A Provação de Sandra
O sol, lá fora, ainda brilha. Sandra descansa, o telefone toca, insistentemente. Sandra, renitente, levanta-se e atende. Entretanto o forno dá sinal e a tarte está pronta. O dia corre normalmente até que se contrariam as lágrimas, em vão. A vida pode mudar a cada segundo, sem qualquer tipo de aviso. Resta lutar com as (poucas) forças que restam.
É desta forma crua que os veteranos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne filmaram a primeira cena de “Dois Dias, Uma Noite”, um fantástico e tocante drama que tem como figura principal (a belíssima) Marion Cotillard no papel de Sandra, uma mulher casada e com dois filhos que tenta salvar o seu emprego depois de os seus colegas terem optado por receber um bónus de mil euros em detrimento do lugar do seu posto de trabalho na Solwal, uma empresa de painéis solares.
O dilema fora colocado pelos responsáveis da empresa que depois do afastamento de Sandra devido a uma depressão de origem nervosa constataram que o volume de trabalho pode ser assegurando sem um dos colaboradores, ainda que com esforço acrescido de cada qual. Essa decisão coloca os colegas de Sandra no difícil lugar de “escolher” entre o bónus e Sandra, que finalmente se sente em condições psicológicas de regressar ao trabalho.
Esse forte revés é-lhe comunicado por Juliette (Catherine Salée) e resta a Sandra tentar durante o fim de semana convencer os colegas a mudarem de opinião, depois de conseguir a concordância do gerente da empresa para se realizar outra votação.
Desesperada, Sandra tenta salvar o seu posto de trabalho e enceta uma terrível demanda. Do seu lado está o marido Manu (Fabrizio Rongione) que encoraja a muito fragilizada esposa a falar com os colegas. São necessários nove votos para Sandra manter o trabalho mas o que a ainda funcionária da Solwal tem para oferecer “em troca” aos seus colegas é apenas a sua angústia e ansiedade.
Essa terrível situação leva Sandra a voltar a sentir sintomas depressivos e sente constrições na garganta chegando a perder a capacidade de falar, hiperventila e a única “salvação” assume a forma de um conhecido antidepressivo. Não é apenas o emprego de Sandra que está em jogo, é o seu casamento, a sua vida.
A dificuldade de Sandra é acrescida pois durante o fim de semana é mais difícil encontrar os camaradas e suas famílias. Alguns dos seus colegas aproveitam os dias de descanso para conseguirem mais dinheiro pois a vida é complicada. O desemprego assola algumas destas famílias que têm nos mil euros de bónus um precioso aliado para colmatar as crescentes necessidades. Conseguirá Sandra o seu objetivo?
Com uma simplicidade desarmante, os irmãos Dardenne transformam “Dois Dias, Uma Noite” em um dos mais emblemáticos filmes deste ano e a sua participação na mais recente edição do Festival de Cannes pode ser sinónimo de grande sucesso não só pelo filme em si como através do magnífico trabalho de Cotillard.
Anteriormente galardoados com a Palma de Ouro com “Rosetta” (1999) e “A Criança” (2005), Jean-Pierre e Luc Dardenne oferecem ao espetador uma brilhante estória de cariz realista e social que se assume como uma tensa narrativa que vem mais uma vez revelar a mestria da sua capacidade de filmar pessoas “comuns” em situações “comuns”.
É com essa ímpar arte – que nos remete para, por exemplo, alguns dos momentos mais brilhantes do britânico Ken Loach, – que os Dardenne conseguem transformar “Dois Dias, Uma Noite”, em um filme que espelha a ténue linha que separa a solidariedade do ato (desesperado) da necessidade, trabalhando um personagem no seu limite emocional que tenta esconder o seu desabar face a uma intensão de resgatar uma maioria democrática que resulta de uma votação manipulada e suja que coloca em rota de colisão colegas de trabalho, familiares chegados, famílias à beira da rutura.
A simplicidade (e extrema competência) da trama encontra um poderoso aliado na câmara de Jean-Pierre e Luc Dardenne que acompanha Sandra na sua provação derivando de planos estáticos para outros cuja ligeiríssima oscilação faz sentir o espetador como parte do drama sentido a partilha de uma realidade filtrada pelo grande ecrã.
Para além disso, nunca é demais referir, outro dos grandes pilares da consistência de “Dois Dias, Uma Noite” é a extraordinária entrega de Marion Cotillard que a encaixa na perfeição em um dos mais austeros e difíceis papéis criados pela dupla belga. Sandra mistura traços de uma dignidade e contenção assombrosas e a sua técnica de atuação é deslumbrante – a cena em que está ao telefone com um dos primeiros colegas (no caso, Kader) com que tenta tornar seu aliado na votação é de um dramatismo extraordinário pela forma como a atriz se entrega e trabalha a ação, os silêncios, as pausas, a concentração. O seu rosto espelha a amargura, convence e comove, tal como um filme em si que figurará, seguramente, nas listas dos melhores do ano.
In Rua de Baixo
“Don’t think about making art, just get it done. Let everyone else decide if it’s good or bad, whether they love it or hate it. While they are deciding, make even more art.” Andy Warhol
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sábado, 15 de novembro de 2014
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
“Pontes de Sarajevo”
Vários realizadores
Episódios de vida de uma Cidade
A Europa e o Mundo mudaram significativamente nos últimos 100 anos. Duas Guerras Mundiais passadas, muitos países nascidos e impérios terminados, alteram, definitivamente, a face de um planeta marcado pelos conflitos e as fronteiras políticas assumiram a forma de um intrincado puzzle depois um século de discórdia.
Assim chegamos a 2014, ano que lembra o centenário da morte do Arquiduque Francisco Fernando à mercê de Gavrilo Princip, um anarquista radical sérvio que “provocou” uma verdadeira revolução mundial.
A propósito nessa celebração, e sob a direção artística de Jean-Michel Frondon, treze cineastas europeus foram convidados a dedicar a sua câmara a Sarajevo e ao que a cidade significa para a cronologia da Europa nos últimos 100 anos.
Fruto de abordagens e filosofias díspares entre si, “Pontes de Sarajevo” é um projeto delicado cuja pertinência se revela através das perspetivas dos realizadores convidados cuja orientação e origem são sinónimo de uma muito pertinente análise de uma cidade que vive sob o efeito de uma retorcida e dilacerante memória que a assombra desde 1914.
Em uma viagem entre o passado e os traumas associados a um presente dorido, “Pontes de Sarajevo” – trabalho que teve a honrar de configurar na seleção oficial da mais recente edição do Festival de Cannes –, assume uma pretensão exorcista rumo a um estado de redenção.
O ponto de partida desta aventura, “Querida Noite”, um trabalho do búlgaro Kamen Kalev, retrata o próprio ato do assassinato de Francisco Fernando na noite de 28 de junho de 1914, perto da ponte romana da capital bósnia, episódio que dinamitou a política europeia e despoletou a Primeira Guerra Mundial.
Ao longo de cerca de duas horas, somos convidados a assistir a uma sucessão de eventos cronológicos que se pode traduzir (ou não) na história recente de Sarajevo e cabe a Kalev o privilégio de abrir a sequência com uma visão onírica que mistura uma profunda reflexão entre o destino, a providência e o livre arbítrio. Os grandes planos de Kamen Kalev revelam a intimidade de um ser (Francisco Fernando) à beira do sacrifício onde o medo se traduz na massa anónima.
E é esse também o sentimento que o sérvio Vladimir Perisic tenta transmitir em “A Vontade das Sombras”, um exercício em surdina construído com o auxílio de um conjunto de confissões sublinhadas por uma câmara que avança por entre pedaços de uma memória coletiva aqui representada por um arquivo do género bibliotecário. Tal como em outros momentos de “Pontes de Sarajevo”, o papel do espetador encontra paralelismo em um peculiar instrumento voyeur que versa sobre um acontecimento transversal que é a história da génese do conflito dos Balcãs.
O terceiro tomo deste conjunto fílmico é da responsabilidade do italiano Leonardo di Contanzo e “O Posto de Vigia” leva-nos até a uma trincheira da Primeira Guerra Mundial onde um pequeno pelotão de soldados italianos tenta reconquistar um posto de vigia que está assombrado pela exímia pontaria de um atirador inimigo.
O cheiro a morte, a desespero, a medo puro e duro, sente-se em “O Posto de Vigia” e é sinónimo do dilema do soldado em enfrentar a morte ou optar pelo cobarde ato suicida. A honra da guerra é a medalha dos destemidos e a cruz dos anónimos.
Já “Princip, Text”, da alemã Angela Schanelec, espelha algumas passagens de uma entrevista de Gavrilo Princip que se confunde com laivos de urbanidade contemporânea e fala do fim da Sérvia e de um ideal político que representa a salvação da alma. Os grandes planos dos rostos do jovem casal que lê os excertos de Princip são o espelho dessa dicotomia entre a paz e o conflito (interior).
“Europa”, do romeno Christi Puiu, revela um ambiente natalício que tem como figuras centrais um casal que no conforto da cama reflete sobre o livro “A Análise Espetral da Europa”, um misto de reflexão sobre os conflitos raciais dos Balcãs e uma atribuição de culpa, mas que deixa também espaço para a especulação de datas e o fator coincidente do aspeto numérico das mesmas. Mais uma vez, a câmara espreita a narrativa de uma perspetiva distante mas atenta e assim o espetador entra pelo quarto do casal fruto de uma porta convenientemente aberta e que convida à partilha.
Cabe ao franco-suíço Jean-Luc Godard um dos exercícios mais complexos de “Pontes de Sarajevo”. Dono de uma linguagem cinematográfica muito própria e experimental, Godard transforma “A Ponte dos Suspiros” em uma narrativa que resulta de um sucessivo quebranto de sons e imagens que mistura o bem e o mal, a morte e a sobrevivência, a violência e o conflito, através de uma forma documental. Faz-se o elogio de uma abordagem que coabita matéria e espírito e onde o poder da imagem (no caso a Fotografia enquanto expressão) capta uma realidade em estado bruto.
Tendo como pano de fundo um bonito preto e branco, o ucraniano Sergei Loznitsa oferece-nos “Reflexo(e)s”, um interessante esboço que faz entender as duas perspetivas de uma mesma imagem e que reúne em si a sobreposição de uma fotografia sobre um episódio quotidiano.
Tendo como matéria-prima fotografias dos defensores sérvios da autoria do bósnio Milomir Kovacevic, Loznitsa cria um ambiente que convida à abstração da visão face ao elemento da memória. Neste caso, é a simplicidade que se revela o maior trunfo.
“A Viagem de Zan”, do espanhol Marc Recha, conta-nos a epifania de um rapaz que vive com a sua família no interior da Catalunha que tenta entender um conflito responsável pelo abandono da sua terra natal. Para conseguir o desejado equilibro, Zan conta com as memórias que ganham vida pela voz dos relatos do seu irmão.
Recha consegue um filme de uma beleza fotográfica impar e joga com aquilo que o Homem tem de mais sagrado: os seus sentimentos. Um dos momentos mais inspirados de “Pontes de Sarajevo”.
Já a bósnia Aida Begic não segue esse lado mais narrativo e aposta num género documental que torna “Álbum” em um testemunho emocional da relação entre a cidade e os seus habitantes, entre as memórias de um conflito e a esperança de um futuro melhor. Sarajevo é, através da lente de Begic, uma paixão, um primeiro amor que nunca se esquece mas que entretanto terminou.
“Sara e sua Mãe”, da autoria de Teresa Villaverde, mostra a mudança de casa de uma família que conta com a ajuda de uma amiga da pequena Sara. Enquanto se abrem caixotes e se arrumam coisas, são as memórias que se sentem, umas partilháveis outras sob a forma de íntimo segredo. A realizadora mostra também como a cultura é um fenómeno que caiu no esquecimento da Sarajevo contemporânea que encerrou os seus museus e outros espaços lúdicos castrando assim o lado cultural de um povo.
“A Ponte”, do italiano Vicenzo Marra, revela um casal sérvio que abandonou o país aquando do cerco de Sarajevo e durante duas décadas conseguiu equilibrar-se em uma terra estranha e não deixando que as diferenças (ele muçulmano, ela cristã) assombrassem a sua existência.
Marra filma a saudade entendida de diferentes ângulos, sentimento esse que apenas é desafiado pela morte de um ente querido que faz o casal recuar ao passado e sentir a dor da perda antigas…
De França, sob a batuta de Isild Le Besco, surge um dos mais emocionantes relatos de sobrevivência de “Pontes de Sarajevo” e a história de um menino de cinco anos, órfão de pais e que vive com a avó, e que luta pela sua vida social e fraterna, é muito comovente.
Em uma cidade vítima de um conflito quase eterno, o nosso pequeno herói vagueia pela urbe e serve-se desse anonimato para se assumir como uma peça fundamental em um cenário em tons cinza. A camara de Besco acompanha esses atos de bravura com descrição e uma apaixonante sobriedade.
“Pontes de Sarajevo” tem como último capítulo “O Silêncio de Mujo”, da suíça Ursula Meier e mostra um treino de futebol onde Mujo, uma criança de dez anos, torna-se no protagonista ao falhar uma grande penalidade e ser obrigado a procurar a bola para lá da cerca.
Paredes meias com o campo, está um cemitério que mostra a triste realidade de uma cidade dividida entre muçulmanos e católicos e cujas lápides revelam vidas perdidas de forma precoce. Nesta viagem ao “reino dos mortos”, Meier transporta Mujo para o seio de uma realidade que mostra as divisões provocadas entre a vida e a morte e como um abraço anónimo pode ser sinónimo de um esparso momento reconfortante.
Pelo meio das curtas, surgem animações da autoria de Francois Schuiten e Luis da Matta Almeida que servem de interlúdio e fazem a ligação entre as referidas 13 obras que mostram algumas das feridas de uma cidade que teimam em não sarar.
No seu todo, “Pontes de Sarajevo” faz a ligação entre a memória e o presente sem descartar uma ambiência nostálgica, mas sempre com um sentimento de esperança, otimismo e fé, nunca esquecendo o lado cultural de um povo que, gradualmente, volta a reclamar tal desígnio. O futuro a todos pertence e estes trezes pedaços de história vão fazer parte dele.
In Rua de Baixo
A Europa e o Mundo mudaram significativamente nos últimos 100 anos. Duas Guerras Mundiais passadas, muitos países nascidos e impérios terminados, alteram, definitivamente, a face de um planeta marcado pelos conflitos e as fronteiras políticas assumiram a forma de um intrincado puzzle depois um século de discórdia.
Assim chegamos a 2014, ano que lembra o centenário da morte do Arquiduque Francisco Fernando à mercê de Gavrilo Princip, um anarquista radical sérvio que “provocou” uma verdadeira revolução mundial.
A propósito nessa celebração, e sob a direção artística de Jean-Michel Frondon, treze cineastas europeus foram convidados a dedicar a sua câmara a Sarajevo e ao que a cidade significa para a cronologia da Europa nos últimos 100 anos.
Fruto de abordagens e filosofias díspares entre si, “Pontes de Sarajevo” é um projeto delicado cuja pertinência se revela através das perspetivas dos realizadores convidados cuja orientação e origem são sinónimo de uma muito pertinente análise de uma cidade que vive sob o efeito de uma retorcida e dilacerante memória que a assombra desde 1914.
Em uma viagem entre o passado e os traumas associados a um presente dorido, “Pontes de Sarajevo” – trabalho que teve a honrar de configurar na seleção oficial da mais recente edição do Festival de Cannes –, assume uma pretensão exorcista rumo a um estado de redenção.
O ponto de partida desta aventura, “Querida Noite”, um trabalho do búlgaro Kamen Kalev, retrata o próprio ato do assassinato de Francisco Fernando na noite de 28 de junho de 1914, perto da ponte romana da capital bósnia, episódio que dinamitou a política europeia e despoletou a Primeira Guerra Mundial.
Ao longo de cerca de duas horas, somos convidados a assistir a uma sucessão de eventos cronológicos que se pode traduzir (ou não) na história recente de Sarajevo e cabe a Kalev o privilégio de abrir a sequência com uma visão onírica que mistura uma profunda reflexão entre o destino, a providência e o livre arbítrio. Os grandes planos de Kamen Kalev revelam a intimidade de um ser (Francisco Fernando) à beira do sacrifício onde o medo se traduz na massa anónima.
E é esse também o sentimento que o sérvio Vladimir Perisic tenta transmitir em “A Vontade das Sombras”, um exercício em surdina construído com o auxílio de um conjunto de confissões sublinhadas por uma câmara que avança por entre pedaços de uma memória coletiva aqui representada por um arquivo do género bibliotecário. Tal como em outros momentos de “Pontes de Sarajevo”, o papel do espetador encontra paralelismo em um peculiar instrumento voyeur que versa sobre um acontecimento transversal que é a história da génese do conflito dos Balcãs.
O terceiro tomo deste conjunto fílmico é da responsabilidade do italiano Leonardo di Contanzo e “O Posto de Vigia” leva-nos até a uma trincheira da Primeira Guerra Mundial onde um pequeno pelotão de soldados italianos tenta reconquistar um posto de vigia que está assombrado pela exímia pontaria de um atirador inimigo.
O cheiro a morte, a desespero, a medo puro e duro, sente-se em “O Posto de Vigia” e é sinónimo do dilema do soldado em enfrentar a morte ou optar pelo cobarde ato suicida. A honra da guerra é a medalha dos destemidos e a cruz dos anónimos.
Já “Princip, Text”, da alemã Angela Schanelec, espelha algumas passagens de uma entrevista de Gavrilo Princip que se confunde com laivos de urbanidade contemporânea e fala do fim da Sérvia e de um ideal político que representa a salvação da alma. Os grandes planos dos rostos do jovem casal que lê os excertos de Princip são o espelho dessa dicotomia entre a paz e o conflito (interior).
“Europa”, do romeno Christi Puiu, revela um ambiente natalício que tem como figuras centrais um casal que no conforto da cama reflete sobre o livro “A Análise Espetral da Europa”, um misto de reflexão sobre os conflitos raciais dos Balcãs e uma atribuição de culpa, mas que deixa também espaço para a especulação de datas e o fator coincidente do aspeto numérico das mesmas. Mais uma vez, a câmara espreita a narrativa de uma perspetiva distante mas atenta e assim o espetador entra pelo quarto do casal fruto de uma porta convenientemente aberta e que convida à partilha.
Cabe ao franco-suíço Jean-Luc Godard um dos exercícios mais complexos de “Pontes de Sarajevo”. Dono de uma linguagem cinematográfica muito própria e experimental, Godard transforma “A Ponte dos Suspiros” em uma narrativa que resulta de um sucessivo quebranto de sons e imagens que mistura o bem e o mal, a morte e a sobrevivência, a violência e o conflito, através de uma forma documental. Faz-se o elogio de uma abordagem que coabita matéria e espírito e onde o poder da imagem (no caso a Fotografia enquanto expressão) capta uma realidade em estado bruto.
Tendo como pano de fundo um bonito preto e branco, o ucraniano Sergei Loznitsa oferece-nos “Reflexo(e)s”, um interessante esboço que faz entender as duas perspetivas de uma mesma imagem e que reúne em si a sobreposição de uma fotografia sobre um episódio quotidiano.
Tendo como matéria-prima fotografias dos defensores sérvios da autoria do bósnio Milomir Kovacevic, Loznitsa cria um ambiente que convida à abstração da visão face ao elemento da memória. Neste caso, é a simplicidade que se revela o maior trunfo.
“A Viagem de Zan”, do espanhol Marc Recha, conta-nos a epifania de um rapaz que vive com a sua família no interior da Catalunha que tenta entender um conflito responsável pelo abandono da sua terra natal. Para conseguir o desejado equilibro, Zan conta com as memórias que ganham vida pela voz dos relatos do seu irmão.
Recha consegue um filme de uma beleza fotográfica impar e joga com aquilo que o Homem tem de mais sagrado: os seus sentimentos. Um dos momentos mais inspirados de “Pontes de Sarajevo”.
Já a bósnia Aida Begic não segue esse lado mais narrativo e aposta num género documental que torna “Álbum” em um testemunho emocional da relação entre a cidade e os seus habitantes, entre as memórias de um conflito e a esperança de um futuro melhor. Sarajevo é, através da lente de Begic, uma paixão, um primeiro amor que nunca se esquece mas que entretanto terminou.
“Sara e sua Mãe”, da autoria de Teresa Villaverde, mostra a mudança de casa de uma família que conta com a ajuda de uma amiga da pequena Sara. Enquanto se abrem caixotes e se arrumam coisas, são as memórias que se sentem, umas partilháveis outras sob a forma de íntimo segredo. A realizadora mostra também como a cultura é um fenómeno que caiu no esquecimento da Sarajevo contemporânea que encerrou os seus museus e outros espaços lúdicos castrando assim o lado cultural de um povo.
“A Ponte”, do italiano Vicenzo Marra, revela um casal sérvio que abandonou o país aquando do cerco de Sarajevo e durante duas décadas conseguiu equilibrar-se em uma terra estranha e não deixando que as diferenças (ele muçulmano, ela cristã) assombrassem a sua existência.
Marra filma a saudade entendida de diferentes ângulos, sentimento esse que apenas é desafiado pela morte de um ente querido que faz o casal recuar ao passado e sentir a dor da perda antigas…
De França, sob a batuta de Isild Le Besco, surge um dos mais emocionantes relatos de sobrevivência de “Pontes de Sarajevo” e a história de um menino de cinco anos, órfão de pais e que vive com a avó, e que luta pela sua vida social e fraterna, é muito comovente.
Em uma cidade vítima de um conflito quase eterno, o nosso pequeno herói vagueia pela urbe e serve-se desse anonimato para se assumir como uma peça fundamental em um cenário em tons cinza. A camara de Besco acompanha esses atos de bravura com descrição e uma apaixonante sobriedade.
“Pontes de Sarajevo” tem como último capítulo “O Silêncio de Mujo”, da suíça Ursula Meier e mostra um treino de futebol onde Mujo, uma criança de dez anos, torna-se no protagonista ao falhar uma grande penalidade e ser obrigado a procurar a bola para lá da cerca.
Paredes meias com o campo, está um cemitério que mostra a triste realidade de uma cidade dividida entre muçulmanos e católicos e cujas lápides revelam vidas perdidas de forma precoce. Nesta viagem ao “reino dos mortos”, Meier transporta Mujo para o seio de uma realidade que mostra as divisões provocadas entre a vida e a morte e como um abraço anónimo pode ser sinónimo de um esparso momento reconfortante.
Pelo meio das curtas, surgem animações da autoria de Francois Schuiten e Luis da Matta Almeida que servem de interlúdio e fazem a ligação entre as referidas 13 obras que mostram algumas das feridas de uma cidade que teimam em não sarar.
No seu todo, “Pontes de Sarajevo” faz a ligação entre a memória e o presente sem descartar uma ambiência nostálgica, mas sempre com um sentimento de esperança, otimismo e fé, nunca esquecendo o lado cultural de um povo que, gradualmente, volta a reclamar tal desígnio. O futuro a todos pertence e estes trezes pedaços de história vão fazer parte dele.
In Rua de Baixo
terça-feira, 21 de outubro de 2014
“Duas Vidas”
de Georg Maas
A verdade da mentira
Em novembro de 1989, Berlim tornou-se, por alguns dias, no epicentro do mundo. Quase três décadas depois da sua construção, o Muro de Berlim, para muitos apelidado de Parede da Vergonha, era derrubado. Berlim e a Alemanha (e por que não dizer o mundo) regressavam ao ponto de partida, sem divisões. Por terra caiam as repúblicas federais e democráticas, a Guerra Fria terminava.
O muro que dividia a Europa entre ocidente e a influência de leste foi destruído em clima de euforia. A liberdade chegava, finalmente, mas, ainda assim, nem todas as questões associadas à Cortina de Ferro ficaram resolvidas. A política, como sempre, é dona de longos tentáculos e os seus fins justificam alguns meios.
É na ressaca do eco dos acontecimentos registados a 9 de novembro de 1989 que “Duas Vidas”, a segunda longa-metragem do alemão Georg Mass, toma palco tendo como fonte inspiradora um romance baseado em fatos verídicos da autoria de Hannalore Hippe.
A ação leva-nos a terras norueguesas no raiar da década de 1990 e Katrine Evensen Myrdal (Juliane Katrine) é uma mulher feliz e o centro de uma família estável. Trabalha numa empresa de design gráfico e é casada com Bjarte Myrdal (Sven Nordin), um capitão naval. O casal tem como maior preocupação a filha Anne (Julia Bache-Wiig), estudante universitária e mãe solteira. O outro elemento da família é Ase Evensen (Liv Ullmann, uma das divas de Ingmar Bergman), mãe de Katrine e uma bisavó muito presente.
Tudo está tranquilo até à chegada de Sven Solbach (Ken Duken), um idealista advogado com uma nobre causa e que quer processar o Estado norueguês. Com a reunificação alemã em progresso, são possíveis alguns ajustes de contas jurídicas pela (nova) Europa.
Ainda que a família não tenha muito presente o fato, Katrine é fruto de uma relação proibida, é um bebé “Lebensborn”. Também apelidadas de “crianças da vergonha”, muitos foram os bebés cuja génese foi a relação entre a uma mãe (norueguesa) e um oficial nazi durante a ocupação na Segunda Grande Guerra.
Ase engravidou de um soldado alemão e Katrine nasceu em um período conturbado. A vitória dos Aliados teve as suas consequências e muitos foram mortos ou acusados e presos por serem colaboracionistas das forças de Hitler.
Antes, os bebés foram encaminhados para um orfanato especial na Saxónia que funcionava como uma espécie de “laboratório da raça ariana”. O Terceiro Reich conseguiu seduzir muitos noruegueses a fazerem parte da mistura étnica que resultaria na supra raça ariana. Mas o conflito terminaria e a Cortina de Ferro separou tudo e todos. As crianças perderam o rasto dos pais.
Mas a conjuntura mudou e a verdade pode ser reposta ainda que tal acarrete custos. Depois de muita insistência, Sven Solbach consegue levar Katrine a testemunhar em tribunal a sua experiência de vida e na sequência de tal a realidade começa a ficar ligeiramente distorcida. O que leva alguém a esconder algo durante uma vida inteira? Pode alguém assumir uma identidade falsa em nome de uma missão?
Como uma narrativa de construção semelhante às obras de mestres do suspense e espionagem como John le Carré, “Duas Vidas” aposta na duplicidade de uma personalidade que luta interiormente entre a verdade e a conveniência, entre a vida e uma missão. Nesta adaptação de Mass face ao romance de Hannalore Hippe são caras as aproximações à espionagem nos tempos da Guerra Fria e ao longo do filme o espetador é convidado a desbravar as várias camadas de uma mesma estória. Com o recurso a muitos flashbacks, “Duas Vidas”, assume a forma de um puzzle com uma leitura cronológica difusa mas que permite, gradualmente, um conveniente entendimento.
A par dos referidos regressos ao passado – período que tem Klara Manzel a interpretar o papel da jovem Katrine -, Maas aposta numa filmagem segura a formal mas, a espaços, concede à câmara uma liberdade que a faz deslizar sobre a belíssima paisagem nórdica ou colocar, com distinção, os atores como figuras preponderantes face a uma narrativa que aqui e ali parece carecer de um ou outro pormenor ainda que tal seja ultrapassado com competência no seu todo.
De forma propositada ou não, ao longo do filme somos levados a pensar se Maas terá tido como propósito assentar a sua perspetiva sobre um perfil de espionagem pura ou fazer realçar mais a questão dramática dos acontecimentos que receberam o nome do ideal nazi apelidado de “Fonte da Vida”.
Acima de tudo, “Duas Vidas” foca-se na exploração levada a cabo pela Stasi, os serviços secretos da ex-RDA, na tentativa de forjar falsas identidades aos seus agentes recrutados ao programa “Lebensborn”.
Escolhido como o candidato alemão ao Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro em 2014, “Duas Vidas” – que já arrecadou galardões como o Melhor Filme no Festival de Cinema Alemão – é um filme muito interessante e conta com um fortíssimo e coeso elenco com destaque para Kohler e Ullmann que muitas vezes não precisam de quaisquer palavras para expressar os seus sentimentos, sendo as suas faces verdadeiros espelhos da alma.
A banda sonora de Christoph Kaiser e Julian Maas também dá um forte contributo ao filme e faz da música um elemento preponderante na evolução narrativa do filme, papel que deve ser dividido com a fotografia de Judith Kaufmann que trabalha com mestria os díspares momentos da própria trama.
In Rua de Baixo
Em novembro de 1989, Berlim tornou-se, por alguns dias, no epicentro do mundo. Quase três décadas depois da sua construção, o Muro de Berlim, para muitos apelidado de Parede da Vergonha, era derrubado. Berlim e a Alemanha (e por que não dizer o mundo) regressavam ao ponto de partida, sem divisões. Por terra caiam as repúblicas federais e democráticas, a Guerra Fria terminava.
O muro que dividia a Europa entre ocidente e a influência de leste foi destruído em clima de euforia. A liberdade chegava, finalmente, mas, ainda assim, nem todas as questões associadas à Cortina de Ferro ficaram resolvidas. A política, como sempre, é dona de longos tentáculos e os seus fins justificam alguns meios.
É na ressaca do eco dos acontecimentos registados a 9 de novembro de 1989 que “Duas Vidas”, a segunda longa-metragem do alemão Georg Mass, toma palco tendo como fonte inspiradora um romance baseado em fatos verídicos da autoria de Hannalore Hippe.
A ação leva-nos a terras norueguesas no raiar da década de 1990 e Katrine Evensen Myrdal (Juliane Katrine) é uma mulher feliz e o centro de uma família estável. Trabalha numa empresa de design gráfico e é casada com Bjarte Myrdal (Sven Nordin), um capitão naval. O casal tem como maior preocupação a filha Anne (Julia Bache-Wiig), estudante universitária e mãe solteira. O outro elemento da família é Ase Evensen (Liv Ullmann, uma das divas de Ingmar Bergman), mãe de Katrine e uma bisavó muito presente.
Tudo está tranquilo até à chegada de Sven Solbach (Ken Duken), um idealista advogado com uma nobre causa e que quer processar o Estado norueguês. Com a reunificação alemã em progresso, são possíveis alguns ajustes de contas jurídicas pela (nova) Europa.
Ainda que a família não tenha muito presente o fato, Katrine é fruto de uma relação proibida, é um bebé “Lebensborn”. Também apelidadas de “crianças da vergonha”, muitos foram os bebés cuja génese foi a relação entre a uma mãe (norueguesa) e um oficial nazi durante a ocupação na Segunda Grande Guerra.
Ase engravidou de um soldado alemão e Katrine nasceu em um período conturbado. A vitória dos Aliados teve as suas consequências e muitos foram mortos ou acusados e presos por serem colaboracionistas das forças de Hitler.
Antes, os bebés foram encaminhados para um orfanato especial na Saxónia que funcionava como uma espécie de “laboratório da raça ariana”. O Terceiro Reich conseguiu seduzir muitos noruegueses a fazerem parte da mistura étnica que resultaria na supra raça ariana. Mas o conflito terminaria e a Cortina de Ferro separou tudo e todos. As crianças perderam o rasto dos pais.
Mas a conjuntura mudou e a verdade pode ser reposta ainda que tal acarrete custos. Depois de muita insistência, Sven Solbach consegue levar Katrine a testemunhar em tribunal a sua experiência de vida e na sequência de tal a realidade começa a ficar ligeiramente distorcida. O que leva alguém a esconder algo durante uma vida inteira? Pode alguém assumir uma identidade falsa em nome de uma missão?
Como uma narrativa de construção semelhante às obras de mestres do suspense e espionagem como John le Carré, “Duas Vidas” aposta na duplicidade de uma personalidade que luta interiormente entre a verdade e a conveniência, entre a vida e uma missão. Nesta adaptação de Mass face ao romance de Hannalore Hippe são caras as aproximações à espionagem nos tempos da Guerra Fria e ao longo do filme o espetador é convidado a desbravar as várias camadas de uma mesma estória. Com o recurso a muitos flashbacks, “Duas Vidas”, assume a forma de um puzzle com uma leitura cronológica difusa mas que permite, gradualmente, um conveniente entendimento.
A par dos referidos regressos ao passado – período que tem Klara Manzel a interpretar o papel da jovem Katrine -, Maas aposta numa filmagem segura a formal mas, a espaços, concede à câmara uma liberdade que a faz deslizar sobre a belíssima paisagem nórdica ou colocar, com distinção, os atores como figuras preponderantes face a uma narrativa que aqui e ali parece carecer de um ou outro pormenor ainda que tal seja ultrapassado com competência no seu todo.
De forma propositada ou não, ao longo do filme somos levados a pensar se Maas terá tido como propósito assentar a sua perspetiva sobre um perfil de espionagem pura ou fazer realçar mais a questão dramática dos acontecimentos que receberam o nome do ideal nazi apelidado de “Fonte da Vida”.
Acima de tudo, “Duas Vidas” foca-se na exploração levada a cabo pela Stasi, os serviços secretos da ex-RDA, na tentativa de forjar falsas identidades aos seus agentes recrutados ao programa “Lebensborn”.
Escolhido como o candidato alemão ao Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro em 2014, “Duas Vidas” – que já arrecadou galardões como o Melhor Filme no Festival de Cinema Alemão – é um filme muito interessante e conta com um fortíssimo e coeso elenco com destaque para Kohler e Ullmann que muitas vezes não precisam de quaisquer palavras para expressar os seus sentimentos, sendo as suas faces verdadeiros espelhos da alma.
A banda sonora de Christoph Kaiser e Julian Maas também dá um forte contributo ao filme e faz da música um elemento preponderante na evolução narrativa do filme, papel que deve ser dividido com a fotografia de Judith Kaufmann que trabalha com mestria os díspares momentos da própria trama.
In Rua de Baixo
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
“Sara Prefere Correr”
de Chloé Robichaud
Pista de obstáculos
Sara Lepage (Sophie Desmarais), 20 anos, tem um sonho: alcançar a glória do atletismo. Menina calma, de olhos grandes, Sara recebe um convite para treinar em uma das mais referenciadas equipas de atletismo universitário do Canadá. Apesar das reticências da mãe (Helene Florent), Sara ruma a Montreal na companhia de Antoine (Jean-Sebastien Courchesne), colega de trabalho no restaurante onde Sara faz um part-time, e aposta tudo no sonho de menina.
As dificuldades financeiras fazem com que Antoine sugira a Sara um esquema utilizado pelos jovens universitários. Assim, os amigos tornam-se marido e mulher de forma a conseguir um subsídio do Estado que apoia jovens casais estudantes. A esperança invade o universo de Sara e Antoine mas a vida revela-se numa tortuosa pista de obstáculos.
Apresentado na mais recente edição do Festival de Cannes e integrado na Seleção Oficial Un Certain Regard, “Sara Prefere Correr” é a mais recente aposta cinematográfica da canadiana Chloé Robichaud (que assina a realização e argumento) e valeu à realizadora natural do Québec o Prémio Signis, no Festival de Cinema Independente de Buenos Aires, assim como o galardão de Melhor Filme no Baja International Film Festival. Sophie Desmarais também viu o seu trabalho reconhecido ao arrecadar o Prémio de Melhor Atriz no já referido certame argentino.
Ao longo de cerca de hora e meia, somos convidados a acompanhar uma fatia da vida de Sara Lepage que sonha ser uma atleta de referência. O seu dia-a-dia é feito na companhia das colegas de aventura, entre o ginásio e a pista. A paixão pela corrida é a grande razão de viver destas raparigas que centram a sua existência no desporto rejeitando outros sonhos ou perspetivas.
Quando surge o convite para Sara ir para Montreal para se juntar à equipa universitária de McGill tudo muda, ou melhor, o sonho é cada vez mais real. Depois, o já referido matrimónio de conveniência adensa a fragilidade emocional do “casal”. Com diferentes perspetivas da vida, Sara e Antoine unem-se pela fuga de si próprios.
Uma das colegas mais chegadas de Sara, e também atleta, Zoey (Genevieve Boivin-Roussy) confronta a amiga com o que esta pensa fazer da vida. A resposta não surpreende. Sara quer correr, apenas correr.
O personagem de Sara, excelente diga-se, é a trave mestra de um filme que coloca a nu as fragilidades de uma menina de 20 anos cuja vida apenas tem sentido quando corre. Mas tal como Sara tem dificuldade em impor a sua personalidade em termos sociais, também Chloé Robichaud tem problemas em tornar “Sara Prefere Correr” em um filme que mantenha a clarividência do início ao fim.
Ainda que a metáfora do atletismo assente que nem uma luva na pessoa de Sara Lepage, a narrativa de Robichaud, perde-se em um excesso de grandes planos e cenas de pormenor que, ainda assim, a espaços, permitem ao espetador absorver, com competência, o meio ambiente sem grande informação adicional.
A constante fragilidade de Sara, enquanto figura maior da película, leva a uma anulação da mesma, conduzindo o filme para momentos onde a frustração social e íntima da personagem principal acaba por colocar em causa o fio condutor de um filme que tende a perder-se em análises superficiais que não procuram um (mais) profundo trabalho patológico ou uma tentativa de revelação.
Ainda assim, Robichaud consegue dar mais “vida” a Antoine que se revela mais humano, mais sensível e emocionalmente também mais interessante. Tal é comprovado nos momentos mais tensos de “Sara Prefere Correr” onde o drama e o humor, ainda que fugidio, afastam uma certa opacidade fílmica no trabalho da realizadora canadiana.
A câmara, por vezes timidamente subjetiva e de características indie, trabalha bem os silêncios e os planos que seguem Sara pelas costas provocam um sentido de intimidade ao espetador. É também na quietude que Sara pensa e transmite a sua mensagem através da lente de Robichaud. Por vezes não são necessárias palavras para testemunhar um sentimento, uma emoção, e os melhores momentos do filme são aqueles em que quem está na sala de cinema assume o papel de testemunha de uma ação digerida entre uma muito interessante dança entre planos de pormenor, a música e a contrição de uma personagem cujo coração a atraiçoa.
Apesar de “Sara Prefere Correr” não ser uma obra-prima, é um objeto narrativo interessante. Os grandes planos assumem-se como “intertítulos” (as mensagens dos bolinhos da sorte são o melhor exemplo disso) mas por vezes condenam o filme a uma toada algo contraproducente. Por outro lado, a meticulosa formalidade de Sara resulta na maior parte do filme mas também retira vestígios de um crescimento íntimo da personagem.
Muito bem filmado, “Sara Prefere Correr” apresenta-se como um retrato que não define o seu perfil. São frequentes as oscilações entre excelentes momentos e períodos mais passivos e apesar da boa química entre Desmarais e Courchesne, os diálogos minimalistas entre ambos condenam uma maior profundidade dramática.
Numa corrida com alguns obstáculos, Sara e Robichaud, dão boas indicações para o futuro apesar de neste filme não irem além dos tempos mínimos. No futuro, esperemos, esta dupla pode bater recordes.
In Rua de Baixo
Sara Lepage (Sophie Desmarais), 20 anos, tem um sonho: alcançar a glória do atletismo. Menina calma, de olhos grandes, Sara recebe um convite para treinar em uma das mais referenciadas equipas de atletismo universitário do Canadá. Apesar das reticências da mãe (Helene Florent), Sara ruma a Montreal na companhia de Antoine (Jean-Sebastien Courchesne), colega de trabalho no restaurante onde Sara faz um part-time, e aposta tudo no sonho de menina.
As dificuldades financeiras fazem com que Antoine sugira a Sara um esquema utilizado pelos jovens universitários. Assim, os amigos tornam-se marido e mulher de forma a conseguir um subsídio do Estado que apoia jovens casais estudantes. A esperança invade o universo de Sara e Antoine mas a vida revela-se numa tortuosa pista de obstáculos.
Apresentado na mais recente edição do Festival de Cannes e integrado na Seleção Oficial Un Certain Regard, “Sara Prefere Correr” é a mais recente aposta cinematográfica da canadiana Chloé Robichaud (que assina a realização e argumento) e valeu à realizadora natural do Québec o Prémio Signis, no Festival de Cinema Independente de Buenos Aires, assim como o galardão de Melhor Filme no Baja International Film Festival. Sophie Desmarais também viu o seu trabalho reconhecido ao arrecadar o Prémio de Melhor Atriz no já referido certame argentino.
Ao longo de cerca de hora e meia, somos convidados a acompanhar uma fatia da vida de Sara Lepage que sonha ser uma atleta de referência. O seu dia-a-dia é feito na companhia das colegas de aventura, entre o ginásio e a pista. A paixão pela corrida é a grande razão de viver destas raparigas que centram a sua existência no desporto rejeitando outros sonhos ou perspetivas.
Quando surge o convite para Sara ir para Montreal para se juntar à equipa universitária de McGill tudo muda, ou melhor, o sonho é cada vez mais real. Depois, o já referido matrimónio de conveniência adensa a fragilidade emocional do “casal”. Com diferentes perspetivas da vida, Sara e Antoine unem-se pela fuga de si próprios.
Uma das colegas mais chegadas de Sara, e também atleta, Zoey (Genevieve Boivin-Roussy) confronta a amiga com o que esta pensa fazer da vida. A resposta não surpreende. Sara quer correr, apenas correr.
O personagem de Sara, excelente diga-se, é a trave mestra de um filme que coloca a nu as fragilidades de uma menina de 20 anos cuja vida apenas tem sentido quando corre. Mas tal como Sara tem dificuldade em impor a sua personalidade em termos sociais, também Chloé Robichaud tem problemas em tornar “Sara Prefere Correr” em um filme que mantenha a clarividência do início ao fim.
Ainda que a metáfora do atletismo assente que nem uma luva na pessoa de Sara Lepage, a narrativa de Robichaud, perde-se em um excesso de grandes planos e cenas de pormenor que, ainda assim, a espaços, permitem ao espetador absorver, com competência, o meio ambiente sem grande informação adicional.
A constante fragilidade de Sara, enquanto figura maior da película, leva a uma anulação da mesma, conduzindo o filme para momentos onde a frustração social e íntima da personagem principal acaba por colocar em causa o fio condutor de um filme que tende a perder-se em análises superficiais que não procuram um (mais) profundo trabalho patológico ou uma tentativa de revelação.
Ainda assim, Robichaud consegue dar mais “vida” a Antoine que se revela mais humano, mais sensível e emocionalmente também mais interessante. Tal é comprovado nos momentos mais tensos de “Sara Prefere Correr” onde o drama e o humor, ainda que fugidio, afastam uma certa opacidade fílmica no trabalho da realizadora canadiana.
A câmara, por vezes timidamente subjetiva e de características indie, trabalha bem os silêncios e os planos que seguem Sara pelas costas provocam um sentido de intimidade ao espetador. É também na quietude que Sara pensa e transmite a sua mensagem através da lente de Robichaud. Por vezes não são necessárias palavras para testemunhar um sentimento, uma emoção, e os melhores momentos do filme são aqueles em que quem está na sala de cinema assume o papel de testemunha de uma ação digerida entre uma muito interessante dança entre planos de pormenor, a música e a contrição de uma personagem cujo coração a atraiçoa.
Apesar de “Sara Prefere Correr” não ser uma obra-prima, é um objeto narrativo interessante. Os grandes planos assumem-se como “intertítulos” (as mensagens dos bolinhos da sorte são o melhor exemplo disso) mas por vezes condenam o filme a uma toada algo contraproducente. Por outro lado, a meticulosa formalidade de Sara resulta na maior parte do filme mas também retira vestígios de um crescimento íntimo da personagem.
Muito bem filmado, “Sara Prefere Correr” apresenta-se como um retrato que não define o seu perfil. São frequentes as oscilações entre excelentes momentos e períodos mais passivos e apesar da boa química entre Desmarais e Courchesne, os diálogos minimalistas entre ambos condenam uma maior profundidade dramática.
Numa corrida com alguns obstáculos, Sara e Robichaud, dão boas indicações para o futuro apesar de neste filme não irem além dos tempos mínimos. No futuro, esperemos, esta dupla pode bater recordes.
In Rua de Baixo
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
“O Quarto Azul”
de Mathieu Amalric
Obsessão venenosa
Inspirado em um romance do belga Georges Simenon, “O Quarto Azul” é a segunda experiência do francês Mathieu Amalric enquanto realizador e fez parte da Seleção Oficial da mais recente edição dos festivais de Cannes e de Nova Iorque e conta com a produção de Paulo Branco.
A trama tem como figuras centrais Amalric -que junta a função de ator à realização -, Stéphanie Cléau e Lea Drucker e conta a trágica e misteriosa estória de uma relação extraconjugal que termina em uma sala de tribunal.
Tudo começa e acaba no quarto azul que dá nome a este curto mas muito interessante filme. Julien (Amalric) encontra acidentalmente Esther, (Cléau) uma antiga colega de escola que tinha uma secreta paixão por ele mas que por questões diversas nunca se concretizou por falta de interesse por parte de Julien. Os anos passaram e Julien e Esther seguiram caminhos diferentes.
Até que sentimentos antigos são finalmente consumados num quarto de hotel local, em algumas quintas-feiras. A luxúria toma conta dos dois amantes que têm nas paredes azuis da referida divisão hoteleira um espaço para explanar todo o desejo, havendo também lugar para promessas várias, para segredos e pedidos de uma fidelidade futura apesar do que os anelares das suas mãos esquerdas evidenciavam.
Amalric, realizador, torna a narrativa numa espécie de flashback constante que se mistura com momentos presentes. O mistério surge bem desconstruído fruto de um competente drama que desrespeita a normal cronologia e consegue captar a atenção do espetador que sente também ele enleado numa teia de mistério, crime, obsessão, traição e culpa.
À medida que o filme flui, somos confrontados por pequenos pormenores que fazem toda a diferença. Nas mãos de Amalric, a câmara dá espaço a atores e cenários com igual parcimónia e os planos estáticos, ainda que convenientemente curtos, assemelham-se a provas em local de crime. Mais, o realizador de “O Quarto Azul” filma os momentos de paixão entre Julien e Esther, qual femme fatale, como se de uma pintura de tratasse (excelente, a fotografia) onde toda a expressividade e sensualidade de Stéphanie Cléau – atual companheira do realizador e ator – não deixa por certo indiferente quem está na sala de cinema.
Mas mais que uma nota de exacerbado erotismo, os encontros entre Julien e Esther são as peças de um puzzle que vai sendo construído à sua volta, principalmente devido ao que tal pode significar face a dois casamentos à beira do colapso ainda que por questões muito diferentes.
Amalric explora de forma declarada a dicotomia entre os papéis de Esther e Delphine, entre a amante e a dona de casa, entre o segredo e a realidade, entre o prazer e o quotidiano. Mas tal não é apenas conseguido através das cenas carnais (bem quentes e expostas, por sinal) mas sim pela abordagem feita a Julien e Delphine enquanto um casal acomodado que vai revelando aqui e ali tentativas de salvar uma relação claramente desgastada.
Essas transições de intensidade são uma das mais-valias de “O Quarto Azul”, um filme que sabe jogar entre o clímax e a normalidade, entre a liberdade e a clausura, entre a pacatez e o crime. A forma como a narrativa se expõe ao espetador é também sinónimo da paixão com que a mesma é filmada, estejamos nós a falar de cenas de grande intensidade sexual ou aquando da frieza de um inquérito policial. Para tal é necessário um claro e equilibrado sentido entre amor e abandono, ainda que tal diste uns meros segundos em termos de ação.
Para além disso, os fragmentos fílmicos de Amalric, bem secundados na mestria cinematográfica de Christophe Beaucarne ou na musicalidade de Grégoire Hetzel, apresentam-se em um quase infinito número de assertivos detalhes que completam o todo.
“O Quarto Azul” é um excelente exemplo entre a arte de filmar e a capacidade de mostrar uma intriga policial onde a perceção psicológica dos personagens adensa o mistério, enfatiza o crime e faz sobressair o poder incomensurável de uma obsessiva paixão que transporta na face dos principais protagonistas sentimentos como a devoção frenética e a culpa que funcionam como uma espécie de fronteiras entre a normalidade e a transgressão, “legitima” ou não.
In Rua de Baixo
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
“Amar, Beber e Cantar”
de Alain Resnais
No Palco de Vida
Quando a comunidade cinéfila mundial ainda chora a morte de Alain Resnais, um dos mais emblemáticos mestres do cinema europeu, é-nos dada a oportunidade de ver “Amar, Beber e Cantar”, o último suspiro criativo do realizador de alguns dos maiores momentos da Sétima Arte como o foram “Hiroshima, Meu Amor”, “Muriel”, “O Ano Passado em Marienbad” ou “Smoking / No Smoking”.
Vencedor dos Prémio FIPRESCI e Alfred Bauer na mais recente edição do Festival de Berlim, “Amar, Beber e Cantar” simboliza o regresso de Resnais ao universo teatral, cerca de dois anos depois de “Vous n’avez Encore Rien Vu”, um filme cujos protagonistas eram atores em pleno ensaio de uma peça. Ainda que explorem um mesmo universo, as referidas películas distam entre si no seu conteúdo pois enquanto em “Vous n’avez Encore Rien Vu” o espetador assistia a um desfile globalmente profissional, “Amar, Beber e Cantar” eleva o amadorismo ao palco principal.
Livre adaptação cinematográfica da peça “Life of Riley” de Alan Ayckbourn, “Amar, Beber e Cantar”, é um filme que mistura drama com um apurado sentido de humor e retrata a relação de três casais cujo elo aglutinador é George Riley, um personagem omnipresente e omnipotente que nunca aparece em cena.
No centro da ação estão Colin (Hippolyte Girardot) e Kathryn (Sabine Azema), Tamara (Caroline Silhol) e Jack (Michel Vuillermoz) e ainda Monica (Sandrine Kiberlain) e Simeon (Andre Dussolier).
Os primeiros a entrar em cena são Colin e Kathryn, ambos convidados a integrar a peça dirigida por Peggy Parker, apesar de Kathryn acusar o seu marido de falta de empenho na atuação. No meio de um ensaio privado, Colin recebe uma chamada que vai mudar a vida do seu círculo de amigos. O diagnóstico dos exames de George Riley revelam que o mesmo está a braços com um cancro em fase terminal e tem apenas seis meses de vida.
Ainda que Colin peça segredo a Kathryn, a veia alcoviteira da mulher leva-a a espalhar a triste notícia de imediato. Tamara, amiga do casal e mulher de Jack, melhor amigo de Riley, é a primeira a saber a novidade. O desespero e sentido de injustiça apodera-se de todos mas depois de Jack abandonar a peça, surge a ideia de convidar Riley para o seu papel numa tentativa de dar algum alento aos últimos suspiros de vida do enfermo.
De uma forma ou de outra, todos querem passar o pouco tempo que resta com Riley e até Monica, ex-mulher de George, é convencida a voltar ao contacto do ex-companheiro numa tentativa de alegrar os seus derradeiros momentos apesar de ainda sentir-se bastante magoada. Quem não gosta da ideia é Simeon, atual amante de Monica, mas rende-se às evidências.
É notória a estreita ligação afetiva que todas as mulheres do grupo sentem em relação a George Riley e tal, acreditem, extravasa a simples compaixão. Resnais consegue contextualizar um enredo labiríntico servindo-se de um surrealismo aplicado a uma estrutura narrativa que serve-se de vários cenários artificiais e visualmente fruto de um devaneio onírico e teatral inspirado nas cortinas de um vulgar palco.
Em todas as cenas, as paisagens são pintadas e minimalistas, os sons ambientes são reais e os grandes planos dos atores remetem o espetador para momentos que nos fazem lembrar as obras arte pop de Roy Lichtenstein, quando o fundo se resume a centenas de linhas negras traçadas sobre um fundo branco. No lado oposto deste universo irreal estão as personagens de carne e osso assim como as imagens do countryside inglês que servem de estrada, literal, entre as habitações dos três casais ainda que essas também sejam vítimas de uma metamorfose entre realidade e um quadro pictórico. Para unir estes opostos artísticos está a música de Mark Snow que faz a ponte entre o burlesco e o bucólico.
Através de um jogo de diálogos que cruzam sentimentos, estados de espírito e almas diferentes, Resnais orquestra uma sucessão de acontecimentos cuja graça faz o espectador seguir meticulosamente uma tela que vai alternando entre situações mais expansivas e alguns grandes planos.
Apesar disso nunca se perde a formalidade dos personagens que são um típico exemplo da arte de Ayckbourn, cujo perfil situa-se na meia-idade entre tiques de classe-média e um extravasar burguês, nomeadamente nas pessoas de Jack e Tamara. Enquanto isso, a câmara de Resnais mostra uma miríade de sentimentos, desapontamentos, arrependimentos e quase-acontecimentos em relação aos três casais.
Nas entrelinhas ficamos também a saber que Jack e Tamara têm uma filha adolescente (Tilly) que serve de desculpa para não aflorar os verdadeiros problemas que existem entre o casal; como Kathryn e Colin enfrentem o tédio de uma relação também desgastada; e como Monica e Simeon tardam em alinhar agulhas afetivas sem esquecer fantasmas. E por falar em almas penadas, o episódio das últimas férias em Tenerife é a cereja no topo do bolo e vai fazer o copo transbordar.
Ainda que o todo do filme revela algumas oscilações entre o interessante e menos acutilante, destaque-se o magnifico trabalho dos atores, em especial Vuillermoz que envolve o “seu” Jack num brilhante dramatismo que mostra um homem em constante desafio face ao seu atribulado quotidiano e que tem na eminente morte do seu melhor amigo uma luta grandiosa.
O coloquialismo britânico dos personagens faz crescer o perfil burlesco de um “filme” que junta os universos de Resnais e Ayckbourn de forma eficaz e deliciosamente colorida. Os dias sucedem-se, sem a pretensão de qualquer exatidão e entre a primavera e o outono tudo pode acontecer, algo que contrasta, por exemplo, com a obsessão de tempo por parte de uma personagem como Colin que faz da sincronia entre relógios o seu barómetro existencial.
Sem ser uma obra-prima, “Amar, Beber e Cantar” é um exercício pertinente, bem-disposto e visualmente atrativo. Resnais serve-se da faceta neurótica e algo depressiva dos personagens e faz das suas fraquezas forças que afastam laivos de uma crescente ausência de sentido. Sabine Azema, ex-companheira de Resnais, e Michel Vuillermoz colocam os personagens de Kathryn e Jack no pódio de um filme que reclama a atenção do espetador de forma natural e não obsessiva, enquanto os casais falam dos seus descontentamentos, frustrações e crises cuja cura, culpa e redenção assume, a espaços, a figura de George Riley.
No fundo, Resnais reclama na tela por resquícios de uma morna humanidade ainda que refutando alguma audácia por parte de personagens que habitam um presente assente entre um pessimismo fruto de um passado longínquo e um otimismo em relação a um futuro indefinido. A nós, enquanto testemunhas, resta-nos percorrer cenários que misturam imaginação, vertigem, episódios surreais e um sentimento de celebração da vida ainda que assombrada pela presença da morte.
In Rua de Baixo
Quando a comunidade cinéfila mundial ainda chora a morte de Alain Resnais, um dos mais emblemáticos mestres do cinema europeu, é-nos dada a oportunidade de ver “Amar, Beber e Cantar”, o último suspiro criativo do realizador de alguns dos maiores momentos da Sétima Arte como o foram “Hiroshima, Meu Amor”, “Muriel”, “O Ano Passado em Marienbad” ou “Smoking / No Smoking”.
Vencedor dos Prémio FIPRESCI e Alfred Bauer na mais recente edição do Festival de Berlim, “Amar, Beber e Cantar” simboliza o regresso de Resnais ao universo teatral, cerca de dois anos depois de “Vous n’avez Encore Rien Vu”, um filme cujos protagonistas eram atores em pleno ensaio de uma peça. Ainda que explorem um mesmo universo, as referidas películas distam entre si no seu conteúdo pois enquanto em “Vous n’avez Encore Rien Vu” o espetador assistia a um desfile globalmente profissional, “Amar, Beber e Cantar” eleva o amadorismo ao palco principal.
Livre adaptação cinematográfica da peça “Life of Riley” de Alan Ayckbourn, “Amar, Beber e Cantar”, é um filme que mistura drama com um apurado sentido de humor e retrata a relação de três casais cujo elo aglutinador é George Riley, um personagem omnipresente e omnipotente que nunca aparece em cena.
No centro da ação estão Colin (Hippolyte Girardot) e Kathryn (Sabine Azema), Tamara (Caroline Silhol) e Jack (Michel Vuillermoz) e ainda Monica (Sandrine Kiberlain) e Simeon (Andre Dussolier).
Os primeiros a entrar em cena são Colin e Kathryn, ambos convidados a integrar a peça dirigida por Peggy Parker, apesar de Kathryn acusar o seu marido de falta de empenho na atuação. No meio de um ensaio privado, Colin recebe uma chamada que vai mudar a vida do seu círculo de amigos. O diagnóstico dos exames de George Riley revelam que o mesmo está a braços com um cancro em fase terminal e tem apenas seis meses de vida.
Ainda que Colin peça segredo a Kathryn, a veia alcoviteira da mulher leva-a a espalhar a triste notícia de imediato. Tamara, amiga do casal e mulher de Jack, melhor amigo de Riley, é a primeira a saber a novidade. O desespero e sentido de injustiça apodera-se de todos mas depois de Jack abandonar a peça, surge a ideia de convidar Riley para o seu papel numa tentativa de dar algum alento aos últimos suspiros de vida do enfermo.
De uma forma ou de outra, todos querem passar o pouco tempo que resta com Riley e até Monica, ex-mulher de George, é convencida a voltar ao contacto do ex-companheiro numa tentativa de alegrar os seus derradeiros momentos apesar de ainda sentir-se bastante magoada. Quem não gosta da ideia é Simeon, atual amante de Monica, mas rende-se às evidências.
É notória a estreita ligação afetiva que todas as mulheres do grupo sentem em relação a George Riley e tal, acreditem, extravasa a simples compaixão. Resnais consegue contextualizar um enredo labiríntico servindo-se de um surrealismo aplicado a uma estrutura narrativa que serve-se de vários cenários artificiais e visualmente fruto de um devaneio onírico e teatral inspirado nas cortinas de um vulgar palco.
Em todas as cenas, as paisagens são pintadas e minimalistas, os sons ambientes são reais e os grandes planos dos atores remetem o espetador para momentos que nos fazem lembrar as obras arte pop de Roy Lichtenstein, quando o fundo se resume a centenas de linhas negras traçadas sobre um fundo branco. No lado oposto deste universo irreal estão as personagens de carne e osso assim como as imagens do countryside inglês que servem de estrada, literal, entre as habitações dos três casais ainda que essas também sejam vítimas de uma metamorfose entre realidade e um quadro pictórico. Para unir estes opostos artísticos está a música de Mark Snow que faz a ponte entre o burlesco e o bucólico.
Através de um jogo de diálogos que cruzam sentimentos, estados de espírito e almas diferentes, Resnais orquestra uma sucessão de acontecimentos cuja graça faz o espectador seguir meticulosamente uma tela que vai alternando entre situações mais expansivas e alguns grandes planos.
Apesar disso nunca se perde a formalidade dos personagens que são um típico exemplo da arte de Ayckbourn, cujo perfil situa-se na meia-idade entre tiques de classe-média e um extravasar burguês, nomeadamente nas pessoas de Jack e Tamara. Enquanto isso, a câmara de Resnais mostra uma miríade de sentimentos, desapontamentos, arrependimentos e quase-acontecimentos em relação aos três casais.
Nas entrelinhas ficamos também a saber que Jack e Tamara têm uma filha adolescente (Tilly) que serve de desculpa para não aflorar os verdadeiros problemas que existem entre o casal; como Kathryn e Colin enfrentem o tédio de uma relação também desgastada; e como Monica e Simeon tardam em alinhar agulhas afetivas sem esquecer fantasmas. E por falar em almas penadas, o episódio das últimas férias em Tenerife é a cereja no topo do bolo e vai fazer o copo transbordar.
Ainda que o todo do filme revela algumas oscilações entre o interessante e menos acutilante, destaque-se o magnifico trabalho dos atores, em especial Vuillermoz que envolve o “seu” Jack num brilhante dramatismo que mostra um homem em constante desafio face ao seu atribulado quotidiano e que tem na eminente morte do seu melhor amigo uma luta grandiosa.
O coloquialismo britânico dos personagens faz crescer o perfil burlesco de um “filme” que junta os universos de Resnais e Ayckbourn de forma eficaz e deliciosamente colorida. Os dias sucedem-se, sem a pretensão de qualquer exatidão e entre a primavera e o outono tudo pode acontecer, algo que contrasta, por exemplo, com a obsessão de tempo por parte de uma personagem como Colin que faz da sincronia entre relógios o seu barómetro existencial.
Sem ser uma obra-prima, “Amar, Beber e Cantar” é um exercício pertinente, bem-disposto e visualmente atrativo. Resnais serve-se da faceta neurótica e algo depressiva dos personagens e faz das suas fraquezas forças que afastam laivos de uma crescente ausência de sentido. Sabine Azema, ex-companheira de Resnais, e Michel Vuillermoz colocam os personagens de Kathryn e Jack no pódio de um filme que reclama a atenção do espetador de forma natural e não obsessiva, enquanto os casais falam dos seus descontentamentos, frustrações e crises cuja cura, culpa e redenção assume, a espaços, a figura de George Riley.
No fundo, Resnais reclama na tela por resquícios de uma morna humanidade ainda que refutando alguma audácia por parte de personagens que habitam um presente assente entre um pessimismo fruto de um passado longínquo e um otimismo em relação a um futuro indefinido. A nós, enquanto testemunhas, resta-nos percorrer cenários que misturam imaginação, vertigem, episódios surreais e um sentimento de celebração da vida ainda que assombrada pela presença da morte.
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terça-feira, 27 de maio de 2014
“Só os Amantes Sobrevivem”
de Jim Jarmursch
Teorização quântica da paixão
Alguns cientistas defendem que o entrelaçamento quântico possibilita que dois ou mais objectos se liguem de forma excecionalmente una e que uma das partes não existe sem a outra, nem que isso represente uma distância de milhões de anos-luz.
É com base nesta reflexão que Jim Jarmusch pensou em Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), o casal trágico-apaixonante do mais recente filme do realizador de “Dead Man” que sustenta de forma magnífica “Só os Amantes Sobrevivem”, uma experiência romântica que se assume como uma metáfora criativa sobre a questão da eternidade do ponto de vista de dois vampiros que sentem a vida eterna de perspetivas diferentes.
Juntos desde sempre Adam e Eve tem uma relação fora do comum. Ele enfrenta uma das suas fases mais depressivas e tem no cenário decrépito e desolador de uma Detroit à beira do colapso a sua morada. Ela, encantadoramente clássica, devora livros sob a tranquilidade exótica de Tânger.
Para ambos, enquanto vampiros, a vida é sinónimo de uma vivência noturna, de óculos escuros e luvas. Ambos cultivaram relações que permitem alimentar a sua sede de sangue sem recorrer ao vulgar assassinato. Também para Adam e Eve, a cultura é forte alicerce. Ele é um músico experiente, ela uma conhecedora de literatura. Ele colecionada guitarras, ela trata os livros como parte da sua alma. Ele venera Jack White e os Dirtbombs, ela é apaixonada pela obra de Cervantes e Kafka. Ele tem em Ian (Anton Yelchin) o seu braço-direito, ela confia a sua sorte a Kit aka Christopher Marlowe (John Hurt). Ambos nutrem uma paixão incondicional pelo outro.
Depois de uma conversa patrocinada pelas novas tecnologias, Eve constata a depressão que envolve Adam. Vitima das loucas políticas dos zombies (leia-se, comuns mortais) Adam confessa a sua desilusão face à humanidade ponderando mesmo o suicídio com uma bala especial. A sua opção pela reclusão é a par de Eve e da música, a sua razão de viver.
Eve, preocupada, decide rumar a Detroit para junto do seu amado. Consigo leva uma “bagagem” repleta de clássicos da literatura assim como um sonho que lhe atormenta os dias. A presença onírica de Ava (Mia Wasikowska), sua irmã, deixa-a preocupada. Mais, também Kit já apreendeu que Ava está a chegar e a sua personalidade impetuosa e imatura vai deixar marcas, de facto.
Estão assim lançados os dados para “Só os Amantes Sobrevivem”, um filme poético, elegante, que simboliza o perfil de Jarmusch pela sensibilidade estética, algo aristocrática e nostálgica, que encerra sobre si mesma uma sensação de solidariedade aqui e ali salpicada por um acutilante sarcasmo sob a forma, por exemplo, de uma crítica ao trabalho de William Shakespear ou ao simples tragar de um gelado de sangue O-negativo.
Realizado sem pressas e com uma narrativa propositadamente lenta – para os vampiros algumas centenas de anos são apenas curtos pedaços de História – “Só os Amantes Sobrevivem” é um hino ao romantismo assim como uma pertinente crítica política e social e um apontar de dedo a dependências que aqui assumem a forma de uma necessidade de sangue.
As muitas referências a nomes da cultura mundial e a maravilhosa banda sonora (o momento com Yasmine Hamdan é sinónimo de uma comovente e extraordinária associação entre sentimentos, música e imagem) tornam a realização de Jarmusch como uma espécie poética onde os planos picados servem de elemento aglutinador de toda a ação.
Em vez de vulgares planos de corte, Jarmusch serve-nos deliciosos momentos sonoros onde as guitarras ao desalinho (sons tão caros os universo do realizador) e os feedbacks delicados dão um toque indie muito interessante e servem de guias face ao cenário quase apocalíptico da (ex-) Motor City.
Ainda que se trate de um filme de vampiros, não se espere de “Só os Amantes Sobrevivem” cenas gore, paixões teenagers ou vulgares rapazes da noite. Estamos no elegante universo de Jim Jarmusrcsh e os caninos apenas crescem de forma subtil e quase ensimesmada. O ambiente é decrépito, sim, e é o rock and roll que mais ordena ainda que envolto de assinaláveis doses de poesia e bom gosto. Ainda assim, lamentavelmente, Adam e Eve vivem na sombra e têm de beber sangue para viver, nem que para tal tenham de o pedir por favor.
In Rua de Baixo
Alguns cientistas defendem que o entrelaçamento quântico possibilita que dois ou mais objectos se liguem de forma excecionalmente una e que uma das partes não existe sem a outra, nem que isso represente uma distância de milhões de anos-luz.
É com base nesta reflexão que Jim Jarmusch pensou em Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), o casal trágico-apaixonante do mais recente filme do realizador de “Dead Man” que sustenta de forma magnífica “Só os Amantes Sobrevivem”, uma experiência romântica que se assume como uma metáfora criativa sobre a questão da eternidade do ponto de vista de dois vampiros que sentem a vida eterna de perspetivas diferentes.
Juntos desde sempre Adam e Eve tem uma relação fora do comum. Ele enfrenta uma das suas fases mais depressivas e tem no cenário decrépito e desolador de uma Detroit à beira do colapso a sua morada. Ela, encantadoramente clássica, devora livros sob a tranquilidade exótica de Tânger.
Para ambos, enquanto vampiros, a vida é sinónimo de uma vivência noturna, de óculos escuros e luvas. Ambos cultivaram relações que permitem alimentar a sua sede de sangue sem recorrer ao vulgar assassinato. Também para Adam e Eve, a cultura é forte alicerce. Ele é um músico experiente, ela uma conhecedora de literatura. Ele colecionada guitarras, ela trata os livros como parte da sua alma. Ele venera Jack White e os Dirtbombs, ela é apaixonada pela obra de Cervantes e Kafka. Ele tem em Ian (Anton Yelchin) o seu braço-direito, ela confia a sua sorte a Kit aka Christopher Marlowe (John Hurt). Ambos nutrem uma paixão incondicional pelo outro.
Depois de uma conversa patrocinada pelas novas tecnologias, Eve constata a depressão que envolve Adam. Vitima das loucas políticas dos zombies (leia-se, comuns mortais) Adam confessa a sua desilusão face à humanidade ponderando mesmo o suicídio com uma bala especial. A sua opção pela reclusão é a par de Eve e da música, a sua razão de viver.
Eve, preocupada, decide rumar a Detroit para junto do seu amado. Consigo leva uma “bagagem” repleta de clássicos da literatura assim como um sonho que lhe atormenta os dias. A presença onírica de Ava (Mia Wasikowska), sua irmã, deixa-a preocupada. Mais, também Kit já apreendeu que Ava está a chegar e a sua personalidade impetuosa e imatura vai deixar marcas, de facto.
Estão assim lançados os dados para “Só os Amantes Sobrevivem”, um filme poético, elegante, que simboliza o perfil de Jarmusch pela sensibilidade estética, algo aristocrática e nostálgica, que encerra sobre si mesma uma sensação de solidariedade aqui e ali salpicada por um acutilante sarcasmo sob a forma, por exemplo, de uma crítica ao trabalho de William Shakespear ou ao simples tragar de um gelado de sangue O-negativo.
Realizado sem pressas e com uma narrativa propositadamente lenta – para os vampiros algumas centenas de anos são apenas curtos pedaços de História – “Só os Amantes Sobrevivem” é um hino ao romantismo assim como uma pertinente crítica política e social e um apontar de dedo a dependências que aqui assumem a forma de uma necessidade de sangue.
As muitas referências a nomes da cultura mundial e a maravilhosa banda sonora (o momento com Yasmine Hamdan é sinónimo de uma comovente e extraordinária associação entre sentimentos, música e imagem) tornam a realização de Jarmusch como uma espécie poética onde os planos picados servem de elemento aglutinador de toda a ação.
Em vez de vulgares planos de corte, Jarmusch serve-nos deliciosos momentos sonoros onde as guitarras ao desalinho (sons tão caros os universo do realizador) e os feedbacks delicados dão um toque indie muito interessante e servem de guias face ao cenário quase apocalíptico da (ex-) Motor City.
Ainda que se trate de um filme de vampiros, não se espere de “Só os Amantes Sobrevivem” cenas gore, paixões teenagers ou vulgares rapazes da noite. Estamos no elegante universo de Jim Jarmusrcsh e os caninos apenas crescem de forma subtil e quase ensimesmada. O ambiente é decrépito, sim, e é o rock and roll que mais ordena ainda que envolto de assinaláveis doses de poesia e bom gosto. Ainda assim, lamentavelmente, Adam e Eve vivem na sombra e têm de beber sangue para viver, nem que para tal tenham de o pedir por favor.
In Rua de Baixo
sexta-feira, 23 de maio de 2014
“Quase Gigolo”
de John Turturro
Paixão e comédia com sabor a pistácio
Woody Allen. Brooklyn, Nova Iorque. John Turturro. Outono. Jazz. Estas são algumas das palavras-chave que ajudam a entender “Quase Gigolo”, a mais recente aventura de John Turturro enquanto realizador, e também ator, que junta no mesmo filme gente ilustre como o já referido realizador de “Annie Hall”, assim como Sharon Stone, Vanessa Paradis e Sofía Vergara.
Mas vamos aos factos. Fioravante (Turturro) e Murray (Allen) são amigos de longa data. O primeiro trabalha na livraria do segundo, negócio à beira da rutura, e faz também um part-time numa florista. Ambos lutam contra dificuldades financeiras graves.
Numa das consultas de Murray com a Drª Parker (Sharon Stone), a sua dermatologista, constata que a belíssima médica tem um sonho: fazer uma ménage à trois na companhia da sua amiga “caliente” Selima (Sofía Vergara). A única coisa que precisam é de um homem que queira entrar na cena.
Murray pensa imediatamente em Fioravante para o cargo que, ainda que de forma hesitante, acaba por aceitar a demanda. Assim, nasce a dupla “Virgil & Bongo”, prostituto e proxeneta, sócios de um negócio lucrativo e onde o prazer é o objetivo.
Altamente convicto da atividade que agora abraça, Murray procura potenciais clientes e de forma inesperada vê em Avigal (Vanessa Paradis) a senhora que se segue a juntar-se ao rol de Fioravante. Mas Avigal é uma pessoa diferente, especial. Viúva de um rabino e mãe de seis filhos vive em uma comunidade avessa a intrusões, fechada sob as fortes grades da religião judaica.
Ainda assim, Murray consegue convencer Avigal a requisitar os serviços do seu sócio e desse encontro nasce uma estranha e emotiva relação. Desconfiados das recentes saídas de Avigal, os responsáveis pela patrulha do bairro – conhecidos como Shomrim –, na pessoa de Dovi (Liev Scheriber), iniciam uma manobra de espionagem de forma a descobrir o destino de Avigal.
Ao conhecer a trama de “Quase Gigolo” surge logo à partida a ideia de “Midnight Cowboy”, um filme da autoria de John Schlesinger que data de 1969 e contava com a participação de John Voigt e Dustin Hofman nos papéis de alguém que quer ganhar dinheiro na troca de favores sexuais e outro que trata de fornecer clientes ao primeiro. Coincidência? Mais do que isso, garante Turturro que afirma ter-se inspirado em personagens como Joe Buck e “Ratso” Rizzo para chegar a Fioravante e Murray.
O resultado é um delicioso filme urbano com o cenário outonal de Nova Iorque a encaixar que nem uma luva nos diálogos neuróticos e bem-dispostos entre os dois personagens principais cujos temas versam sobre a mortalidade, a vida, a solidão, a moralidade, a autoestima.
Com um leque de atores de excelência, Turturro consegue pegar naquilo que os mesmos têm de melhor para oferecer. Vejamos, Allen faz de si mesmo mas de uma forma que não o víamos há muitos filmes: cómico, livre, espontâneo, autêntico. Já Sharon Stone mantém o perfil de bomba sexual herdado de “Atração Fatal” mas em versão madura, enquanto Sofía Vergara destila charme e sensualidade latina. Por fim, Paradis é aos 41 anos a imagem da eterna menina doce, envolta de uma beleza natural e desarmante.
Ver “Quase Gigolo” é passar hora e meia com o sorriso no rosto ainda que a gargalhada não seja para aqui chamada. John Turturro dá ao seu próprio personagem, e camaradas de tela, uma personalidade vincada, uma paixão característica que em cenas como a volta de carrossel entre Avigal e Fioravante explodem na direção de quem está na sala de cinema. Particularmente, Fioravante foge ao estereótipo do galã, do sedutor nato. É um homem comum que tem a particularidade de atrair a atenção de mulheres belas e sensuais e através de um especial sentimento de solidariedade carnal assume-se com um antídoto contra a depressão relacional e uma forma de quebrar a monotonia emocional.
O filme é um puro exercício de combate ao estereótipo e serve-se do elemento-surpresa para garantir essa filosofia. Murray é dos personagens mais acutilantes e possui uma argumentação difícil de combater. Um exemplo disso é quando se refere a Fioravante como: “um homem nojento mas de forma atraente”.
“Quase Gigolo” foi idealizado para uma audiência madura e centra-se na exploração direta e, podemos dizer honesta, de personagens que não conseguem ultrapassar fragilidades embora tenham as mesmas presentes no seu íntimo ainda que tal seja um absurdo. Convenhamos que é preciso uma imaginação fértil para conseguir transformar um velho dono de uma livraria num chulo e o seu recatado colaborador num gigolô, ainda para mais capaz de seduzir deusas como Stone e Vergara.
Com tal, podíamos até afirmar que o argumento perde alguma lucidez entrando num oceano onírico mas a argumentação de Murray consegue levar para longe esse pensamento. Nem mesmo a incerteza relacional de “Papa Mo” (Murray) no seu contexto familiar chega para colocar em cheque a pertinência deste filme.
Sinceramente, não precisamos de saber que tipo de relacionamento existe entre Murray e Othella (Tonya Pinkins) ou quais os laços entre o “casal” e os pequenos membros da família. Aquilo que nos enche a alma são os magníficos diálogos deste filme que tem na sua banda sonora um precioso aliado na própria construção e apresentação da estória. “Quase Gigolo” é, acima de tudo, uma comédia “romântica” que foge a sete pés do entretenimento gratuito servindo-se do seu inato charme para afastas as suas próprias idiossincrasias.
In Rua de Baixo
Woody Allen. Brooklyn, Nova Iorque. John Turturro. Outono. Jazz. Estas são algumas das palavras-chave que ajudam a entender “Quase Gigolo”, a mais recente aventura de John Turturro enquanto realizador, e também ator, que junta no mesmo filme gente ilustre como o já referido realizador de “Annie Hall”, assim como Sharon Stone, Vanessa Paradis e Sofía Vergara.
Mas vamos aos factos. Fioravante (Turturro) e Murray (Allen) são amigos de longa data. O primeiro trabalha na livraria do segundo, negócio à beira da rutura, e faz também um part-time numa florista. Ambos lutam contra dificuldades financeiras graves.
Numa das consultas de Murray com a Drª Parker (Sharon Stone), a sua dermatologista, constata que a belíssima médica tem um sonho: fazer uma ménage à trois na companhia da sua amiga “caliente” Selima (Sofía Vergara). A única coisa que precisam é de um homem que queira entrar na cena.
Murray pensa imediatamente em Fioravante para o cargo que, ainda que de forma hesitante, acaba por aceitar a demanda. Assim, nasce a dupla “Virgil & Bongo”, prostituto e proxeneta, sócios de um negócio lucrativo e onde o prazer é o objetivo.
Altamente convicto da atividade que agora abraça, Murray procura potenciais clientes e de forma inesperada vê em Avigal (Vanessa Paradis) a senhora que se segue a juntar-se ao rol de Fioravante. Mas Avigal é uma pessoa diferente, especial. Viúva de um rabino e mãe de seis filhos vive em uma comunidade avessa a intrusões, fechada sob as fortes grades da religião judaica.
Ainda assim, Murray consegue convencer Avigal a requisitar os serviços do seu sócio e desse encontro nasce uma estranha e emotiva relação. Desconfiados das recentes saídas de Avigal, os responsáveis pela patrulha do bairro – conhecidos como Shomrim –, na pessoa de Dovi (Liev Scheriber), iniciam uma manobra de espionagem de forma a descobrir o destino de Avigal.
Ao conhecer a trama de “Quase Gigolo” surge logo à partida a ideia de “Midnight Cowboy”, um filme da autoria de John Schlesinger que data de 1969 e contava com a participação de John Voigt e Dustin Hofman nos papéis de alguém que quer ganhar dinheiro na troca de favores sexuais e outro que trata de fornecer clientes ao primeiro. Coincidência? Mais do que isso, garante Turturro que afirma ter-se inspirado em personagens como Joe Buck e “Ratso” Rizzo para chegar a Fioravante e Murray.
O resultado é um delicioso filme urbano com o cenário outonal de Nova Iorque a encaixar que nem uma luva nos diálogos neuróticos e bem-dispostos entre os dois personagens principais cujos temas versam sobre a mortalidade, a vida, a solidão, a moralidade, a autoestima.
Com um leque de atores de excelência, Turturro consegue pegar naquilo que os mesmos têm de melhor para oferecer. Vejamos, Allen faz de si mesmo mas de uma forma que não o víamos há muitos filmes: cómico, livre, espontâneo, autêntico. Já Sharon Stone mantém o perfil de bomba sexual herdado de “Atração Fatal” mas em versão madura, enquanto Sofía Vergara destila charme e sensualidade latina. Por fim, Paradis é aos 41 anos a imagem da eterna menina doce, envolta de uma beleza natural e desarmante.
Ver “Quase Gigolo” é passar hora e meia com o sorriso no rosto ainda que a gargalhada não seja para aqui chamada. John Turturro dá ao seu próprio personagem, e camaradas de tela, uma personalidade vincada, uma paixão característica que em cenas como a volta de carrossel entre Avigal e Fioravante explodem na direção de quem está na sala de cinema. Particularmente, Fioravante foge ao estereótipo do galã, do sedutor nato. É um homem comum que tem a particularidade de atrair a atenção de mulheres belas e sensuais e através de um especial sentimento de solidariedade carnal assume-se com um antídoto contra a depressão relacional e uma forma de quebrar a monotonia emocional.
O filme é um puro exercício de combate ao estereótipo e serve-se do elemento-surpresa para garantir essa filosofia. Murray é dos personagens mais acutilantes e possui uma argumentação difícil de combater. Um exemplo disso é quando se refere a Fioravante como: “um homem nojento mas de forma atraente”.
“Quase Gigolo” foi idealizado para uma audiência madura e centra-se na exploração direta e, podemos dizer honesta, de personagens que não conseguem ultrapassar fragilidades embora tenham as mesmas presentes no seu íntimo ainda que tal seja um absurdo. Convenhamos que é preciso uma imaginação fértil para conseguir transformar um velho dono de uma livraria num chulo e o seu recatado colaborador num gigolô, ainda para mais capaz de seduzir deusas como Stone e Vergara.
Com tal, podíamos até afirmar que o argumento perde alguma lucidez entrando num oceano onírico mas a argumentação de Murray consegue levar para longe esse pensamento. Nem mesmo a incerteza relacional de “Papa Mo” (Murray) no seu contexto familiar chega para colocar em cheque a pertinência deste filme.
Sinceramente, não precisamos de saber que tipo de relacionamento existe entre Murray e Othella (Tonya Pinkins) ou quais os laços entre o “casal” e os pequenos membros da família. Aquilo que nos enche a alma são os magníficos diálogos deste filme que tem na sua banda sonora um precioso aliado na própria construção e apresentação da estória. “Quase Gigolo” é, acima de tudo, uma comédia “romântica” que foge a sete pés do entretenimento gratuito servindo-se do seu inato charme para afastas as suas próprias idiossincrasias.
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quarta-feira, 21 de maio de 2014
“Ela Está de Partida”
de Emmanuelle Bercot
Avante com a vida!
Corria o ano de 2001 quando Emmanuelle Bercot encarnou na tela o papel de Marion em “Clément”, acumulando essa interpretação com a função de realizadora. Ainda que tal não fosse a sua primeira experiência de direção (a sua estreia remonta a 1999 com “It All Starts Today”) “Clément” tornou Bercot como uma nova promessa do cinema francês.
Treze anos e cinco filmes depois, a atriz e realizadora oferece-nos “Ela Está de Partida”, um filme que tem como principal protagonista a eternamente bela Catherine Deneuve que assume o papel de Bettie, uma sexagenária proprietária de um restaurante e ex-Miss Bretanha, à beira da falência financeira e emocional.
Filme que integrou a seleção oficial do Festival de Berlim, obteve nomeações para Melhor Atriz e Melhor Ator Revelação nos Prémio César assim como para Melhor Filme no Festival Loius Delluc, “Ela está de Partida” é uma espécie de road-movie no feminino, versão Thelma sem Louise, envolto de uma toada trágico-cómica e repleto de personagens em busca de redenção e de reconciliação familiar e afetiva, ainda que não o admitam.
Bercot pensou “Ela Está de Partida” tendo em conta Bettie e a personagem encarnada por Deneuve consegue ser o centro das atenções – dentro de um elenco que acolhe alguns amadores e não-atores – de uma forma suave e gentil que apenas é possível depois de décadas à frente de uma câmara. E é essa mulher, que a vida deixou marcas profundas no coração, que se encontra numa encruzilhada emocional.
Um dia, Bettie sabe através da sua mãe, que o Homem que ama a abandonou. Desta relação complicada (Bettie é, era, amante do marido da mulher que era amante do seu marido) resultam mais desilusões, frustrações, antigos medos. Ainda que viva confortavelmente em casa de sua mãe, no andar de cima do restaurante das duas, Bettie reabre feridas. Estranhamente, ou não, o seu único consolo são os cigarros, vício que tinha interrompido.
Os laços familiares desta mulher que já foi Miss Bretanha, resumem-se à sua mãe pois a relação com a sua filha é um ato irremediavelmente falhado. A tristeza apodera-se de Bettie que de forma a escapar de um quotidiano que a estrangula, abandona o restaurante a meio de um dia e depois de um “já volto”, inicia a mais decisiva viagem da sua vida.
O início da mesma, a bordo do seu carro, é um dos momentos mais bonitos do filme ao qual não é de todo alheia a banda sonora que faz nesse momento brilhar a música de Rufus Wainwright. Bettie deixa tudo e todos, sem aviso e, metaforicamente, abandona a urbanidade embrenhando-se na bonita paisagem rural de França.
Para trás fica o restaurante, a mãe, o amante, a vida tal como ela era. O futuro é incerto, à base de um cigarro que teima em ser um consolo difícil de ser encontrado e apenas uma chamada telefónica da sua filha Muriel (bem interpretada pela cantora Camille) a leva a pensar numa nova rota. Charly (o excelente Nemo Schiffman), neto de Bettie e filho de Muriel, tem de ser entregue ao avô paterno pois a sua mãe sai em busca de emprego.
Os dados estão assim lançados e Bettie, que entretanto evita a tudo o custo reunir-se com as antigas Miss regionais de França de 1969 para participar na elaboração de um calendário, vê-se assim na companhia de um pequeno “estranho” que é o seu neto. É a partir do momento em que se juntam neto e avó que o filme de Bercot começa a ganhar consistência e um fio condutor pois até ai os minutos vão passando e ao espectador está reservado o papel de alguém que tenta juntar peças de um puzzle algo obtuso que busca, a espaços, fazer a dicotomia entre a juventude e a velhice e o choque geracional “triangular” entre Bettie, a sua mãe e filha.
Para trás ficam minutos que revelam uma personagem sem destino, propensa a encontros fugazes e que tem no ombro desconhecido a melhor forma de exorcizar fantasmas. Nesses momentos, a realizadora “ilude” o espetador com uma câmara que procura algum dinamismo a partir de uma subjetividade propositadamente “tosca” ou com a ajuda de grandes planos (excessivos?) que devassam a intimidade de Bettie ainda que é sempre um deleite olhar para um ecrã completamente preenchido pelo (ainda) doce semblante da “bela de dia”.
Felizmente que a segunda metade do filme consegue dar mais alguma chama a este filme e no final a sensação é de um confortável dever cumprido por parte de Emanuelle Bercot mas ainda assim um pouco tirado a ferros tal como a esperança e a felicidade finalmente conseguida por alguns dos personagens.
In Rua de Baixo
Corria o ano de 2001 quando Emmanuelle Bercot encarnou na tela o papel de Marion em “Clément”, acumulando essa interpretação com a função de realizadora. Ainda que tal não fosse a sua primeira experiência de direção (a sua estreia remonta a 1999 com “It All Starts Today”) “Clément” tornou Bercot como uma nova promessa do cinema francês.
Treze anos e cinco filmes depois, a atriz e realizadora oferece-nos “Ela Está de Partida”, um filme que tem como principal protagonista a eternamente bela Catherine Deneuve que assume o papel de Bettie, uma sexagenária proprietária de um restaurante e ex-Miss Bretanha, à beira da falência financeira e emocional.
Filme que integrou a seleção oficial do Festival de Berlim, obteve nomeações para Melhor Atriz e Melhor Ator Revelação nos Prémio César assim como para Melhor Filme no Festival Loius Delluc, “Ela está de Partida” é uma espécie de road-movie no feminino, versão Thelma sem Louise, envolto de uma toada trágico-cómica e repleto de personagens em busca de redenção e de reconciliação familiar e afetiva, ainda que não o admitam.
Bercot pensou “Ela Está de Partida” tendo em conta Bettie e a personagem encarnada por Deneuve consegue ser o centro das atenções – dentro de um elenco que acolhe alguns amadores e não-atores – de uma forma suave e gentil que apenas é possível depois de décadas à frente de uma câmara. E é essa mulher, que a vida deixou marcas profundas no coração, que se encontra numa encruzilhada emocional.
Um dia, Bettie sabe através da sua mãe, que o Homem que ama a abandonou. Desta relação complicada (Bettie é, era, amante do marido da mulher que era amante do seu marido) resultam mais desilusões, frustrações, antigos medos. Ainda que viva confortavelmente em casa de sua mãe, no andar de cima do restaurante das duas, Bettie reabre feridas. Estranhamente, ou não, o seu único consolo são os cigarros, vício que tinha interrompido.
Os laços familiares desta mulher que já foi Miss Bretanha, resumem-se à sua mãe pois a relação com a sua filha é um ato irremediavelmente falhado. A tristeza apodera-se de Bettie que de forma a escapar de um quotidiano que a estrangula, abandona o restaurante a meio de um dia e depois de um “já volto”, inicia a mais decisiva viagem da sua vida.
O início da mesma, a bordo do seu carro, é um dos momentos mais bonitos do filme ao qual não é de todo alheia a banda sonora que faz nesse momento brilhar a música de Rufus Wainwright. Bettie deixa tudo e todos, sem aviso e, metaforicamente, abandona a urbanidade embrenhando-se na bonita paisagem rural de França.
Para trás fica o restaurante, a mãe, o amante, a vida tal como ela era. O futuro é incerto, à base de um cigarro que teima em ser um consolo difícil de ser encontrado e apenas uma chamada telefónica da sua filha Muriel (bem interpretada pela cantora Camille) a leva a pensar numa nova rota. Charly (o excelente Nemo Schiffman), neto de Bettie e filho de Muriel, tem de ser entregue ao avô paterno pois a sua mãe sai em busca de emprego.
Os dados estão assim lançados e Bettie, que entretanto evita a tudo o custo reunir-se com as antigas Miss regionais de França de 1969 para participar na elaboração de um calendário, vê-se assim na companhia de um pequeno “estranho” que é o seu neto. É a partir do momento em que se juntam neto e avó que o filme de Bercot começa a ganhar consistência e um fio condutor pois até ai os minutos vão passando e ao espectador está reservado o papel de alguém que tenta juntar peças de um puzzle algo obtuso que busca, a espaços, fazer a dicotomia entre a juventude e a velhice e o choque geracional “triangular” entre Bettie, a sua mãe e filha.
Para trás ficam minutos que revelam uma personagem sem destino, propensa a encontros fugazes e que tem no ombro desconhecido a melhor forma de exorcizar fantasmas. Nesses momentos, a realizadora “ilude” o espetador com uma câmara que procura algum dinamismo a partir de uma subjetividade propositadamente “tosca” ou com a ajuda de grandes planos (excessivos?) que devassam a intimidade de Bettie ainda que é sempre um deleite olhar para um ecrã completamente preenchido pelo (ainda) doce semblante da “bela de dia”.
Felizmente que a segunda metade do filme consegue dar mais alguma chama a este filme e no final a sensação é de um confortável dever cumprido por parte de Emanuelle Bercot mas ainda assim um pouco tirado a ferros tal como a esperança e a felicidade finalmente conseguida por alguns dos personagens.
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quarta-feira, 7 de maio de 2014
“Vida Activa”
de Susana Nobre
A existência em suspenso
A revitalização social é uma das tarefas de um Estado que em tempos de assumiu de providência. Nas últimas quatro décadas, que tem no seu início a fronteira política, económica e social que foi desenhada com o 25 de abril de 1974, Portugal modificou o seu perfil.
Depois de alguma insistência lográmos entrar na Comunidade Económica Europeia e o futuro adivinhava-se risonho. Uns diziam que estávamos no “comboio da frente” da Europa, outros entendiam essa metáfora como um adiar de uma eventual perda de soberania e independência financeira face a países europeus de outras valias.
Entretanto, os fundos europeus chegavam para (quase) tudo. O país apostava tudo na sua revitalização, a informática entrava em força mas aquilo que os bites e bytes não conseguiam prever era o descalabro que se assistiria com o decorrer do século XXI. Ousava-se sonhar com novos aeroportos e linhas férreas de alta velocidade. Mais uma vez, o sonho tendia a ser mais rápido que a realidade que seguia em velocidade de um cruzeiro à deriva. A crise chegaria pouco depois. Mais uma vez aos portugueses pedia-se para apertar os cintos.
Numa situação onde a concorrência interpessoal passou a ser determinante no que toca à afirmação profissional e até pessoal, o governo português, através do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), criou em 2001 um programa que viria a ser conhecido como Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC), que tinha por fim fazer crescer o nível de qualificação e empregabilidade de adultos ativos, afirmar a importância da formação contínua e valorizar as aprendizagens adquiridas ao longa da vida.
Mais tarde, os Centros RVCC seriam alvo de restruturação e passariam a designar-se por Centros de Novas Oportunidades. Nesses locais, chegavam candidatos que visavam cursos de formação de adultos. Estavam sujeitos a uma entrevista, realizam testes escritos de forma a serem identificadas as suas “competências” em termos de escolaridade e depois formavam grupos que frequentam uma série de sessões.
Esse novo regresso à “escola” assumia-se sob a forma de várias disciplinas entre as quais se destacava “Histórias de Vida”, um espaço que levava o aluno a realizar um dossier narrativo da sua vida, uma espécie de portefólio que superava em emoção e pertinência qualquer exercício matemático ou redação. No final da ação, os alunos recebiam certificados que numa primeira fase equivaliam ao 9º ano de escolaridade e, a partir de 2007, ao 12º ano.
Com o objetivo de realizar um filme sobre esta temática, Susana Nobre começou em 2006 a frequentar Centros de Novas Oportunidades na Zona da Grande Lisboa, região bastante afetada pelo desemprego. Dessa envolvência surgiu a possibilidade de integrar a equipa do Centro de Novas Oportunidades do Centro de Formação Profissional de Alverca assumindo o papel de profissional de reconhecimento de competências.
A realizadora que na altura contava já com a autoria de filmes como “As nadadoras” e “O Que pode um rosto”, conseguia assim uma forma privilegiada de fazer um filme documental sobre uma complexa realidade. Depois de muitas horas a filmar episódios quotidianos da sua atividade, Susana Nobre chegaria a “Vida Activa”, um extraordinário exercício documental que simboliza a epifania de milhares de vidas que, invariavelmente, tiveram, quase todas, por fim o desemprego por triste sina.
Ao longo de 90 minutos somos transportados para realidades nuas e cruas, sem rede, de pessoas que sentem a vida interrompida depois de dezenas de anos no mercado de trabalho. Muitas delas saíram de casas dos pais com 11, 12 e 13 anos para começar uma nova vida e ganhar o pão que faltava junto dos seus.
Em “Vida Activa” as estrelas, sem as devidas aspas e com a nossa maior vénia, são as pessoas que aceitaram dar a cara, que possibilitaram um processo de certa forma voyeurista e completamente transparente.
Ao longo do documentário, são muitos os sentimentos que nos assolam. Há tristeza, incompreensão, raiva e até quase uma sensação de rendição, mas estas pessoas não deixam de lutar, exultando a capacidade de sacrifício, o orgulho das tarefas que exercem ou exerciam e uma humildade e simpatia comoventes. A tensão está presente nos seus rostos, nas suas mãos, nos seus olhos.
Longe do propósito biográfico, Susana Nobre, construiu um complexo quebra-cabeças documental cuja montagem não tende a seguir um fio condutor, um guião, mas que no seu conjunto tende a ser coerente, verdadeiro, pois, no fundo, estamos perante histórias de vida de gente que integra o povo que quer trabalhar, uma classe que deixou de ser operária mas que não perdeu o orgulho das suas raízes.
Sempre com a devida autorização da pessoa filmada, Susana Nobre mostra entrevistas, momentos das sessões de formação, relatos diversos que atingem a dimensão de um “diário existencial” que tem o auge nos já referidos dossiers elaborados na disciplina “História de Vida”. O arquivo de imagens em “Vida Activa” é outra das formas de contextualização brilhante presentes neste documentário que tem o mérito de tentar entender a crise que hoje assola este país sob as perspetivas de quem é despedido mas também de quem se vê na obrigação de despedir.
Espelho de um país cinzento, “Vida Activa” é um documentário autêntico que não se coíbe de ser duro, direto e cru quando tem de o ser mas que consegue resgatar momentos onde a esperança supera o estado moribundo e depressivo de gente que sofre na pele a ingerência de outros.
Portugal mudou nas últimas décadas. A situação de pleno emprego dificilmente voltará e hoje trabalha-se a prazo, curto. Ter emprego passou a ser um privilégio e o despedimento tornou-se na solução “óbvia”. Alguém à beira da reforma causa “inveja” por ter conseguido um percurso laboral que hoje é quase uma utopia. A emigração cresceu, o desemprego também ainda que se tente mascarar esse facto com as sucessivas chamadas por parte do IEFP aos desempregados inscritos nos Centros de (des)Emprego perante cursos “Vida Ativa”.
É este o país que, por hora, temos e é o seu reflexo que Susana Nobre transmite de forma exemplar em “Vida Activa”, documentário que esteve patente no festival DocLisboa e chega esta semana à sala do Cinema City Alvalade. Porque a melhor ficção cinematográfica é a própria realidade.
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A revitalização social é uma das tarefas de um Estado que em tempos de assumiu de providência. Nas últimas quatro décadas, que tem no seu início a fronteira política, económica e social que foi desenhada com o 25 de abril de 1974, Portugal modificou o seu perfil.
Depois de alguma insistência lográmos entrar na Comunidade Económica Europeia e o futuro adivinhava-se risonho. Uns diziam que estávamos no “comboio da frente” da Europa, outros entendiam essa metáfora como um adiar de uma eventual perda de soberania e independência financeira face a países europeus de outras valias.
Entretanto, os fundos europeus chegavam para (quase) tudo. O país apostava tudo na sua revitalização, a informática entrava em força mas aquilo que os bites e bytes não conseguiam prever era o descalabro que se assistiria com o decorrer do século XXI. Ousava-se sonhar com novos aeroportos e linhas férreas de alta velocidade. Mais uma vez, o sonho tendia a ser mais rápido que a realidade que seguia em velocidade de um cruzeiro à deriva. A crise chegaria pouco depois. Mais uma vez aos portugueses pedia-se para apertar os cintos.
Numa situação onde a concorrência interpessoal passou a ser determinante no que toca à afirmação profissional e até pessoal, o governo português, através do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), criou em 2001 um programa que viria a ser conhecido como Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC), que tinha por fim fazer crescer o nível de qualificação e empregabilidade de adultos ativos, afirmar a importância da formação contínua e valorizar as aprendizagens adquiridas ao longa da vida.
Mais tarde, os Centros RVCC seriam alvo de restruturação e passariam a designar-se por Centros de Novas Oportunidades. Nesses locais, chegavam candidatos que visavam cursos de formação de adultos. Estavam sujeitos a uma entrevista, realizam testes escritos de forma a serem identificadas as suas “competências” em termos de escolaridade e depois formavam grupos que frequentam uma série de sessões.
Esse novo regresso à “escola” assumia-se sob a forma de várias disciplinas entre as quais se destacava “Histórias de Vida”, um espaço que levava o aluno a realizar um dossier narrativo da sua vida, uma espécie de portefólio que superava em emoção e pertinência qualquer exercício matemático ou redação. No final da ação, os alunos recebiam certificados que numa primeira fase equivaliam ao 9º ano de escolaridade e, a partir de 2007, ao 12º ano.
Com o objetivo de realizar um filme sobre esta temática, Susana Nobre começou em 2006 a frequentar Centros de Novas Oportunidades na Zona da Grande Lisboa, região bastante afetada pelo desemprego. Dessa envolvência surgiu a possibilidade de integrar a equipa do Centro de Novas Oportunidades do Centro de Formação Profissional de Alverca assumindo o papel de profissional de reconhecimento de competências.
A realizadora que na altura contava já com a autoria de filmes como “As nadadoras” e “O Que pode um rosto”, conseguia assim uma forma privilegiada de fazer um filme documental sobre uma complexa realidade. Depois de muitas horas a filmar episódios quotidianos da sua atividade, Susana Nobre chegaria a “Vida Activa”, um extraordinário exercício documental que simboliza a epifania de milhares de vidas que, invariavelmente, tiveram, quase todas, por fim o desemprego por triste sina.
Ao longo de 90 minutos somos transportados para realidades nuas e cruas, sem rede, de pessoas que sentem a vida interrompida depois de dezenas de anos no mercado de trabalho. Muitas delas saíram de casas dos pais com 11, 12 e 13 anos para começar uma nova vida e ganhar o pão que faltava junto dos seus.
Em “Vida Activa” as estrelas, sem as devidas aspas e com a nossa maior vénia, são as pessoas que aceitaram dar a cara, que possibilitaram um processo de certa forma voyeurista e completamente transparente.
Ao longo do documentário, são muitos os sentimentos que nos assolam. Há tristeza, incompreensão, raiva e até quase uma sensação de rendição, mas estas pessoas não deixam de lutar, exultando a capacidade de sacrifício, o orgulho das tarefas que exercem ou exerciam e uma humildade e simpatia comoventes. A tensão está presente nos seus rostos, nas suas mãos, nos seus olhos.
Longe do propósito biográfico, Susana Nobre, construiu um complexo quebra-cabeças documental cuja montagem não tende a seguir um fio condutor, um guião, mas que no seu conjunto tende a ser coerente, verdadeiro, pois, no fundo, estamos perante histórias de vida de gente que integra o povo que quer trabalhar, uma classe que deixou de ser operária mas que não perdeu o orgulho das suas raízes.
Sempre com a devida autorização da pessoa filmada, Susana Nobre mostra entrevistas, momentos das sessões de formação, relatos diversos que atingem a dimensão de um “diário existencial” que tem o auge nos já referidos dossiers elaborados na disciplina “História de Vida”. O arquivo de imagens em “Vida Activa” é outra das formas de contextualização brilhante presentes neste documentário que tem o mérito de tentar entender a crise que hoje assola este país sob as perspetivas de quem é despedido mas também de quem se vê na obrigação de despedir.
Espelho de um país cinzento, “Vida Activa” é um documentário autêntico que não se coíbe de ser duro, direto e cru quando tem de o ser mas que consegue resgatar momentos onde a esperança supera o estado moribundo e depressivo de gente que sofre na pele a ingerência de outros.
Portugal mudou nas últimas décadas. A situação de pleno emprego dificilmente voltará e hoje trabalha-se a prazo, curto. Ter emprego passou a ser um privilégio e o despedimento tornou-se na solução “óbvia”. Alguém à beira da reforma causa “inveja” por ter conseguido um percurso laboral que hoje é quase uma utopia. A emigração cresceu, o desemprego também ainda que se tente mascarar esse facto com as sucessivas chamadas por parte do IEFP aos desempregados inscritos nos Centros de (des)Emprego perante cursos “Vida Ativa”.
É este o país que, por hora, temos e é o seu reflexo que Susana Nobre transmite de forma exemplar em “Vida Activa”, documentário que esteve patente no festival DocLisboa e chega esta semana à sala do Cinema City Alvalade. Porque a melhor ficção cinematográfica é a própria realidade.
In Rua de Baixo
quarta-feira, 30 de abril de 2014
“Joe”
de David Gordon Green
Anatomia de uma alma torturada
A vida pode revelar-se como uma estrada de sentido único com algumas bifurcações. São as escolhas, as opções tomadas em determinados momentos, que podem revelar-se certeiras ou dar origem a pequenos redemoinhos anárquicos.
É nessa ténue linha que divide a racionalidade do caos que vivem as personagens de “Joe”, o mais recente filme de David Gordon Green, que traz um Nicolas Cage como há muito que não o víamos, como um personagem inteiro, de corpo de alma, interpretação que lhe valeu – bem como ao restante elenco e realização – excelentes críticas nos Festivais de Veneza e de Toronto.
“Joe” assume-se mesmo como uma aposta ganha para realizador e ator principal e, esperemos, um ponto de viragem em carreiras que começaram em terrenos mais indie mas que, paulatinamente, conduziram Green e Cage para experiências menos conseguida e a roçar a banalidade cinematográfica, salvo raras exceções.
Tendo como base narrativa a adaptação de Gary Hawkins face à obra literária de Larry Brown, “Joe” relata a vida de Joe Ransom, um ex-condenado que aos 48 anos tenta fazer a redenção de uma vida à beira do limite, abraçando a liderança de um grupo de homens cujo trabalho centra-se no envenenamento de árvores que mais tarde serão abatidas por uma empresa madeireira.
A ação situa-se algures no Estado do Texas, terra que está longe da máxima que os Estados Unidos da América tanto proclamam. Aqui, a esperança é pouca e a liberdade é desafiada pela crescente miséria, económica e humana.
Numa das suas visitas à cidade, Joe vê uma família que procura alimentos vasculhando o lixo. Um homem, uma mulher, dois filhos. Ele alcoólico, ela perdida dentro de uma disfuncionalidade latente. Os mais novos sobrevivem como podem. Gary (Tye Sheridan) é um rapaz de 15 anos sem medo do que a vida possa representar e que jurou fidelidade à sua irmã, emudecida pela vida, e mãe. Wade (Gary Poulter), seu pai, é o protótipo de alguém em fim da linha. Violento e constantemente sob o efeito do álcool, tenta retirar o máximo possível do alheio nem que tal signifique violentar (física e psicologicamente) ou roubar a própria família.
Enquanto Joe luta contra os seus fantasmas e enfrenta mais uma dura jornada, Gary surge na sua vida. O jovem procura trabalho, Joe precisa de ajuda. Ainda que nada o pudesse fazer prever é o início de uma fortíssima ligação que vai unir as vidas destas duas pessoas que têm em comum um dilacerante e profundo estado de solidão e em constante rota de colisão.
E é mesmo a solidão que David Green mais trabalha em “Joe”. A câmara filma pessoas simples, de forma competente, e oscila tal como a vida dos personagens, umas vezes mais agitadas outras completamente ensimesmadas. A raiva com que Gary e camaradas de luta batem nas árvores, por forma a envenenar a sua seiva, é sinónimo dos murros que a vida pode presentear as almas mais incautas.
Fora do âmbito metafórico, Green filma a violência de forma gratuita, seca, pungente, pois os seus personagens assim o necessitam. A brutalidade é para estes homens uma forma legitima de atingir um fim. A dor torna-os mais fortes, a cada dia. A vida é um caos mais eles têm de a superar, vencer.
Por sua vez, a disfuncionalidade familiar não está apenas presente debaixo do teto de Gary. Também Joe não assume qualquer relação “palpável”, para além das constantes visitas ao bordel local, e remete toda a sua paixão para a sua cadela de estimação, mas tal não quer dizer que Joe não tenha amor para dar.
A sua bondade, e dignidade, leva-o a acolher em sua casa, Connie (Adriene Mishler), uma jovem que tenta refúgio depois de ser molestada pelo amante da sua mãe e que deseja ser a companheira de Joe nem que seja enquanto este finge que dorme. Como que pratos de uma desequilibrada balança afetiva, Gary e Connie completam um triângulo que tem em Joe a figura central. Green filma os laços emocionais deste trio como uma corrente que prende a alma num local profundo onde a luz (esperança) tarda em aparecer.
Para além dos seus fantasmas interiores, Joe e Gary têm de lutar contra a maldade e mesquinhez alheia. Se Gary tem na figura do pai a sua própria ideia de diabolização, para Joe a instabilidade assume a figura de Willie (Ronnie Gene Blevins) um vingativo “camarada” de bar que está sedento de vingança face à humilhação que Joe o sujeitou numa luta à base de muito álcool.
Tanto Wade como Willie são personagens cujo código genético tem como base a miserabilidade, uma soberba cobarde em desafiar o mais fraco sentindo-se, apenas e só dessa forma, respeitado e “humano”. Não é de todo inocente que David Green construa uma doentia relação entre Wade e Willie de forma a adensar uma existência movida a ódio.
A narrativa trágica deste poderoso filme revela-nos momentos de uma cumplicidade a toda à prova e muito do seu sucesso está na relação entre Gary e Joe, assim como no realismo de personagens como Wade, interpretado por um não-ator pois Gary Poulter não era mais nem menos que um sem-abrigo achado por Green numa rua dos Estados Unidos. Lamentavelmente, o regresso de Poulter à mendicidade levaria à sua morte, meses depois de terminadas as filmagens.
Ainda que camuflada, existe uma mensagem de esperança em “Joe”. O forte sentimento que une Gary e Joe, principalmente nas cenas em que os personagens procuram a cadela (de seu nome “Cão”) ou que Joe oferece a velha carrinha ao seu protegido, um prémio decrépito que pode funcionar como o maior dos troféus.
Na busca de tentar perceber como somos, realmente, a existência pode, de forma mais ou menos inesperada, mostrar-nos um reflexo de alguém que nunca pensámos ser. “Joe” funciona também como um exercício espelhado, como um percurso sem princípio, meio ou fim. Se, em alguns casos, condenar uma árvore à sua morte pode ser encarado como um início, uma segunda oportunidade, o mesmo pode suceder quando se ajuda outra a crescer.
“Joe” não é um filme fácil, mas David Green, Nicolas Cage e Tye Sheridan formam uma divina trindade dentro de um universo desesperançado. Longe de procurar uma ideia de futuro, “Joe” é, acima de tudo, uma ode ao presente, cru, nu e sem rede.
In Rua de Baixo
A vida pode revelar-se como uma estrada de sentido único com algumas bifurcações. São as escolhas, as opções tomadas em determinados momentos, que podem revelar-se certeiras ou dar origem a pequenos redemoinhos anárquicos.
É nessa ténue linha que divide a racionalidade do caos que vivem as personagens de “Joe”, o mais recente filme de David Gordon Green, que traz um Nicolas Cage como há muito que não o víamos, como um personagem inteiro, de corpo de alma, interpretação que lhe valeu – bem como ao restante elenco e realização – excelentes críticas nos Festivais de Veneza e de Toronto.
“Joe” assume-se mesmo como uma aposta ganha para realizador e ator principal e, esperemos, um ponto de viragem em carreiras que começaram em terrenos mais indie mas que, paulatinamente, conduziram Green e Cage para experiências menos conseguida e a roçar a banalidade cinematográfica, salvo raras exceções.
Tendo como base narrativa a adaptação de Gary Hawkins face à obra literária de Larry Brown, “Joe” relata a vida de Joe Ransom, um ex-condenado que aos 48 anos tenta fazer a redenção de uma vida à beira do limite, abraçando a liderança de um grupo de homens cujo trabalho centra-se no envenenamento de árvores que mais tarde serão abatidas por uma empresa madeireira.
A ação situa-se algures no Estado do Texas, terra que está longe da máxima que os Estados Unidos da América tanto proclamam. Aqui, a esperança é pouca e a liberdade é desafiada pela crescente miséria, económica e humana.
Numa das suas visitas à cidade, Joe vê uma família que procura alimentos vasculhando o lixo. Um homem, uma mulher, dois filhos. Ele alcoólico, ela perdida dentro de uma disfuncionalidade latente. Os mais novos sobrevivem como podem. Gary (Tye Sheridan) é um rapaz de 15 anos sem medo do que a vida possa representar e que jurou fidelidade à sua irmã, emudecida pela vida, e mãe. Wade (Gary Poulter), seu pai, é o protótipo de alguém em fim da linha. Violento e constantemente sob o efeito do álcool, tenta retirar o máximo possível do alheio nem que tal signifique violentar (física e psicologicamente) ou roubar a própria família.
Enquanto Joe luta contra os seus fantasmas e enfrenta mais uma dura jornada, Gary surge na sua vida. O jovem procura trabalho, Joe precisa de ajuda. Ainda que nada o pudesse fazer prever é o início de uma fortíssima ligação que vai unir as vidas destas duas pessoas que têm em comum um dilacerante e profundo estado de solidão e em constante rota de colisão.
E é mesmo a solidão que David Green mais trabalha em “Joe”. A câmara filma pessoas simples, de forma competente, e oscila tal como a vida dos personagens, umas vezes mais agitadas outras completamente ensimesmadas. A raiva com que Gary e camaradas de luta batem nas árvores, por forma a envenenar a sua seiva, é sinónimo dos murros que a vida pode presentear as almas mais incautas.
Fora do âmbito metafórico, Green filma a violência de forma gratuita, seca, pungente, pois os seus personagens assim o necessitam. A brutalidade é para estes homens uma forma legitima de atingir um fim. A dor torna-os mais fortes, a cada dia. A vida é um caos mais eles têm de a superar, vencer.
Por sua vez, a disfuncionalidade familiar não está apenas presente debaixo do teto de Gary. Também Joe não assume qualquer relação “palpável”, para além das constantes visitas ao bordel local, e remete toda a sua paixão para a sua cadela de estimação, mas tal não quer dizer que Joe não tenha amor para dar.
A sua bondade, e dignidade, leva-o a acolher em sua casa, Connie (Adriene Mishler), uma jovem que tenta refúgio depois de ser molestada pelo amante da sua mãe e que deseja ser a companheira de Joe nem que seja enquanto este finge que dorme. Como que pratos de uma desequilibrada balança afetiva, Gary e Connie completam um triângulo que tem em Joe a figura central. Green filma os laços emocionais deste trio como uma corrente que prende a alma num local profundo onde a luz (esperança) tarda em aparecer.
Para além dos seus fantasmas interiores, Joe e Gary têm de lutar contra a maldade e mesquinhez alheia. Se Gary tem na figura do pai a sua própria ideia de diabolização, para Joe a instabilidade assume a figura de Willie (Ronnie Gene Blevins) um vingativo “camarada” de bar que está sedento de vingança face à humilhação que Joe o sujeitou numa luta à base de muito álcool.
Tanto Wade como Willie são personagens cujo código genético tem como base a miserabilidade, uma soberba cobarde em desafiar o mais fraco sentindo-se, apenas e só dessa forma, respeitado e “humano”. Não é de todo inocente que David Green construa uma doentia relação entre Wade e Willie de forma a adensar uma existência movida a ódio.
A narrativa trágica deste poderoso filme revela-nos momentos de uma cumplicidade a toda à prova e muito do seu sucesso está na relação entre Gary e Joe, assim como no realismo de personagens como Wade, interpretado por um não-ator pois Gary Poulter não era mais nem menos que um sem-abrigo achado por Green numa rua dos Estados Unidos. Lamentavelmente, o regresso de Poulter à mendicidade levaria à sua morte, meses depois de terminadas as filmagens.
Ainda que camuflada, existe uma mensagem de esperança em “Joe”. O forte sentimento que une Gary e Joe, principalmente nas cenas em que os personagens procuram a cadela (de seu nome “Cão”) ou que Joe oferece a velha carrinha ao seu protegido, um prémio decrépito que pode funcionar como o maior dos troféus.
Na busca de tentar perceber como somos, realmente, a existência pode, de forma mais ou menos inesperada, mostrar-nos um reflexo de alguém que nunca pensámos ser. “Joe” funciona também como um exercício espelhado, como um percurso sem princípio, meio ou fim. Se, em alguns casos, condenar uma árvore à sua morte pode ser encarado como um início, uma segunda oportunidade, o mesmo pode suceder quando se ajuda outra a crescer.
“Joe” não é um filme fácil, mas David Green, Nicolas Cage e Tye Sheridan formam uma divina trindade dentro de um universo desesperançado. Longe de procurar uma ideia de futuro, “Joe” é, acima de tudo, uma ode ao presente, cru, nu e sem rede.
In Rua de Baixo
quinta-feira, 24 de abril de 2014
“A Lancheira”
de Ritesh Batra
A deliciosa degustação da esperança
Rapidamente o silêncio e o negrume da sala dão lugar ao agitado quotidiano da linha férrea de Bombaim, Índia. Os comboios sucedem-se, as vidas cruzam-se através das múltiplas linhas do meio de transporte mais utilizado no país. A confusão quotidiana marca a vida de milhões de indianos que saem diariamente de casa para o trabalho. A vida não para. A chuva adensa a azáfama.
Ila Vaid (Nimrat Kaur), dona de casa esmerada, prepara a filha para a escola. A rotina é constante. Num outro lugar da cidade, Saajan Fernandes (Irrfan Khan), um funcionário do departamento de reclamações de uma seguradora, sai em direção do trabalho. Ela, uma jovem casada, mãe. Ele, viúvo, à beira da reforma. O que os une? Nada, até ao dia em que um dabbawala (funcionário do eficaz sistema de entrega de lancheiras, reconhecido internacionalmente, inclusive pela família real inglesa) se engana e entrega a lancheira enviada por Ila ao ser marido mas cujo destino será a secretária de Saajan.
É desta forma que o “novato” Ritish Batra preenche os primeiros minutos de “A Lancheira”, um – bem a propósito – delicioso filme melancólico, que lhe valeu honras de estreia na Semana da Crítica da última edição do Festival de Cannes assim como a presença no Festival Internacional de Toronto de 2013.
Mais sob o espetro de Hollywood do que de acordo com a filosofia de Bollywood, “A Lancheira” é um exercício cinematográfico que recorda a formula de filmes como “Breve Encontro” de David Lean ou “A Loja da Esquina” de Ernst Lubitsch (ambos da década de 1940) e que são uma súmula de inocência e esperança.
A Bombaim de Batra é dinâmica, moderna, ainda que revele ainda evidentes traços naturalistas que a civilização indiana cultivou ao longo de séculos, assumindo-se como cenário ideal para um filme que tem um conceito de “comédia” fundido com o género melodramático onde o sentimentalismo não extravasa o bom senso.
Ainda que estejamos perante uma Índia versão 2.0, Batra diaboliza a comunicação da era moderna e opta por apostar no crescendo emocional entre Ila e Saajan através dos tradicionais papel e caneta, em forma de bilhetinhos trocados dentro da lancheira. Ao telemóvel fica associada a ideia de traição, de desprezo, e tal está amplamente explicito através do personagem de Rajiv, marido de Ila. Encaradas de forma romântica são também as entregas das lancheiras que começam por ser recolhidas de bicicleta, junto dos domicílios.
Em “A Lancheira”, a criação dos personagens principais foi feita meticulosamente e o seu quotidiano rejeita liminarmente os favores da tecnologia. Se Ila tenta prender a atenção do marido através de deliciosas refeições, feitas num velho e simples fogão, os dias de Saajan são envoltos em burocracias que rejeitam a presença informática. Simples como a amizade e o amor, a vida dispensa os favores da modernidade.
Aquilo que também preenche as vidas de Ila e Saajan, e lhes confere uma aproximação pessoal, é a frustração fomentada por uma sociedade ensimesmada, fechada sobre si mesma e que desconfia do que não conhece. Essa profunda descrença leva a acreditar que um país como o Butão seja o exemplo máximo da felicidade.
A solidão ganha o poder de conseguir apaixonar, platonicamente, duas pessoas que não se conhecem, que apenas trocam confidências que ganham consistência devido à reconfortante sensação do anonimato.
A realização simples, mas muito bem pensada, vai fazendo um intrincado jogo metafórico que permite adensar a união entre Ila e Saajan, que encontram pontes de apoio em duas personagens que os acompanham a partir de diferentes fases da película. No caso de Ila, é a voz da tia – sua vizinha de cima – e cuja comunicação é realizada com a ajuda de um cesto que sobe e desce pelas janelas ao sabor das necessidades de ambas, sendo que para Saajan se personifica em Shaikh (Nawazuddin Siddiqui), o seu pertenço substituto na empresa depois de se reformar.
Sem grandes alaridos e envoltos de uma assinalável sobriedade, os personagens de “A Lancheira” apenas recebem dos seus atores o necessário para ganharem consistência. Batra evitou exageros e a sua aposta revela-se acertada. Irrfan Khan, que vimos em “A Vida de Pi”, refugia-se num mutismo que é superado pela sua expressividade facial, nomeadamente quando lê as cartas de Ila. Khan, não necessita de palavras pois o seu semblante revela emoção, presença. Já Nimrat Kaur, mais conhecida pelo seu trabalho em palco, consegue dar, brilhantemente, vida a Ila através de um desempenho mais palpável, discursivo. Juntos, Khan e Kaur, forma uma dupla perfeita em “A Lancheira”.
No fundo, a estreia de Ritesh Batra no mundo do cinema vai para além de um vulgar filme romântico made in India. Em “A Lancheira” é feita a exploração das relações humanas que em muito se modificaram com as novas tecnologias. Longe de um espírito mais “fútil” de filmes como “Você tem uma Mensagem”, nesta obra de Batra explora-se, ainda que de forma subtil, a perspetivação da comunicação entre seres humanos sem a presença de telemóveis ou correios eletrónicos.
Através de um equilibrado balanço emocional, “A Lancheira” encanta o espetador com o recurso a um bom trabalho dos atores assim como a um conjunto de maravilhosos pormenores que vão prendendo, metaforicamente ou não, a atenção ao longo de cerca de 100 minutos. Batra consegue a proeza de conseguir partilhar emoções e uma história que sem a devida contextualização tende a cair no esquecimento. Falamos, claro está, das relações humanas e da sensação do inesperado como é a vida. Pois tal como Shaikh afirma: “por vezes o comboio errado deixa-nos na estação certa”.
In Rua de Baixo
Rapidamente o silêncio e o negrume da sala dão lugar ao agitado quotidiano da linha férrea de Bombaim, Índia. Os comboios sucedem-se, as vidas cruzam-se através das múltiplas linhas do meio de transporte mais utilizado no país. A confusão quotidiana marca a vida de milhões de indianos que saem diariamente de casa para o trabalho. A vida não para. A chuva adensa a azáfama.
Ila Vaid (Nimrat Kaur), dona de casa esmerada, prepara a filha para a escola. A rotina é constante. Num outro lugar da cidade, Saajan Fernandes (Irrfan Khan), um funcionário do departamento de reclamações de uma seguradora, sai em direção do trabalho. Ela, uma jovem casada, mãe. Ele, viúvo, à beira da reforma. O que os une? Nada, até ao dia em que um dabbawala (funcionário do eficaz sistema de entrega de lancheiras, reconhecido internacionalmente, inclusive pela família real inglesa) se engana e entrega a lancheira enviada por Ila ao ser marido mas cujo destino será a secretária de Saajan.
É desta forma que o “novato” Ritish Batra preenche os primeiros minutos de “A Lancheira”, um – bem a propósito – delicioso filme melancólico, que lhe valeu honras de estreia na Semana da Crítica da última edição do Festival de Cannes assim como a presença no Festival Internacional de Toronto de 2013.
Mais sob o espetro de Hollywood do que de acordo com a filosofia de Bollywood, “A Lancheira” é um exercício cinematográfico que recorda a formula de filmes como “Breve Encontro” de David Lean ou “A Loja da Esquina” de Ernst Lubitsch (ambos da década de 1940) e que são uma súmula de inocência e esperança.
A Bombaim de Batra é dinâmica, moderna, ainda que revele ainda evidentes traços naturalistas que a civilização indiana cultivou ao longo de séculos, assumindo-se como cenário ideal para um filme que tem um conceito de “comédia” fundido com o género melodramático onde o sentimentalismo não extravasa o bom senso.
Ainda que estejamos perante uma Índia versão 2.0, Batra diaboliza a comunicação da era moderna e opta por apostar no crescendo emocional entre Ila e Saajan através dos tradicionais papel e caneta, em forma de bilhetinhos trocados dentro da lancheira. Ao telemóvel fica associada a ideia de traição, de desprezo, e tal está amplamente explicito através do personagem de Rajiv, marido de Ila. Encaradas de forma romântica são também as entregas das lancheiras que começam por ser recolhidas de bicicleta, junto dos domicílios.
Em “A Lancheira”, a criação dos personagens principais foi feita meticulosamente e o seu quotidiano rejeita liminarmente os favores da tecnologia. Se Ila tenta prender a atenção do marido através de deliciosas refeições, feitas num velho e simples fogão, os dias de Saajan são envoltos em burocracias que rejeitam a presença informática. Simples como a amizade e o amor, a vida dispensa os favores da modernidade.
Aquilo que também preenche as vidas de Ila e Saajan, e lhes confere uma aproximação pessoal, é a frustração fomentada por uma sociedade ensimesmada, fechada sobre si mesma e que desconfia do que não conhece. Essa profunda descrença leva a acreditar que um país como o Butão seja o exemplo máximo da felicidade.
A solidão ganha o poder de conseguir apaixonar, platonicamente, duas pessoas que não se conhecem, que apenas trocam confidências que ganham consistência devido à reconfortante sensação do anonimato.
A realização simples, mas muito bem pensada, vai fazendo um intrincado jogo metafórico que permite adensar a união entre Ila e Saajan, que encontram pontes de apoio em duas personagens que os acompanham a partir de diferentes fases da película. No caso de Ila, é a voz da tia – sua vizinha de cima – e cuja comunicação é realizada com a ajuda de um cesto que sobe e desce pelas janelas ao sabor das necessidades de ambas, sendo que para Saajan se personifica em Shaikh (Nawazuddin Siddiqui), o seu pertenço substituto na empresa depois de se reformar.
Sem grandes alaridos e envoltos de uma assinalável sobriedade, os personagens de “A Lancheira” apenas recebem dos seus atores o necessário para ganharem consistência. Batra evitou exageros e a sua aposta revela-se acertada. Irrfan Khan, que vimos em “A Vida de Pi”, refugia-se num mutismo que é superado pela sua expressividade facial, nomeadamente quando lê as cartas de Ila. Khan, não necessita de palavras pois o seu semblante revela emoção, presença. Já Nimrat Kaur, mais conhecida pelo seu trabalho em palco, consegue dar, brilhantemente, vida a Ila através de um desempenho mais palpável, discursivo. Juntos, Khan e Kaur, forma uma dupla perfeita em “A Lancheira”.
No fundo, a estreia de Ritesh Batra no mundo do cinema vai para além de um vulgar filme romântico made in India. Em “A Lancheira” é feita a exploração das relações humanas que em muito se modificaram com as novas tecnologias. Longe de um espírito mais “fútil” de filmes como “Você tem uma Mensagem”, nesta obra de Batra explora-se, ainda que de forma subtil, a perspetivação da comunicação entre seres humanos sem a presença de telemóveis ou correios eletrónicos.
Através de um equilibrado balanço emocional, “A Lancheira” encanta o espetador com o recurso a um bom trabalho dos atores assim como a um conjunto de maravilhosos pormenores que vão prendendo, metaforicamente ou não, a atenção ao longo de cerca de 100 minutos. Batra consegue a proeza de conseguir partilhar emoções e uma história que sem a devida contextualização tende a cair no esquecimento. Falamos, claro está, das relações humanas e da sensação do inesperado como é a vida. Pois tal como Shaikh afirma: “por vezes o comboio errado deixa-nos na estação certa”.
In Rua de Baixo
sábado, 14 de dezembro de 2013
“Temporário 12”
de Destin Cretton
Interrupção (in)voluntária da existência
Um dos grandes vencedores da mais recente edição do SXSW Film Festival, tendo também arrebatado os maiores galardões no Los Angeles Film Festival e no Locarno Filme Festival, “Temporário 12”, escrito e realizado por Destin Cretton é, sem dúvida, uma das mais comoventes peças cinematográficas de 2013 e que tem num elenco praticamente desconhecido do grande público a sua grande mais-valia.
Com um perfil assumidamente indie onde a câmara subjetiva de Cretton ousa entrar na mente dos personagens através de muitos e ajustados grandes planos, “Temporário 12” centra a sua narrativa num centro de acolhimento temporário para adolescentes com um comportamento socialmente desviante que escondem dentro das ainda tenras existências segredos, medos e cicatrizes que os impedem de encarar o futuro de forma risonha.
De forma a conseguir uma ponte entre os jovens, a instituição e a vida fora das suas paredes, Grace (Brie Larson) é uma das mais dedicadas monitoras do centro e tem na sua relação apaixonada com o colega Mason (John Gallagher Jr.) um ponto de equilíbrio para a sua vida também ela manchada com alguns dos tormentos que assolam alguns dos adolescentes internados.
Enquanto alguns dos membros da comunidade lutam dentro de si para conseguir ganhar a necessária coragem para o inevitável abandono da instituição, outros estão a chegar. Se, por exemplo, o revoltado Marcus (Keith Stanfield) vê no festejo do seu 18 aniversário uma fronteira entre a desejada liberdade e o medo desse sentimento, a recém-chegada Jayden (Kaitlyn Dever) não esconde a raiva que lhe rói a alma, sensação essa também parceira de vida de Grace que se revê na atitude desesperada da jovem nascendo assim uma poderosa ligação entre ambas.
De alma e corpo entregue às responsabilidades profissionais, Grace não consegue ser tão pragmática na sua vida e relacionamento com Mason como o faz junto dos membros do centro de acolhimento sendo que os fantasmas do passado impedem que presente e futuro sejam formas verbais presentes no seu vocabulário.
Envolto de uma sensibilidade desarmante, “Temporário 12” coloca a nu os fantasmas e o reflexo dos sentimentos recalcados nas mentes perturbadas dos seus personagens que têm nos já referidos grandes planos um espelho da sua perversidade. Ainda assim entre cenas em que unhas castigam a carne e a automutilação se assuma como um poderoso grito de revolta, existe espaço para diálogos onde o humor, a partilha e a vontade de viver consigam resgatar laivos de uma ténue esperança.
Nesse aspeto o personagem encarnado pela excelente Brie Larson é sublime e Grace consegue criar fortes laços e elevados níveis de cumplicidade ao expor as próprias fraquezas conferindo às jovens almas solitárias uma crescente sensação de “conforto”, pertença e amor-próprio. No fundo “Temporário 12” dá a conhecer vidas sufocadas pela omnipresença da dor psicológica que se estende ao patamar físico.
Para além da mestria de Cretton, convém realçar a importância da banda-sonora de “Temporário 12” da autoria de Joel P. West que em toda a sua plenitude tem como propósito e significado algo mais que uma mera transposição entre cenas. Aqui, a música, muitas vezes num registo acústico ou envolto de uma simplicidade semelhante, representa sentimentos e emoções delicadas e que completam o perfil dos personagens. Se noutros filmes as canções possam transmitir ações e pensamentos impercetíveis pela representação dos atores, em “Temporário 12” West completa as pessoas presentes na tela através dos vários acordes e sons.
Repleto de emoções, honesto, apaixonado e arrebatadoramente simples, “Temporário 12” tem, obrigatoriamente, de figurar entre as listas dos melhores objetos cinematográficos de 2013 sob pena de se ostracizar aquilo que melhor traduz a arte de fazer cinema e que é a “simples” partilha de sentimentos puros.
In Rua de Baixo
Um dos grandes vencedores da mais recente edição do SXSW Film Festival, tendo também arrebatado os maiores galardões no Los Angeles Film Festival e no Locarno Filme Festival, “Temporário 12”, escrito e realizado por Destin Cretton é, sem dúvida, uma das mais comoventes peças cinematográficas de 2013 e que tem num elenco praticamente desconhecido do grande público a sua grande mais-valia.
Com um perfil assumidamente indie onde a câmara subjetiva de Cretton ousa entrar na mente dos personagens através de muitos e ajustados grandes planos, “Temporário 12” centra a sua narrativa num centro de acolhimento temporário para adolescentes com um comportamento socialmente desviante que escondem dentro das ainda tenras existências segredos, medos e cicatrizes que os impedem de encarar o futuro de forma risonha.
De forma a conseguir uma ponte entre os jovens, a instituição e a vida fora das suas paredes, Grace (Brie Larson) é uma das mais dedicadas monitoras do centro e tem na sua relação apaixonada com o colega Mason (John Gallagher Jr.) um ponto de equilíbrio para a sua vida também ela manchada com alguns dos tormentos que assolam alguns dos adolescentes internados.
Enquanto alguns dos membros da comunidade lutam dentro de si para conseguir ganhar a necessária coragem para o inevitável abandono da instituição, outros estão a chegar. Se, por exemplo, o revoltado Marcus (Keith Stanfield) vê no festejo do seu 18 aniversário uma fronteira entre a desejada liberdade e o medo desse sentimento, a recém-chegada Jayden (Kaitlyn Dever) não esconde a raiva que lhe rói a alma, sensação essa também parceira de vida de Grace que se revê na atitude desesperada da jovem nascendo assim uma poderosa ligação entre ambas.
De alma e corpo entregue às responsabilidades profissionais, Grace não consegue ser tão pragmática na sua vida e relacionamento com Mason como o faz junto dos membros do centro de acolhimento sendo que os fantasmas do passado impedem que presente e futuro sejam formas verbais presentes no seu vocabulário.
Envolto de uma sensibilidade desarmante, “Temporário 12” coloca a nu os fantasmas e o reflexo dos sentimentos recalcados nas mentes perturbadas dos seus personagens que têm nos já referidos grandes planos um espelho da sua perversidade. Ainda assim entre cenas em que unhas castigam a carne e a automutilação se assuma como um poderoso grito de revolta, existe espaço para diálogos onde o humor, a partilha e a vontade de viver consigam resgatar laivos de uma ténue esperança.
Nesse aspeto o personagem encarnado pela excelente Brie Larson é sublime e Grace consegue criar fortes laços e elevados níveis de cumplicidade ao expor as próprias fraquezas conferindo às jovens almas solitárias uma crescente sensação de “conforto”, pertença e amor-próprio. No fundo “Temporário 12” dá a conhecer vidas sufocadas pela omnipresença da dor psicológica que se estende ao patamar físico.
Para além da mestria de Cretton, convém realçar a importância da banda-sonora de “Temporário 12” da autoria de Joel P. West que em toda a sua plenitude tem como propósito e significado algo mais que uma mera transposição entre cenas. Aqui, a música, muitas vezes num registo acústico ou envolto de uma simplicidade semelhante, representa sentimentos e emoções delicadas e que completam o perfil dos personagens. Se noutros filmes as canções possam transmitir ações e pensamentos impercetíveis pela representação dos atores, em “Temporário 12” West completa as pessoas presentes na tela através dos vários acordes e sons.
Repleto de emoções, honesto, apaixonado e arrebatadoramente simples, “Temporário 12” tem, obrigatoriamente, de figurar entre as listas dos melhores objetos cinematográficos de 2013 sob pena de se ostracizar aquilo que melhor traduz a arte de fazer cinema e que é a “simples” partilha de sentimentos puros.
In Rua de Baixo
terça-feira, 19 de novembro de 2013
“A VIDA DE ADÈLE – CAPÍTULOS 1 E 2”
de Abdellatif Kechiche
Azul, a cor do desejo
Grande vencedor do mais recente Festival de Cannes, onde pela primeira vez os júris premiaram duas atrizes em simultâneo, “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” é um poderoso tour de force que assenta as suas forças e conteúdos nas deslumbrantes atuações das galardoadas Adèle Exarchopolus e Léa Seydoux e faz o realizador Abdellatif Kechiche regressar a temas como o amor e as difíceis dores do crescimento.
Baseado na novela gráfica de Julie Maroh, “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2”, que fez parte do cartaz do Lisbon & Estoril Film Festival 2013, conta a conturbada predestinação de uma adolescente que se sente “atraiçoada” pela sua sexualidade mas que, de início, luta contra o facto de forma a integrar-se numa pequena comunidade proletária e conservadora.
Os primeiros minutos do filme levam o realizador tunisino, que ficou conhecido pela direção de filmes como “Vénus Negra” ou “A Culpa de Voltaire”, a mostrar banais cenas do quotidiano da vida de Adèle enquanto estudante ou no conforto do lar. Os planos aproximados e a oscilação programada da câmara de Kechiche revelam pormenores mas ao mesmo tempo assume-se como um espelho bipolar que isola ou interioriza o personagem.
O contexto “escolar” permite também a exploração dos dramas da vida de adolescente. O flirt induzido por uma certa pressão do núcleo de colegas mais próximos de Adèle leva-a a envolver-se, com Thomas, um estudante local, mas tal fugaz relação apenas vai deixar a jovem mais confusa. Refugiada em si mesma e na procura de construir o complicado puzzle emocional do ato de crescer aceita um convite de Valentin, um amigo homossexual, e ao visitar um bar gay sente que o amor não tem sexo.
As dúvidas, ou certezas, aumentam na mente de Adèle quando vê na rua uma jovem de cabelo pintado de azul. Instintivamente, Adèle sente que dentro de si algo nasceu sente que está possuída por algo maior que ela quando (re)encontra Emma num bar de lésbicas.
Estas são algumas das linhas com que Abdellatif Kechiche faz evoluir a sua nova obra que tem o condão de deixar o espetador envolvido – e por vezes incomodado face aos limites que a câmara impõe – frente ao écran durante cerca de três horas absorvendo um intenso drama que capta a fundo a essência do ser humano e traça um fortíssimo retrato do amor, do sexo e das relações interpessoais.
Entre Adèle, uma jovem pragmática e Emma, uma estudante de Belas-Artes sonhadora, explode um sentimento irracional que explora e tende a derrubar fronteiras emocionais e físicas. Se por um lado Kechiche mostra alguém sem grande experiência de vida que apenas conhece a paixão através dos livros, do outro está uma mulher mais velha, desinibida e consciente. No fundo estamos perante antíteses, mulheres que apenas têm no amor que sentem pela outra a maior das afinidades.
Ao longo de todo o filme, mas principalmente na fase de conhecimento entre as personagens principais, o realizador tunisino serve-se de um inteligente jogo metafórico que traz à tona de forma vincada as diferenças entre Adèle e Emma. As ostras por oposição à bolonhesa, é um desses exemplos que dão origem a uma linha de pensamento que desagua na sexualidade muita exposta deste filme.
Tal como já tinha explorado em “A Esquiva”, Kechiche traz à tona a obra de Marivaux e “A Vida de Marianne” serve para contextualizar, na primeira fase do filme, as ações dos personagens mas face à maravilhosa interpretação da ainda pouco experiente Exarchopoulos pouco mais existe a dizer senão que é um dos mais intensos papéis que assistimos nos últimos tempos.
A exposição que a jovem parisiense de 19 anos está sujeita neste filme confere-lhe uma estonteante presença e não seriam muitas atrizes que conseguiriam aguentar a intensa e explosiva cena de sexo – ou paixão? – que protagoniza com Seydoux e que leva os presentes na sala de cinema a testarem a sua capacidade de resistência e saturação face a tão íntimas imagens. A matemática cinematográfica de Kechiche atinge o seu auge numa sucessão de grandes planos dos corpos das jovens que chega a roçar na exploração do ato do desejo mas que consegue, a esforço mas com distinção diga-se, situar-se nos limites do suportável. Mais que uma cena de sexo explícito, Adèle e Emma amam-se de forma absolutamente verdadeira, quente e apaixonada através de uma orgânica luxuriante.
A forma como que este filme trata a questão da traição e do arrependimento revela um sentimento urgente face às diferentes fases de um relacionamento que pode estar intrinsecamente associado a cenários meramente obsessivos. Uma discussão pode levar a uma rutura e ao espetador reserva-se o papel de rever os minutos passados e o que o futuro ainda pode oferecer. As personagens de “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” crescem, recuam, avançam e implodem. São alvo de uma (re)construção assente em camadas de fragilidade e solidão.
Depois da uma idade de inocência sentimos de fato que o azul é a cor da paixão mas também da desilusão e perda pois a linguagem cinematográfica de “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” é o reconhecimento que o cinema pode ser um reflexo complexo da realidade.
In Rua de Baixo
Baseado na novela gráfica de Julie Maroh, “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2”, que fez parte do cartaz do Lisbon & Estoril Film Festival 2013, conta a conturbada predestinação de uma adolescente que se sente “atraiçoada” pela sua sexualidade mas que, de início, luta contra o facto de forma a integrar-se numa pequena comunidade proletária e conservadora.
Os primeiros minutos do filme levam o realizador tunisino, que ficou conhecido pela direção de filmes como “Vénus Negra” ou “A Culpa de Voltaire”, a mostrar banais cenas do quotidiano da vida de Adèle enquanto estudante ou no conforto do lar. Os planos aproximados e a oscilação programada da câmara de Kechiche revelam pormenores mas ao mesmo tempo assume-se como um espelho bipolar que isola ou interioriza o personagem.
O contexto “escolar” permite também a exploração dos dramas da vida de adolescente. O flirt induzido por uma certa pressão do núcleo de colegas mais próximos de Adèle leva-a a envolver-se, com Thomas, um estudante local, mas tal fugaz relação apenas vai deixar a jovem mais confusa. Refugiada em si mesma e na procura de construir o complicado puzzle emocional do ato de crescer aceita um convite de Valentin, um amigo homossexual, e ao visitar um bar gay sente que o amor não tem sexo.
As dúvidas, ou certezas, aumentam na mente de Adèle quando vê na rua uma jovem de cabelo pintado de azul. Instintivamente, Adèle sente que dentro de si algo nasceu sente que está possuída por algo maior que ela quando (re)encontra Emma num bar de lésbicas.
Estas são algumas das linhas com que Abdellatif Kechiche faz evoluir a sua nova obra que tem o condão de deixar o espetador envolvido – e por vezes incomodado face aos limites que a câmara impõe – frente ao écran durante cerca de três horas absorvendo um intenso drama que capta a fundo a essência do ser humano e traça um fortíssimo retrato do amor, do sexo e das relações interpessoais.
Entre Adèle, uma jovem pragmática e Emma, uma estudante de Belas-Artes sonhadora, explode um sentimento irracional que explora e tende a derrubar fronteiras emocionais e físicas. Se por um lado Kechiche mostra alguém sem grande experiência de vida que apenas conhece a paixão através dos livros, do outro está uma mulher mais velha, desinibida e consciente. No fundo estamos perante antíteses, mulheres que apenas têm no amor que sentem pela outra a maior das afinidades.
Ao longo de todo o filme, mas principalmente na fase de conhecimento entre as personagens principais, o realizador tunisino serve-se de um inteligente jogo metafórico que traz à tona de forma vincada as diferenças entre Adèle e Emma. As ostras por oposição à bolonhesa, é um desses exemplos que dão origem a uma linha de pensamento que desagua na sexualidade muita exposta deste filme.
Tal como já tinha explorado em “A Esquiva”, Kechiche traz à tona a obra de Marivaux e “A Vida de Marianne” serve para contextualizar, na primeira fase do filme, as ações dos personagens mas face à maravilhosa interpretação da ainda pouco experiente Exarchopoulos pouco mais existe a dizer senão que é um dos mais intensos papéis que assistimos nos últimos tempos.
A exposição que a jovem parisiense de 19 anos está sujeita neste filme confere-lhe uma estonteante presença e não seriam muitas atrizes que conseguiriam aguentar a intensa e explosiva cena de sexo – ou paixão? – que protagoniza com Seydoux e que leva os presentes na sala de cinema a testarem a sua capacidade de resistência e saturação face a tão íntimas imagens. A matemática cinematográfica de Kechiche atinge o seu auge numa sucessão de grandes planos dos corpos das jovens que chega a roçar na exploração do ato do desejo mas que consegue, a esforço mas com distinção diga-se, situar-se nos limites do suportável. Mais que uma cena de sexo explícito, Adèle e Emma amam-se de forma absolutamente verdadeira, quente e apaixonada através de uma orgânica luxuriante.
A forma como que este filme trata a questão da traição e do arrependimento revela um sentimento urgente face às diferentes fases de um relacionamento que pode estar intrinsecamente associado a cenários meramente obsessivos. Uma discussão pode levar a uma rutura e ao espetador reserva-se o papel de rever os minutos passados e o que o futuro ainda pode oferecer. As personagens de “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” crescem, recuam, avançam e implodem. São alvo de uma (re)construção assente em camadas de fragilidade e solidão.
Depois da uma idade de inocência sentimos de fato que o azul é a cor da paixão mas também da desilusão e perda pois a linguagem cinematográfica de “A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2” é o reconhecimento que o cinema pode ser um reflexo complexo da realidade.
In Rua de Baixo
sábado, 9 de novembro de 2013
“VÉNUS DE VISON”
de Roman Polanski
E o Senhor o feriu pela mão de uma mulher
Ainda que não seja a primeira vez que o sempre apaixonado e polémico realizador Roman Polanski “transforme” uma peça de teatro em obra cinematográfica – “Carnificina” e “Noite da Vingança” resultaram em exercícios de grande pertinência – “Vénus de Vison”, película que integra o cartaz do Lisbon & Estoril Film Festival, está a gerar grande expectativa entre os amantes da sétima arte.
Com um argumento inspirado no livro de conotações sadomasoquistas do escritor austríaco Leopold Sacher-Masoch, editado em 1870, “Vénus de Vison” surge como um intrincado jogo de espelhos entre dois personagens que ao longo de cerca de hora e meia assumem o espirito alheio através de um delicado e exasperado processo de metamorfose.
Para ocupar o centro da tela, ou devemos dizer do palco, Polanski escolheu Emannuellle Seigner, sua companheira, para o papel de Vanda, a dobrar, e Mathieu Amalric faz de Thomas. Se ela interpreta uma atriz candidata ao lugar de Vanda na peça, ele assume-se como um encenador e escritor de peças de teatro ensimesmado entre a obra de Sacher-Masoch e a sua precoce e traumatizada experiência de vida.
Polanski e David Ives montaram um diálogo vivo, intenso e repleto de um acutilante humor que leva o espetador para dentro de um labirinto emocional que tem como acesso metafórico uma porta de um teatro parisiense vazio.
Fazendo parte da seleção oficial da mais recente edição do Festival de Cannes, “Vénus de Vison” tem como ponto de partida uma audição de Vanda que, trajada a rigor, depois de um autêntico dia aziago, tenta, literalmente, seduzir um apresado Thomas que não encontra o nome da candidata na lista de audições. Pouco paciente, Thomas tem ainda a noiva à sua espera.
À beira da desistência Vanda consegue persuadir Thomas a representar três páginas de texto e…a magia acontece. O argumento sólido de Polanski e Ives faz o espetador entrar de cabeça numa intrincada batalha em que a sabedoria e conhecimento de uns encontra, seduz e tortura a vulnerabilidade alheia sendo que tal atmosfera onírica apenas é interrompida pelo chamamento de Wagner quando o telemóvel de Thomas diz presente.
Severin e Vanda, Thomas e Vanda, homem e mulher, escravo e senhora. Eis algumas das dicotomias presentes em “Vénus de Vison” que com o decorrer dos minutos leva-nos a pensar quem é quem perante a bem montada ilusão. Thomas fascina-se com ambas as Vandas e entrega-se de corpo e alma.
Em termos de representação, Seigner incorpora ambas as Vandas de uma forma completamente brilhante e eficaz. As “encarnações” quebram momentaneamente a ação e num ápice estamos perante uma bipolaridade que se reforça a cada minuto. Indigente, Vanda, a candidata a atriz, questiona o argumento do livro de Mascoch e desfasada da realidade burguesa do século XIX apelida o mesmo de sexista e depravado. Amalric contrapõe tais considerações e apela ao romantismo de Sacher, à paixão das suas palavras e pensamentos, à profundidade emocional de um sentimento tão grande que leva alguém a sentir prazer através do servilismo, da humilhação, da entrega sofrida.
O ambiente entre os dois personagens é fruto de uma grande cumplicidade e alguns pormenores de realização de Polanski agigantam esses momentos. Como exemplo temos algumas sonorizações de ações (in)visíveis entre os atores onde uma assinatura de um contrato, um ramo arrancado de uma árvore ou o mexer de uma chávena dão um toque repleto de fantasia à ação. A juntar a isso, a tímida mas muito assertiva banda sonora de Alexandre Desplat torna tudo mais dramático e o fetiche ganha ainda mais a noção de presença.
Mestre na manobra e criação de situações onde a manipulação claustrofóbica deixa os personagens à beira do abismo, seja ele emocional ou não, Polanski torna “Vénus de Vison” numa bifurcação entre o teatro e o cinema, entre duas artes díspares mas que centram a sua essência na representação, seja essa ação realizada defronte de uma câmara ou de uma audiência atenta e o duelo psicológico entre Vanda e Thomas traz à tona fragilidades que perante um cenário de constante sedução e submissão ganha contornos de batalha épica.
O jogo da vida quebra as várias máscaras dos personagens e o conceito maneirista das diferentes camadas de realidade ou ilusão levam “Vénus de Vison” a desaguar num oceano transformista e perigoso que eleva a recente aventura cinematográfica de Polanski para estádios de pura catarse e beleza interpretativa.
In Rua de Baixo
Ainda que não seja a primeira vez que o sempre apaixonado e polémico realizador Roman Polanski “transforme” uma peça de teatro em obra cinematográfica – “Carnificina” e “Noite da Vingança” resultaram em exercícios de grande pertinência – “Vénus de Vison”, película que integra o cartaz do Lisbon & Estoril Film Festival, está a gerar grande expectativa entre os amantes da sétima arte.
Com um argumento inspirado no livro de conotações sadomasoquistas do escritor austríaco Leopold Sacher-Masoch, editado em 1870, “Vénus de Vison” surge como um intrincado jogo de espelhos entre dois personagens que ao longo de cerca de hora e meia assumem o espirito alheio através de um delicado e exasperado processo de metamorfose.
Para ocupar o centro da tela, ou devemos dizer do palco, Polanski escolheu Emannuellle Seigner, sua companheira, para o papel de Vanda, a dobrar, e Mathieu Amalric faz de Thomas. Se ela interpreta uma atriz candidata ao lugar de Vanda na peça, ele assume-se como um encenador e escritor de peças de teatro ensimesmado entre a obra de Sacher-Masoch e a sua precoce e traumatizada experiência de vida.
Polanski e David Ives montaram um diálogo vivo, intenso e repleto de um acutilante humor que leva o espetador para dentro de um labirinto emocional que tem como acesso metafórico uma porta de um teatro parisiense vazio.
Fazendo parte da seleção oficial da mais recente edição do Festival de Cannes, “Vénus de Vison” tem como ponto de partida uma audição de Vanda que, trajada a rigor, depois de um autêntico dia aziago, tenta, literalmente, seduzir um apresado Thomas que não encontra o nome da candidata na lista de audições. Pouco paciente, Thomas tem ainda a noiva à sua espera.
À beira da desistência Vanda consegue persuadir Thomas a representar três páginas de texto e…a magia acontece. O argumento sólido de Polanski e Ives faz o espetador entrar de cabeça numa intrincada batalha em que a sabedoria e conhecimento de uns encontra, seduz e tortura a vulnerabilidade alheia sendo que tal atmosfera onírica apenas é interrompida pelo chamamento de Wagner quando o telemóvel de Thomas diz presente.
Severin e Vanda, Thomas e Vanda, homem e mulher, escravo e senhora. Eis algumas das dicotomias presentes em “Vénus de Vison” que com o decorrer dos minutos leva-nos a pensar quem é quem perante a bem montada ilusão. Thomas fascina-se com ambas as Vandas e entrega-se de corpo e alma.
Em termos de representação, Seigner incorpora ambas as Vandas de uma forma completamente brilhante e eficaz. As “encarnações” quebram momentaneamente a ação e num ápice estamos perante uma bipolaridade que se reforça a cada minuto. Indigente, Vanda, a candidata a atriz, questiona o argumento do livro de Mascoch e desfasada da realidade burguesa do século XIX apelida o mesmo de sexista e depravado. Amalric contrapõe tais considerações e apela ao romantismo de Sacher, à paixão das suas palavras e pensamentos, à profundidade emocional de um sentimento tão grande que leva alguém a sentir prazer através do servilismo, da humilhação, da entrega sofrida.
O ambiente entre os dois personagens é fruto de uma grande cumplicidade e alguns pormenores de realização de Polanski agigantam esses momentos. Como exemplo temos algumas sonorizações de ações (in)visíveis entre os atores onde uma assinatura de um contrato, um ramo arrancado de uma árvore ou o mexer de uma chávena dão um toque repleto de fantasia à ação. A juntar a isso, a tímida mas muito assertiva banda sonora de Alexandre Desplat torna tudo mais dramático e o fetiche ganha ainda mais a noção de presença.
Mestre na manobra e criação de situações onde a manipulação claustrofóbica deixa os personagens à beira do abismo, seja ele emocional ou não, Polanski torna “Vénus de Vison” numa bifurcação entre o teatro e o cinema, entre duas artes díspares mas que centram a sua essência na representação, seja essa ação realizada defronte de uma câmara ou de uma audiência atenta e o duelo psicológico entre Vanda e Thomas traz à tona fragilidades que perante um cenário de constante sedução e submissão ganha contornos de batalha épica.
O jogo da vida quebra as várias máscaras dos personagens e o conceito maneirista das diferentes camadas de realidade ou ilusão levam “Vénus de Vison” a desaguar num oceano transformista e perigoso que eleva a recente aventura cinematográfica de Polanski para estádios de pura catarse e beleza interpretativa.
In Rua de Baixo
terça-feira, 1 de outubro de 2013
“Metallica - Through the Never”
As marionetas nas mãos dos mestres
Quando os norte-americanos Metallica lançaram “Kill’Em All” em 1983 poucos (ou nenhuns) acreditariam que passadas mais de três décadas o disco de estreia de James Hetfield, Lars Ulrich, Ron McGoveny e Dave Mustaine seria o rastilho para um dos maiores fenómenos musicais da história do universo “rock”.
Ao longo dos mais de trinta anos a banda de “Seek and Destroy” conseguiu ultrapassar todas as barreiras e desafios debelando, com maior ou menor dificuldade, problemas internos, mudanças de músicos e até a morte de um dos seus membros.
Hoje, sem sombra de dúvidas, os Metallica são um dos nomes maiores da música em todo o mundo e conseguiram, com um invejável mérito, levar o seu som a todos quebrando a barreira de ser apenas uma banda de trash-metal como tão orgulhosamente defendiam nos primórdios da sua existência. James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e, mais recentemente, Robert Trujillo arrastam multidões, movem (e fazem) milhões e continuam a fazer excelente música.
Mas para além dos atributos musicais, Metallica é também sinónimo de (competente) entretenimento e “Through the Never”, uma aventura 3D em formato IMAX, surge como uma nova abordagem ao reportório da banda que junta à energia de um concerto uma narrativa surreal que serve de “plano de corte contextual” (ou não) e que tem no ator Dane DeHaan o maior foco de atenção.
Ainda que não sejam estreantes no grande ecrã – em 2004 o documentário “Some Kind of Monster” serviu para a banda exorcisar fantasmas e lutas internas e depois, por exemplo, “S&M” e também “Orgullo, Pasión y Gloria: Tres Noches en la Ciudad De Mexico” serviram como amostra do que a banda fazia ao vivo – “Trough the Never” é uma nova abordagem ao registo concerto e o realizador húngaro Nimród Antal conseguiu aquilo que muitos tentaram em vão pois até hoje nenhum exercício cinematográfico conseguiu reunir a energia rock de um espetáculo ao vivo com a arte de filmar o mesmo de uma forma tão brilhante.
Com o auxílio de mais de duas dezenas de câmaras e tendo como base as atuações da banda em Vancouver e Edmonton realizadas aquando da digressão-maratona “World Magnetic Tour” em 2012, Antal oferece a todos os fãs de Metallica (principalmente a eles) a possibilidade de viver, sentir e, arriscamos, fazer parte, de um mega-show que (quase) preenche todos os sentidos de quem assiste a “Through the Never”.
A película faz parte do cartaz da mais recente edição do Toronto Film Festival e está a gerar muitas expectativas. Nós, que já tivemos o privilégio de ver o filme, garantimos que “Throught the Never” é uma experiência gratificante mas enquanto “objeto” concerto e pouco ou nada mais.
Depois das primeiras imagens do filme remeterem para uma intro de um excitante jogo de consola com uma panorâmica sobre uma urbe noturna repleta de arranha-céus, dentro da sala de espetáculo os quatro Metallica entram em palco ao som do habitual clássico de Ennio Morricone, “The Ecstasy of Gold”. Ao mesmo tempo do concerto surge uma (curta) narrativa paralela (ou intrínseca) que leva o ator Dane DeHaan, aqui um roadie da brutal equipa que acompanha as digressões dos Metallica, a percorrer a cidade em busca de algo que a banda necessita com urgência.
Ao mesmo tempo que Lars, James, Kirk e Robert levam os milhares de fãs à loucura com um concerto memorável, DeHaan envolve-se numa aventura surreal que tem início depois de um acidente de viação vendo-se envolvido num motim urbano transformado em guerra apocalíptica entre a polícia e manifestantes, que tem na personagem de um enigmático e agressivo cavaleiro um dos seus maiores pontos de interesse. Será esta aventura pertinente face ao concerto? Sinceramente, parece-nos que não.
É, pois, a ação de palco que brilha em “Trough the Never”. Ao longo de cerca de hora e meia os Metallica percorrem mais de 30 anos de canções (emblemáticas e icónicas) e com o auxílio de uma arena apetrechada com o que de melhor a tecnologia pode oferecer e transformam esta atuação em algo muito especial.
Com o enérgico Lars Ulrich no centro das atenções, os restantes membros da banda percorrem o gigantesco palco de ponta a ponta e são, também eles, atores. Os microfones e pedaleiras espalhados pelo palco permitem que o púbico seja contemplado com performances de todos os ângulos sentido assim ainda mais a atuação (dedicadíssima e ensaiada até ao ínfimo pormenor) da banda.
E como é de show que falamos, do ar surgem rajadas de tiros e lasers e simula-se execuções em cadeira elétrica, o chão transforma-se num rio de sangue e vê emergirem cruzes sendo também base para a construção de uma estátua que remete para a capa do álbum “Injustce for All”. A pirotecnia assalta amiúde a assistência e no ar respira-se um ambiente repleto de suspense e excitação. E como o “espetáculo não pode parar” estes Metallica versão Hollywood têm ainda tempo para entrar na encenação e tentar salvar a noite depois do caos se instalar na arena.
Mesmo que envolvidos em tanto aparato, a banda tem tempo para oferecer um concerto fantástico, com um som excelente, e faz desfilar clássicos como “Creeping Dead”, “From Whom the Bells Tolls”, “Ride the Lighting”, “The Memory Remains”, “Master of Puppets”, “Battery”, “Enter Sandman” ou “Nothing Else Metters”. É óbvio que o sistema IMAX é um dos grandes responsáveis pelo sucesso desta experiência cinematográfica mas a arte como os Metallica trabalharam a sua música sobrepõem-se a tudo o resto e a “nova” abordagem a algumas das mais antigas composições do grupo resulta na perfeição.
Na parte final deste concerto somos premiados com magníficas versões de dois clássicos. Se em formato “garagem” os primeiros acordes de “Hit the Lights” agitam tudo e todos, a versão mais closy de “Orion” leva a que todos os presentes na sala de cinema não arredem pé pois, acreditem, “Trough the Never” é para se ver mesmo, mesmo até ao fim.
Para além de ser uma nova experiência no que à linguagem cinematográfica diz respeito, este concerto é, dizemos nós, uma forma de agradecimento que os Metallica fazem aos seus fãs de sempre, independentemente da sua idade, mas não nos parece que se possa apelidar “Through the Never” de filme pois quanto muito estamos perante uma versão deluxe dos já referidos “S&M” ou “Orgullo, Pasión y Gloria: Tres Noches en la Ciudad De Mexico”. Felizmente, fica a música e nesse campo os Metallica são sim candidatos a qualquer “óscar musical”.
In Rua de Baixo
Quando os norte-americanos Metallica lançaram “Kill’Em All” em 1983 poucos (ou nenhuns) acreditariam que passadas mais de três décadas o disco de estreia de James Hetfield, Lars Ulrich, Ron McGoveny e Dave Mustaine seria o rastilho para um dos maiores fenómenos musicais da história do universo “rock”.
Ao longo dos mais de trinta anos a banda de “Seek and Destroy” conseguiu ultrapassar todas as barreiras e desafios debelando, com maior ou menor dificuldade, problemas internos, mudanças de músicos e até a morte de um dos seus membros.
Hoje, sem sombra de dúvidas, os Metallica são um dos nomes maiores da música em todo o mundo e conseguiram, com um invejável mérito, levar o seu som a todos quebrando a barreira de ser apenas uma banda de trash-metal como tão orgulhosamente defendiam nos primórdios da sua existência. James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e, mais recentemente, Robert Trujillo arrastam multidões, movem (e fazem) milhões e continuam a fazer excelente música.
Mas para além dos atributos musicais, Metallica é também sinónimo de (competente) entretenimento e “Through the Never”, uma aventura 3D em formato IMAX, surge como uma nova abordagem ao reportório da banda que junta à energia de um concerto uma narrativa surreal que serve de “plano de corte contextual” (ou não) e que tem no ator Dane DeHaan o maior foco de atenção.
Ainda que não sejam estreantes no grande ecrã – em 2004 o documentário “Some Kind of Monster” serviu para a banda exorcisar fantasmas e lutas internas e depois, por exemplo, “S&M” e também “Orgullo, Pasión y Gloria: Tres Noches en la Ciudad De Mexico” serviram como amostra do que a banda fazia ao vivo – “Trough the Never” é uma nova abordagem ao registo concerto e o realizador húngaro Nimród Antal conseguiu aquilo que muitos tentaram em vão pois até hoje nenhum exercício cinematográfico conseguiu reunir a energia rock de um espetáculo ao vivo com a arte de filmar o mesmo de uma forma tão brilhante.
Com o auxílio de mais de duas dezenas de câmaras e tendo como base as atuações da banda em Vancouver e Edmonton realizadas aquando da digressão-maratona “World Magnetic Tour” em 2012, Antal oferece a todos os fãs de Metallica (principalmente a eles) a possibilidade de viver, sentir e, arriscamos, fazer parte, de um mega-show que (quase) preenche todos os sentidos de quem assiste a “Through the Never”.
A película faz parte do cartaz da mais recente edição do Toronto Film Festival e está a gerar muitas expectativas. Nós, que já tivemos o privilégio de ver o filme, garantimos que “Throught the Never” é uma experiência gratificante mas enquanto “objeto” concerto e pouco ou nada mais.
Depois das primeiras imagens do filme remeterem para uma intro de um excitante jogo de consola com uma panorâmica sobre uma urbe noturna repleta de arranha-céus, dentro da sala de espetáculo os quatro Metallica entram em palco ao som do habitual clássico de Ennio Morricone, “The Ecstasy of Gold”. Ao mesmo tempo do concerto surge uma (curta) narrativa paralela (ou intrínseca) que leva o ator Dane DeHaan, aqui um roadie da brutal equipa que acompanha as digressões dos Metallica, a percorrer a cidade em busca de algo que a banda necessita com urgência.
Ao mesmo tempo que Lars, James, Kirk e Robert levam os milhares de fãs à loucura com um concerto memorável, DeHaan envolve-se numa aventura surreal que tem início depois de um acidente de viação vendo-se envolvido num motim urbano transformado em guerra apocalíptica entre a polícia e manifestantes, que tem na personagem de um enigmático e agressivo cavaleiro um dos seus maiores pontos de interesse. Será esta aventura pertinente face ao concerto? Sinceramente, parece-nos que não.
É, pois, a ação de palco que brilha em “Trough the Never”. Ao longo de cerca de hora e meia os Metallica percorrem mais de 30 anos de canções (emblemáticas e icónicas) e com o auxílio de uma arena apetrechada com o que de melhor a tecnologia pode oferecer e transformam esta atuação em algo muito especial.
Com o enérgico Lars Ulrich no centro das atenções, os restantes membros da banda percorrem o gigantesco palco de ponta a ponta e são, também eles, atores. Os microfones e pedaleiras espalhados pelo palco permitem que o púbico seja contemplado com performances de todos os ângulos sentido assim ainda mais a atuação (dedicadíssima e ensaiada até ao ínfimo pormenor) da banda.
E como é de show que falamos, do ar surgem rajadas de tiros e lasers e simula-se execuções em cadeira elétrica, o chão transforma-se num rio de sangue e vê emergirem cruzes sendo também base para a construção de uma estátua que remete para a capa do álbum “Injustce for All”. A pirotecnia assalta amiúde a assistência e no ar respira-se um ambiente repleto de suspense e excitação. E como o “espetáculo não pode parar” estes Metallica versão Hollywood têm ainda tempo para entrar na encenação e tentar salvar a noite depois do caos se instalar na arena.
Mesmo que envolvidos em tanto aparato, a banda tem tempo para oferecer um concerto fantástico, com um som excelente, e faz desfilar clássicos como “Creeping Dead”, “From Whom the Bells Tolls”, “Ride the Lighting”, “The Memory Remains”, “Master of Puppets”, “Battery”, “Enter Sandman” ou “Nothing Else Metters”. É óbvio que o sistema IMAX é um dos grandes responsáveis pelo sucesso desta experiência cinematográfica mas a arte como os Metallica trabalharam a sua música sobrepõem-se a tudo o resto e a “nova” abordagem a algumas das mais antigas composições do grupo resulta na perfeição.
Na parte final deste concerto somos premiados com magníficas versões de dois clássicos. Se em formato “garagem” os primeiros acordes de “Hit the Lights” agitam tudo e todos, a versão mais closy de “Orion” leva a que todos os presentes na sala de cinema não arredem pé pois, acreditem, “Trough the Never” é para se ver mesmo, mesmo até ao fim.
Para além de ser uma nova experiência no que à linguagem cinematográfica diz respeito, este concerto é, dizemos nós, uma forma de agradecimento que os Metallica fazem aos seus fãs de sempre, independentemente da sua idade, mas não nos parece que se possa apelidar “Through the Never” de filme pois quanto muito estamos perante uma versão deluxe dos já referidos “S&M” ou “Orgullo, Pasión y Gloria: Tres Noches en la Ciudad De Mexico”. Felizmente, fica a música e nesse campo os Metallica são sim candidatos a qualquer “óscar musical”.
In Rua de Baixo
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