. Louise recebe um telefonema de Agnete Eskildsen e fica a saber que o corpo pertence a Lismette, uma das «raparigas esquecidas» de Eliselund, antiga instituição estatal para doentes mentais onde Agnete trabalhara anos antes e cujas memórias assombram a sua vida desde então.

A descoberta leva a dupla do Departamento de Pessoas Esquecidas a investigar os arquivos da instituição e acabam por descobrir terríveis segredos que colocam toda a comunidade em cheque, e choque. A desconfiança cresce à medida que mais se sabe sobre o caso e as mortes continuam a acontecer na floresta…

Sara Blaedel consegue construir uma narrativa envolvente, emocional e emotiva, misteriosa, com alguns requintes de malvadez e cenas onde o ódio e a violência desafiam os limites da mente humana. A par da investigação policial, existe espaço, e cuidado, para uma breve apresentação do elenco com particular destaque para o personagem de Louise, uma mulher encurralada num passado tortuoso onde os maiores fantasma assumem a forma do suicídio de Klaus, seu antigo namorado, e a relação fugidia com a sua família, exceção feita a Jonas, seu filho, e Melvin, seu paternal vizinho. Também Camilla, uma das melhores amigas de Louise, e a braços com uma situação pessoal instável, tem uma presença determinante na trama, principalmente a partir do momento que decide investigar o estranho caso das raparigas desaparecidas, mortas ou violadas que assombram a comunidade.

“As Raparigas Esquecidas” é, no seu todo, um bom livro, cru e com boas doses de suspense, reviravoltas e um assassino cuja forma de atuação nos faz devorar as páginas com voracidade deixando a dúvida sobre a sua identidade até aos suspiros finais, mas que, a espaços peca por deixar o leitor um pouco perdido face ao natural desconhecimento do passado de alguns personagens.

Este livro revela ainda uma outra dimensão, levando-nos para um território que transcende o próprio cenário ficcionado e que remete para as situações de maus tratos em instituições para pessoas com deficiências e os abandonos, forçados ou não, que são alvo e que demonstra que a sociedade, infelizmente, ainda está muito longe da plenitude solidaria e humana que tanto se apregoa, e espera, e que muitas vezes é moldado por dramas pessoais.

 In Rua de Baixo

terça-feira, 5 de julho de 2016

“Ouve a Canção do Vento / Flíper”
de Haruki Murakami

Senhoras e senhores, eis o Rato


Os primeiros passos de Murakami enquanto escritor ou aspirante a tal, aconteceram no final da década de 1970, ainda o jovem Haruki centrava quase todas as suas energias ao serviço do clube de jazz que geriu com a sua companheira. O bichinho da escrita já assaltava a alma do japonês e, nas horas vagas, à mesa da cozinha e de esferográfica em punho, atacava maços de folhas em branco.

A medo, e depois de muita hesitação, lá nasceram os primeiros rebentos literários de Murakami que (só) agora chegam às nossas livrarias. Reunidas num mesmo livro, “Ouve a Canção do Vento” / “Flíper, 1973” (Casa das Letras, 2016), são duas singelas fábulas, a resvalar para um território surreal e intimo, que centram as suas narrativas no quotidiano de dois jovens que se conhecem num bar. Tanto o narrador sem nome como Rato vivem fases algo niilistas e sentem a vida a escapar-lhes pela ausência de um sentido inequívoco.

Nestes dois romances – que serviram como génese da tetralogia do Rato, que além destes títulos junta “Em Busca do Carneiro Selvagem” e “Dança, Dança, Dança” – são servidos de bandeja personagens como escritores nascidos de uma fértil imaginação, uma rapariga com quatro dedos na mão esquerda, o dono de um bar que abre o seu espaço, e coração, para as mais diversas confissões, um par de misteriosas gémeas, obsessivos especialistas em máquinas de flipers, gente que come panquecas com refrigerantes, DJ’s com soluços, sem nunca esquecer um universo musical tão caro à pessoa de Murakami.

No caso de “Ouve a Canção do Vento”, Murakami oferece-nos uma quase narrativa linear cujo espaço temporal não se estende além das três semanas, algures no verão de 1970, onde dois jovens se conhecem no bar de Jay, um chinês de semblante tranquilo. O nosso narrador, sem nome, um leitor compulsivo de romances ocidentais, armado com tiradas intelectuais nonsense, trava conhecimento com Rato, um playboy, rico, que se refugia no consumo de cerveja para encontrar o seu caminho. Pelo caminho surge uma rapariga que trabalha numa loja de discos e é fã de Beach Boys. A narrativa, tem como pontos em comum uma certa interação entre estas três figuras explorando, em ritmo de cruzeiro, as dúvidas de uma juventude inquieta.

Ainda que nenhum destes personagens seja esculpido de forma irrepreensível, têm adjacente uma existência unidimensional que pode, a espaços, situar-se no limbo entre a plenitude e um sentimento vago pois “Ouve a Canção do Vento” é pensado como uma abordagem livre face à ideia de romance. Apesar disso, as páginas fluem e existe uma sensação de etéreo desejo que torna o seu todo elegante, com diálogos espartanos e casuais e o recurso a manobras musicais que sublinham uma certa tendência da sobreposição do estilo face à substância.

Sob o mesmo contexto e filosofia, “Flíper” volta a trazer a palco o narrador sem nome e Rato mas a sua contextualização parece estar mais próxima da esfera literária com que Murakami nos conquistou nos romances seguintes. Lançadas as sementes, temos duas estórias paralelas, personagens movidos a cerveja e tabaco, cuja apatia é combatida de fronte de uma máquina de flipers, metáfora para uma certa noção de solidão travada à custa de luzes néon, bolas extras e recordes imbatíveis.

Existe também um ser feminino à procura das frases certas, gatos, referências a cozinhados, música e discos pedidos e perdidos, livros, perseguições a máquinas de jogos desaparecidas (a velha Space-ship…) como descrições da Natureza e dos desejos humanos, figuras tão caras aos (magníficos) romances assinados por Murakami.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 4 de julho de 2016

“The Coulour in Anything”
de James Blake

Num labirinto chamado solidão


Aos primeiros acordes fantasmagóricos de “Radio Silence”, faixa que abre “The Coulour in Anything”, entramos numa espécie de letargia e cresce um sentimento que remete para um espaço íntimo, escuro e tranquilo, no qual queremos ficar.

Construída num edifício frágil cujos alicerces estão fixos através de várias camadas de uma confortável sensação de solidão, a música de James Blake, tal como a sua voz, é algo que se entranha, é uma sensação que mistura momentos de hesitação, alguma (contida) agitação e um sufoco musical que torna a audição num ato de redenção.

É esse o ponto de partida (e chegada) da música de James Blake, uma expressão impressionista onde a voz emerge de um som profundo construído com laivos ambientais, lo-fi e R&B, em modo semiautomático e pejado de efeitos emocionais em busca de uma aceitação, um conforto.

Não será portanto inocente a seguinte afirmação feita na já referida composição que abre este que é o terceiro longa duração do músico britânico: «I can’t believe that you don’t want us», enquanto, como elementos contextualizantes, somos invadidos por efeitos buzz, alguma estática e uma batida dolente, sublinhada por dolorosa e apologética poesia, que irradia uma atmosfera quase violenta, no limiar da saturação.

Este processo de contínuo desafio de aceitação iniciou-se em 2011 com “James Blake”, a estreia homónima do autor de canções como “Retrograde” ou “Limit to Your Love”, e principalmente “Overgrown”, disco editado há três anos e cuja digressão teve honras de sessão na edição do NOS Alive de 2015.

Para os fãs de sempre de Blake, as características acima descritas encaixam na perfeição naquilo que conhecem da arte do compositor londrino e revelam, mais uma vez, uma habilidade para “esconder” uma qualquer timidez em assumir um território confortável para muitos e que tem como fonte de inspiração a desolação, tal como acontece no universo de nomes como The XX ou FKA Twigs, esta última já “vítima” da mestria de James Blake na produção.

Tanto em causa própria como ao serviço de terceiros, Blake estende as redes da sua inspiração num particular vazio, preenchendo os espaços em branco, entendam-se silêncios, com batidas suspirantes e suspiradas e palavras entre o cantado e o sussurro que revelam a alma de um crooner desolado.

“Love Me in Whatever Way”, é um claro exemplo disso, onde o som navega à tona de um mar tranquilo pautado por ondas surreais, a meio caminho entre o sonho e o pesadelo, e que resulta numa grande canção. Mais orgânica, "f.o.r.e.v.e.r." é uma balada ao piano, onde o falsete da voz de Blake derrete o coração mais empedernido e eleva a sua flexibilidade de estilo.

Na sua essência, “The Colour in Anything” tem um perfil mais limitado que os discos anteriores, sem que isso retire qualquer sentido de brilhantismo e isso talvez esteja associado ao facto de a lista de colaboradores incluir nomes como Rick Rubin, responsável por uma estrutura mais pop, pontualmente mais agressiva comparativamente com o que aconteceu em “Overgrown” cuja participação de Brain Eno moldou palcos mais contemplativos. E já que falamos de alguns dos colabores que ajudam Blake nas suas desventuras sonoras, “The Colour in Anything” conta com a ilustre participação de Frank Ocean em “My Willing Heart” e “Always” ou Justin Vernon, o mentor dos Bon Iver, em "I Need A Forest Fire" e "Meet You in the Maze", derradeiro suspiro do álbum, curiosamente ou talvez não dois dos momentos mais cristalinos de um bom álbum mas que, ainda assim, fica uns furos abaixo de “Overgrown”.

As 17 canções do alinhamento representam mais de 76 minutos de (boa) música mas, pontualmente, Blake deixa-se envolver de tal maneira na forma que compromete o conteúdo. Em “Points” ou Timeless”, por exemplo, o exercício sonoro criado e murmurado adiciona (supérfluas) camadas direcionais mais que não chegam a um esperado clímax.

Sabendo o que vale e pode dar James Blake, elevam-se as expectativas e quando se ouve um álbum como “The Colour in Anything” queremos ainda mais. A pressão intrínseca da sua própria criação leva a uma tentativa de reinvenção na busca da perfeição em forma de canção pop com um perfil que mistura Soul, R&B e eletrónica e, tendo em conta o seu passado, acreditamos sempre que o próximo passo seja a tal obra-prima que tanto se deseja. Mas enquanto a esperamos, deixemo-nos envolver por os já criados passos que nos levaram a tão desejado fim.

Alinhamento:
1. Radio Silence
2. Points
3. Love Me in Whatever Way
4. Timeless
5. f.o.r.e.v.e.r.
6. Put That Away and Talk to Me
7. I Hope My Life
8. Waves Know Shores
9. My Willing Heart
10. Choose Me
11. I Need a Forest Fire
12. Noise Above Our Heads
13. The Colour in Anything
14. Two Men Down
15. Modern Soul
16. Always
17. Meet You in the Maze

Classificação do Palco: 7,5/10

In Palco Principal

“Dominus”
de Tom Fox

Rápido, intrigante e certeiro


É possível escrever um livro, um enredo, com os mesmos ingredientes de tantos outros e mesmo assim tornar o seu resultado bem acima das expectativas? Sim, é possível e é isso que o britânico Tom Fox conseguiu com “Dominus” (Topseller, 2016), a sua primeira aventura enquanto escritor e que resulta da soma de um profundo conhecimento académico dos meandros do Cristianismo com os predicados de um bom (e rápido) policial.

Tudo começa quando um estranho, «com calças de ganga gastas e uma camisa cinzenta, ligeiramente amarrotada», rompe pela apinhada Catedral do Vaticano num dia em que o Papa Gregório XVII celebra uma missa e pede ao sumo pontífice que se levante da sua cadeira de rodas que o prendia a um debilitante calvário assombrado pela doença de uma vida inteira.

A medo, e com todos de olhos postos neste peculiar acontecimento, o Papa levanta-se e dá-se o inesperado. Roma fica em polvorosa e as opiniões dividem-se sobre a veracidade do milagroso acontecimento que poderá colocar em causa toda a legitimidade de Igreja Cristã. A par disso, surgem cabalas entre homens do capital e clérigos cujo único objetivo é desacreditar o Papa.

É então que entram em cena a dupla Alexander Trecchio, um ex-padre que se tornou jornalista, e a detetive Gabriella Fierro, dando início a uma destemida e perigosa investigação que tem como objetivo encontrar uma explicação que acalme um país à beira de um ataque de nervos.

À medida que a dupla se embrenha na sua demanda, surgem verdades inesperadas e segredos que podem colocar, definitivamente, em causa o próprio o catolicismo, uma religião cada vez mais cercada por uma crescente horda de inimigos.

Com uma narrativa acelerada e com todos os predicados para manter o leitor agarrado à trama, “Dominus” é um thriller inteligente, e convincente, que coloca o dedo numa das maiores feridas da Igreja Católica: a gestão dos chamados “milagres de conveniência” que ajudam a manter a estrutura da instituição viva e que alguns reclamam não ser mais do que um jogo de interesses essencialmente económicos.

Vivamente aconselhado a fãs de Dan Brown, Simon Toyne ou José Rodrigues dos Santos, “Dominus” leva-nos para o interior dos corredores privados do Vaticano abrindo os horizontes da nossa imaginação enquanto leitores de um universo “mágico” e construído à base de uma mistura de factos e observações que encontram um crescendo à medida que as páginas avançam.

Com uma fórmula de sucesso, Tom Fox consegue no seu romance de estreia agarrar por completo o leitor que vai salivar por mais aventuras da dupla Alexander e Gabriella.

In Rua de Baixo

Mania da Bola

“Eusébio, o Romance” de Sónia Louro /
“Relato – Histórias de Futebol” de Hugo Vinagre e Tiago Beato

Todos os anos a história repete-se. Termina o campeonato, contam-se os títulos, as frustrações e as invejas, sentimento tão caro aos portugueses, e, tudo somado, as conversas sobre futebol ocupam a ordem do dia de muitos de nós.

Em ano de Campeonato da Europa, e Jogos Olímpicos, esse sentimento cresce e o desporto, direta ou indiretamente, invade-nos de várias formas. E um pouco à boleia dessa tendência, surgem nos escaparates livros que espelham essa paixão.


“Eusébio, o Romance”, de Sónia Louro, e “Relato – Histórias de Futebol” da autoria de Hugo Vinagre e Tiago Beato, ambos com selo Saída de Emergência, são dois (bons) exemplos dessa aposta.

No primeiro caso, Sónia Louro, conta, de forma romanceada, a vida desportiva do Eusébio, desde os tempos do Mufalala, em Moçambique, até à sua última aventura nos Estados Unidos da América ao serviço dos Buffalo Stalions, além de, obviamente, versar bastante sobre o percurso do “Pantera Negra” com a camisola do Benfica.

Somos assim convidados a testemunhar todas as emoções sentidas por Eusébio e a pesquisa realizada por Sónia Louro levou a autora a vasculhar memórias diversas por entre artigos, livros e vídeos, além das indispensáveis conversas com antigos companheiros de campo do moçambicano como, por exemplo, António Simões e Toni, ambos jogadores do Benfica e que testemunharam a magia do craque, e ainda com os familiares do “King”. Apesar disso, Sónia Louro opta por nunca entrar em demasia na esfera privado de Eusébio mantendo um registo dinâmico que tona a narrativa muito atraente não só para quem gosto da figura em causa mas também de um bom livro.


Já em “Relato – Histórias de Futebol”, a dupla de jornalistas Hugo Vinagre e Tiago Beato convidam o leitor a ver os dois lados da barricada: os heróis do relvado e os fervorosos adeptos de bancada.

Ao todo, Vinagre e Beato apresentam-nos mais de 100 histórias nascidas de momentos caricatos, atos de verdadeira coragem ou situações dignas de um filme de Hollywood. Do lado das estrelas da bola, Futre lembra os dias com a camisola do dragão ao peito e da incontornável figura de Pinto da Costa, João Vieira Pinto confessa o caricato ato negocial que foi a sua transferência do Boavista para o Benfica, Balakov brinca com a confusão que a equipa técnica do Sporting sentia sobre a sua posição em campo e António Veloso recua ao passado e fala de um certo camarada guarda-redes que sonhava ser como Julio Iglesias.

Na “equipa” dos treinadores de bancada, ou de banco mesmo, e de “loucos” por futebol, o plantel também está rodeado de vedetas. Assim, saiba como foi a primeira experiência enquanto jogador de Carlos Vidal, o eterno Avô Cantigas, quando pisou Alvalade, que memórias tem Jorge Gabriel dos seus primeiros passos enquanto treinador adjunto do Arouca, a paixão que a seleção nacional desperta em Luís Freitas Lobo ou um pedacinho das atribuladas, e perigosas, aventuras de Rui Miguel Tovar com o seu pai pelos campos de Portugal.

In Rua de Baixo

terça-feira, 28 de junho de 2016

“O Livro dos Baltimore”
de Joël Dicker

O regresso (auspicioso) de Marcus


A sensação que fica depois de ler “O Livro dos Baltimore” (Alfaguara, 2016), do suíço Joël Dicker, é idêntica à de um atleta que termina uma maratona, sem fôlego mas satisfeito, com o dever comprido, não importa a posição.

Exatamente três anos depois da edição de “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” eis que somos novamente convidados a entrar em mais uma corrida literária com o escritor Marcus Goldman e, ainda que a sensação do seu todo e processo criativo seja de um constante deja vu e algo fundado por camadas mais ou menos estereotipadas, o resultado final é muito, muito interessante.

Antes de mais, prepara-se o leitor, ávido conhecedor, ou não, da ainda curta obra de Dicker, que depois de começar a ler “O Livro dos Baltimore” é impossível parar. Desta vez, Marcus, agora um escritor de sucesso no epicentro de um bloqueio criativo, mergulha de cabeça na história da sua família e do Drama que a abalou definitiva e eternamente, tendo como protagonistas os Goldman, nomeadamente os bem-sucedidos Baltimore e os suburbanos Montclair, estes últimos diretamente ligados a Marcus.

Não querendo levantar qualquer spoiler, podemos afiançar que Joël Dicker volta em “O Livro dos Baltimore” ao muito eficaz e construído território narrativo dos flashbacks através de vários segmentos temporais que condensam os principais anos de Marcus, Hillel e Woody, os três primos que componham o núcleo duro do “Gangue dos Goldman”.

Centrando o corpo da estória na adolescência e juventude do trio, Dicker revela o crescimento dessa fraternidade tripla (que mais tarde passa a acolher um desafiador quarto elemento) cujos amores, sonhos, ambições e desejos tinham muitos traços em comum, mesmo que a inveja, por vezes, assombrasse, ainda que de forma mais ou menos tímida, esse universo. Tudo era partilhado, vivido em formato mosqueteiro, até à chegada de Alexandra, a musa inspiradora do trio que lutava, em surdina, pela sua atenção e, claro está, paixão.

Todo o romance centra-se na perspetiva de Marcus, pelo seu relato e particular visão. À medida que as páginas avançam, leitor e Marcus estabelecem uma relação de confiança e somos levados a pensar que estamos lá, no palco imagino por Joël Dicker, à semelhança de um personagem como Leo, vizinho de Marcus, uma espécie de grilo falante que alerta, de forma sui generis, a consciência do protagonista.

Não é por isso difícil, sentir o mundo dos Goldman bem perto de nós, entrar e nele ficar, até ao fim, e interiorizar os seus elementos: Hillel, filho de Saul e Anita, tios adorados de Marcus, inteligente mas de débil constituição física; Woody, quase-órfão e criança disfuncional, adotado pelo clã de Baltimore, atlético, com um apurado sentido de justiça (muitas vezes aplicada com os punhos) e um promissor futuro no mundo do Futebol Americano; Marcus, o primo suburbano, maduro e objetivo, cujo único desejo é prolongar, ad eternum, o “Gangue dos Goldman” e fervoroso crente na redenção por via da amizade.

É também Marcus que vai tomar as rédeas da narrativa e que vai desenhar-nos o intrincado puzzle que é a vida dos Goldman, procurando conhecer os segredos mais obscuros, assim como as intrigas e mentiras da sua família para conseguir, finalmente, entender o que sucedeu antes e depois do Drama, naquele fatídico Dia de Ação de Graças de 2004 e que vai revelar que, afinal, os nossos heróis podem ter “pés de barro” e o que é, ou parece, verdade é uma profunda mentira, transformada por Joël Dicker num livro sedutor e que será um companheiro ideal para os dias de verão que, feliz e finalmente, chegaram.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 27 de junho de 2016

“O Universo Concentracionário”
de David Rousset

Os escravos só dão o seu corpo


Entre os nomes que mais refletiram o flagelo do terrorismo nazi, tanto por via de experiências in loco como através de uma assaltante e terrível herança social, saltam-nos à memória Primo Levi, Robert Antelme ou Hannah Arendt.

Mas muitas outras personalidades lutaram com todas as suas forças contra a máquina montada pelos homens comandados por Hitler. David Rousset, filósofo francês, perfila-se nessa honrosa lista e o facto de ter sido capturado pela Gestapo em 1943 e deportado para os campos de trabalho de Buchenwald e Neuengamme, gravou-lhe no corpo e alma vivências dilacerantes.

Rousset foi o primeiro que ousou introduzir a palavra “Gulag” (campo de trabalho soviético) no léxico dos franceses revelando assim aos seus compatriotas o sistema desumano levado a cabo pelas políticas de Estaline.

A sua libertação das amarras nazis, em 1945, fez crescer dentro de Rousset o sentimento, determinado, de contar ao mundo o que se passava dentro do arame farpado. Assim, ainda física e psicologicamente debilitado, e com o precioso auxílio de Sue, sua esposa, durante cerca de três semanas dita um texto que versava sobre uma visita guiada ao campo de extermínio de Buchenwald.

Esse trabalho, registado em forma de visita guiada, seria publicado em La Revue Internationale em três partes: a primeira em dezembro de 1945, e as duas restantes em janeiro e fevereiro do ano seguinte. O interesse gerado pelos referidos relatos leva a que os mesmos sejam editados em forma de livro, obra essa que seria galardoada com o Prémio Renaudot e figura ainda hoje como um dos mais poderosos e profundos testemunhos de um sobrevivente dos campos nazis.

Falamos de “O Universo Concentracionário” (Antígona, 2016) um livro que reflete o devastador quotidiano dos presos nos campos de concentração assim como o terrível impacto que essa vida cravava em quem lá passou, sobreviveu ou morreu. Este testemunho criado por David Rousset vagueia entre episódios mais descritivos, uma objetividade distante e factual e momentos em que se questiona as diferenças de natureza da espécie humana.

Com recurso ao glossário que Rousset compilou nas últimas páginas do livro, ao leitor é permitido entender o funcionamento da «máquina de extermínio e de produção de terror concebida por Hitler», bem como refletir o exercício criado por o filósofo francês na tentativa de desmontar, de forma assinaladamente lúcida, a obscena brutalidade nazi.

O sangue-frio com que este livro foi escrito e sentido, leva o leitor a imaginar (e não mais que isso) a humilhação das pancadas recebidas por gente de fatos às riscas azuis e brancas/cinza que viu a sua dignidade destruída em nome de um “política” irreal, criada nas sombras de um líder refém da sua solitária loucura.

Ainda que a morte esteja omnipresente no todo de “O Universo Concentracionário”, nas suas entrelinhas também é possível sentir uma pontinha, racional, de vitória por parte de quem conseguir fintar a dama da foice e é hoje, por direito próprio e devidamente reconhecido por todos que amem a paz, um herói. E é por isso que livros como este são obrigatórios para que todos pensemos nos erros do passado, evitando-os, veemente, no presente e futuro preservando assim a memória de quem perdeu a vida por ter nascido com uma fé própria cujo corpo foi escravizado mas nunca o seu crer e alma.

In Rua de Baixo

“Os Últimos Sete Meses de Anne Frank”
de Willy Lindwer


A História recente tornou um relato como “O Diário de Anne Frank” num dos livros mais comoventes e importantes de todos os tempos, assumindo o estatuto de importante testemunho de um dos seus períodos mais negros. Aquilo que seria apenas uma forma de a pequena Anne tentar ordenar o caos (e a dor) que reinava na sua cabeça, é um autêntico marco da “literatura” em forma de quase confissão.

Muito se tem falado, escrito ou visto sobre o rescaldo do Holocausto mas, ainda assim, continuam a existir algumas pontas soltas, pormenores que podem fazer a diferença no estranho acto de tentar entender a razão de tamanhos e desumanos actos.

E é essa (tentativa de) contextualização que levou o cineasta holandês Willy Lindwer a escrever “Os Últimos Sete Meses de Anne Frank” (Vogais, 2016), que pretende reunir mais peças do puzzle que se tornou o percurso da família Frank em plena Segunda Grande Guerra. O livro surge na sequência do documentário televisivo homónimo – que teve honras de ganhar um Emmy -, mas cujo título pode remeter para alguma incongruência ou assumir-se como algo forçado pois, o seu conteúdo, transcende a pessoa de Anne, sendo no mínimo estranho dizer-se no prefácio do livro que todas as testemunhas conheceram Anne Frank – quando, num caso em particular (Hannah), a entrevistada nasceu depois da sua morte.

Para o documentário e livro Lindwer falou com seis mulheres, todas elas assombradas pelo fantasma comum da guerra e do stress emocional associado e que, de uma forma mais ou menos directa, tiveram contacto com Anne Frank ou os seus familiares,nos últimos sete meses da sua vida em Westerbork, Auschwitz e Bergen-Belsen – mas que conseguiram algo que a pequena Anne não conseguiu: sobreviver.

O resultado são seis poderosos testemunhos cujo conhecimento vem ajudar a perceber melhor o infernal quotidiano dos judeus à mercê do III Reich. Utilizando políticas de intimidação sem precedentes, Hitler construiu um rasto de devastação humana, e são esses testemunhos que estão bem presentes nestes seis relatos que mostram alguns traços que extravasam aquilo que Anne Frank escreveu no seu famoso diário, revelando mais dor, violência e crueldade humana.

“Os Últimos Sete Meses de Anne Frank” centra-se essencialmente nas memórias de Hannah, Janny, Rachel, Bloeme, Lenie e Ronnie, revelando uma outra profundidade da perversidade do genocídio nazi e que pode, nas entrelinhas, aproximar o leitor do universo de Anne Frank.

In deusmelivro

terça-feira, 21 de junho de 2016

“Francamente, Frank”
de Richard Ford

Depois do Furacão


Passaram trinta anos desde que o norte-americano Richard Ford, recentemente distinguido com o prestigiante prémio literário Princesa das Astúrias, escreveu “O Jornalista Desportivo”, o primeiro tomo da conhecida série que tem como protagonista o peculiar Frank Bascombe. Nas últimas páginas desse livro, Ford fazia um, muito particular diga-se, elogio à vida que, segundo o escritor, se situava no limbo entre «uma doença ou uma síndrome».

Essa busca pelo sentido, sofrido e cínico, da existência, Ford continuou a sua saga através de “O Dia da Independência”, “A Gordura da Terra” e, mais recentemente este “Francamente, Frank (Porto Editora, 2016).

De escritor sem grande sucesso, passando por jornalista desportivo ou agente imobiliário, Frank Bascombe tem agora setenta anos (idade bem próximo do seu mentor que conta agora com 72 primaveras), está reformado e é com um enorme prazer que reencontramos um dos personagens mais emblemáticos, e bem construídos, das últimas décadas da literatura norte-americana (e não só) cujo perfil mantém elevadas doses de ceticismo e cinismo ainda que se assuma mais reflexivo e, espante-se, em modo carpe diem.

Em “Francamente, Frank”, damos de cara com este septuagenário a viver em Haddam, um subúrbio de New Jersey, no rescaldo do furacão Sandy. A ironia e o politicamente incorreto continuam a ser algumas das suas mais distintas marcas e, como se de uma viagem sem retorno se tratasse, leva o leitor a mergulhar no quotidiano norte-americano, muitas vezes pejado de sucessos, fracassos ou sonhos perdidos, carregando estigmas sociais e económicos como o racismo, a crise financeira e a inveja pura.

Dividido em quatro capítulos, ou novelas, “Francamente, Frank” traça alguns pertinentes retratos de uma América ferida. Num primeiro momento (“Estou Aqui”), Frank é forçado a recuar ao passado enquanto agente imobiliário uma vez que Arne, um antigo conhecido a quem vendeu a sua antiga casa, lhe pede conselhos para tentar vender da melhor maneira, entenda-se lucrativa, as ruínas que hoje são sinónimo desse imóvel agora devastado pelo furacão.

O segundo “episódio” (“Tudo Podia ser Pior”) explora os resquícios de racismo da sociedade norte-americana e leva-nos a conhecer Charlotte Pines, uma «bem vestida negra de meia-idade», que esperava no alpendre do lar de Frank que, outrora, havia pertencido à sua família.

À medida que Pines revela as suas intenções, percebemos que algo de terrível aconteceu entre aquelas paredes e, de forma algo inesperada, procura algum conforto na pessoa de Frank depois de revelar a tragédia que a sua família foi alvo. Assumindo, mais uma vez, o papel de confessor e “amigo” do desconhecido, o ex-agente imobiliário aceita e entende o conflito interior de Charlotte, alguém que consegue resgatar sentimentos de honestidade e nostalgia do âmago de Frank.

Marcado também pelas suas relações pessoais e atribulada relação com os filhos, uns ainda vivos e outro há muito falecido, Frank mostra a sua faceta (forçada mas firme) solidária com Ann, a sua ex-mulher da qual se divorciou há trinta anos e que agora reside num lar, descrito por Ford como «um plano de laboratório vivo para americanos grisalhos», perto de Haddam.

Entre laivos agridoces, Richard Ford revela neste terceiro momento (“A nova norma”) um Bascombe observador, e algo condescendente, face a Ann, uma mulher sempre pronta a magoar o ex-marido, amarga e que a Doença de Parkinson parece fazer adensar o fel que carrega e que nem a presença “ortopédica” de Frank consegue amenizar, mesmo que a época natalícia seja o cenário.

Na derradeira parte deste livro (“Mortes dos Outros”), Frank é assaltado por um estranho e anónimo telefonema que o leva a assistir aos últimos dias de Eddie, alguém que conheceu em tempos e ganhou a alcunha de Olive, e que está às portas da morte devido a um cancro. No seio desta inesperada chamada está um segredo que pode provocar algum abalo na vida de Frank mas que, acima de tudo, expõe a relação de um homem face à morte, a um fim anunciado.

Seja em qualquer das referidas quatro perspetivas, Richard Ford consegue, de forma natural e desarmante, ligar-nos à “pessoa” de Frank e coloca em jogo memórias trágicas, partilhas de fantasmas inesperados, discursos paliativos, contextualizações ora cínicas, melancólicas ou irritantes e irritadas ou até lições de vida sobre a parentalidade, ainda que fugidia. O resultado é um excelente livro, ainda que curto, e que leva a pensar se alguma vez mais teremos a sorte de voltar a ter como companheiro de cabeceira o “velho” Bascombe, fugidio ser que nos assombra a alma a cada década.

In Rua de Baixo

domingo, 12 de junho de 2016

“A Filha de Estaline”
de Rosemary Sullivan

A triste sina da Princesa do Kremlin


Durante cerca de três décadas, enquanto secretário-geral do Partido Comunista Soviético e do seu Comité Central, Josef Estaline purgou e puniu milhões de pessoas, das quais incluem-se membros da própria família, nomeadamente Svetlana Alliluyeva, sua filha.

A crueldade e o sentido “político” do ditador russo foi uma das suas imagens de marca e em “A Filha de Estaline” (Temas e Debates, 2016), a canadiana Rosemary Sullivan, biógrafa, poetisa, jornalista, crítica literária e professora emérita da Universidade de Toronto, levanta o véu sobre a vida de Svetlana, uma vítima da estrutura maquinal do poder soviético e ao longo de mais de 600 páginas, algumas delas ilustradas com fotos de variadas proveniência e de irrepreensível validade histórica, e revela um rasto de puro terror com base na estreita colaboração entre autora e biografada assim como nos aquivos do FBI, da CIA e do Estado Russo.

Nas primeiras páginas deste livro, Sullivan conta a trágica e solitária infância da chamada “princesa do Kremlin”, uma menina que viu a morte precoce da sua mãe, por suicídio, marcar-lhe definitivamente uma vida votada ao desprezo do pai, homem que muito cedo revelou um perfil frio e assassino. Ainda assim, apesar deste isolamento forçado, Svetlana conseguiu fazer amizades ainda que alguns tenham pago esse atrevimento com a vida.

Ao avançar no livro, o leitor fica a conhecer mais pormenores da complicada existência da filha do ditador soviético. Desde a sua educação passando pela vida amorosa, casamentos e nascimentos dos seus filhos, até obviamente ao relacionamento tenso com o seu pai, Rosemary Sullivan revela, de forma muitíssimo competente e bem documentada (nas últimas páginas do livro existem listas de personagens que fizeram parte da vida de Svetlana, referências bibliográficas assim como registos de fontes), uma narrativa biográfica de excelência sem nunca resvalar para territórios de mera “coscuvilhice” e com um ritmo narrativo brilhante.

Uma das partes mais interessantes de “A Filha de Estaline” é a complexa passagem de Svetlana pelo território norte-americano, decisão que surgiu quando ainda estava exilada na Índia, fruto de uma aproximação político, social e económica entre as duas potências que durante décadas alimentaram a chamada “Guerra Fria”. Alliluyeva, que mudaria de nome para Lana Peters para assim afastar a curiosidade mórbida dos jornalistas ocidentais, chegou mesmo a conseguir uma estranha “independência” do Kremlin mas nunca se conseguiu libertar do epiteto de fantoche político nas mãos de soviéticos e norte-americanos.

Algo que também transparece neste livro é a continuada tentativa de Svetlana em sentir o amor do próximo, procurar afinidades intelectuais e uma estabilidade que resgatasse, definitivamente, um sentimento de normalidade que foi sempre traído por decisões abruptas e desequilibradas emocionalmente. Ainda que descrita como espirituosa, amável e companheira, acabou por dinamitar muitas amizades pelos sucessivos ataques de raiva que talvez derivassem da sua inabilidade de lidar com a liberdade, o que também levou a que destruísse quatro casamentos dando origem a mudanças sucessivas de país, deixando mesmo um rasto de propriedades em dois continentes, vindo a morrer, aos 85 anos, em 2011, na pobreza, em território norte-americano.

Um dos maiores legados que Svetlana deixou foi a raiva e incredulidade face ao seu pai. Numa das suas últimas entrevistas, afirmou: «Não lhe perdoo nada! Se foi capaz de matar tanta gente, nomeadamente os meus tios e tia, nunca lhe perdoarei. Nunca…. Destruiu-me a vida».

In Rua de Baixo

“Império do Medo – No Interior do Estado Islâmico”
de Andrew Hosken

Políticas de Terror


A história geopolítica das últimas décadas tem sido assombrada por vulgares ataques terroristas, atos que atentam não só contra os ideais do Ocidente mas, acima de tudo, subjugam a vida de inocentes e espalham uma sensação de insegurança e desconfiança.

Nesse sentido, o percurso do ISIS (Estado Islâmico) reflete uma “filosofia” violenta e assassina, frequentemente alvo de destaque nos noticiários de todo o mundo. Somos assim forçados a assistir a histórias reais, de um horror inusitado, cuja assinatura é sinónimo de genocídio, um dos mais vulgares desígnios da cobardia terrorista.

Somos levados a tentar entender as razões para tal, o que motiva os terroristas, quais os seus objetivos, quando irá parar a sangria e qual a real proximidade da mesma. Os recentes ataques que o território Europeu tem vivido tornam a ameaça presente e induz-nos uma sensação de medo permanente pois, afinal, isto não acontece só aos outros.

É com base nestas premissas que Andrew Hosken, jornalista da BBC e uma das principais figuras que cobriram o 11 de setembro e a “Primavera Árabe”, escreveu “Império do Medo” (Planeta, 2016), um livro que versa sobre o Estado Islâmico desde a sua génese, quando era uma célula subsidiária da Al-Qaeda, até hoje, assumindo-se como força dominante de uma vasta área que ocupa territórios entre a Síria e o Iraque e que teima em aterrorizar o resto do mundo.

Ao longo de 15 capítulos, Hosken, profundo conhecedor do perfil do Estado Islâmico, analisa a complexa teia da organização, bem como a sua ascensão, através de uma cronologia de terror crescente. Ficamos assim a saber, por exemplo, que Abu Musab al-Zarqawi, o primeiro líder jordano do ISIS, recebeu o seu batismo radical numa prisão através dos “conselhos” de um extremista islâmico, e como depois conseguiu aliar à causa seguidores com o objetivo de purgar inimigos, especialmente no Iraque, espalhando a morte como uma espécie de obscena assinatura, até conseguir, em 2014, declarar o califado, com uma área semelhante à Grã-Bretanha e governado segundo as leis da Charia, ato que envolveu o domínio de Mosul, no Iraque.

Pelo meio, Hosken opina sobre a (desastrosa) opção norte-americana de dissolver o partido Baath (constituído por maioria sunita, anteriormente liderado por Saddam Hussein até à sua queda em 2003), que levou a que muitos se aliassem à “causa” terrorista, relata a chegada de Abu Bakr al-Baghdadi ao lugar cimeiro do ISIS, depois da morte de al-Zarqawi’s em 2006, e que envolveu uma crescente escalada de terror com a vulgarização de atentados suicidas, massacres, decapitações, raptos e violações de mulheres e crianças, principalmente na província de al-Anbar, uma das maiores do Iraque. Mas talvez um dos principais passos políticos de al-Baghdadi foi a decisão de entrar na Guerra Civil síria em 2011, ato que forneceu ao grupo terrorista um novo ímpeto que acabou com a já referida declaração do califado.

Em “Império do Medo” há ainda tempo e espaço para uma reflexão sobre a reação norte-americana a todo este processo, bem como à ruptura da liderança iraquiana no coração do próprio território, o que possibilitou a homens como Nouri al-Maliki se tornarem donos de uma impensável riqueza, à boleia do lucro proveniente da venda de petróleo, sendo um dos principais mecenas do ISIS na sua abordagem mais global.

Outra das questões mais pertinentes deste livro é a reflexão que o leitor pode fazer de tal manobras de contextualização e questionar o porquê dos desesperados gritos de asilo por parte dos sírios que chegam, desesperados, à Europa com o objetivo de fugir a uma sina de morte e destruição. E enquanto o mundo assiste e ajuda os milhões de refugiados na sequência deste verdadeiro tsunami migratório, outros aproveitam as ondas e espalham marés de terror onde os verdadeiros objetivos são o controlo, o poder e a vingança, a qualquer preço.

Na sua essência, “Império do Medo” é a ferramenta ideal para quem quer entender o contexto político do Médio Oriente (do e no Estado Islâmico) e o seu conteúdo intenso, real e arrepiante, escrito com uma assertividade apenas ao alcance dos grandes jornalistas, faz transparecer a angústia e o medo de um presente envenenado pela violência.

In Rua de Baixo

sexta-feira, 27 de maio de 2016

“A Poeira que Cai sobre a Terra e outras histórias de Jaime Ramos”
de Francisco José Viegas

HISTÓRIAS NEGRAS COM SABOR AGRIDOCE


Se tivermos em conta o género literário policial made in Portugal, pensamos prontamente em personagens como Gabriel Ponte (criado por Garcia Rosado), Mário França (nascido da imaginação de Miguel Miranda), Peter Maynard (herói de uma trilogia criada por Dennis McShade, aka, Denis Machado) e Jaime Ramos, inspetor da secção de Homicídios da Polícia Judiciária do Porto e, segundo Francisco José Viegas, seu criador, «um solitário, pessimista e ligeiramente conversador, mas que nunca se escandaliza com nada».

Uma visita à página do personagem revela mais pormenores sobre o agente Ramos, nado e criado na Invicta, inveterado leitor e apreciador de charutos, e que comemora em 2016 a entrada na sexta década de existência.

E nada melhor para celebrar a referida data que a edição de “A Poeira que Cai sobre a Terra e outras histórias de Jaime Ramos” (Porto Editora, 2016), uma coleção de cinco histórias independentes no enredo que que observam alguns lugares comuns na suas narrativas, nomeadamente a cidade do Porto, uma melancolia latente e fortes personagens femininas (algumas delas agradáveis surpresas, outras bem-vindas novidades) que nem mesmo a morte apaga o seu brilho e encanto.

Esta mão-cheia de histórias (e não contos pois o seu autor afirma não saber escreve-los pois não tem a noção do seu tamanho e estrutura) escritas entre o ano 2000 e 2014, reunidas num mesmo espaço pela primeira vez, embala-nos através de uma escrita sincopada e deveras inteligente que tanto eleva a esperança como afunda uma breve noção de futuro. Num palco que além de Ramos tem ainda lugar para a pandilha habitual do inspetor composta por Olívia, Isaltino, Corsário, Vasco e Dulce, embrenhamo-nos, sem demoras, em “Um Gosto pela Imperfeição”, o homónimo “A Poeira que Cai sobre a Terra”, “Lágrimas de Sydney”, “A Câmara Invisível” e “Uma Recordação de Dezembro”.

O registo familiar e aconchegante da escrita de Francisco José Viegas faz-nos, felizmente, iniciar mais uma viagem, entre passado, presente e futuro, a bordo da vida de Jaime Ramos que transporta “ora uma jovem em roda livre, entregue à noite do Porto, ou uma mãe condecorada com as divisas e medalhas da aristocracia inglesa que se deslumbra com o Douro. Uma mulher arrebatadora que é um romance rock’n’roll, uma estrada de pó, ou uma atleta olímpica cujo corpo não pede explicações”, e que servem de porto de abrigo ao leitor mais incauto e sedento daquilo a que podemos chamar, sem pudor, requintados momentos de um policial literário.

In Rua de Baixo

quarta-feira, 25 de maio de 2016

“A Fome”
de Martín Caparrós


Não temos como negá-lo. Estamos perante um assunto desconfortável, duro, sem qualquer sentimento paliativo, pois entramos no domínio de um dos mais graves flagelos que afectam o Homem em pleno século XXI: a fome.

Vangloriamos os infinitos avanços tecnológicos, que acabam por ser ditadores da nossa existência, fazemos loas à modernidade, mas não conseguimos terminar com os três milhões de crianças que morrem todos anos devido a doenças ou falta de alimentos.

Além disso, toda esta catastrófica realidade pode levar mesmo a extremos de natureza absurda pois, diz a economia global, que o problema da fome não se deve à carência de alimentos mas sim à sua má distribuição, à sua inviabilidade oriunda de uma amálgama de fatores como questões religiosas, tradicionais, da gestão dos recursos, corrupção, exploração e egoísmo capitalista, alterações climáticas, resquícios dos impérios coloniais, ou mesmo, desinteresse de quem tem muito em ajudar quem menos tem, prova máxima do egoísmo ainda latente nesta distorção a que chamamos Humanidade.

É exactamente esse jogo de “interesses” transnacional que o jornalista e escritor argentino Martín Caparrós explora em “A Fome” (Temas e Debates, 2016), um extraordinário exercício reflexivo que nos faz rever as inter-relações socio-económicas mundiais sobre uma perspectiva variada.

Em primeiro lugar temos a observação do profissional, do jornalista, que analisa e sintetiza a problemática em debate, passando ao leitor a ideia das suas origens e implicações, dando também possíveis “razões” e “saídas” para o problema evitando a superficialidade em detrimento da raiz do problema.

Uma segunda perspectiva é revelada no seu sentido antropológico. Caparrós faz-nos “ouvir”, por via das muitas entrevistas que realizou, a voz da fome, contextualizando os seus horrores e elevando ao extremo o seu estado nocivo, marginal, tendo os seus protagonistas, os pobres – os que morrem à e da falta de víveres -, direito a, pelo menos, exigirem uma resposta.

Desses diálogos resulta a oportunidade de dar voz aos que não têm voz, do que é sentir fome e ter uma janela de esperança de vida reduzida, dos que comem para (sobre)viver e não daqueles que vivem para comer. A esses, a morte até soa natural, sem aspas, sabendo que os seus filhos, subnutridos ou doentes, não deixaram de ser vozes anónimas de um sofrimento surdo que é exposto nas televisões, arrepiando quem os vê – mas que são, para a maioria desses, apenas notícias, consequências do mundo.

À boleia dessas conversas viajamos pela Índia, Bangladesh, Nigéria, Sudão do Sul, Estados Unidos da América, Argentina. Que importa que alguns destes países sejam os maiores exportadores de carne? Ou os maiores produtores de soja? Nada. Pois a fome não é exclusiva dos países mais pobres: é uma epidemia global que convive paredes meias com a opulência e, a custo, disfarçada por algumas estatísticas sobre a pobreza crónica.

Sarcástico, afirma Caparrós: “Existe fome, porque há milhões em situação de pobreza extrema. A primeira questão deriva de uma série de fatores, a segunda dos seus efeitos”. São, no fundo, as origens da fome, que mais preocupa quem a estuda, com as equações matemáticas e económicas no topo da pirâmide de desconfiança.

Existe ainda uma outra perspectiva explorada por Martin Caparrós, centrada nas deambulações entre si mesmo e uma entidade imaginada, que não controla – o leitor -, e que traz a palco factos que estão na básica adaptação do Homem ao mundo e à sua capacidade de sobrevivência ao meio. Disto resultam algumas perguntas: Como podemos viver se sabemos como está o mundo e nada fazemos para o melhorar? Podemos, enquanto indivíduos, lutar contra essa assassina inércia? Quando abrir os olhos e encarar a realidade de frente?

Obra de excelência, “A Fome” dá-nos (mais uma) oportunidade para encarar este problema e tentar compreender o seu alcance, através de números, reais, que por vezes são adocicados por eufemismos mas que apenas adensam o fel vivido por quem morre, diariamente, por não ter o que comer, por lhe ser negado o direito à vida.

In deusmelivro

“The Empire”
de João Valente

FILHOS DO ROCK


Para os apaixonados pelo complexo universo da música, no ano 2000, o cineasta norte-americano Cameron Crowe, dava a conhecer ao mundo “Quase Famosos” (Almost Famous), um filme que nos transportava para os loucos anos 1970 onde o rock explodia no seu máximo esplendor e colocava no centro da atenção um rapaz de 15 anos que conseguiu o seu primeiro trabalho como jornalista na revista Rolling Stone com o foco de acompanhar a primeira digressão dos Stillwater por terras do Tio Sam.

Durante duas horas ficámos a conhecer os tortuosos, e mais íntimos, caminhos do rock e como tudo pode passar do sonho ao pesadelo num ápice, sendo o sucesso o mais realista e certeiro sinónimo de efemeridade.

E é esse o mundo que João Valente decidiu explorar em “The Empire” (Topseller, 2016), um livro que é uma nostálgica viagem sobre a vida de quarto rapazes, apaixonados por música, que subiram ao mais alto patamar do estrelato musical mas que, à semelhança de muitas outras bandas, experimentou uma queda de estrondo.

Durante 11 anos, os The Empire, ou Mário Andrade na voz e guitarra, Ricardo Gomes na guitarra, Tiago Gomes na bateria e Eddie Steppleton no baixo, venderam milhões de discos, esgotaram salas em todo o planeta e foram reconhecidos pela indústria fonográfica.

Os quatro amigos que se conheceram por um divino acaso viveram mesmo uma realidade alternativa, um sonho invulgar que levou a que uma banda desconhecida em Portugal, que sobrevivia à conta de concertos de covers e trazia na bagagem um “álbum” manhoso, gravado no suspeito estúdio S&M Records, passando a ser uma das maiores referência rock do mundo pelas mãos de tubarões da música como Mike Morris, A&R da Aberdeen Records, ou o guru e manager Jimmy Duncan.

Tudo nasceu da teimosia de uns putos que frequentavam a lojas de discos “Woodstock”, propriedade de Lafitte, um filho do rock que tinha na música a sua razão de viver e cuja casa, que ficou conhecida como o “Dramático”, foi durante uns tempos solo sagrado para o quarteto. Dessa convivência, a banda, ainda como os hard-rockers The Deadly Machine ou Lazy Mayhem Orchestra, deu os primeiros passos e encarou uma realidade complicada onde a família e os amigos podem ser a solução ou o problema.

Quando o percurso da banda conheceu um inesperado ascendente, a tal oportunidade de sucesso que se assemelha a «um comboio que se passa uma vez na estação da vida», os Estados Unidos da América foram a base de um sucesso quase galáctico, também ele construído com alguns dos mais conhecidos ingredientes da receita rock & roll que possibilita um caminho traçado com prazeres proibidos como as drogas, o álcool, a megalomania e paranoia, e outros excessos que inclusive podem resultar da mais dura das faturas: a morte.

Mas quem eram, na verdade por trás da espessa cortina da fama, os elementos deste quarteto fantástico? É esse o maior desafio que João Valente passa para o domínio do leitor ainda que dê pistas para tal ao orientar a narrativa para territórios perto de um puzzle que mistura uma biografia (muito bem) ficcionada de quatro amigos com um exercício bibliográfico que se alimenta de factos reais, e outros testemunhos de gente verdadeira, que levam o leitor, à medida que se acumulam as páginas lidas, a assumir o todo como verdade dada a sua consistência.

Aliado a toda esta estrutura, que vai encantar não só os fãs do mundo da música mas também àqueles que gostam de um romance bem «esgalhado», João Valente tem ainda o discernimento de sugerir uma banda sonora paralela, essa realmente verídica, como também uma referência, esta no reino da boa ficção, aos discos editados pelos The Empire assim como as letras das suas canções e que fecham este livro em forma de perfeito acorde.

In Rua de Baixo

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Linda Martini
"Sirumba"

Felizmente, não há aulas amanhã 


Os Linda Martini estão diferentes. Uma década depois de “Olhos de Mongol”, o caminho traçado pelo quarteto composto pelo André, a Cláudia, o Hélio e o Pedro (sem nunca esquecer o Sérgio) foi percorrido de forma sonora e liricamente consciente e em crescendo.

As raízes punk e pós-rock fundiram-se e deram origem a um som próprio que foi, paulatinamente, conquistado os nossos ouvidos. Se “Casa Ocupada” é um disco mais direto e cru, “Turbo Lento” traça ambientes com maior groove assumindo-se como um misto de fúria e paixão únicos, uma delícia sónica ao serviço de uma sagaz militância musical.

De degrau em degrau, numa escala ascendente, chegamos então a “Sirumba”. Gravado com outras condições, emocionais e de trabalho, o quarto disco dos Linda Martini resulta de uma maior dedicação a causa própria. Com um estúdio à sua disposição e com todos os membros da banda exclusivamente dedicados à arte de fazer música, estavam, finalmente, reunidas as tão desejadas condições.

E o resultado do trabalho que teve como casa o estúdio HAUS é um grande disco, uma excelente coleção de canções, fruto também de uma maior coesão, comunhão mesmo, entre a música e a voz, não sendo estéril que se grite em “Sirumba”, faixa que abre o álbum, «Faço gala, eu quero é ser cantor». Para trás, ficam os tempos de quem tinha aulas no dia seguinte…

Ao longo dos nove temas de “Sirumba”, sente-se também que houve mais atenção à evolução da própria música, à sua construção rítmica, e em determinados momentos agarram-se influências de outros quadrantes, principalmente em apontamentos mais “orientais” das guitarras (“Comer Por Dois”) ou tiques assumidamente tribais na bateria (“Dentes de Mentiroso”), aos quais a “dicotomia” Linda Martini/Paus não é, definitivamente, alheia. A presença, algo tímida, de uma secção de sopros em faixas como “Unicórnio de Sta. Engrácia” e “Farda Limpa” apontam também uma maior universalidade da linguagem de uma banda que teve tempo, e engenho, para ser mais.

Dessa amálgama criativa nasceram algumas das melhores canções (termo hoje utilizado com maior propriedade) da história da banda onda há mais espaço para uma sensual contenção e compromisso de implosão. “Bom Partido” é um desses exemplos, melancólicos. A voz entra, devagar, as guitarras disputam entre si acordes atmosféricos, a bateria e o baixo namoram delicadamente enquanto se divaga sobre o difícil ato de crescer, de ser adulto. A sensação repete-se em “O Dia Em Que A Música Morreu”, derradeiro suspiro do disco, um exercício deliciosamente sufocante que promove uma sensação de montanha-russa, entre crescendos e travagens, «andando em lume brando», que promovem um fascinante dialogo entre músicos e ouvinte. Uma pérola que navega em territórios muito semelhantes à tensa, e densa, “Dentes de Mentiroso”, canção que observa alguns dos minutos mais sónicos de “Sirumba”.

As mais orelhudas, e em registo radiofriendly, “Putos Bons” e “Unicórnio de Sta. Engrácia” valem-lhes o estatuto de primeiros singles e mostram um doce e irresistível swing, manobras que alargam o espetro do som dos Linda Martini a territórios muito próximos de uma acelerada pop particularmente interessante que reina sem dividir.

Correndo o risco, assumido, de cair no cliché de dizer que “Sirumba” é o disco mais maduro e seguro dos Linda Martini, essa é a sensação que fica depois de se devorar, quase sem tréguas, este conjunto de canções nascidas da cabeça do quarteto cuja emocional envolvência com as suas músicas nos leva a tratá-los por tu e a pedir que nos continuem a oferecer canções que fortaleçam os nós que afinal sabemos dar, mesmo que para tal tenhamos de esperar, anos, vidas inteiras que se renovam. Obrigado, rapazes.
 

Alinhamento:
1.Sirumba
2.Unicórnio De Sta. Engrácia
3.Preguiça
4.Putos Bons
5.Bom Partido
6.Farda Limpa
7.Comer Por Dois
8.Dentes De Mentiroso
9.O Dia Em Que A Música Morreu

Classificação: 9,5/10

Editora: Universal

In Palco Principal

“Vamos Comprar um Poeta”
de Afonso Cruz

Genial, a mais de 99%


E se vivêssemos numa sociedade em que tudo deveria dar lucro e o afeto e a moralidade se medem em percentagem e estar apaixonado, a mais de 75%, é um acontecimento sério? E se o materialismo controlasse a vida das pessoas? E se os nomes fossem substituídos por números e uma vírgula fosse sinal de estatuto? E se os alimentos fossem contados ao grama e uma metáfora fosse sinónimo de mentira? E se a poesia morresse? E se isto fosse um livro?

Então o resultado seria “Vamos Comprar Um Poeta” (Caminho, 2016) uma pequena história da autoria de Afonso Cruz sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura na nossa existência e, simultaneamente, uma ode à beleza das ideias e dos sentimentos movidos ao mais puro sentido da amizade.

No centro da narrativa está uma menina de 12 anos que queria ter um artista como animal de estimação. A escolha, mais económica e asseada, caiu na figura de um poeta, um ser estranho que dá vida e cor às palavras, faz sonhar, fala uma linguagem impercetível e apela ao devaneio «inutilista» face ao determinismo da economia, do crescimento e da prosperidade.

Para desespero do chefe da família, o poeta trouxe para dentro da sua casa, um reino particular onde o principal mantra era a filosofia da «contenção e do apertar do cinto», a arte de libertar o pensamento, de exercitar a liberdade, de interrogar os dogmas, de abrir e estender a felicidade ao quotidiano, ousando mesmo sugerir um outro tipo de crescimento que não o económico e gerar a eternidade em valores sentidos no âmago humano.

Numa mordaz e assertiva critica ao impulsivo vício consumista puro e duro que gera apenas uma «felicidade momentânea», Afonso Cruz volta a um território que já havido explorado em, por exemplo, “Capital”, um álbum ilustrado que tinha no centro da “narrativa” a relação entre um menino e o seu porquinho-mealheiro que era alimentado com capital.

Entre tiradas inutilistas, lucrativas e situações «exponencialmente parvas», “Vamos Comprar um Poeta” reserva ainda espaço para “supérfluas” tiradas de poesia de gente como Walt Whitman, Herberto Hélder, Dylan Thomas, Robert Frost e Wallace Stevens.

Tida como uma obra para um universo mais juvenil, esta mais-valia em formato de bolso de Afonso Cruz volta a explorar um planeta criativo único e desarma mentes de todas as idades fazendo uso de um poder narrativo que eleva o literário capital nacional, sacode para longe o cenário de queda e aumenta os dividendos da crítica inteligente evitando, definitivamente, a falência do cogito.

In Rua de Baixo

terça-feira, 10 de maio de 2016

“Fogo Mortal”
de Nelson DeMille


Os números não enganam: mais de 100 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, um dos três autores mais lidos, posição cimeira nos bestsellers do New York Times. Estas proezas têm em comum o nome de Nelson DeMille, responsável por títulos como “O Jogo do Leão” ou “Força Divina”.

Aproveitando esse filão criativo chega-nos “Fogo Mortal” (Marcador, 2016), mais uma aventura do destemido John Corey, ex-detective de Homicídios da Polícia de Nova Iorque e, agora, agente da Brigada Federal Anti-terrorista. Desta vez, o leitor viaja até outubro de 2002, um ano após o 11 de setembro, numa altura em que os órgãos de comunicação norte-americanos dedicavam particular atenção ao Presidente Bush e à iminente invasão dos Estados Unidos da América ao Iraque.

Enquanto se vive um ambiente conturbado e a sede de vingança é por demais perceptível, o agente especial Harry Muller, também ele ex-detective do Departamento de Homicídios de Nova Iorque, é destacado para uma missão cujo objetivo é vigiar o Clube Custer Hill, uma sociedade secreta composta por alguns dos homens mais poderosos dos Estados Unidos da América e cujos planos incluem uma poderosa retaliação com o nome de código “Fogo Mortal”.

A meio da investigação, Muller é capturado e feito refém. No seio da organização acaba por conhecer Bain Madox, presidente e proprietário do Custer Hill Club – assim como da Global Oil Corporation -, tal como outros membros ilustres da sociedade norte-americana como Scott Landsdale, membro da CIA, Paul Dunn, que integra o conselho de segurança do Presidente, ou Edward Wolffer, Secretário da Defesa norte-americana.

Depois de um período de alguma apreensão, Muller começa a inteirar-se da dinâmica do grupo que se reúne no clube, constatando que os seus membros colocam a hipótese de existir uma ameaça nuclear em solo norte-americano. Sabe o grupo que, depois do colapso da União Soviética, vários territórios se armaram de bombas nucleares “portáteis” e o perigo ronda a cada instante.

A juntar a este terrível realidade, Muller toma também conhecimento de um protocolo nascido aquando da administração Reagan, de nome “Fogo Mortal”, que determina que qualquer resposta nuclear das forças norte-americanas pode ser decidido sem a autorização do Presidente – e que tem no mundo islâmico um dos mais prováveis alvos. Mas será toda esta estratégia uma forma de bluff? Desconfiados de todas as movimentações norte-americanas, os serviços de espionagem árabes tomam conhecimento de “Fogo Mortal” e reagem.

Ciente que qualquer domínio do mundo árabe pode significar o controlo da produção de petróleo, Madox e aliados sabem o poder que está em disputa. E nada melhor que provocar os extremistas islâmicos com ataques planeados em algumas áreas estratégicas. Os ecos do Vietname pairam nas memórias de alguns dos veteranos do Clube Custer Hill e a sede de vingança faz crescer a sede de violência.

Estão assim lançados os dados para mais uma explosiva aventura com John Corey no centro das atenções, com DeMille a construir um palco assustadoramente real – ainda que as doses de ficção, principalmente de aspecto geo-político, sejam generosas.

Fazendo uso dos habituais e crispados diálogos, DeMille consegue em “Fogo Mortal”, o livro, aumentar os níveis de sarcasmo de Corey, personagem que tem no restante elenco que o cerca companheiros ideais para a construção de uma narrativa repleta de sentido de acção e velocidade cinematográfica – ainda que com alguns apontamentos algo previsíveis, sem dúvida um dos (poucos) pontos fracos deste livro.

Outro dos trunfos de DeMille é a contextualização de uma sociedade ainda muito afectada pelos efeitos nefastos do 11 de setembro, principalmente entre as forças de segurança norte-americanas, que têm um decisivo papel em toda esta trama e tentam, à força, lamber feridas e cicatrizá-las definitivamente.

In Deusmelivro